Apresentação do Lexicon

Caríssimo Professor Humberto L.
Vieira,

O
Pontifício Conselho pela Família (PCF) acaba de editar o “LEXICON, Termini
ambigui e discussi su famiglia, vita e questioni etiche”. Vossa Excelência, se
ainda não o recebeu, deve recebê-lo nos próximos dias.

Em nível
internacional, as respostas, recensões e anúncios muito positivos e até
calorosos são para nós muito confortadores, o que demonstra a estupenda
acolhida desta obra. Já está garantida a tradução para diversas outras línguas.
Sabemos que tal obra, que não apenas repete documentos oficiais, embora neles
se baseie, mas se confronta com opiniões amplamente difundidas e, não raro,
apregoadas por interesses não confessos, não pode deixar de assumir o risco de
encontrar oposições.

Além do
mais, são na grande maioria cientistas de renome internacional os autores dos
78 artigos. Com sua competência científica, eles assumem a responsabilidade
pelos argumentos propostos.

O PCF
obteve apoio da Congregação da Doutrina da Fé ao assumir o compromisso de
identificar a ambigüidade de tantos conceitos que tendem, hoje, a anestesiar as
consciências e a consolidar, em tantos aspectos da pessoa e da sociedade, a
cultura da morte.

São três os
fatores imediatos que inspiraram nossa iniciativa de editar o Léxico:

Vieram-nos
de muitas partes os insistentes pedidos de fornecer esclarecimentos a respeito
de aspectos essenciais da Bioética, matrimônio, vida e sexo, e isto tanto mais
que a linguagem moderna se encontra dominada por conceitos cuja ambigüidade
acoberta absolutismos ideológicos e pretende proibir qualquer questionamento
crítico. Sua Eminência o Sr. Cardeal Alfonso López Trujillo escreve no Prefácio
ao livro: “O momento no qual se decidiu a elaboração deste Léxico foi um
encontro em Roma com Organizações não Governamentais (ONGs), nos dias 26 e 27
de novembro de 1999, onde aflorava uma preocupação dramática”, mas se percebeu
também a possibilidade de oferecer aos participantes de Conferências e Reuniões
das Nações Unidas, como também aos Parlamentares e aos Movimentos eclesiais,
uma informação o mais objetiva possível, não só sobre os princípios doutrinais
da Igreja, mas também sobre os resultados científicos tantas vezes silenciados
e sobre o abuso da linguagem ambígua que desorienta a opinião pública.

A crise
moral do mundo de hoje pressupõe um esvaziamento e uma relativização dos
valores da vida, das exigências autênticas da dignidade humana e a negação das
leis imutáveis, inscritas nos elementos constitutivos da natureza humana. Tal
crise, porém, está sendo acobertada, disfarçada, quando não diretamente
promovida pela cada vez mais ampla difusão de conceitos ambíguos que escondem a
verdade e a dramaticidade de uma humanidade que, pelo positivismo jurídico,
quer-se constituir a sua própria e mais profunda razão de ser.

Causa
estranheza o fato de que uns, opondo ao Léxico agressivas críticas, parecem não
perceber o intento deste livro de querer desfazer a desonestidade com que a
opinião pública é desorientada. À guisa de exemplo, o Léxico trata, entre
tantos outros, os seguintes temas, desmascarando a ambigüidade de linguagem com
que se anestesia as consciências:

“Free
Choice” (scelta libera, ou mulheres católicas pelo direito de decidir).
Evidentemente, nenhum cristão pode-se opor à mais sublime dignidade da pessoa,
à liberdade. “Free Choice”, no entanto, apregoa uma liberdade que não está
iluminada por uma verdade. Portanto, torna-se bandeira de grupos privados de
princípios morais profundos, proclamando o “direito” da mulher grávida de
dispor de seu corpo, isto é, de abortar. O fruto concebido no seio materno já
não é “seu” corpo, mas um novo ser. E o corpo da mãe, fonte de vida, não deve
ter a “liberdade” de se transformar em túmulo. – “A astúcia na busca de
expressões ambíguas alcança níveis preocupantes” (Prefácio, p. 6). Com cálculo
frio produz-se uma mudança semântica, uma distorção do significado de palavras
em assuntos que tocam a vida, a mais profunda dignidade da criança concebida,
da mulher em sua mais sublime tarefa de ser mãe, esposa, modelo.

“Não
discriminação da mulher” é para todos um dever que dignifica os seus
defensores. Todavia, CEDAW (Convention on the Elimination of all forms of
Discrimination Against Women), partindo, no ano 1979, da Declaração Universal
dos Direitos Humanos (de 1948), criou no ano 1999, através do “Protocolo
Facultativo”, um “Comité” de 23 “Expertos de grande prestígio moral”, cujas
posições, na verdade, não só põem em questão sua identidade com a intenção
original dos Estados que aderiram à CEDAW, mas manifesta uma hostilidade ao
matrimônio, célula vital da sociedade, e mostra-se contra a dignidade e função
fundamental da mulher de ser mãe e esposa. Este “Comitê” parece tomar cada vez
mais atitudes que levam a uma verdadeira nova discriminação da mulher em sua dignidade
primordial.

“Gender”
(Gênero: valor cultural e social da feminilidade e da masculinidade). O tema de
absoluta atualidade é tratado por duas mulheres, ambas jovens, uma doutora em
teologia, a outra em
filosofia. Com seriedade, competência e clareza desmascaram o
desvio cultural que o termo “gender” começou a criar. “A maternidade não está
inscrita na natureza da mulher, mas é um sentimento, fruto de determinada
cultura que pode desaparecer”. Simplesmente independentemente da estrutura
corporal-psíquica de seu sexo, o sujeito pode e deve, segundo a teoria do
“gender”, escolher livremente a heterossexualidade, a homossexualidade, o
lesbianismo ou a trans-sexualidade.Tal dissociação entre sexo e “gênero”, entre
natureza e cultura, destrói uma profunda dimensão pessoal.

Entre todos
os outros conceitos ambíguos que o Léxico traz, quero ainda indicar os
seguintes: “sesso sicuro”, “uguaglianza di diritti tra uomini e donne”,
“Partial birth abortion” (o crime hediondo de matar a criança durante o
processo do nascer), “matrimonio di omosessuali”.

Cada artigo
è assinado pelo autor – cientistas, médicos, filósofos, antropólogos,
moralistas, psicanalistas – de renome internacional.

Como os
autores apresentam sua argumentação (ainda que sucinta como convém a um Léxico),
cada um estará disposto a responder a eventuais outras teses realmente
científicas.

Evidentemente,
vozes críticas que quase só agridem os autores do Léxico, atribuindo-lhes
“sexofobia, homofobia, misoginia”, não são argumentos, nem se deram, aliás, ao
trabalho de conhecer os pensamentos dos nossos autores.

É
igualmente lamentável críticas que não queiram ver a seriedade e o respeito
pela pessoa com que são tratados temas delicados como o dos homossexuais. Não
se entende como eles não percebem que atribuir à  “normalidade” o qualificativo de
“normalização” não resolve o problema, mas cria novos, tanto em nível da pessoa
como da sociedade. Todos devemos, como aliás a Igreja o faz, ter grande
sensibilidade pelos sofrimentos de tais pessoas.

A terceira
razão que fez nascer este Léxico é o dever que Jesus deu à sua Igreja, de
anunciar sempre e a todos a boa nova. Quem pregasse a felicidade humana sem a
dimensão da cruz, quem ensinasse os amor sem o novo amor oblativo, enganaria a
humanidade e a si mesmo.

Artigos
como “amor coniugale”, “dignità del bambino”, “uguaglianza di diritti tra
uomini e donne”, como ainda explícitos aspectos em todos os outros artigos,
manifestam algo da imensa alegria e responsabilidade que caracteriza a mensagem
do cristão, mesmo em meio a um mundo quebrado em suas esperanças, seduzido por
tantas luzes fátuas, e no entanto sempre de novo desejoso de uma mensagem que
nos eleve do nível dos simples imperativos dos instintos, dos jogos de
interesses egoístas e do desespero de vidas gastas no prazer sem alegria.

Nos
próximos dias enviar-lhe-ei também o PREFÁCIO do livro, feito pelo Cardeal
López Trujillo. Esperamos que possa fazer uso deste material, em seu tão
múltiplo trabalho, seja em publicações, LESTE I, no contato com gente do Parlamento.
Aliás iniciam-se, proximamente, os trabalhos na Loyola para traduzir o Lexico e
editá-lo o quanto antes no Brasil. – Talvez estas minhas reflexões possam-lhe
ser úteis e lhe abram o desejo de conhecer o texto do Léxico em sua temática
séria, complexa e todavia otimista à luz do Evangelho e a serviço do
verdadeiramente “humanum”.

Com
profunda estima e amizade, em Cristo

Roma, 16 de
abril de 2003.

D. Karl Josef
Romer

Secretário
do Pontifício Conselho pela Família

 

 

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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