As relíquias: Como entender? – EB (Parte 2)

Nos séculos subsequentes a
devoção aos mártires ou, de maneira mais geral, aos santos e às suas relíquias
foi tomando incremento em toda a Igreja, sem que se levantasse contestação por
parte de bispos ou autoridades. No séc. III, Tertuliano, famoso escritor, enunciava em poucas palavras a causa mais
remota de tal devoção: “Christus in martyre est. – Cristo está no mártir” (De
pudicitia 22).  Esta frase confirma bem
quanto verificamos atrás: o culto dos heróis cristãos não era tido senão como
uma faceta do culto prestado ao Senhor Jesus.

4.  No início do séc. V fez-se ouvir a primeira
voz contrária ao culto das relíquias: era a de Vigilâncio, da Aquitânia, que
atacava a virgindade e o celibato, a vida monástica, assim como diversos pontos
da sagrada Liturgia.  São Jerônimo (+421) escreveu-lhe uma réplica, que assim se pode resumir:

O adversário se escandalizava
por lhe parecer que os cristãos adoravam os mártires. – Estivesse tranqüilo,
retrucava Jerônimo: os cristãos só adoram a Deus; não esqueceram os exemplos de
Paulo e Barnabé, os quais rejeitaram as honras divinas que os pagãos da Licaônia
lhes queriam tributar (cf. At 14, 14); nem esqueceram a conduta de S. Pedro, o
qual recusou igualmente a adoração que Cornélio tentava prestar-lhe (cf. At
10,26).  Não obstante, julgam poder
tributar veneração (o que não é adoração) a membros humanos santificados pelo
serviço de Deus… Invocando os mártires, os fiéis se inspiram da mais pura
intenção religiosa: quem admite que a oração de um Moisés, de um Estêvão, de um
Paulo, teve valor durante a vida terrestre desses homens de Deus, como não
reconhecerá que ela ainda tem maior valor, agora que estão na glória celeste?

Vigilâncio alegava outrossim
desordens verificadas junto aos túmulos dos mártires nas noites da vigília
sagrada. – Jerônimo, em resposta, fazia-lhe ver que tais inconvenientes eram
acidentais e não bastavam para se condenar a própria instituição da vigília.

O oponente afirmava também
que os milagres registrados junto ás sepulturas dos mártires serviam aos incrédulos,
não, porém, a quem já tinha fé. – A esse fraco argumento apologista replicava
que não importa tanto saber em favor de quem são realizados os milagres como saber
por que poder são eles efetuados; ora era evidente que a Onipotência divina se
manifestaria em tais portentos, confirmando a fé a devoção dos que a Ela
recorriam por intercessão dos mártires.

Era nesses termos que São
Jerônimo concebia a defesa do culto das relíquias.  Os autores posteriores, tanto medievais como
modernos, só fizeram corroborar e desenvolver as idéias do S. Doutor.

S. Tomás de Aquino (+1274),
por exemplo, assim se exprime a respeito:

“É evidente que devemos venerar
os Santos de Deus como membros de Cristo, filhos e amigos de Deus e
intercessores nossos. Por isto havemos de venerar as suas relíquias em memória
deles; principalmente há de ser venerados os seus corpos, templos e órgãos do
Espírito Santo, que os habitava e por esses corpos agia; aliás, serão
configurados ao Corpo de Cristo pela ressurreição gloriosa.  Por isto também o próprio Deus honra tais relíquias
realizando milagres em presença das mesmas” 
(Suma Teológica III, qu. 25, art. 6).

O significado do culto das
relíquias1.  Está claro que o culto das relíquias não vida
a objetos materiais como tais; toda a veneração a estes prestada é relativa;
ela se refere, sim, aos santos e, em última análise, ao Senhor Jesus, fonte de
toda a santidade.  As relíquias não podem
nem devem ser estimadas senão por causa do contato que tiveram com as pessoas
santas a que se referem, conseqüentemente, uma de suas funções primárias é a de
lembrar vivamente tais pessoas, a fim de excitar o amor dos fiéis para com
elas.

O culto das relíquias
exprime outrossim, a vida grandiosa que o cristão tem do corpo humano e da matéria
em geral.  Longe de julgar em termos
pessimistas essas criaturas de Deus, o discípulo de Cristo sabe que o corpo de
um justo, portador da graça santificante, é templo de Deus e que seus órgãos são
“instrumentos que o Espírito Santo utiliza para toda obra boa” (S. Agostinho);
portador de um gérmen de imortalidade aqui na terra, o corpo do cristão não
sucumbe simplesmente à morte; embora passe por esta, ele está destinado a vencê-la
e a ressuscitar.  É por isto que os
despojos dos justos falecidos após uma vida particularmente unida a Deus são
particularmente venerados; a Igreja vê neles representado o mistério da morte
do Cristo e dos cristãos: é morte toda perpassada pela imortalidade; tais
despojos são sinais “ambíguos”, pois tanto lembram a ruína induzida no mundo
pelo pecado como prenunciam ao triunfo sobre a ruína.

Eloquente expressão da mente
da S. Igreja no tocante ao culto das relíquias é o fato de que durante séculos
não se consagrava altar algum, fixo ou portátil, sem que, na respectiva pedra
de ara, houvesse um “sepulcro” com relíquias de vários santos ou ao menos de um
mártir.  Este fato atesta bem como a
Igreja une numa só visão o sacrifício de Cristo e a morte dos justos cristãos; é
a morte do Senhor que  se prolonga na de
cada fiel, principalmente quando esta sofre martírio cruento. – A Eucaristia,
colocando o corpo imortal de Cristo dentro dos corpos mortais dos discípulos,
prepara-os para ressuscitarem, configurados à carne gloriosa de Cristo.  Daí a estima dedicada aos despojos desses
corpos.

2.  Contudo ninguém ousará negar que a devoção
dos fiéis para com as relíquias mais de uma vez se desvirtuou no decorrer da
história, explorada não raro pelos interesses de homens sacrílegos.  A literatura profana não deixou de causticar
tais males.  As autoridades da Igreja não
foram menos severas sempre que os averiguaram, como se perceberá através dos
exemplos citados na página seguinte.

Todavia os erros acidentais
não devem, aos olhos dos estudiosos, encobrir verdades essenciais: o culto das
relíquias tem que se julgado à luz dos princípios donde procede, e não à luz de
desvios devidos à ignorância dos simples ou à perversidade dos maus.  Ora não há dúvida de que as proposições teológicas
que fundamentam a devolução das relíquias, são bem coerentes com a Revelação
cristã, como se depreende de quanto foi exposto até aqui.  O mesmo culto é outrossim baseado na tendência
natural que todo homem experimenta, de honrar seus antepassados, prestando
deferência aos despojos mortais dos mesmos. 
No plano da fé, em que vive o cristão, tal tendência só podia ser
corroborada ou colocada sobre as suas bases mais autênticas.

3.  De resto, as autoridades eclesiásticas sempre
vigiaram para evitar todo abuso com relação às relíquias:

Para citar dois exemplos
apenas, lembraremos que em 1697
a S. Congregação dos Ritos proibia expor pretensas relíquias
de Melquisedeque assim como “a pedra em que Nosso Senhor
se sentou para compor a oração do Pai Nosso”

S. Tomás mesmo admoesta a
que, no culto das relíquias, se evite toda espécie de superstição, seja por
excesso de veneração, seja pela observância de práticas vãs que não se
conciliam com a reverência devida a Deus e aos santos (cf.  Suma Teol. II/II 96, 4 ad 3; III § 4,2 ad 3).

O Direito Canônico faz o
propósito as seguintes prescrições:

“Cân. 1190 – § 1. Não é lícito
vender relíquias sagradas.

§ 2.  As relíquias insignes, bem como outras de
grande veneração do povo, não podem de modo algum ser alienadas nem
definitivamente transferidas, sem a licença da Sé Apostólica.

§ 3.  A prescrição do § 2 vale também para as
imagens que são objeto de grande veneração do povo em alguma igreja”.

Estão assim expostos os
grandes princípios que justificam a tradicional veneração de relíquias na
Igreja.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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