Arte sacra e espiritualidade

CIDADE DO VATICANO, terça-feira, 5 de abril de 2011 (ZENIT.org) – A arte sacra é, para quem a realiza e para quem sabe desfrutá-la, um lugar de experiência espiritual.

Se refletirmos sobre muitas tradições, por exemplo a figura de São Lucas como retratista de Maria, a figura de Nicodemos como o primeiro escultor cristão, autor do crucifixo milagroso de Beirut, feito de madeira, que originou a tipologia dos crucifixos chamados do “Rosto Santo”, a imagem do rosto de Cristo impresso no lenço de Verônica, falamos de experiências de encontro. A arte sacra quer encontrar sua origem na visão do Rosto Amado, em uma experiência pessoal.

A arte sacra, a arte a serviço da Igreja, realiza, de fato, uma mediação sublime entre o invisível e o visível, entre a mensagem divina e a linguagem artística. A espiritualidade cristã não pode prescindir da visão concreta do rosto de Cristo: ver e representar são instrumentos de “crescimento espiritual”.

A espiritualidade cristã, sobretudo no século XVI e em particular na área dominicana, nutre-se da prática das representações interiores, quer dizer, da sobreposição dos lugares da própria vida com os lugares da vida de Cristo, como se exemplifica no convento dominicano de São Marcos, em Florença, onde todas as celas têm afresco para a meditação pessoal dos frades, e como testemunha uma ampla literatura devocional. Como exemplos de diferentes procedências geográficas e espirituais: o ‘Catholicon’ (1286). de Giovanni de Gênova, o ‘Zardino de Oration’, escrito em 1454 e editado em Veneza em 1494, os sermões do frade Michele de Carcano (1427-1484), as sagradas representações de Castellano Castellani (1461-1519), os escritos de São Bernardino da Sena (1380-1444), até chegar, obviamente, aos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola (1491-1556).

Uma importante pintura de Memling, conservada na Galeria Sabauda, em Turim, oferece o tema da Paixão representado, cena por cena, em um único lenço. Os participantes, ajoelhados ao lado de uma Jerusalém “fictícia”, contemplam os sagrados mistérios como se fosse frente a um ‘tableau vivant’ no qual eles mesmos estão incluídos. Trata-se de um importante testemunho de como a arte é imagem e sustenta uma experiência contemplativa.

Pela importância da imagem, com uma visão mística, o cardeal Gabriele Paleotti temia a tentação do diabo e, em 1582, no ‘Discorso intorno alle immagini sacre e profane’, escreve: “Mas a malícia do demônio, inimigo de toda virtude, é de tal maneira perversa e está tão enraizada que, a partir do momento que não consegue eliminar o uso santo e de louvor das imagens, atua de maneira que se realizem abusos nelas e que se banalize seu valor. […] Uma cidade se perde antes com um tratado que com um assédio, e por isso o demônio abandona o assédio com o qual queria eliminar as imagens e prepara um tratado: corrompê-las e enchê-las de abusos”. Muitos místicos recebem em uma visão o encargo de criar uma imagem do que viram. Pensemos, por exemplo, na iconografia do Sagrado Coração, ou ao do Jesus da Misericórdia, provenientes de revelações e que buscam sem descanso o modo de se converter em imagens artísticas.

Gostaria de me deter um pouco sobre a extraordinária experiência mística de Santa Margarida Alacoque, que viveu entre 1647 e 1690 na França e que pertencia à ordem da Visitação, fundada por São Francisco de Sales. Na história de sua vida, escrita por obediência ao beato beato Claudio La Colombiére, seu pai espiritual durante um certo tempo, encontramos muitos elementos para uma reflexão sobre a espiritualidade da pintura.

A santa é depositária de uma extraordinária experiência relacionada com o Coração de Jesus, fundada no texto de João. Jesus lhe mostra o coração inflamado como um sol fulgurante, e a santa, para fazer florescer a devoção ao Sagrado Coração, oferece a primeira imagem: “Não encontrava nenhum meio para fazer florescer a devoção ao Sagrado Coração, que para mim era como o ar que respirava; e esta é a primeira ocasião que sua bondade me deu. (Santa Margarida) caía enferma às sextas-feiras, e eu pedia às noviças, das quais me ocupava naquele período, que todos os pequenos presentes que tinham em mente para me dar com ocasião de minha festa, os fizessem ao Sagrado Coração de Nosso Senhor Jesus Cristo. Assim fizeram de boa vontade, preparando um pequeno altar, sobre o qual puseram uma pequena imagem de papel desenhado com tinta em que tributamos todos os dons que o Coração divino nos sugeriu”.

Um grande santo do século XX, o padre Pio, disse: “Para a ciência se parte da terra, para a fé é necessário partir do céu, e para a arte é necessário voar entre a terra e o céu”. Com linguagem simples e muito profunda, o padre Pio afirma exatamente que a arte é um meio entre ‘Ratio’ e ‘Fides’, quer dizer, um voo entre o céu e a terra.

(Por Rodolfo Papa, pintor, historiador da arte e professor da Universidade Urbaniana)

Compartilhe!

    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
    Adicionar a favoritos link permanente.