As 50 proposições do Sínodo dos Bispos sobre a Eucaristia – Parte 1

Proposição 1
Documentos que se apresentam ao Sumo Pontífice
Quer-se apresentar à consideração do Sumo Pontífice, além dos documentos sobre
a Eucaristia, fonte e cume da vida e da missão da Igreja, relativos a este
Sínodo, ou seja, os «Lineamenta», o «Instrumentum laboris», as apresentações
«ante e post disceptationem» e os textos das intervenções, tanto os
apresentados na sala por escrito, como as palavras dos círculos menores e suas
discussões, sobretudo algumas propostas específicas que os padres consideraram
de especial relevo.
Os padres sinodais pedem humildemente ao Santo Padre que avalie a oportunidade
de publicar um documento sobre o sublime mistério da Eucaristia na vida e na
missão da Igreja.

Proposição 2
A reforma litúrgica do Vaticano II
A Assembleia Sinodal recordou com gratidão o influxo benéfico que a reforma
litúrgica realizada a partir do Concílio Vaticano II teve para a vida da
Igreja. Esta pôs de relevo a beleza da ação eucarística que resplandece no rito
litúrgico. No passado se verificaram abusos, não faltam nem sequer hoje, ainda
que diminuíram muito. Contudo, tais episódios não podem obscurecer a bondade e
a validade da reforma, que contém ainda riquezas que não estão totalmente
exploradas, mas interpelam a uma maior atenção com respeito ao «ars
celebrandi», o qual favorece a «actuosa participatio».


Primeira parte

O povo de Deus educado na fé na Eucaristia
A fé na Eucaristia


Proposição 3

A novidade do mistério pascal
Ao instituir a Eucaristia, Jesus criou uma novidade radical: cumpriu em si
mesmo a nova e eterna aliança. Jesus inscreve, no contexto da cena ritual
judaica, que concentra no memorial o acontecimento passado da libertação do
Egito, sua importância presente e a promessa futura, sua entrega total. O
verdadeiro Cordeiro imolado se sacrificou de uma vez por todas no mistério
pascal e é capaz de libertar para sempre o homem do pecado e das trevas da
morte. O Senhor mesmo nos ofereceu os elementos essenciais do «culto novo». A
Igreja, enquanto esposa e guiada pelo Espírito Santo, está chamada a celebrar o
convite eucarístico, dia após dia, «em sua memória». Inscreve o sacrifício
redentor de seu Esposo na história e o faz presente sacramentalmente em todas
as culturas. Este «grande mistério» celebra-se nas formas litúrgicas que a
Igreja, iluminada pelo Espírito Santo, desenvolve no tempo e no espaço.
Na celebração da Eucaristia, Jesus, substancialmente presente, introduz-nos
mediante seu Espírito na páscoa: passamos da morte à vida, da escravidão à
liberdade, da tristeza à alegria. A celebração da Eucaristia reforça em nós
este dinamismo pascal e consolida nossa identidade. Com Cristo, podemos vencer
o ódio com o amor, a violência com a paz, a soberba com a humildade, o egoísmo
com a generosidade, a discórdia com a reconciliação, o desespero com a
esperança. Unidos a Jesus Cristo, morto e ressuscitado, podemos levar cada dia
sua cruz e segui-lo, com vistas à ressurreição da carne, seguindo o exemplo dos
mártires da antiguidade e de nossos dias. A Eucaristia como mistério pascal é
prenda da glória futura e dela nasce já a transformação escatológica do mundo.
Celebrando a Eucaristia, antecipamos esta alegria na grande comunhão dos
santos.

Proposição 4
A Eucaristia é um dom que brota do amor do Pai, da obediência filial de Jesus
levada até o sacrifício da cruz, feito presente para nós no sacramento, da
potência do Espírito Santo que, chamado sobre os dons pela oração da Igreja,
transforma-os no Corpo e no Sangue de Jesus. Nela se revela plenamente o
mistério do amor de Deus pela humanidade e se cumpre Seu desígnio de salvação
marcado por uma gratidão absoluta, que responde só a Suas promessas, cumpridas
mais além de toda medida.
A Igreja acolhe, adora, celebra este dom com trêmula e fiel obediência, sem
arrogar-se nenhum poder de disponibilidade que não sejam os que Jesus lhe
confiou para que o rito sacramental se realize na história.
Sob a cruz, a Santíssima Virgem se une plenamente ao dom sacrificial do
Salvador. Por sua imaculada conceição e plenitude de graça, Maria inaugura a
participação da Igreja no sacrifício do Redentor.
Os fiéis «têm direito de receber abundantemente dos sagrados pastores os bens
espirituais da Igreja, sobretudo as ajudas da Palavra de Deus e os sacramentos»
(LG 37; cf. CIC can. 213; CCEO can. 16), quando o direito não o proíba.
A tal direito, corresponde o dever dos pastores de fazer todo o possível para
que o acesso à Eucaristia não seja impedido na prática, mostrando a este
respeito solicitude inteligente e grande generosidade. O Sínodo aprecia e
agradece os sacerdotes que, inclusive à custa de sacrifícios às vezes grandes e
arriscados, asseguram às comunidades cristãs este dom de vida e as educam a
celebrá-lo em verdade e plenitude.


Proposição 5

Eucaristia e Igreja
A relação entre a Eucaristia e a Igreja se entende na grande tradição cristã
como constitutiva do ser e do atuar da própria Igreja, até o ponto de que a
antiguidade cristã designava com as mesmas palavras, «Corpus Christi», o corpo
nascido da Virgem Maria, o corpo eucarístico e o corpo eclesial de Cristo.
Esta unidade do corpo manifesta-se nas comunidades cristãs e renova-se no ato
eucarístico que as une e as diferencia em Igrejas particulares, «in quibus et
ex quibus una et unica Ecclesia catholica existit» (LG 23). O termo «católico»
expressa a universalidade proveniente da unidade que a Eucaristia, celebrada em cada Igreja, favorece
e edifica.
As Igrejas particulares na Igreja universal têm assim, na Eucaristia, a tarefa
de fazer visível sua própria unidade e sua diversidade. Este laço de amor
fraterno deixa transparente a comunhão trinitária. Os concílios e os sínodos
expressam na história este aspecto fraterno da Igreja. Por esta própria
dimensão eclesial, a Eucaristia estabelece um forte laço de unidade da Igreja
católica com as Igrejas ortodoxas, que conservaram a genuína e íntegra natureza
do mistério da Eucaristia. O caráter eclesial da Eucaristia poderá ser também
um ponto privilegiado no diálogo com as comunidades nascidas com a Reforma.


Proposição 6

A Adoração eucarística
O Sínodo dos Bispos, reconhecendo os múltiplos frutos da adoração eucarística
na vida do povo de Deus em tantas partes do mundo, encoraja fortemente que esta
forma de oração –assim freqüentemente recomendada pelo venerável servo de Deus
João Paulo II– seja mantida e promovida, segundo as tradições, tanto da Igreja
latina quanto das Igrejas orientais. Reconhece que esta prática origina da ação
eucarística –que em si mesma é o maior ato de adoração da Igreja, que habilita
o fiel a participar plenamente, conscientemente, ativamente e frutuosamente do
sacrifício de Cristo segundo o desejo do Concílio Vaticano II– e a essa
reconduz. Assim vivida a adoração eucarística sustenta o fiel no seu amor e serviço
cristãos para os demais e promove uma maior santidade pessoal e das comunidades
cristãs. Neste sentido o reflorir da adoração eucarística, também entre os
jovens, parece hoje uma promissora característica de muitas comunidades. Por
esta razão, a fim de favorecer a visita ao Santíssimo Sacramento, cuide-se, no
limite do possível, que as igrejas nas quais é presente o Santíssimo Sacramento
fiquem abertas.
A pastoral leve a comunidade e os movimentos a conhecer o justo local de
adoração eucarística no sentido de cultivar a atitude de transcendência frente
ao grande dom da presença real de Cristo. Neste sentido, encoraja-se a adoração
eucarística também no itinerário de preparação para a Primeira Comunhão.
Para promover a adoração, é conveniente dar um particular reconhecimento aos
institutos de vida consagrada e às associações de fiéis que a essa se dedicam
de modo especial e de várias formas, ajudando-os para que a devoção eucarística
torna-se mais bíblica, litúrgica e missionária.

Eucaristia e sacramentos

Proposição 7

Eucaristia e sacramento da Reconciliação
O amor à Eucaristia leva a apreciar sempre mais o sacramento da Reconciliação,
no qual a bondade misericordiosa de Deus torna possível um novo início da vida
cristã e mostra a intrínseca ligação entre Batismo, pecado e sacramento da
Reconciliação. A digna recepção da Eucaristia requer o estado de graça.
É encargo de grande importância pastoral que o Bispo promova na diocese uma
decisiva recuperação da pedagogia da conversão que nasce da Eucaristia e
favorece por isto a confissão individual frequente. Os sacerdotes, por sua
parte, dediquem-se generosamente à administração do sacramento da Penitência.
O Sínodo recomenda vivamente aos Bispos não permitir em suas dioceses o recurso
à absolvição coletiva, a não ser nas situações objetivamente excepcionais
estabelecidas pelo Motu Proprio Misericordia Dei, de 7 de abril de 2002, do
Papa João Paulo II. Os Bispos procurem, por outro lado, que em toda igreja nos
seja lugar idôneo para confissão (cf. CIC 964 § 2). Recomenda-se que o Bispo
nomeie o confessor.
Nesta perspectiva, necessita-se também aprofundar as dimensões da reconciliação
já presentes na celebração eucarística (cf. CCC 1436), em particular o rito
penitencial, a fim de que se possa viver nela verdadeiros momentos de
reconciliação.
As celebrações penitenciais não sacramentais mencionadas no ritual do
sacramento da Penitência e da Reconciliação podem despertar o sentido do pecado
e formar um espírito de penitência e de comunhão na comunidade cristã,
preparando assim os corações para a celebração do sacramento.
A renovação da espiritualidade eucarística pode ser a ocasião para aprofundar a
compreensão e a prática das indulgências. Este Sínodo recorda que os Bispos e
os párocos podem pedir à Penitenciaria Apostólica a indulgência plenária por
celebrar diversas ocasiões e aniversários. O Sínodo encoraja uma catequese
renovada sobre as indulgências.


Proposição 8

Eucaristia e Sacramento do Matrimônio
Na Eucaristia, exprime-se o amor de Jesus Cristo que ama a Igreja como sua
esposa, chegando a dar a Sua vida por ela. A Eucaristia corrobora de modo
inexaurível a unidade e o amor indissolúvel de todo matrimônio cristão.
Queremos fazer sentir uma particular proximidade espiritual a todos aqueles que
construíram suas próprias famílias sobre o sacramento do matrimônio. O Sínodo
reconhece a singular missão da mulher na família e na sociedade e encoraja os
cônjuges para que, bem integrados em suas paróquias e talvez inseridos em
pequenas comunidades, em movimentos e associações eclesiais, percorram caminhos
de espiritualidade matrimoniais nutridas da Eucaristia.
A santificação do domingo se atua também na vida familiar. Por isso, a família,
como “Igreja doméstica”, deve ser considerada um primeiro ambiente da comunidade
cristã. É a família a iniciar a criança na fé eclesial e na liturgia, sobretudo
na Santa Missa.

Proposição 9

Eucaristia e poligamia
A natureza do matrimônio exige que o homem esteja ligado de modo definitivo a
uma só mulher, e vice-versa. Neste horizonte, os polígamos que se abrem à fé
cristã são ajudados a integrar o seu projeto humano na novidade e na
radicalidade da mensagem de Cristo. Enquanto catecúmenos, Cristo encontra-os em
sua específica situação e os chama à renúncia e à ruptura necessárias à
comunhão, que um dia possam celebrar mediante vários sacramentos, antes de tudo
mediante a Eucaristia. A Igreja os acompanhará no decorrer do tempo com uma
pastoral plena de doçura e de firmeza.


Proposição 10

Modalidade das Assembléias Dominicais na ausência de Sacerdote
Nos paises nos quais a falta de sacerdote e as grandes distâncias tornam
praticamente impossível a participação na Eucaristia dominical, é importante
que as comunidades cristãs se reúnam para louvar o Senhor e comemorar do Dia a
Ele dedicado em comunhão com o Bispo, com toda a Igreja particular e com a
Igreja universal. De grande importância é também esclarecer a natureza do
empenho dos fieis em participar destas assembléias dominicais.
Cuide-se para que a liturgia da Palavra, organizada sob os cuidados de um
diácono ou de um responsável da comunidade a qual este ministério foi
regularmente confiado pela autoridade competente, cumpra-se segundo um ritual
específico, aprovado para este fim. Para não privar os fiéis por muito tempo da
Comunhão eucarística, os sacerdotes se esforcem para visitar freqüentemente
estas comunidades. Cabe aos Ordinários e às Conferências episcopais regular a
possibilidade de distribuir a Comunhão.
Dever-se-á evitar toda confusão entre celebração da Santa Missa e assembleia
dominical na ausência de sacerdote. Por isso, não se deverá cessar de encorajar
os fiéis a irem, por quanto possível, aonde a Santa Missa é celebrada.
As Conferências episcopais forneçam apropriados subsídios que explicam o
significado da celebração da Palavra de Deus com a distribuição da Comunhão, e
as normas que a regulam.

Compartilhe!

    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
    Adicionar a favoritos link permanente.