“…Aquilo para que fui criado” – EB

Revista: “PERGUNTE E
RESPONDEREMOS”

D. Estevão Bettencourt, osb

Nº 472 – Ano 2001 – Pág.
385

 

Santo Anselmo (+ 1109) foi
monge beneditino e arcebispo de Cantuária (Inglaterra). Deixou vários escritos
preciosos, que lhe mereceram o título de “Doutor da Igreja”. Nesses escritos
encontram-se orações, das quais uma vai, a seguir, especialmente destacada:Que há de fazer,

Ó Senhor Altíssimo

Que há de fazer

Este teu exilado tão longe?

Que há de fazer

Este teu servo

Ansioso pelo teu amor

E lançado longe de tua face?

Tu és o meu Deus

Tu és o meu Senhor.

E eu nunca te vi.

No entantoFui criado para te ver

E ainda não fiz aquilo

Para que fui feito

Anseia por te contemplar

E quão grande é

A ausência de tua face!

Este belo texto sugere
reflexões:

1) “Exilado…” Exilado é
aquele que sabe estar longe  da pátria; é
caminheiro e viandante em demanda do regaço definitivo. Assim sentia-se
Anselmo, como aliás também São Paulo, que escreveu: “Sabemos que, enquanto
habitamos neste corpo, estamos fora da nossa mansão, longe do Senhor, pois
caminhamos pela fé e não pela visão” (2Cor 5, 6s). De modo semelhante todo
cristão tem consciência de estar à procura de algo maior e definitivo que
responda às suas aspirações mais profundas; anseia por ver a Beleza Infinita.

2) “…Aquilo para que fui
feito”. Todo ser humano pode dizer que fez muita coisa na vida ou realizou tudo
o que estava ao seu alcance; apesar disto a fé lhe replica que ainda não
realizou o grande ato para o qual foi criado: ver Deus face a face. As demais
tarefas efetuadas neste mundo são subsídios para que atinja o supremo termo que
é a razão da sua existência. Esta afirmação pode causar surpresa a quem a ouve
pela primeira vez, mas é lógica decorrência da mensagem do Evangelho. Bem dizia
Santo Agostinho não repousa em Ti (Confissões l, 1). Todo cristão pode dizer
com Cristo: “Saí do Pai e vim ao mundo; de novo deixo o mundo e vou para o Pai”
(Jo 16, 28).

3) Em consequência, a vida
terrestre toma a feição de uma grande preparação ou de um noviciado para um
encontro face-a-face com a Beleza Infinita, única resposta cabal para os
anseios mais profundos do ser humano. Esta afirmação não significa alienação
aos deveres de estado de cada um, mas, ao contrário, infunde nova energia e
novo estímulo ao cristão peregrino e lutador neste mundo.

Possa a oração de Santo Anselmo
tornar-se a prece contínua de cada amigo de Deus, que não pode deixar de
aspirar à plenitude da vida!

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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