Antropologia e Generalidades – EB – Parte 9

Ora a convicção de que logo após a morte se dê a
retribuição definitiva a todo ser humano, replica um julgamento, ou seja, o juízo
particular.

O Magistério da lgreja houve por bem definir a
imediata sanção após a morte em mais de uma ocasião.  Assim o Concílio de Liio 11 (1274), na
França, declarou que as almas
dos fiéis defuntos são sem demora (mox) recebidas no céu, ao passo qua as dos
réprobos sem demora (mox) passam para o inferno (D.-S. n2s 856-859 [464]).

Em 1336, o Papa Bento XIl promulgou definição mais
explícita, da qual se destaca o trecho seguinte:

‘Por esta Constituição, que há de valer para sempre,
definimos com autoridade apostólica que, por disposição geral de Deus, as almas de todos os santos
qua deixaram esto mundo antes da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, as almas
dos santos apóstolos, mártires, confessores, virgens a dos outros fiéis
falecidos depois de ter recebido o santo Batismo de Cristo, dado qua nada tenha
havido a purificar quando morreram ou nada haja a purificar quando futuramente
morrerem, ou – caso tenha havido ou haja algo a purificar – uma vez purificadas
após a morte, as almas
das crianças que tenham renascido ou que futuramente hajam de renascer pelo
dito Batismo de Cristo, a qua venham a morrer antes do uso do livre arbítrio, essas
almas todas, logo depois da morte a da purificação de que precisem, mesmo antes
da ressurreição dos corpos e do juízo geral, após a Ascensão do Salvador Nosso
Senhor Jesus Cristo aos céus, foram, estão e estrão no céu, possuidoras do
Reino dos céus e do paraíso celeste com Cristo, gozando do consórcio dos santos anjos, e, depois da
Paixão e Morte do Senhor Jesus Cristo, viram a veem a assência divina numa
visão intuitiva, face a face, sem que alguma criatura Ihes seja objeto
intermediário de visão.  A essência
divina se Ihes mostra imediatamente, sem véu, clara a abertamente. Por esta visão
da essência divina deleitam-se; vendo a deleitando-se assim, as almas dos defuntos são
realmente bem-aventuradas; possuem a vida a o descanso eternos. Igualmente as almas daqueles que
futuramente hão de morrer, contemplarão a mesma essência divina a por ela se
deleitarão antes do juízo geral.  Esta
visão da essência divina e o deleite consequente Ihes tornarão desnecessários
os atos de fé a esperança, na medida em que a fé a a esperança são virtudes
teologais próprias.  Depois de iniciados
a visão intuitiva, face-.i-face, e o deleite dessas almas, visão e o deleite, sem interrupção ou
cessação, continuam a continuarão até o juízo final, e do juízo final para todo
o sempre.

Além disto, definimos que, por disposição geral de
Deus, as almas
dos que morrem em pecado atual a mortal, logo depois da morte, desçam ao
inferno, onde serão atormentadas pelas penas infemais.

Não obstante, no dia do juízo todos os homens em seus
corpos comparecerão perante o tribunal de Cristo, para prestar contas de seus
atos próprios, a fim de cada qual refira o que tiver feito de bom ou de mau em
seu corpo (2 Cor 5, 1 0)’  (D. -S. ngs
1000- 1002 [530s]).

Nesta declaração, muito significativa, são de notar:

O verbo inicial definimos, que dá ao documento a
autoridade máxima; a expressão não obstante, que inicia a última frase.  Tem por função realçar a importãncia do juízo
universal, importância que poderia parecer desmentida pelas afirmações
anteriores, as quais implicitamente, sim, professam um juízo particular
(note-se que o papa emprega duas vezes no texto a expressão juízo geral.

Um século após Bento XII, o Concílio de Florença, em
1439, promulgava semelhante declaração, visando de novo propor aos gregos as
verdades de fé que deviam abraçar para gozar da comunhão da Igreja:

‘As almas daqueles que, depois do batismo, não se
tiverem maculado em absoluto com alguma mancha de pecado, assim como as almas
que, depois de contraída alguma mancha de pecado, tiverem sido purificadas ou
no corpo ou fora do corpo (…), essas almas todas sem demora são recebidas no céu
e veem claramente o próprio Deus em sua Unidade e Trindade, como Ele É; umas, porém,
veem mais perfeitamente do que outras, conforme a diversidade de méritos de
cada qual.

Quanto as almas
daqueles que morrem com pecado atual e mortal ou com o pecado original apenas,
sem demora descem ao inferno, onde são punidas por penas que variam para cada
qual’ (D. -S. n2s 1304-1306 [6931).O Concílio do Vaticano I (1870) incluira no seu
programa de estudos algumas definições a respeito dos novíssimos, definições,
porém, que não chegaram a ser editadas em virtude da inesperada interrupção dos
trabalhos.  Nos arquivos do Concílio
encontra-se o seguinte projeto, que devia ser submetido a discussão dos teólogos:

“Depois da morte, sem demora somos apresentados
ao tribunal de Deus, para que cada qual refira o que tiver feito de bom ou de
mau em seu corpo’.

São estas e semelhantes manifestações do magistério
extraordinário da lgreja, associadas ao ensinamento comum dos bispos, que levam
os teólogos hoje em dia a afirmar a realidade de um juízo particular
imediatamente subsequente; a morte.

A guisa de complementação, pode-se perguntar: por que
há dois julgamentos sobre o homem – o particular (após a morte imediatamente) e
o universal (no fim dos tempos)?  Deus
precisa de julgar o homem duas vezes? – Em resposta, dizemos que, em caso
nenhum, Deus ponderá o  bem e o mal que o
homem praticou, para proferir finalmente uma sentença judiciária.  Em ambos os casos, trata-se de manifestar a
realidade da vida de cada um ou ao próprio indivíduo (no juízo particular) ou a
totalidade do gênero humano (no juízo universal).  Com efeito; todo homem tem sempre dois
aspectos: é pessoa singular e é membro de uma sociedade; como
pessoa singular, o homem toma conhecimento nítido de si mesmo no juizo
particular, e, como
membro da sociedade, a sua vida é revelada (com todas as influências a
irradiações que teve) aos demais homens no juízo universal.

Estas noções ainda serão esclarecidas na Lição
seguinte e nos Módulos 35 e 36 deste Curso.

Lição 2: Como
se dá o juízo particular

O juízo particular não se realiza como os julgamentos em tribunais da
terra.  Nele não há processor pois todo
processo é a investigação de feitos mais ou menos desconhecidos – o que não tem
cabimento em Deus onisciente.  Também não
há acusador (demônio) e defensor (anjo da guarda) atuando em tribunal, pois na
verdade o homem morre corn a sua sentença já lavrada; cada um, através dos atos
de sua vida, vai tomando posição e definindo a sua sorte definitiva.

Entio pergunta-se: em que consistiria o juízo
particular?

– Deus derrama sua luz sobre a alma logo após a
morte, de modo quo só toma nítida consciência do que foi realmente a sua vida
terrestre; reconhece o sentido e o valor, os méritos e deméritos da sua existência;
torna-se-lhe claro tudo que ela fez e omitiu, de bem e de mal, até os últimos
pormenores.

Assim, portanto, pode-se dizer que o homem, logo após
a morte, se torna o seu próprio juiz. 
Ele se identifica corn o juízo retíssimo que Deus, a todo momento,
formula a seu respeito.  Nesta vida o
homem se julga; mas muitas vezes ele encobre ou dissimula, aos próprios olhos,
com muita arte, os motivos de suas ações; preconceitos próprios, opiniões
alheias (…), obscurecem o seu modo de ver. 
Eis, porém, que, logo após deixar este mundo, a pessoa se vê tal como é, sem poder
dissimular a realidade; tudo se Ihe torna transparente.  Muita coisa que lhe parecia pequenina ou
indiferente, toma grande vulto, e vice-versa.

De uma intuição tão clara procede inevitavelmente a
sentença do julgamento, sentença que tem por autores Deus e o próprio homem.

A sentença resultante do juízo particular é
imediatamente executada. (…) executada sem uma intervenção violenta de Deus, mas
por uma exigência da própria alma
julgada.  Corn efeito; o amor a Deus,
comprovado pelo juízo, a impele irresistivelmente à bem-aventurança divina (o
céu) ou ao estágio previamente necessário para obter a visão de Deus (o purgatório);
de modo análogo, o ódio ao Criador, uma vez comprovado, faz que a alma se afaste para longe
do Senhor.  S. Tomás compara a sorte das almas julgadas e dos
corpos que, por seu próprio peso, sãoo levados a procurar o lugar que lhes
convém: desde que desatados de todo vínculo, voam pelos ares, caso sejam leves;
ou precipitam-se por terra, caso sejam pesados.

Notemos ainda que o fato de ver-se a si mesmo sob a
luz de Deus não implica, para o homem, ver a SS.  Trindade ou Cristo face-a-face; tal visão
seria simplesmente o céu (…). Deus esta presente ao homem nesta vida mesma; sua
presença, porém, é um tanto encoberta para a criatura ofuscada pelas coisas
sensíveis.  Ora, logo após a morte, será
dado ao homem experimentar, de maneira nova e muito viva, essa presença de
Deus, e justamente de Deus enquanto é o Santo, o Incompativel com a mínima
sombra de imperfeição.

Uma antecipação, por excelência, do juízo particular
é dada ao cristão em cada confissão sacramental; por esta, o Senhor, na pessoa
do Sacerdote, julga seu filho, e normalmente o absolve, fazendo-o beneficiar-se
da misericórdia.  Terminado o tempo da
misericórdia, que é esta vida, o Senhor julgará conforme toda a justiça; é,
portanto, a fim de que a justiça de Deus o possa recompensar após a morte que
muitas e muitas vezes, no Sacramento da Penitência, o cristão procura
identificar-se com o juízo de Deus, tentando ver sua conduta como Deus a vê.

MÓDULO 9: A BEM-AVENTURANÇA
CELESTE (1) – Noção

O destino normal de todo homem, após a morte, é
entrar no gozo do seu Senhor (cf.  Mt
25,23) desde que não haja mais nenhum resquício de pecado a expiar no purgatório.
 Trata-se da suma bem-aventurança ou
“daquilo qua o olho jamais viu, o ouvido jamais ouviu, o coração humano
jamais perscrutou” (1 Cor 2,9).

Procuremos aprofundar tal realidade.

Lição 1: Fundamentação
Bíblica e Tradição

Nas Escrituras

A promessa de vida futura a bem-aventurada ocorre em
todos os livros do Novo Testamento.  Uma
ou outra passagem, porém, requer particular atenção:

1) Mt 5,8; l Cor 13,12; l Jo 3,1s.  Estes textos anunciam aos justos a visão de
Deus face a face.  São Paulo realça a diferença entre o
“conhecer a Deus” qua desfrutamos nesta vida (em espelho a de modo
confuso), e a intução direta ou face a face da vida futura:

‘Atualmento vemos como qua num espelho, de modo confuso;
veremos, porém, face a face. Agora conheço em parte; hei de conhecer, porém, como sou conhecido’ (1 Cor
13,12).

Essa visão direta de Deus preencherá todas as aspirações
da criatura.

São João também fala da visão de Deus, apresentando,
porém, outros particulares:

‘Vede com que o amor o Pai nos amou: trazemos o título
de filhos de Deus a na realidade o somosl (…). “Caríssimos, já agora somos
filhos de Deus, mas ainda não foi manifestado o que um dia seremos.  Sabemos que, quando Ele se manifestar, ser-lhe-emos
semelhantes, porque O veremos tal como
Ele É” (l Jo 3,1.3).

 

Somos filhos de Deus, porque enxertados no Filho pelo
Batismo (cf.  Rm 6, 3-6; GI 3,26-29) mas
ainda nos sentimos sujeitos ao pecado e as suas consequências.  Aguardamos, portanto, a plenitude da nossa
filiação divina, qua se dará quando Cristo reaparacer neste mundo; então
seremos totalmente configurados a Cristo a o veremos em sua realidade íntima,
divina, “tal como Ele É”; vendo o Filho, veremos também o Pai, pois
“a vida eterna consiste em que os homens conheçam o Pai e o seu enviado,
Jesus Cristo” (Jo 1 7,3).

Vale a pena notar ainda o texto de 2 Cor 5,6-8:

‘Cheios de segurança e sabendo que, enquanto
permanecemos neste corpo, estamos longe do Senhor – pois caminhamos na fé, e
não na visão -, cheios de segurança (digo), preferimos deixar este corpo a
habitar junto do Senhor’.

Nesta passagem, o Apóstolo contrapõe fé (conhecimento
através dos véus) a visão (intuição direta).

2) Lc 14,16-24; Mt 25,1-12; 22,1-14; Lc 12,37; 13,29:

Jesus frequentemente apresenta a felicidade
definitiva sob a figura de uma grande ceia (….) ceia nupcial. – Qual o
significado desta imagem?

– Na vida presente, sentar-se a mesa de alguem é
sinal de amizade e interciâmbio cordial. 
Ora, a vida celeste será comunhão íntima dos justos corn o Senhor e
entre si. O Senhor, como Rei ou como Esposo, nutrirá os
justos sem intermediário, sem véu, não corn alimento material, mas com a sua
própria Vida e Verdade.  Como em toda ceia, também
no encontro da vida futura haverá um colóquio face a face entre o Criador e a
criatura. Disto não  poderá deixar de
provar alegria e bem-estar imensos para o homem.

De resto, é máxima antiga, vigente já entre os pagãos,
que “contemplar é comer”; contemplar a Verdade é participar da
Verdade, identificar-se com a Verdade. 
Consequentemente, a visão que os justos no céu terão de Deus, bem pode
ser comparada a um comer da mesa de Deus”.

3) Os textos de Ap 21 e 22 completam os dizeres atrás,
pois, usando de imagens diversas, descrevem em colorido muito vivo a
bem-aventurança celeste.

4) A referência ao paraíso em Lc 23,43; Ap 2,7
significa não um local, mas um estado de plena felicidade, capaz de satisfazer
a todas as aspirações do ser humano.

1.2. Tradição

O magistério da lgreja resumiu em algumas declarações
o ensinamento da Escritura e da Tradição a respeito da bem-aventurança
celeste.  Notemos a fórmula do papa Bento
XII na Constituição Benedictus Deus (1336) já citada no Módulo 8:

“(Os bem-aventurados) viram e veem a essência
divina em visão intuitiva ou face a face, sem que a visão de alguma criatura se
interponha; a essência divina se Ihes mostra imediatamente, sem véu, clara e
abertamente; vendo-a, nela se deleitam; por tal visão e, as suas almas são realmente
felizes, possuem a vida e o repouso eterno’ (D.-S. n°2 1000 [5301).

Concílio de Florença, em 1439, explicitou com precisão:

“(Os bem-aventurados) veem claramente o próprio
Deus, em sua Unidade
e Trindade, tal como
É’ (D. -S. n° 1305 [6931).

Procuremos aprofundar estes dados colhidos nos
documentos-fontes da fé.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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