As profecias de Nostradamus – EB

Em síntese: “As profecias de Nostradamus”, recém-editadas por Érika Cheetham, movem o interesse do público. Na verdade, Miguel de Nostradamus (1503-1566) foi um médico que se deu intensamente aos estudos da astrologia, segundo a praxe vigente em sua época, e granjeou grande fama, principalmente por ter sido consultado pela supersticiosa rainha Catarina de Médici. Deixou vaticínios editados sob a forma de “Centúrias” (coleções de cem estrofes de quatro versos cada uma) em provençal do século XVI, mesclado de francês, italiano, latim e grego. Tais oráculos são obscuros; os intérpretes que afirmam o seu caráter profético, só convencem a quem está predisposto; não raro manipulem o texto e impõem-lhe interpretações artificiais, guerras, invasões, calamidades tais como soem acontecer na história e semelhantes àquelas que Nostradamus pôde conhecer através de seus estudos de história antiga. É possível também que em sua época Nostradamus tenha impressionado os contemporâneos por suas faculdades parapsicológicas (ou sua percepção extra-sensorial).

O sucesso que Nostradamus teve e tem ainda hoje, deve-se à sede que o homem sempre experimentou em relação ao maravilhoso e transcendental; acontece, porém, que essa sede deve ser orientada pela inteligência e o estudo; em caso contrário, cede a devaneios e paixões, como aconteceu a Napoleão l, Adolf Hitler e outros adeptos dos oráculos da astrologia cujo fim foi trágico.

Comentário: A. Editora Nova Fronteira recentemente lançou o livro de Érika Cheetham intitulado “As Profecias de Nostradamus” (1977, 418 pp. 140 x 210 mm). Érika  Cheetham estudou o provençal (língua falada na Provença, Sul da França) – o que lhe possibilitou o contato direto com o texto das “Centúrias” de Nostradamus. Apresenta, pois, um esboço biográfico deste “vidente”, seguido do texto das suas “profecias” no original provençal e em tradução vernácula, acompanhando grande número de quadras de breve comentário; este tende a mostrar o cumprimento dos oráculos até os nossos dias, insinuando que se realizarão os subseqüentes, que prevêem o fim do mundo para outubro de 1999. Assim o livro desperta a atenção do leitor e impressiona…, pois parece dizer-lhe que será testemunha da consumação da história. A repercussão que as Centúrias de Nostradamus tiveram em seus quatro séculos e mais de existência, assim como o interesse do público de nossos dias, justificam uma apreciação não só do livro de Érika Cheetham, mas também da pessoa e dos oráculos do “profeta” nas páginas de PR.

Quem foi Nostradamus?

As biografias de Nostradamus mesclam história e lenda (como, aliás, só acontecer com os grande adivinhos do passado). Procuraremos abaixo apresentar o que se possa dizer de seguro a respeito.

Miguel Nostradamus nasceu de família judia, da tribo de Issacar, em Saint-Rémy (Provença, França) na quinta-feira 14 de dezembro de 1503, aproximadamente às 12 horas ¹. Os seus ancestrais, bons conhecedores de medicina e matemática, se haviam tornado cristãos por efeito de um decreto do rei Luís XI (1461-83), que ameaçava os judeus não batizados de confiscação dos bens; em consequência, os avós paternos tomaram o sobrenome “Nostre-Dame” 2 (Nostradamus, em latim vulgar), enquanto os avós maternos adotaram o apelativo de “Saint-Rémy”, nome do lugar em que habitavam.

O jovem Miguel foi primeiramente formado por seus avós, que lhe ensinaram a matemática (naquela época, inseparável da astrologia), como também a medicina e a farmacêutica. Muito jovem, pois, aprendeu a manejar o astrolábio ³, a contemplar as estrelas e a ler os “destinos” dos homens nas conjunções dos astros. Após a iniciação, o jovem foi para Montpellier, onde se doutorou em medicina aos 26 anos de idade.

Terminados os estudos, viajou pela Provença e o Languedoc; esteve na Itália (Milão, Gênova, Veneza). Entrou em contato com Júlio Scaliger, filósofo e humanista famoso, que o convidou para morar em sua casa, na cidade de Agen. Ali casou-se e teve dois filhos. Praticava a medicina com grande êxito – o que lhe granjeou fama e numerosa clientela. Sobreveio, porém, a peste, que, entre outras vítimas, fez perecer a sua mulher e seus filhos – o que prejudicou enormemente a sua reputação. Deixou Agen, e, trista, retirou-se para a Abadia de Orval no Luxemburgo, onde escreveu as primeiras “profecias”.

Por volta de 1554, reaparece em Marselha, onde contribui para debelar uma epidemia. Pouco depois, faz o mesmo em Lyon, recuperando assim o seu prestígio.

Estabeleceu-se finalmente em Salon-de-Crau, onde se casou de novo, vindo a  ter sete filhos. Passou todo o resto da vida a estudar e escrever, interessando-se grandemente pelo ocultismo. Em 1550, começou a redigir um conjunto de “profecias”, que, agrupadas em cem estrofes de quatro versos cada uma, foram chamadas “Centúrias”. Deixou dez Centúrias não se sabe por que a Centúria VII não foi completada. Os versos estão redigidos em linguagem obscura e hermética, que resulta da mescla de francês, provençal, italiano, grego e latim.

A fama de “profeta” foi crescendo a tal ponto que a supersticiosa rainha Catarina de Médici o chamou a Paris, onde o acolheu com grandes honrarias. Catarina enviou-o a Blois, para lá elaborar o horóscopo dos quatro jovens príncipes, o que lhe valeu, em troca, ricos presentes; predisse a Catarina que todos os seus filhos seriam reis, o que na verdade não aconteceu, pois um deles, Luis, morreu antes que chegasse à realeza. Por sua vez, o próprio rei Henrique II, preocupado com a profecia, devida a Lucas Gaurico em 1553, de que morreria em duelo, consultou a respeito Nostradamus; este parece ter-lhe confirmado a previsão. O fato é que Henrique II realmente morreu em duelo no ano de 1519. Após o acontecimento, foi encontrada na primeira Centúria a estrofe 35, que assim reza:

“O leão jovem vencerá ao velho num singular duelo em campo aberto. Perfurar-lhe-á os olhos numa jaula de ouro. De duas classes, uma. Depois morrer, morte cruel!”.

Os comentadores julgam que estes versos se referem ao torneio público de Henrique II com o Conde Montgomery, lugar-tenente da guarda escocesa na corte de França, torneio que foi mortal para Henrique II em 1159. Dos dois leões um significaria o rei Henrique (mais idoso), visto que o leão é o signo astrológico da França e do seu rei; o outro leão designaria o conde (mais jovem), pois o brasão da Escócia é portador da figura de um leão!

O jovem rei Carlos IX, que em 1563 foi declarado de maior idade, em 1564 nomeou Nostradamus médico e conselheiro seu. Isto teve pouca significação, pois nessa época o “profeta” estava já idoso e cansado.

Por fim, Nostradamus faleceu aos 2 de julho de 1566. terá predito o dia de sua morte, quando já consumido por artrite e gota. Foi sepultado na igreja dos Cordeliers e depois trasladado para a de S. Lourenço, em Salon, onde ainda se pode ver o seguinte epitáfio :

“Aqui repousam os restos de Miguel de Nostradamus, o único, na opinião, de todos os mortais, cuja pena, quase divina, foi digna de transmitir, conforme o movimento dos astros, os acontecimentos futuros que se darão no mundo inteiro”.

O povo, porém, recusou-se a crer que o profeta morrera. Antes passou a afirmar que se encerrara em seu túmulo com uma lâmpada, papel, tinta e livros, e que ameaçara de morte quem tivesse a ousadia de abrir sepulcro. Esta crença supersticiosa parece ter aproveitado aos exploradores, que publicavam subsequentes edições das Centúrias contendo “profecias” adaptadas aos acontecimentos posteriores à morte de Nostradamus.

Tal era a fama de que gozava Nostradamus que, após a sua morte, muitas lendas se foram acumulando em torno de sua pessoa, a fim de mais o aureolar. Entre outras, é particularmente interessante a seguinte: Catarina de Médici permaneceu estéril durante onze anos após o casamento com Henrique de Orléans, o que lhe causava enorme pesar, fazendo-lhe temer o repúdio por parte do marido; Nostradamus teria posto termo a essa situação angustiosa, receitando para a rainha o remédio apto a combater a esterilidade: “Urina de carneiro misturada com sangue de lebre; pata esquerda de doninha temperada com vinagre forte; chifre de veado pulverizado e misturado com esterco de vaca e leite de jumento”. Por efeito desta medicação, Catarina teria tido dez filhos! Acontece, porém, que neste relato há evidente anacronismo, que depõe contra a sua veracidade: Catarina casou-se com Henrique em 1533 e teve seu primeiro filho, o futuro rei Francisco II, em 1544. Ora nesta data Nostradamus ainda não era conhecido nem se instalara em Salon.

Vejamos agora algo sobre os escritos que Nostradamus legou à humanidade.

Os escritos

Além das Centúrias, são atribuídos a Nostradamus os “Presságios” e as “Predições”. Os “Presságios” constam de 141 quartetos, dos quais cada um corresponde a um mês, desde 1555 a 1567. O quarteto da morte de Nostradamus corresponde a novembro de 1567, embora o desenlace se tenha dado a 2 de julho de 1566. Não se sabe exatamente quando foram escritos; apareceram pela primeira vez em 1568. Quanto às “Predições”, há sérias dúvidas sobre a autoria das mesmas; constam de 58 sextilhas, que, como alguns comentam, correspondem ao séc. XVII; parecem ter sido compiladas das memórias de Nostradamus por seu discípulo Vincent Seus de Beaucaire e publicadas em 1605.

As Centúrias tornaram-se instrumento utilizados por muitos peritos para orientar e dirigir os acontecimentos da história em momentos difíceis. Assim em 1649 os inimigos do Cardeal Mazarino, na França, achando que este exercia demasiada influência na corte francesa, publicaram uma edição das Centúrias, que dataram de 1568 e na qual inseriram evidentes referências ao Cardeal.

Como quer que seja, os críticos em nossos dias julgam poder apresentar ao público uma edição autêntica das Centúrias de Nostradamus. A estudiosa Érika Cheetham reconhece que “as profecias de Nostradamus são falhas às vezes” (p. 12), “noventa e cinco por cento das profecias de Nostradamus podem ser consideradas coincidências históricas” (p. 13); todavia julga que ao menos cinco por cento dos restantes vaticínios não podem ser explicados por simples coincidência; são autênticas previsões de acontecimentos que ocorreriam ou ainda ocorrerão… A autora afirma que as profecias de Nostradamus se estendem até 1999, o que significa que o fim do mundo está para ocorrer naquele ano ou quiçá no ano seguinte.

Neste particular, outros comentadores discordam, admitindo que as profecias de Nostradamus tentam prever a história até 3797, como o próprio “profeta” assevera no seguinte texto:

“J’aiu composé livres de prophéties, iesquelles contenant chacun cent quatrains astronomiques de prophéties, iesqueles j’ai um peu voulu rabouter obscurément, et son perpétuelles vaticinations pour d’ici à i’année 3797”,

Este texto, citado por Christiani no segundo estudo mencionado na bibliografia destas páginas, p. 110, pode ser assim traduzido:

“Campus livros de profecias, cada um dos quais contém cem quadras astronômicas de profecias, que eu quis elaborar obscuramente um pouco; são vaticínios perpétuos para daqui até o ano 3797”.

Na verdade, a própria Érika Cheetham admite que Nostradamus tenha profetizado para o mês de fevereiro de 2769; veja-se a interpretação da quadra 48 da 8ª Centúria (p. 319). Donde se vê quando pode ser subjetiva a interpretação das profecias de Nostradamus.

Trata-se agora de pesquisar se realmente os “oráculos” de Nostradamus preveem o futuro, de modo que possam ser tidos como autênticas profecias.

Autênticas profecias?

Quem percorre o livro de Érika Cheetham, tem a  impressão de que quase todas as estrofes de Nostradamus correspondem a genuínos acontecimentos históricos dos séculos XVI a XX: os reis de França Luis XIV, Luís XV, Luís XVI, a Revolução Francesa, Napoleão Bonaparte, a primeira guerra mundial (1914-18), a segunda guerra mundial (1939-45), o assassinato de John Kennedy, o declínio do comunismo, o futuro bombardeio de Nova Iorque, o terceiro Anticristo, o envenenamento da água de Nova Iorque…

Todavia a leitura atenta dos textos de Nostradamus dá a ver que se trata de “profecias” extremamente obscuras suscetíveis de mais de uma interpretação em virtude do seu estilo lacônico e por estarem redigidas em provençal do séc. XVI enxertado de outras línguas. Além disto, os comentadores, para descobrir o sentido de certas palavras do texto, têm que deslocar as respectivas letras, de modo que Rapis significaria Paris, Nercaf designaria a França, Chypre equivaleria a Henryc (…). Quanto aos comentários da Sra. Érika, não raro violentam o texto do “profeta”, ou, se não o violentam, parecem arbitrários, podendo ser substituídos por outros tão “válidos” quanto os da comentarista. Ademais é de notar que os comentadores de Nostradamus, desejando ler nos seus textos acontecimentos da história mundial, combinam entre si as quadras tiradas de diversas Centúrias, como se, distantes umas das outras, descrevessem todas o mesmo evento (aliás, dizem, os comentadores que Nostradamus mesmo espalhou suas profecias sem ordem cronológica nem lógica para que a censura do século XVI não o punisse).

Vejamos, pois, alguns exemplos do estilo e da exegese de Nostradamus.

A respeito de Napoleão (supostamente), lê-se o seguinte:

“De simples soldado ele atingirá o império, da roupa curta ele chegará à longa. Bravo nas armas, muito pior na Igreja, ele humilha os padres como a água encharca uma esponja” (Cent. VIII, qu. 57).

Se esta quadra tem em mira um Imperador bem sucedido nas guerras, mas perseguidor da  Igreja, pode aplicar-se tanto a Napoleão I como a Setímio Severo (193-211) ou a Maximino Trácio (307-313) ou ainda outros monarcas (…). Nostradamus, conhecedor da história, descreveu o protótipo do militar perseguidor.

A respeito de Napoleão ou de Hitler (supostamente), lê-se a seguinte estrofe:

“Da parte mais profunda da Europa Ocidental nascerá uma criança de família pobre, que por sua fala seduzirá muitos povos. Sua reputação crescerá ainda mais no reino do leste” (Cent. III, qu. 35).

Realmente, se o texto não se aplica a Napoleão, aplica-se a Hitler como também a outro grande líder de massas… O reino do Leste seria o Egito, no caso de Napoleão, que empreendeu a campanha do Egito, ou, no caso de Hitler, o Japão, que se aliou aos nacional-socialistas. – Na verdade, Egito e Japão não são muito próximos um do outro!

c) A estrofe abaixo deveria ser um compêndio da historia da Inglaterra durante duzentos e noventa anos:

“Sete vezes se verá modificar a nação britânica, tingida de sangue por duzentos e noventa anos. Aprisionada pelo apoio alemão, Áries teme pelo protetorado da Polônia” (Cent. III, qu. 57).

No caso, Áries significa a Inglaterra, pois é o primeiro signo do Zodíaco e governa o Leste. Os comentadores têm-se esforçado por encontrar a data-base a partir da qual contem os 290 anos e as sete grandes mudanças que afetariam a Grã-Bretanha. Julgam atualmente que o ano inicial é o de 1603, de modo que o período indicado se fecha em 1939. Realmente é necessária forte dose de boa vontade para aceitar tal “profecia”!

d) A estrofe acima deverá, segundo os comentaristas ser completada pela seguinte:

“O grande império será para a Inglaterra, a toda-poderosa por mais de 300 anos. Grandes forças cruzarão por terra e por mar. Os portugueses não ficarão contentes” (Cent. X, qu. 100).

A própria Sra. Érika observa a propósito:

“Nostradamus prevê um grande futuro para a Bretanha, que se prolongará por três séculos. Toma-se este período como começando com o reinado de Elisabeth I (1558-1603) até o da rainha Vitória (1837-1901), cinquenta anos mais do que diz a profecia. Não fica explicado o caso dos portugueses; a terceira linha é dúbia, não se sabe se se trata de forças inglesas ou daqueles que terminaram com o poder inglês. Uma frase ambígua, para não quebrar a tradição de Nostradamus” (p. 419).

e) Ainda a respeito da Inglaterra, os comentadores citam Cent. X, qu. 22:

“Por não desejar consentir no divórcio, que então logo em seguida será reconhecido como invalidado (ou indigno), o rei das ilhas será forçado a fugir, e o que foi posto em seu lugar  não terá signo de rei.”

Os comentadores hesitam quanto ao significado desta quadra: alguns nela veem a abdicação do rei Eduardo VII da Inglaterra aos 10/12/1936; no caso, Jorge VI, que não estava na linha de herança do trono, assumiu a realeza, como “quem não tinha signo de rei”. – Outros referem a estrofe ao séc. XVII e veem Oliver Cromwell (+ 1658) designado como “aquele que não tinha signo de rei”!

f) A execução do rei Luis XVI, vítima da Revolução Francesa aos 21/01/1793, estaria predita na quadra seguinte:

“Por um grande desacordo soarão os clarins. Um acordo rompido levanta a face para o céu; a boca sangrenta nadará em sangue; o rosto untando de leite e mel jazerá no chão” (Cent. l, qu. 57).

“Acordo rompido” seria a aceitação da Constituição Revolucionária por parte de Luis XVI.

“Levanta a face para o céu” (…) seria alusão ao fato (?) de que, ao se dirigir para o local da execução, Luís XVI recitou o salmo 3, que diz: “Exaltas a minha cabeça”!

“Untado de leite e mel” (…) seria alusão à unção com óleo feita sobre a cabeça do rei antes da sua execução!

Como se vê, os artifícios são muitos!

g) A estrofe seguinte deveria aludir ao Papa João XXIII (1958-1963):

“Por quatro anos o trono será dominado por alguém de pouco bem. Alguém subirá que é libidinoso na vida. Ravena e Pisa, Verona o apoiarão, desejosas de elevar a cruz papal” (Cent. XVI, qu 27).

A estrofe, segundo Érika, designa primeiramente o Papa João XXIII (“alguém de pouco bem”). Depois refere-se a Paulo VI (“libidinoso na vida”). – Ora não há quem não perceba o absurdo: João XXIII foi um pastor de “grande bem” (o Papa bom, por excelência), e Paulo VI é de vida austera e ilibada.

h) A respeito do túmulo de São Pedro teria Nostradamus dito o seguinte:

“O rei descoberto completará a chacina, tão cedo tenha descoberto sua origem:a torrente que abrirá a tumba de mármore e chumbo, de um grande romano, com o símbolo de Medusina ¹” (Cent. IX, qu. 84).

Eis o comentário de Érika:

“Ainda outro verso sobre a descoberta de um túmulo. A chave é a palavra Medusine. É um anagrama para Deus in me, o que provaria ser a verdadeira tumba de São Pedro, já que este era seu moto. O túmulo que foi encontrado anos atrás era de outro Papa, embora fosse dos primeiros” (p. 374).

A comentarista identifica São Pedro pela palavra Medusine, como se fosse o anagrama de Deus in me, pretenso moto de São Pedro. Ora não se sabe que Pedro tenha tido tal moto, de mais a mais que a língua usual dos romanos no tempo de São Pedro (séc. I) era o grego e não o latim. As escavações realizadas na basílica de São Pedro sob Pio XII comprovaram a presença de Pedro na respectiva sepultura, e não a de outro Papa, como afirma Érika.

i) Ainda a propósito de S. Pedro haveria a seguinte estrofe:

“Quando o sepulcro do grande romano for encontrado, um papa será eleito no dia seguinte; ele não será aprovado pelo Senado, seu sangue envenenado no cálice sagrado” (Cent. III, qu. 65).

Eis o comentário de Érika:

“Depois de um túmulo ser encontrado, provavelmente o de São Pedro, um novo papa será eleito, e se tornará extremamente inconveniente, inimizado pelo sínodo, e possivelmente bastante corrupto, considerando-se que seu sangue será venenoso para o cálice sagrado. Esta linha pode indicar também que este papa será envenenado. Podemos duvidar de que a tumba recentemente encontrada seja realmente a de São Pedro” (p. 145s).

Na realidade, como a estrofe é obscura, também o comentário nada diz. Para poder encontrar algum significado nas palavras do profeta, Érika se vê obrigada a dizer que o túmulo de São Pedro ainda não foi encontrado – o que é falso.

j) No tocante ao futuro do Vaticano e ao fim do mundo, lê-se o seguinte:

“Depois de See ter sido dominada durante dezessete anos, cinco mudarão no mesmo período de tempo. Então um deles será eleito na mesma época e não agradará demais aos romanos” (Cent. V, qu. 92).

Eis o comentário de Érika:

“Nostradamus diz que, após o governo de um papa, que durará dezessete anos, serão eleitos outros cinco durante os dezessete anos seguintes. Se aceitarmos que ele errou um pouco seus cálculos, esta quadra pode-se referir a Pio XII, que reinou por dezenove anos. É interessante observar que o profeta irlandês Malachias, com quem Nostradamus parece concordar, dá como somente outros cinco papas que governariam antes do final do mundo. João XXIII reinou por cinco anos, e o papa atual, Paulo VI, está no Vaticano desde 1963 e tem 75 anos. Isto deixa aos próximos papas pouco tempo de vida para cada um, e, desde que a maioria deles é eleita já em idade avançada, isto pode-se tornar uma realidade” (p. 236).

Ora, como se vê, o comentário é forçado, pois atribui a Pio XII dezessete anos de governo apenas. Paulo VI já tem mais de oitenta anos. Quanto à profecia de S. Malaquias, está evidenciado que é espúria; foi forjada no século XVI e atribuída a S. Malaquias, bispo de Armagh na Irlanda (+ 1148); teve origem durante o conclave de dois meses, que ocorreu entre a morte de Urbano VII (setembro de 1590) e a eleição de Gregório XVI (dezembro de 1590); o falso documento, apresentado dísticos de Papas, deveria orientar os eleitores em favor de determinada candidatura!

Note-se que Érika Cheetham pretende elucidar Nostradamus recorrendo de novo à profecia de S. Malaquias, por ocasião de Cent. VI, qu. 6 (p. 245) – o eu é despropositado ou acrítico (anticientífico).

k) Não raro fala Érika do “Terceiro Anticristo” (cf. pp. 254. 109. 44. 330. 410). O primeiro teria sido Napoleão I; o segundo, Hitler; o terceiro estaria para vir. Ora o tipo do Anticristo no Apocalipse e na antiga Tradição cristã foi o Imperador Nero (54-68), que, no contexto, não poderia ser silenciado.

Ainda merece atenção o texto seguinte:

“Ao nascer do sol pelo segundo canto do galo, aqueles de Tunísia, de Fez, e de Bougie, os árabes capturados pelo rei de Marrocos, no ano mil seiscentos e sete, pela liturgia” (Cent. VI, qu. 54).

Tal é o comentário de Érika:

“Esta quadra parece ser daquelas em que Nostradamus erra completamente. Ele parece prever a queda do império otomano da Europa pela ascensão de um novo rei europeu, e da Ásia pela criação de um novo império persa e de um novo império árabe, por volta de 1607. O único ponto a favor de Nostradamus é que nenhum pesquisador consegue decifrar o que ele quer dizer com “liturgia”. Isto pode alterar a data, embora não se saiba como. Ele poderia estar simplesmente querendo dizer Anno Domini, mas Nostradamus não gostava de tornar fáceis as coisas” (pp. 261s).

O comentário de Érika no caso é sincero. Não poucos são os trechos que a autora confessa não poder interpretar, deixando-os sob interrogação.

Ainda poderíamos citar várias passagens das Centúrias de Nostradamus para evidenciar quão subjetivas são as interpretações que se lhes dão.

Para explicar um ou outro caso em que o “profeta” parece ter acertado (note-se bem: …parece), duas hipóteses vêm em consideração:

1) Nostradamus conhecia a história antiga, principalmente de Roma; ciente do que se dera nas grandes monarquias do passado, não lhe era difícil prever, no futuro, a repetição de certos casos típicos da história: guerras, revoluções, invasões de países, calamidades naturais… Até o fim dos tempos tais coisas acontecerão; quem as queira predizer em estilo ambíguo, terá sempre razão.

2) Bruno Fantoni julga que “Nostradamus” mais do que astrólogo, era realmente um dotado de faculdades parapsicológicas: telepatia, clarividência, percepção extra-sensorial. As predições feitas ao futuro Papa (Sixto V, 1585-90 ou a Catarina foram formuladas à simples vista das pessoas, sem nenhum estudo astrológico prévio” (“Magia e parapsicologia”, São Paulo, p. 196).

Esta hipótese admite que pela percepção extra-sensorial Nostradamus tenha podido prever o futuro de pessoas que lhe eram contemporâneas. Ora discute-se tal teoria: a percepção extra-sensorial pode intuir realidades ocultas presentes ao percipiente, mas não se pode assegurar que atinja também o futuro, pois este depende de agentes livres (seres humanos) e contingentes.

Convém agora dizer breves palavras sobre

Astrologia

Os oráculos de Nostradamus referem-se não raro a símbolos da astrologia (Aquário, Câncer, Áries …), de modo que são interpretados na base da significação de tais símbolos na astrologia. Eis por que interessa examinar o valor científico e objetivo que possa ter a astrologia.

A astrologia e o horóscopo são a arte de definir características da personalidade e principalmente da vida de alguém a partir da posição que os astros tenham tido por ocasião do seu nascimento.

Acontece, porém, que o sistema astronômico suposto pelos cultores da astrologia está totalmente ultrapassado: é o sistema do astrônomo e geômetra Cláudio Ptolomeu (séc. II d. C.), que admite a terra no centro do sistema planetário; sete planetas a cercam: o Sol, a Luz, Júpiter, Vênus (planetas benéficos); Saturno e Marte (planetas maléficos).

Dos planetas alguns são quentes, outros frios; alguns secos, outros úmidos; alguns masculinos, outros femininos. Cada qual exerce sobre os homens determinada influência física, fisiológica ou mesmo psicológica. Todavia a influência de um planeta pode ser modificada ou mesmo anulada pelos sinais do Zodíaco.

O Zodíaco é uma faixa ou um anel que cerca a terra. Estende-se 8º,5 acima e 8º,5 abaixo da eclíptica. Nessa faixa movem-se o Sol, a Lua e os planetas. A circunferência desse anel imaginário (360º) é dividida em doze segmentos (cada qual de 30º). Em cada um desses segmentos existe um compartimento chamado “casa do horóscopo”. Tais compartimentos têm, cada um, seu símbolo: Carneiro, Touro, Gêmeos, Leão, Virgem, Balança, Escorpião, Arqueiro, Capricórnio, Aquário, Peixes.

Cada um dos sinais do Zodíaco significa, por sua vez, um aspecto ou uma situação de vida da pessoa. Imaginem-se agora as múltiplas combinações possíveis dos sete planetas com os doze sinais do Zodíaco; cada uma dessas combinações vem a ser um oráculo do destino, que marca decisivamente o temperamento e o currículo de vida da pessoa que nasce sob a sua hégide.

Basta ter exposto sumariamente o que é a astrologia para se evidenciar quanto é despropositada a crença nos seus vaticínios. Hoje sabemos que o nosso sistema planetário é heliocêntrico e não geocêntrico; a existência das casas do horóscopo é algo de totalmente arbitrário e irreal. Sabemos também que os astros existentes no cosmos são quase inumeráveis, produzindo interferências no espaço e nos planetas que outrora se ignoravam. Aliás, a própria experiência ensina que os astrólogos caem, não raro, em contradição. Os conselhos válidos que possam dar, são válidos por serem derivados do bom senso.

Mais: as profecias dos astrólogos podem ter a certa influência na vida dos consulentes, na medida em que os sugestionem e levem a assumir consciente ou inconscientemente comportamentos condizentes com tais “profecias”.

É de notar, por último, que vários dos grande líderes militares e civis da humanidade, sendo anticristãos, eram ao mesmo tempo adeptos e crentes da astrologia. Os expoentes do nacional-socialismo (1933-1945), por exemplo, eram perseguidores da Igreja, mas fervorosos clientes dos astrólogos, que os orientavam e até mesmo incitavam a novas façanhas na certeza de que seriam bem sucedidos. É notório o resultado de tais horóscopos: suicídios, enforcamentos, miséria para o povo alemão, que até hoje traz as marcas da aventura, dividido em Alemanha Ocidental e Alemanha Oriental!

Realmente aceitar o horóscopo significa renunciar à sã razão e à reflexão. Algo de semelhante se diga em relação à aceitação dos oráculos de Nostradamus.

***
¹ O primeiro biógrafo de Nostradamus foi seu discípulo Jean-Aimes de Chavigny, que publicou a biografia do vidente em 1954. – Note-se a indicação precisa do dia e da hora em que nasceu Nostradamus; era necessária para que se pudesse definir o horóscopo do “profeta”.

² Nossa Senhora.

³ O astrolábio era um recipiente cheio de água, que o observador ficava olhando até que a água se tornasse turba e as perspectivas do futuro ali se desenhassem. Nostradamus se colocava, com uma vara na mão, no meio de um círculo mágico, chamado limbo, junto ao astrolábio; falava-lhe então a voz de Branco, filho de Apolo, que aparecia em meio ao fogo, como julgava o “profeta”.

¹ Em provençal: Medusine.

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, Osb
Nº 217, Ano 1978, p. 22

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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