Antropologia e Generalidades – EB – Parte 2

Escatologia
No século XX, porém, nem a consumação do universo nem a do individuo merecem a atenção da sociedade em geral.  Instaurou-se a aversão generalizada e temítica da morte e de seus concomitantes; registra-se a tendência a afastar qualquer sinal de tais realidades, como se dirá mais explicitamente no Módulo 2 deste Curso.
Tal tendência, porém, representa uma fuga ilusória.  “A morte é a única certeza que o ser humano possa ter desde que nasce”, diz-se comumente.  Dai a importância de nos dedicarmos a tal tema nos Módulos deste Curso.
3.2. Sobriedade nas afirmações
A morte e a vida póstuma suscitam facilmente a imaginação de cristãos e não-cristãos.  Muitas estórias a lendas populares se propagam em torno do assunto: os mortos voltam, enviam mensagens, assustam os vivos…. como narram muitos escritores e mestres.  Essas estórias que geralmente têm seu fundamento na fantasia dos vivos ou, não raro, em fenômenos parapsicológicos, consolam ou apavoram.  Correspondem, de certo modo, a uma necessidade do ser humano, qua quer continuer am contato corn os seus semelhantes falecidos.
A Igreja, consciente de que a imaginação pode tornar infantis ou ridículas as verdades da fé, pede aos pregadores que se mantenham sóbrios e discretos ao descrever o além.  Digam o qua é certo, enfatizando-o bem; proponham o hipotético como hipotético a abstenham-se de ir além de tais limites, criando concepções ou imagens da própria fantasia.
Eis palavras do Concílio de Trento datadas de 1563:
“O Sacrossanto Sínodo prescreve aos Bispos vigiem para qua a autêntica doutrina do purgatório, recebida dos Santos Padres a dos Santos Concilios, seja pelos cristãos aceita na fé, sustentada, ensinada a apregoada com diligência, Junto a gente simples, porém, as pregações populares devem ser isentas das questões difíceis e sutis, que não são de utilidade para edificar, a das quais não se retira proveito para a piedade.  Não permitam os Bispos qua se divulguem a se discutam pontos incertos ou aparentemente falsos.  Proibam como escandalosos a ofensivos aos fiéis os temas qua derivam de mera curiosidade, qu nutrem superstições ou se inspiram de lucro vergonhoso’ (Denzinger Schenmetzer’, Enchiridion Symbolorum … ng 1820 [9831).
3.3. Topografia do Além
A mentalidade judaica antiga, associada ao sistema geocêntrico, criou certa topografia do além; imaginou o céu “Iá am cima” a o inferno “Iá embaixo” (inferno vem de infra, em baixo). É espontâneo ao ser humano conceber o além como uma edição melhorada a ampliada do aquém: teria seus jardins, suas luzes, flores, instalações materiais… É preciso que o fiel catófico se dê conta de qua tais imagens são meras projeções subjetivas, destituidas de fundamento objetivo. O Apóstolo São Paulo observa: “O que os olhos nã viram, os ouvidos não ouviram a o coração do homem jamais concebeu, eis o que Deus preparou para aqueles qua o amam” (I Cor 2,9).
A necessidade de sobriedade do discurso escatológico tornar-se-,ia sempre mais clara a medida que prosseguirem os estudos deste Curso.
Lição 4: Plano do Curso
O tratado dos Novíssimos divide-se am duas partes corn suas sub-partes, como se segue:             

morte
juizo particular
 céu
 individual          

purgatório
 inferno
limbo das crianças
Escatologia
segunda vinda de Cristo (parusia)
ressurreição da carne
coletiva juízo universal
céu novo e terra nova
I – Doravante citado com D.-S.
A Escatologia individual diz respeito aos acontecimentos qua afetario cada individuo no fim da sua jornada terrestre.  A Escatologia coletiva compreends a consumaqio da hist6ria 9 do universo ou os acontecimentos relacionados corn o fim dos tempos.
Os Módulos deste Curso desenvolveu cada uma das unidades do tratado, seguindo a ordem atrás proposta.
O TEMPO
São palavras de Sêneca (t 65 d.C.), filósofo estóico, preceptor do Imperador Nero:
‘Meu caro Lucílio, reivindica a posse de ti mesmo.  Teu tempo até agora te era tomado, roubado; ale to escapava.  Recupera-o a cuida dele.  A verdade, ei-la: nosso tempo, arrancam-nos uma parte dela, desviam outra parte o resto nos escorre entre os dedos.  Todavia te é mais digno de consura perdê-lo por negligência.  E, para quem considere bem, uma boa parte da vida decorre em fatos desajeitados; outra parte decorre na vadiagem; a vida inteira passa enquanto fazemos coisas diferentes daquelas que deveríamos fazer.
Poderias citar-me um homem que dê valor ao tempo, quo reconheça o valor de um dia, que compreenda quo ele morre diariamente?  Nosso erro está em julgar que a morte está diante de nós.  No que se refere ao essencial, ela ih passou.  Uma parte da nossa vida está atrás de nós e pertence a morte.
Por conseguinte, caro Lucílio, faze o que dizes: segura cada hora.  Serás assim menos dependente do amanhã, pois tu te terias apoderado do dia presente.  Os homens adiam a vida para mais tarde.  Enquanto o fazem, a vida se escoa.
Lucílio, tudo se acha fora do nosso alcance.  Somente o tempo nos pertence.  Este bem fugidio, escorregadio, éa única coisa de qua a natureza nos fez proprietários.  E o primeiro que sobrevem, no-lo arrebata. As pessoas são loucas: diante do mínimo presente, de quase nenhum valor, cada qual se sente obrigado a retribui-lo, ao passo qua ninguém se julga obrigado em virtude do tempo quo lhe é concedido, tempo qua é a única coisa qua homem algum pode retribuir, seja ele o mais grato dos homens’ (Sêneca, Carta a Lucilio I § 2).
A MORTE QUE NAO É MORTE
“Não devemos chorar a morte dos entes queridos.  Não é certo lamentar-se como particular desgraça o qua se sabe atingir a todos.  Seria desejar subtrair-se ao destino geral, não aceitar a lei comum, não reconhecer a igualdade de natureza, seguir os sentimentos carnais e ignorar a finalidade do corpo.  Haveria algo mais tolo do que desconhecer o que se é, querer parecer o qua não se é… algo de menos inteligente do que, sabendo o que deve acontecer, não lograr suportá-lo quando acontece?  A própria natureza nos interpela a nos retira da dor com um modo de consolar que lhe e todo próprio.  De fato, não há sofrimento tão profundo, tormento tão acerbo que não ache algum lenitivo;  é a natureza que oferece aos homens, precisamente porque são homens, desligando seu espírito da dor, mesmo nas situações mais tristes a lutuosas.  Houve povos, dizem, que se afligiam com o nascimento de um homem, ao passo qua celebravam festivamente sua partida.  Isto não é totalmente destituído de significado, pois acreditariam dever lamentar os que se põem ao leme do barco am mar tempestuoso, como é a vida; pensariam, ao contrário, não ser errado alegrar-se corn os qua escapavam as borrascas da vida.  Masmo n6s, cristios, esquacemos o dia do nascimento de nossos santos,e festeiamos o de seu retorno iL pitria.
De acordo corn a ordem natural, portanto, não é justo dar excessivo lugar ao pesar, se não se deseja reclamar uma especial exceção ao curso da natureza, recusando-se a sorte comum.  A morte, corn efeito, é comum a todos, sem distinção de pobres a ricos.  E, embora tenha vindo ao mundo por culpa de um só homem, passou a todos, a ponto de devermos considerar autor da morte o que foi princípio do gênero humano.  Mas igualmente por obra de um só veio para nós a ressurreição!  Não haveria então qua desejar subtrair-nos ao flagelo trazido pelo primeiro, para qua assim possamos obter a graça do segundo.  Cristo, diz a Escritura, veio para recuperar o qua estava perdido, a fim de reinar deste modo não só sobre os vivos, mas também sobre os mortos.  Em Adão nós caimos, fomos expulsos do paraíso a morremos: como poderia o Senhor reconduzir-nos a si, se não nos encontra em Adão?  Neste decaimos sob o poder do pecado e da morte, em Cristo nos tornamos justificados.  A morte é um débito comum; todos devemos suportar-lhe a paga…

Considero um ultraje qua se faz a piedosa memória dos defuntos o considerá-los perdidos a o preferir esquecê-los antes que confortá-los corn nossos sufrágios; o pensar neles com temor e não com amor a benevolência; o temer recordá-los, ao invés de procurar-lhes a paz; o nutrir enfim mais receio do qua esperança, quando se pensa em seus méritos, como se Ihes competisse mais o castigo do que a imortalidade.
Vem contudo a objeção: ‘Mas perdemos os nossos caros! ‘Sim, porém não é esta a sorte que comungamos corn a terra a com os elementos: a de não reter para sempre o que nos foi emprestado por algum tempo?  A terra geme sob o arado, é frustrada pela chuva, batida pela tempestade, ressecada pela geada, queimada pelo som; tudo isto, para qua frutifique a da a colheita de cada ano.  Apenas se reveste de múltiplos encantos e logo daí vem desfeita.  De quanta coisa se vê privadal Mas não a lamentar a perda de seus frutos, pois os produziu para perdê-los.  Nem se recusa a produzir outros no futuro, embora Ihes viu ser de novo tirados. O céu também, ele não está sempre figurando com a grinalda das estrelas, nem a aurora sempre o ilumina ou o douram os raios de sol, mas bem regularmente se torna velado pela fria neblina da noite.  Que há de mais grandiosa que a luz, de mais esplendoroso que o sol?  Pois ambos desaparecem cada dia a nós suportamos isto sem reclamar, pois sabemos qua voltarão.  Aqui se mostra a paciência qua deves ter quando também se vai os qua te sfio caros.  Não te entristeces quando os astros desaparecem.  Por que há de afligir-te a morte do homem?”
(S. Ambrósio, Sobre a Morte de seu irmão Sitiro).
MÓDULO 2: A MORTE (1) – A FILOSOFIA
Entramos agora na primeira unidade da Escatologia individual: a morte.
A morte é, sem dúvida, um dos fenômenos que mais falam ao homem. O seu caráter inexorável e os mistérios que a cercam, sempre atrairam os pensadores.  Bem se entende isto: uma das necessidades mais imperiosas que o homem ressente, é a de explicar a sua presenga neste mundo; para tanto, é preciso perscrutar o significado da etapa final, que é a morte; é preciso responder a questão: “Para onde vamos?”
A morte é mesmo alguma coisa que perpassa toda a vida do homem na terra, como já o verificava o filósofo Sêneca (t 65 d.C. aproximadamente):
“Que individuo me podes apontar… consciente de que todos os dias vai morrendo?  Com efeito, nós nos enganamos precisamente por considerar a morte como algo de futuro; uma grande parte dela já se passou.  Todos os anos já vividos está em poder da morte’ (epístola 1,2).
Por isto, desde a antiguidade se dizia que a Filosofia tende primeiramente a ensinar o homem a morrer; é o que afirma Platão, o filósofo grego (430-348 a.C.):
‘Aqueles que, no sentido preciso do termo, se aplicam a filosofar, exercitam-se a morrer, e a ideia de estar um dia morto é, para eles, menos que para os outros, motivo de temor’ (Phaidon 67s).
Muito variadas no decorrer dos séculos foram as tentativas de explicar o sentido da morte, fora do Cristianismo. Examinaremos as principals, para melhor perceber o significado da mensagem que a Revelação cristã trouxe sobre o assunto.
Lição 1: Pessimismo perante a morte
A morte apareceu aos homens, desde a antiguidade, como um mal.  Eis aigumas modalidades desse pessimismo:
1.1. Na literatura grega pró-cristã
Alguns pensadores gregos deploravam a morte como algo que projeta sua sombra sobre toda a vida do homem, e dela faz uma ilusão ou um sonho, uma comédia ou uma tragédia.  A prova de que a morte é um mal, é que ela não afeta os deuses; de fato, a mitologia atribuia aos deuses (Júpiter, Mercúrio, Marte, Vênus … ) orgias, bacanais, guerras…. não, porém, a morte; os homens fazem as mesmas coisas e morrem, de modo que a diferença entre os deuses e os homens estaria na athanasia, imortalidade, que privilegia os deuses.
A morte coloca o homem numa região de sombras e incertezas chamada Hades.  Ver ainda a propósito o Módulo 6 deste Curso.
Não faltava quem procurasse temperar estas impressões corn um precário consolo: a vida mesma, diziam alguns gregos, é um bem duvidoso, cheio de fadigas e penúrias, de modo que, por vezes, melhor seria ao homem não ter nascido ou ter morrido imediatamente após o parto; repetiam o axioma: “Aquele que os deuses amam, morre jovem”.  Consequentemente, o suícidio podia ser tolerado como libertação do sofrimento.  Não obstante, confessavam, quando se aproxima a morte, nçao há quem queira morrer!
1.2. No estoicismo greco-romano
0 pessimismo tomou forma mais atraente na escola estóica.  Esta ensinava que a morte é algo de indiferente, pois só há um bem (a virtude) e um mal (o vício).  Por conseguinte, o estóico devia convencer-se de que morrer é um acontecimento natural, que não amedronta; o suícidio, desde que “razoavelmente justificado”, seria plenamente lícito.
Pregando a apatia (apatheia), o estóico se tornava estranho não só a morte, mas a própria vida; não era um entusiasta nem um amigo do viver.  Por isto, certa vez, o fundador do Estoicismo – Zenio de Citio (t 262 a.C.) – tendo levado um tombo que Ihe parecia fatal, considerou-se feliz por terminar a sua vida e atirou-se nos braços da morte exclamando: “Já vou ter contigo; por que me chamas?”
Um tal desprezo da morte, como se esta não contrariasse os íntimos anseios do homem, era artificial e violento. O Estoicismo, querendo negar o caráter sinistro do fenômeno, vem a ser a expressão de um desespero agudo.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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