Antropologia e Generalidades – EB – Parte 3

Escatologia
1.3. Entre povos primitivos
Vários povos primitivos da África, da Ásia e da Oceania conceberam a morte como consequência da violação da ordem de coisas originárias; os primeiros homens teriam desobedecido a Divindade, acarretando a catástrofe da morte.  E o que se depreende de certas lendas, que, através da sua roupagem mitológica, transmitem tal concepção.  Eis cinco dessas narratives:
Várias tribos de New South Wales (Africa) contam que os homens foram originariamente destinados a não morrer. Todavia foi-lhes proibido aproximar-se de determinada árvore oca.  Ora abelhas selvagens fizeram sua colmeia nessa árvore, e as mulheres se propuseram tirar o respectivo mel.  Apesar das admoestações dos homens, uma mulher atacou a árvore com o seu machado; então saiu da árvore não o mel desejado, mas uma enorme coruja… Era a morte, que daí por diante está livre para percorrer o mundo e reivindicar para si tudo o que ela possa tocar com as asas.
Os Bagandas da Africa Central narram que Kintu, o primeiro homem, depois de ter superado vários testes, obteve a licença de se casar corn Nambi, uma das filhas de Mugulo (o Céu ou o Alto). 0 pai da jovem deixou que ela viesse corn seu consorte para a terra, trazendo ricos presentes, entre os quais uma galinha.  Ao despedir-se do casal, mandou que se apressassem por sair, aproveitando o fato de que o irmão de Nambi, chamado Warumbe (a Morte), estava fora de casa; recomendou-lhes também que não voltassem para apanhar o que quer que tivessem esquecido.  Durante a caminhada, porém, Nambi verificou que chegara a hora de dar de comer a galinha; já que esquecera o milho, consentiu em que Kintu voltasse a casa para buscá-lo.  Mugulo, o pai, ao rever o genro, irritou-se pela desobediência; Warumbe, a Morte, estando de novo em casa, fez questão de acompanhar Kintu; toda a resistência foi inutil; a Morte desceu corn o casal para a terra, onde até hoje habita com os homens.
Os pigmeus contam corn a Divindade (Mugasa) a princípio criou dois rapazes e uma moça, corn os quais vivia em amizade na floresta, como um pai com seus filhos, num lugar de toda bonança: nada faltava aos homens, nem tinham que recear aiguma perspectiva de morte.  Mugasa apenas lhes proibira que procurassem ver a sua face.  Habitava uma tenda, diante da qual diariamente a jovem tinha que depositar lenha para o fogo e um jarro digua.  Um dia, porém, a moça, vencida pela curiosidade, escondeu-se atrás de uma árvore, ficando a espreita do “Pai”, que havia de aparecer.  De fato, ela o pôde ver, quando estendia o braço reluzente de ornamentos a fim de apanhar o jarro.  A menina alegrou-se então profundamente e guardou o segredo do ocorrido.  Mugasa, porém, percebera a desobediência.  Chamou os três irmãos à sua presença e Ihes censurou a falta, predizendo-lhes que havia de os deixar; para o futuro, a indigência e a morte pesariam sobre eles.  Os prantos das três criaturas não conseguiram deter a sentença; certa noite, Mugasa partiu rio acima, e não foi mais visto.  Quanto ao primeiro filho que nasceu; a mulher, morreu após três dias de existência…
 
Graciosa é a história que narram os japoneses: o princípe Ninighi se enamorou pela princesa “Florescente como as Flores”. 0 pai da jovem, que era o Deus da Grande Montanha, consentiu em seu casamento, e deixou-a partir corn sua irmã mais velha “Alta como as Rochas”.  Esta porém, era tremendamente feia, de sorte que o noivo a mandou voltar para casa.  Em consequência, o velho deus amaldiçoou o genro, e declarou que sua posteridade seria frágil e delicada como as flores!
Os Bataks de Palawan (Filipinas) contam que o seu deus costumava ressuscitar os mortos.  Todavia certa vez os homens o quiseram enganar, apresentando-lhe um tubarão enfaixado como um cadáver.  Quando a Divindade descobriu a astúcia, amaldiçoou os homens, condenando-os a ficar sujeitos ao sofrimento e à morte.
Tais lendas podem ser tidas como expressões paralelas ao relato do pecado original apresentado no livro do Gênesis cap.3.
1.4. No Existencialismo Moderno
Os pensadores existencialistas dos séculos XIX/XX deram ao pessimismo a sua forma mais veemente.  Para eles, a angústia é nota dominante da vida humana.  “O arrepio da angústia corre incessantemente através do ser humano” (Martin Heidegger, tl 976). 0 homem passa do nada para o nada, e a vida presente não tem sentido.  Disto se original no baixo Existencialismo, a tendência a gozar desenfreadamente dos bens deste mundo.
De modo especial, interessa o pensamento de Karl Jaspers (t 1969), que, sem abandonar o pessimismo, quis valorizar a morte humana nos seguintes termos:
A morte, penetrando antecipadamente todas as ações do homem, impõe a este o dever de viver a cada momento de modo a poder enfrentá-la corn seguranga. O individuo é assim convidado a mobilizar, em cada um dos seus atos, todas as suas energias; a morte leva a plenitude este profundo esforço; consuma o próprio homem a sua vida.  A morte, porém, é o ponto final posto a existência; de modo nenhum é passagem para uma vida melhor.  Jaspers julga que, se a existência se prolongasse depois da morte, o sentido e a seriedade da morte seriam rebaixados.
Reconhecemos, porém, que é preciso a consumação que se possa dar a vida na terra mediante o “estimulo” da morte, termo negativo apenas.  Somente Deus e a vida eterna podem oferecer ao homem a sua autêntica consumação.
1.5. Na sociedade contemporânea
Até o comego do século XX a morte era algo que a familia do moribundo acompanhava, geralmente em sua residência: depois de ter posto em ordem seus interesses terrenos, o paciente se deitava para morrer, e recebia o reconforto da sua fé religiões, cercado de amigos, familiares e empregados da casa. O falecimento era ato público, que os sobreviventes acompanhavam corn seriedade e certa solenidade.
Nos útimos decênios, porém, o conceito e a realidade da morte vem sendo mais e mais evitados.  A palavra “morte” tornou-se uma palavra-tabu banida.  Os cemitérios, que antigamente costumavam ficar contiguos era igreja paroquial, em lugar central da cidade, passaram para a periferia das cidades; tomam o aspecto de jardins ou de torres cilindricas, que dissimulam a realidade da morte.  As pessoas morrem frequentemente em hospitais, e não em casa de familiar em parte por causa do progresso da assistência médico-hospitalar, em parte também por causa das condições habitacionais das grandes cidades, onde predomina o regime de apartamentos.  Isto faz que o paciente morra, não raro, sem o conforto da presença de seus familiares, em ambiente estranho e frio.
Examinemos agora a corrente – muito menos densa – de pensadores não cristãos qua procuravam ver na morte algo de positivo.
Lição 2: Otimismo frente a morte
2.1. Entre os gregos pró-cristãos
Encontra-se entre os gregos o ideal do herói. É aquele qua morre corn dignidade por uma causa nobre, especialmente pela pátria (pelis) ou pelos amigos.  A sua morte era tida como vitória gloriosa, qua o herói associava ao seu nome.  Em consequência, merecia o louvor dos posteros, junto dos quais a sua memória permanecia imortalizada; julgava-se qua os defuntos podiam ouvir algo desse louvor prolongado na terra.  Assim “morrer belamente” era o ideal do herói grego.
Havia tambdm na cultura helenista correntes dualistas, qua consideravam o corpo circere ou sepulcro.  Consequentemente, tinham da morte um conceito alvissareiro, pois ela seria a libertação da alma prisioneira da matéria, a possibilitaria ao indivíduo expandir plenamente a sua vitalidade.  Assim pensavam os 6rficos, os pitagóricos, Platão (em algumas de suas obras) a, no início da era cristã, os neoplatônicos a os gnósticos.  Para estes últimos, a existência no corpo era simplesmente morte, a a deposição do corpo era o início da verdadeira vida.  Muito significative é a seguinte passagem do Corpo Hermético, escrito gnóstico do século III d.C.:
‘Em primeiro lugar, é preciso rasgares a túnica qua trazes…, a morte viva, o defunto sensitivo, o sepulcro portitil’ (7,2).
2.2. Na Filosofia moderna
Alguns autores esperam, após a morte, nova vida semelhante e presente.  São os reencarnacionistas, qua julgam que, através de sucessivas encarnações a desencarnações, a alma humana se vai purificando a aperfeiçoando.  Ver Módulo 7 deste Curso.
Friederich Nietzsche (t 1900), sem professar o espiritismo, apregoa um “eterno retorno” ou interminável renascer do ser humano; queria, com isto, dissipar o terror qua as ideias de Morte a Juizo Supremo lhe suscitavam. O eterno retorno possibilitaria o formato do “Super-Homem”, ou seja, do homem dotado de poder sobrenatural, qua dita as normas ao universo inteiro, a Verdade a  Moralidade, a Natureza e a História.
O problema qua filósofos pagãos e autores não cristãos tanto discutiam sem chegar a explicação satisfatória, e iluminado pela Revelação cristã, qua propõe sobre o assunto uma visão muito tranquila, digna realmente de um Deus Sábio e Bom, como se verá no Módulo seguinte.
MODULO 3: A MORTE (11) – CONCEITO CRISTÃO
Lição 1: O conceito cristão da morte
1. Para o cristão, a morte não deixa de ser um fenômeno natural.  Compreende-se que se dC- a separação de corpo e alma, visto que os órgãos corpóreos (coração, pulmões, fígado…) se vai desgastando, a tal ponto que, cedo ou tarde, o organismo já não pode preencher as funções da vida; por isto a alma – princípio vital (espiritual e imortal) – se separa do corpo.
Todavia a morte brutal e dolorosa, como ela é atualmente, decorre do pecado dos primeiros pais.  A S. Escritura ensina-o enfaticamente:
‘Deus não fez a morte nem experimenta alegria quando perecem os vivos.  Criou todas as coisas para que tenham existência’ (Sb 1, 13s).
‘Deus criou o homem para a imortalidade, e o fez imagem de sua própria natureza. Foi por inveja do diabo que a morte entrou no mundo’. (Sb 2,23s).
‘Por meio de um só homem o pecado entrou no mundo e, pelo pecado, a morte; e assim a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram’ (Rm 5,12).
2. Eis porém que o Deus de bondade, que criou o homem, não o abandonou a sua triste sorte.  Em tempo oportuno, o próprio Deus assumiu a carne humana; tomou sobre si a morte corn todas as angústias precursoras e ressuscitou; assim Jesus Cristo venceu a morte e dela nos libertou.
O Senhor obteve o triunfo sobre a morte em favor do gênero humano, a fim de que cada indivíduo saiba que, embora deva morrer dolorosamente em consequência da culpa original, a morte não é para ele mera sanção, mas é a passagem para a vida definitiva. Diz o Apóstolo:
“Pois que seus filhos participam da carne e do sangue, também Ele quis ter parte na carne e no sangue, a fim de, por sua morte, reduza a impotência àquele que tinha o império da morte, isto é, o demônio, e libertar os que, por temor da morte, estavam sujeitos à escravidão durante toda a vida” (Hb 2,14; ct 2Tm 1,10).
Jesus assim se apresenta como o segundo Adão, que nos comunica a vida, e vida sem fim, em oposição ao primeiro Adão, que nos transmitiu a morte. Cf. Rm 5,12-17.
3. Jesus nos comunica a sua vida mediante o Batismo; este nos incorpora a Cristo Cabeça (cf. l Cor 12,12) ou nos enxerta na verdadeira Videira (cf.Jo 15,1-5). Isto quer dizer que a vida de Jesus se prolonga no cristdo; é-nos dada sob a forma de um gérmen, que tende a expandir-se cada vez mais através das nossas atividades e transfigurar o corpo no dia em que este ressuscitar.
4. Esta situação leva o cristão a fazer uma revisao dos valores do mundo presente.
Não há propriamente morte para o cristão.  Ele sofre, sim, as misérias da carne como os demais homens; mas as suas mazelas sdo as de um membro de Cristo; o que quer dizer que elas, fazendo sofrer, levam à verdadeira vida e a glória definitiva.  “O corpo do regenerado torna-se a carne do Crucificado”, diz S. Leão Magno (+ 461).  Quanto mais esse corpo se configura ao de Jesus pelo padecimento, tanto mais também se Ihe assemelhará na glória futura; todo sofrimento, portanto, vem a ser um rejuvenescimento ou uma antecipada participação da glória de Cristo, como diz São Paulo:
‘Trazemos incessantemente em nosso corpo a morte de Jesus, a fim de que a vida de Jesus se manifeste, também ela, em nosso corpo’ (2 Cor 4,10).
Sofrer e morrer significam, para o cristão, estender; a sua carne os sofrimentos e a morte de Cristo vitorioso; por isto o mesmo Apóstolo pode afirmar:
“Enquanto o nosso homem exterior vai definhando, o nosso homem interior se vai renovando de dia a dia” (2 Cor 4,16).
0 cristão pode muito bem dizer: assim como, para quem não tem fé, a vida presente é toda dominada pela tremenda perspectiva da morte, que lhe vai absorvendo as energias, assim, para o cristão, a morte presente é toda iluminada pela perspectiva da vida que nao é meramente futura, mas que ele já possui em gérmen e que nele vai desabrochando progressivamente até a ressurreição gloriosa. é o que o gráfico abaixo significa:
> = Velho homem
< = Novo homem
0 ângulo que se fecha, representa a vida corpórea, biológica, sujeita ao definhar e a morte, ao passo que o ângulo que se abre designa nossa vida espiritual, elevada; filiação divina pelo Batismo e os demais sacramentos. É em consideração desta que o Senhor Jesus pode dizer:
‘Ouem comer do pão que desce do céu, não morrerá’ (Jo 6,50).
‘Quem crê em mim, mesmo que estivesse morto, há de reviver, e todo aquele que vive e crê em mim, jamais morrerá’ (Jo 11,25 s).
“Em verdade, em verdade eu vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou possui a vida etema…. passou da morte para a vida’. (Jo 5,24).

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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