As “pedras de tropeço” de Roma

Artista alemão Gunter Demnig homenageia as vítimas do Holocausto

ROMA, quarta-feira, 18 de janeiro de 2012 (ZENIT.org) – “Uma pessoa só é esquecida quando o seu nome foi esquecido”. Com estas palavras, o artista alemão Gunter Demnig ??explica o seu projeto Stolpersteine, ou “Pedras de Tropeço”.

Após as duas primeiras edições romanas (2010 e 2011), Demnig instalou neste ano mais 72 “pedras de tropeço” na capital italiana, ou monumentos artísticos para homenagear as vítimas do nazismo. São pequenas placas de metal fixadas em paralelepípedos das calçadas de Roma, que trazem o nome, o ano de nascimento, o ano de deportação e o destino, se conhecido, da pessoa que foi deportada.

A pedra com a placa é inserida na pavimentação da calçada em frente à última residência escolhida livremente pela pessoa deportada.

No histórico do projeto, lançado pelo artista em 1993, foram instalados cerca de 32.000 desses “obstáculos”em aproximadamente 700 localidades. Demnig teve a idéia do projeto quando percebeu a grande ignorância que persiste a respeito da perseguição e da deportação de judeus, refugiados políticos, homossexuais e vítimas da eutanásia do nacional-socialismo.

Com seu trabalho, o artista pretende mostrar sinais visíveis que também façam parte da vida cotidiana e da paisagem urbana. Por esta razão ele escolheu o formato dos paralelepípedos comuns (10 cm x 10 cm), que podem ser facilmente incorporados a qualquer tipo de pavimento na capital italiana. A memória dos deportados, assim, não se limita ao seu dia rememorativo, mas se torna parte integrante do presente e do futuro.

Os lugares onde as “pedras de tropeço” foram colocadas em Roma são listados no site www.memoriedinciampo.it. O site também oferece filmes e material fotográfico, textos de acompanhamento, uma biografia do artista e uma resenha de imprensa.

Sete áreas de Roma participam da iniciativa este ano, entre elas o Centro Histórico. O projeto Memórias de Tropeço em Roma é apoiado pela Associação Nacional de Ex-Deportados, pela Associação Nacional de Ex-Internados, pelo Centro de Documentação Judaica Contemporânea, pela Federação das Amizades Judaico-Cristãs Italianas e pelo Museu Histórico da Libertação.

A iniciativa tem o apoio do Presidente da República da Itália, da União das Comunidades Judaicas Italianas, da Comunidade Judaica de Roma e da Embaixada da República Federal da Alemanha na Itália, e é realizada com o patrocínio da Comunidade Judaica de Roma e da Comunidade de Santa Maria ai Monti.

O comitê científico do projeto é presidido por Adachiara Zevi e composto pelos historiadores Anna Maria Casavola, Annabella Gioia, Antonio Parisella, Liliana Picciotto, Micaela Procaccia e Michele Sarfatti.

Em 9 de janeiro, durante a inauguração da edição 2012, foi homensageado o padre Pietro Pappagallo, que escondeu várias pessoas procuradas pelos nazistas e foi traído por uma alemã. Ele foi preso em 1944 e condenado à morte. Um paralelepípedo na Via Urbana, 2, relembra o sacerdote.

Todos os obstáculos são obras comissionadas. Neste caso, a pedra foi comissionada pelo atual pároco da igreja de Santa Maria ai Monti, pe. Francesco Pesce, para celebrar a memória do pe. Pappagallo, que escondeu especialmente crianças na sua igreja, junto com outras vítimas da fúria nazista.

As stolpersteine ??convidam a meditar e a refletir. Lidar com datas e acontecimentos históricos na literatura é uma coisa, mas descobrir uma inesperada “pedra de tropeço”, começar a ler a sua inscrição e ver a casa onde a pessoa em questão viveu ou trabalhou, é outra bem diferente. Deixa mais claro que se está diante do destino humano, de um ser humano com nome, um lar, uma família e uma história. Fatos e números cruéis adquirem um rosto e se tornam tangíveis. Descobre-se que o horror não poupou a cidade, o bairro, a rua, mas que numa realidade triste também houve pessoas que tiveram a coragem de arriscar a vida por se oporem ao horror.

As stolpersteine ??são monumentos que não só conectam o passado ao presente, mas também fazem refletir sobre o presente e o futuro e lembram que, criado à imagem e semelhança de Deus, o homem possui direitos inalienáveis concedidos pelo Criador. A dignidade humana é inviolável.

Há poucos dias, em Santa Maria in Monticello, pessoas desconhecidas removeram e substituíram por pedras normais três das “pedras de tropeço” dedicadas à memória das três irmãs Spizzichino, Graziella, Letizia e Elvira, vítimas do Holocausto.

Se os autores do ato, condenado como “ultrajante” e “vergonhoso”, pensam que podem apagar assim a memória dessas três pessoas, desses três destinos, desses três crimes, eles estão enganados. A memória de um ser humano não está ligada à sua materialidade visível, mas vive para sempre na nossa mente e no nosso coração.

Por Britta Dörr

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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