Antropologia e Generalidades – EB Parte 4

Escatologia
 
Vejamos agora
Lição 2: As consequências do conceito cristão
 
1. Um fato que exprime tipicamente a mudança da escala de valores decorrente do conceito cristão de morte é o seguinte:
 
(11, 12s), o filósofo grego Aristóteles (384-.C.) procura caracterizar a juventude e a velhice da vida humana.  Afirma então que os jovens vivem para os valores morais e artísticos; concebem um ideal de virtude e de heroismo, cuja beleza os atrai e ao qual se entregam sem medir forças e bens materiais.  Numa palavra: vivem para o belo (pros t6 kal6n), não para o útil ou o interesse pessoal (t6 symph6ron). A razão disto é que sentem em si uma vitalidade ardorosa, ainda não contraditada por reveses.
 
Consequentemente, para Aristóteles, os anciãos, experimentando em si o definhar lento das forças físicas, vivem não mais para um ideal de beleza e bravura, mas para o interesse particular; vivem para aquilo que lhes possa trazer proveito físico e conservar a existência.  Numa palavra: vivem não mais para o belo, mas para o útil ou o interesse pessoal (pr6s t6 symph6ron).

Esta caracterização do ancião não deixa de impressionar; é uma desdita as aspirações mais espontâneas e nobres da natureza humana. É lógica, porém, aos olhos da razão natural: a vida é o fundamento de qualquer ideal que o homem possa conceber.  Ora Aristóteles e seus contemporâneos só conheciam a vida neste corpo; por isto julgavam que as aspirações variam de acordo corn o grau de vitalidade que o homem experimenta nas sucessivas fases da sua existência terrestre.

O quadro é triste.  Pergunta-se, porém: será que o homem está necessariamente fadado a renegar seus ideais mais nobres?
A esta pergunta responderemos apontando o caso de outro pensador – o Apóstolo São Paulo – que viveu três séculos após Aristóteles e tomou conhecimento da mensagem cristã.  Esta Ihe inspirou um modo de ver bem diferente das concepções do filósofo grego.  Com efeito; basta notar que o Apóstolo escreveu treze cartas, sendo as três últimas (as Pastorais: 1/2 Tm e Tt) datadas dos anos de Paulo sexagenário, encarcerado em Roma e consciente de que estava prestes a ser condenado a morte.  Pois bem; ao passo que nas dez epístolas anteriores o Apóstolo empregara vinte vezes o adjetivo kalon (belo e bem moral), nas três pastorais ele o usou vinte e quatro vezes, e geralmente como apóstolo aos diversos substantivos corn que descrevia a vida cristã.

A mente de São Paulo aparece assim impregnada pelo ideal da beleza e pelas aspirações supremas na idade decrépita, muito mais ainda do que no vigor dos anos. O Apóstolo assim punha em xeque as previsões do filósofo grego. – E qual a razão deste contraste – é que justamente o Apóstolo percebia o sentido que a morte tomou após Cristo, sentido que o homem antes de Cristo não podia perceber: Paulo já não considerava a morte como fim da existência humana, mas como passagem para outra vida, muito mais rica e fecunda do que a terrestre; por isto também, quanto mais próximo se achava da morte, tanto mais afirmava os valores nobres, pois sabia que o seu definhar na vida terrestre era, na realidade, um rejuvenescimento para a vida definitiva.

Eis como a morte, para o cristão, importa um autêntico desabrochar, em vez de extinção da personalidade.  Ela pode e deve ser dita “transfiguração” do discípulo de Cristo.

2. Conscientes deste valor da morte, os antigos cristãos chamavam-na o seu natalício propriamente dito.  Bem se entende isto, pois a morte é a consumação do Batismo ou da regeneração sacramental iniciada na pia batismal e desdobrada lentamente nesta existência terrestre. É por isto que S. Inácio de Antioquia (t 110 aproximadamente), condenado a ser lançado às feras no Coliseu de Roma, escrevia aos fiéis amigos que tencionavam interceder junto as autoridades romanas para Ihe evitar o martírio:

“É bom para mim morrer a fim de me unir ao Cristo Jesus… Aproxima-se o momento em que serei dado a luz… Ndo ponhais empecilho a que eu viva, não queirais que eu morra’ (Aos Romanos 6, ls).

O cristão, sim, só é homem perfeito na medida em que é filho do dia, da luz, da vida definitiva. É desta que ele vive, trazendo-a arraigada em seu íntimo.  Em consequência, a morte pode tornar-se meta ardentemente desejada, como revela o mesmo Santo Inácio:

“Escrevo a vós, possuído do amor da morte… ; há, em mim, uma água viva que fala e dentro de mim diz: ‘Vem para o Pai” (Aos Romanos 7,2) 2

1. Assim bela luta (2Tm 4,7); bela milícia (1 Tm 1, 1 8; 2 Tm 3,3); bela doutrina (1 Tm 4,6); belo testemunho (1 Tm 3,7); bela lei (lTm 1,8); belo fundamento (lTm 6,19); belo ministro (de Cristo) (I Tm 4,6). água viva de que fala lnácio, é símbolo do Espírito Santo, conforme Jo 7,37-39.

3. Estas verdades podem ser expressas ainda do seguinte modo: o cristão nasce em duas etapas.  A primeira ocorre apos nove meses de gestação no seio materno; o bebê que então vem a luz, chora, porque perde o aconchego e a proteção de que desfrutava no seio materno.  Aos poucos, porém, vai-se adaptando ao novo ambiente, adquire sua autonomia e encontra seu lugar ao sol; aí prepara novo tipo de aconchego, ao qual espontâneamente se apega e do qual não quer ser desinstalado; vive então uma nova fase de sua gestação, já não aos cuidados de sua mãe, mas sob os seus próprios cuidados; sim, o que nasceu do seio materno, foi um ser ainda embrionário, cheio de potencialidades não desabrochadas; estas só desdobradas e atualizadas pelo indivíduo no decorrer desta vida terrestre; é ele quem vai definir sua estatura fisica e espiritual ou sua configuração definitiva. Quando o Pai o julga oportuno, chama-o para a mansão definitiva num momento dito ‘morte”, que na verdade é a segunda etapa do nascimento dessa pessoa; é então que acaba de nascer, pois se acha corn a sua personalidade acabada.  Desta maneira vê-se mais uma vez que a morte, para o cristão, não é propriamente morte, mas passagem para a plenitude da vida.
 
4. Deve-se mesmo dizer que, em seu sentido mais profundo, a morte, abraçada em união com a de Cristo, é resposta positiva e generosa que o cristão dá ao convite do Pai, em oposição a recusa que o primeiro homem deu ao mesmo convite (incorrendo por isto na condenação a morte).  Sereno, pois, e alegre caminha o cristão na terra de encontro ao seu nascimento para a vida eterna.  Na realidade, só há um tipo de angústia que o afeta: o pecado, pois este significa justamente separação de Deus ou da verdadeira vida.  Diante do pecado, sim, o cristão ressente todo o horror que a perspectiva da morte física suscita no não- cristão.  Caso, porém, esteja isento de pecado, o discípulo de Cristo não se deixa abalar pelas vicissitudes desta peregrinação nem pela própria morte; sabe que nada disto Ihe pode tirar o verdadeiro tesouro que ele traz em seu íntimo, vida que Deus Ihe deu e que só Deus, ou a sua infidelidade voluntária, podem extinguir.  A convição desta verdade levava o Apóstolo a dizer:

‘Quem nos separará do amor de Cristo?  A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, a espada?… Em todas estas coisas somos mais do que vencedores, graças àquele que nos amou.  Pois estou convencido de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos nem os principados, nem as coisas presentes nem as futuras, nem as potestades, nem a altura nem a profundidade nem qualquer outra criatura nos poderá separar do amor que Deus tem para conosco nosso Senhor’ (Rm 8,35.37-39).
Ou ainda:
‘Tudo é vosso… tanto o mundo como a vida e a morte, o presente e o futuro.  Tudo é vosso; vós, porém, sois de Cristo, e Cristo é de Deus (Pai)” (I Cor 3,21-23).

Santo Agostinho, de resto, faz notar muito bem que, se não fosse a precedente sorte de Cristo, o cristão de modo nenhum ousaria tomar tal atitude diante da morte: “O cálice do sofrimento é amargo e salutar; se o médico não o tivesse bebido primeiramente, o doente recearia tocá-lo’ (Sermão 329,2).

MÓDULO 4: A MORTE (111) – QUESTÕES COMPLEMENTARES

Impõe-se agora o estudo de algumas noções complementares relativas a morte no sentido cristão.

Lição 1: Morte-termo final

A morte coloca o homem num estado definitivo e imutável. O homem fica sendo para sempre amigo ou inimigo de Deus, conforme as disposições qua tenha ao deixar este mundo; somente enquanto peregrina na terra, pode merecer ou desmerecer o Sumo Bem.

Esta verdade se encontra no Evangelho: Jesus admoesta os discípulos a qua vigiem, pois a atitude qua tiverem assumido nesta vida am relação a Deus, definirá a sua sorte definitiva. É o que incutem as parábolas das dez virgens (Mt 25,1-13), dos dez talentos (Mt 25,14-30), do rico e de Lázaro (Lc 16,18-31), o quadro do juízo final em Mt 25,31-46…

A mesma ideia ressoa na pregação dos Apóstolos; ver GI 6,1 0; 1 Cor 15,24; 2Cor 5,1 0; 6,2; Hb 3,13.  A tradição cristã a repetiu sempre, e o Concílio do Vaticano I (1 870), suspenso antes de concluido, estava para promulgá-la em suas definições teológicas, nos seguintes termos:

‘Depois da morte, que é o remate da nossa caminhada, todos teremos logo de nos apresentar perante o tribunal de Cristo, a fim de que cada qual receba a retribuição do que tiver feito de bem ou de mal quando estava no corpo (2 Cor 5,10); depois desta vida mortal, não há mais possibilidade de penitência a justificação (Mansi-Petit, Conc. t.  Lill, 175).

2. Levanta-se agora a pergunta: não se poderia imaginar que, após a morte, a alma humana continue a merecer, a desmerecer, sujeita a mutabilidade qua caracteriza a vida na terra? – A rigor, respondemos que sim.  A Palavra de Deus, porém, nos ensina qua a morte é a entrada numa situação definitiva.  São Tomás de Aquino procura ilustrar tal proposição do seguinte modo:

Até a morte, mas somente até a morte, a natureza humana se acha completa (alma a corpo) dotada das faculdades que concorrem para a sua evolução (sentidos, inteligência a vontade).  Ora é lógico que a decisão do homem relativa ao fim supremo seja tomada pelo homem am sua natureza completa. O homem não é espírito só, mas espírito destinado a vivificar um corpo a desenvolver-se mediante o corpo.

Verdade é que, depois da ressurreição, o corpo estará de novo unido a alma.  Por que então não poderá haver mudança de opções após a ressurreição? – Respondemos dizendo que a re-união de corpo a alma após a morte é algo a que a natureza humana não tem, por si mesma, direito; é dom gratuito de Deus. O corpo então não servirá de instrumentos mediante o qual a alma mude as suas inclinações; ao contrário, as condições do corpo se adaptarão; as disposições, boas ou más, da alma, em vez de as influenciar; os justos terão um corpo glorioso, ao passo qua os réprobos terão um corpo dito “tenebroso”.

Irrevogabilidade de um destino é algo que nós, peregrinos na terra, dificilmente concebemos; tudo o que conhecemos neste mundo, se nos apresenta como transitório; não temos a experiência do definitivo ou da morte.  Por isto é que, fora das Escrituras Sagradas, nunca, nas crenças religiosas da humanidade, se encontra a noção de sorte póstuma irrevogável ou definitiva.

Entregues ao próprio raciocínio, o pagão e o filósofo foram, muitas vezes, levados a imaginar a vida humana a semelhana do ritmo da natureza.  Nesta a morte não parece ser definitiva, mas sempre seguida de nova vida; ao inverno sucede regularmente novo nascimento da vegetação na Primavera; ao ocaso coditiano do sol segue-se sempre nova aurora.  Em consequência, o homem, considerando-se como parcela da natureza, julgou sua vida sujeita ao ritmo do renascimento na carne mortal, destinada a recomegar sua peregrinação na terra.  A teoria da metempsicose ou das reencarnações sucessivas, dai resultou, tomou mais de uma forma através da história. Seu berço é a Ásia. Os hindus a professavam na religião dos Vedas; desta, a doutrina passou para o budismo. Do Oriente, a metempsicose entrou no sistema de vários filósofos gregos: Pitágoras, Empódocles, Platão, os neoplatônicos… Ainda hoje está muito em voga na Teosofia, no Esoterismo, no Espiritismo…
O assunto será explicitamente abordado no Módulo 7 deste curso.

Lição 2: A universalidade da morte e exceções

Não há dúvida de que, segundo a S. Escritura, todos os homens estão sujeitos ao império da morte. Ver:

Hb 9,27: ‘Foi estabelecido, para os homens, morrer uma só vez; após o que, vem o juízo’.
1 cor 15,22: ‘Assim como todos morrem em Adão, todos recuperarão vida am Cristo’.  Ct Rm 5,12.

Todavia o Apóstolo São Paulo afirma que serão dispensados da morte aqueles qua estiverem vivos por ocasião da Segunda Vinda de Cristo.  Haverá, pois, exceção em favor deles. É o qua se Iê em:

I Cor 15,ss: “Eis que vos digo um mistério.  Nem todos morreremos, mas todos seremos transformados, num instante num abrir e fechar de olhos, ao som da trombeta final’.

Vê-se que o Apóstolo, referindo-se ao último dia, distinguia duas categorias de cristãos: os que já tiverem morrido, e os que ainda estiverem vivos; aqueles ressuscitarão, ao passo qua estes terão seus corpos transfigurados, sem passar pela morte: “nem todos morreremos, mas todos teremos transformados”.
l Ts 4,15-17: ‘Dizemo-vos segundo a palavra do Senhor: nds, qua vivemos, qua somos deixados até a volta do Senhor, não teremos primazia sobre aqueles qua estiverem mortos. 0 Senhor mesmo desceri do c6u, quando for dado um sinal, o grito do Arcanjo, o toque da trombeta divina, a os mortos ressuscitar&o primairo, palo poder de Cristo; a seguir, n6s, os vivos, os sobreviventes, seremos arrebatados com eles nas nuvens, de encontro ao Senhor nos ares.  E assim estaremos sempre com o Senhor.

De novo o Apóstolo distingue os mortos a os sobreviventes por ocasião da volta de Cristo: aqueles ressuscitarão a estes, sem provar a morte, irão corn os ressuscitados ao encontro de Cristo.

2 Cor 5, 1 -3: ‘Sabemos que, se a nossa morada terrestre, esta toda, for destruida, teremos no céu um edifício, obra de Deus, morada atema, não feita por mãos humanas. Tanto assim qua gememos pelo ardente desejo de revestir por cima da nossa morada torrestre a nossa habitação celeste – o que seria possível, se formos encontrados vestidos, e não nus’.

Mais uma vez refere-se o Apóstolo a segunda vinda de Cristo.  E diz que os fiéis poderão encontrar-se então em duas condições: ou despidos (isto é, almas sem corpo, o que seria o caso dos já falecidos) ou vestidos (isto é, almas unidas aos respectivos corpos, o que será o caso dos sobreviventes).

 

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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