Anna Catharina Emmerich – EB (Parte 1)

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb
Nº 458 – Ano: 2000 – p. 313


“VIDA, PAIXÃO E GLORIFICAÇÃO DO CORDEIRO DE DEUS”

Anna Catharina Emmerich

Em síntese: Anna Catharina Emmerich foi uma Religiosa agostiniana alemã do século passado, que deixou o relato de visões e revelações minuciosas ainda hoje citadas com certa freqüência.  Nada do que ela narra de peculiar é artigo de fé.  A crítica sadia levanta interrogações a respeito. A seguir, vai proposto um esboço biográfico de Catharina acompanhado de alguns espécimens de suas revelações.

Ainda em nossos dias ouve-se citar Anna Catharina Emmerich, vidente alemão e Religiosa agostiniana do século passado, que deixou o relato de suas visões ao poeta Clemente Brentano.  Tais visões e revelações abarcam vasto temário relativo ao Senhor Jesus, à sua Mãe Ssma., aos Apóstolos e outros Santos, apresentam minúcias que podem impressionar o leitor, mas não são de fé.  Foram recentemente publicadas de novo em português num volume intitulado “Vida, Paixão e Glorificação do Cordeiro de Deus”, volume que tem chamado a atenção para a figura de Anna Cataharina. – Eis por que, nas páginas subseqüentes, apresentaremos breve esboço biográfico de Anna Catharina assim como alguns espécimens de seus relatos.

1.  Anna Catharina Emmerich: quem foi?

Anna Catharina nasceu aos 8 de setembro de 1774 em Flamske (Vestfália), em família de modestos camponeses.  Diz-se que, desde criança, foi agraciada com dons extraordinários: via freqüentemente o anjo da guarda e brincava com o Menino Jesus; Maria Ssma. E outros Santos lhe apareciam muitas vezes.  Os pais a censuravam, freqüentemente e nunca a elogiavam.  Em sua adolescência trabalhou nos campos, pastoreando rebanhos.  Aos dezesseis anos, concebeu a vocação religiosa, que ela só conseguiu realizar aos vinte e nove anos de idade. Fez-se agostiniana em Duelmen (Vestifália).

Em 1812 teve uma visão importante, à qual se sucederam vários acontecimentos assim descritos pelo livro em foco:

“Apareceu-lhe o Divino Salvador, como um jovem resplandecente e entregou-lhe um crucifixo, que ela apertou com fervor de encontro ao coração.  Desde então lhe ficou gravado no peito um sinal da cruz, do tamanho de cerca de três polegadas, o qual sangrava muito, a princípio todas as quartas-feiras, depois nas sextas-feiras, mais tarde menos freqüentemente.  A estigmatização deu-se-lhe poucos dias depois, a 29 de Dezembro.  Nesse dia, às 3 horas da tarde, estava deitada, com os braços estendidos, em êxtase, meditando na Sagrada Paixão de Jesus.  Viu então, numa luz brilhante, o Salvador crucificado e sentiu um veemente desejo de sofrer com Ele.  Satisfez-se-lhe esse desejo, pois saíram logo das mãos, dos pés e do lado do Senhor raios luzídios cor de sangue, que penetraram nas mãos, nos pés e no lado da Serva de Deus, surgindo logo gotas de sangue nos lugares das chagas.  Abbé Lambert e o confessor da vidente, Pe. Limberg, viram-nas sangrar dois dias depois, mas com sábio propósito fingiram não dar importância ao fato, na presença da Serva de Deus.  Ela mesma procurava esconder os sinas das chagas, o que lhe era fácil, porque desde o dia 2 de Novembro de 1812 estava de cama, adoentada.  Desde então não pôde mais tomar alimento, a não ser água, misturada com um pouco de vinho, mais tarde só água ou, raras vezes, o suco de uma cereja ou ameixa.  Assim vivia só da sagrada Comunhão. Esse estado e a estigmatização tornaram-se públicos na cidade, em março de 1813.  O Vigário de Duelmen, Pe. Rensing, encarregou dois médicos, os Dra. Wesener e Krauthausen, como também o confessor, de fazerem um exame das chagas, que freqüentemente sangravam.  Os autos foram mandados à autoridade diocesana de Muenster, a qual enviou o Ver. Pe. Clemente Augusto de Droste Vischering, mais tarde Arcebispo de Colônia, o deão Overberg e o conselheiro medicional Dr. Von Drueffel a Duelman, para fazerem outra investigação, que durou três meses.  O resultado foi a confirmação da verdade das chagas, da virtude e também o reconhecimento do caráter sobrenatural do estado da jovem religiosa.

Também a autoridade secular, querendo examinar e “desmascarar a embusteira”, mandou, em 1819, uma comissão de médicos e naturalistas; isolaram-na por isso em outra casa, rigorosamente observada do dia 7 a 29 de agosto, o que lhe causou muita humilhação e sofrimento; também o resultado desse exame lhe foi favorável.

No ano anterior, viera visitá-la pela primeira vez o poeta Clemente Brentano, recomendado pelo deão Overberg. A 17 de setembro ele a viu pela primeira vez.  Ela, porém já o tinha visto muito antes, nas visões e recebido ordem do Céu para comunicar-lhe tudo. “O Peregrino”, como o chamava, ficou até Janeiro de 1819, mas voltou de novo, para ficar com ela, no mês de Maio.  Foi para Catharina um amigo fiel até a morte, mas fê-la sofrer também às vezes, com seu gênio veemente.  Reconheceu a tarefa que lhe fora dada por Deus, de escrever as visões desta mártir privilegiada e dedicou-se a isso com cuidado consciencioso. “O Peregrino” escrevia durante as narrações, em tiras de papel, os pontos principais, que imediatamente depois copiava, completando-os de memória.  A cópia, a limpo, lia à Serva de Deus, corrigindo, acrescentando, riscando sob a direção de Catharina, não deixando nada que não tivesse recebido confirmação expressa…

Anna Catharina viu no êxtase toda a vida e paixão do Divino Salvador e de sua Santíssima Mãe; viu os trabalhos dos Apóstolos e a propagação da Santa Igreja, muitos fatos do Velho Testamento, como também eventos futuros. Tocando em relíquias, geralmente via a vida, as obras e os sofrimentos dos respectivos Santos.  Com certeza reconhecia e determinava as relíquias dos Santos, distinguindo em geral facilmente objetos sagrados de profanos …

Depois de muitos e indizíveis sofrimentos, chegou o dia de sua morte a 9 de fevereiro de 1824…

A 27 de janeiro recebeu a Extrema-Unção. Aumentaram-lhe as dores; mas repetia de vez em quando: “Ai, meu Jesus, mil vezes vos agradeço toda a minha vida; não a minha vontade, mas a Vossa seja feita”.  Na véspera da morte rezou: “Jesus, para Vós morro; Senhor, dou-Vos graças, não ouço nem enxergo mais”.  Quiseram mudar-lhe a posição, para aliviá-la, mas Anna Catharina disse: “Estou deitada na cruz; deixem-me, em pouco acabarei”.  Recebeu mais uma vez a sagrada Comunhão, a 9 de fevereiro. Suspirando pelo Divino Esposo, rezou diversas vezes: “Oh! Senhor, socorrei-me; vinde, meu Jesus”.  O confessor assistiu à moribunda, dando-lhe muitas vezes o crucifixo para beijar e rezando preces pelos moribundos.  Ela ainda lhe disse: “Agora estou tão sossegada; tenho tanta confiança, como se nunca tivesse cometido pecado”.  Deram justamente 8 horas da noite, quando exclamou três vezes, gemendo: “Oh! Senhor, socorrei-me, vinde, oh! Meu Senhor!”  E a alma pura voou-lhe ao encontro do Esposo Celeste, para permanecer, como esperamos confiadamente, eternamente unida com Ele, na Infinita felicidade do Céu”. (pp. 17-21)

Eis como Anna Catharina descreve uma das cenas da Paixão do Senhor:

2.  Verônica e o Véu Sagrado

“A rua em que se movia o séquito de Jesus com a cruz, era longa, com uma leve curva para a esquerda e nela desembocavam várias ruas laterais.  De todos os lados vinha gente bem vestida, que se dirigia ao Templo; ao ver o séquito, uns se afastavam, com o receio farisaico de se contaminar, outros manifestavam certa compaixão.  Havia cerca de duzentos passos que Simão ajudava Jesus a carregar a cruz, quando uma mulher de figura alta e imponente, segurando uma menina pela mão, saiu de uma casa bonita, ao lado esquerdo da rua… Era Seráfia, mulher de Sirac, membro do Conselho do Templo, a qual, pela boa ação praticada nesse dia, recebeu o nome de Verônica (de “vera icon”: verdadeira imagem).

Seráfia tinha preparado em casa um delicioso vinho aromático, com o piedoso desejo de oferecê-lo como refresco a Jesus, no caminho doloroso  para o suplício.  Já tinha ido uma vez ao encontro do séquito, em expectativa dolorosa; vi-a velada, segurando pela mão uma mocinha que adotara, passar ao lado do séquito, quando Jesus se encontrou com a Santíssima Virgem. Mas, com o tumulto, não achou ocasião de aproximar-se e voltou às pressas para casa, para lá esperar o Senhor.

Saiu, pois, velada de casa para a rua; um pano pendia-lhe do ombro; a menina, que podia ter nove anos, estava-lhe ao lado, ocultando sob o manto o cântaro com o vinho, quando o séquito se aproximou.  Os que o precediam, tentaram em vão retê-la; ela estava fora de si de amor e compaixão.  Com a menina, que se lhe segurava, pegando-lhe o vestido, atravessou a gentalha, que ia dos lados e por entre soldados e carescos, avançou para a frente de Jesus e, caindo de joelhos, levantou para Ele o pano, estendido de um lado, suplicando: “Permiti-me enxugar o rosto de meu Senhor”.  Jesus tomou o pano com a mão esquerda e apertou-o, com a palma da mão de encontro ao rosto ensanguentado; movendo depois a mão esquerda, com o pano, para junto da mão direita, que segurava a cruz; apertou-o entre as duas mãos e restituiu-lhe, agradecendo; ela o beijou, escondendo-o sobre o coração, debaixo do manto e levantou-se.

Então a menina ofereceu timidamente o cântaro com o vinho; mas os soldados e carrascos, praguejando, impediram-na de confortar Jesus.  A audácia e rapidez dessa ação provocou um ajuntamento curioso do povo e causou assim uma pausa de dois minutos apenas na marcha, o que permitiu a Seráfia oferecer o véu a Jesus.  Os fariseus a cavalo e os carrascos irritaram-se com essa demora e mais ainda com a veneração pública manifestada ao Senhor e começaram a maltratá-Lo e empurrá-Lo.  Verônica, porém, fugiu com a menina para dentro de casa.

Apenas entrara no aposento, estendeu o véu sobre a mesa e caiu por terra desmaiada; a menina, com o cântaro de vinho, ajoelhou-se-lhe ao lado, chorando.  Assim as encontrou um amigo da casa, que entrara para visitar e a viu como morta, sem sentidos, ao lado do sudário estendido, no qual o rosto ensanguentado do Senhor estava impresso de um modo maravilhosamente distinto, mas também horrível.  Muito assustado, fê-la voltar a si e mostrou-lhe o rosto do Senhor.  Cheia de dor, mas também de consolação, Seráfia ajoelhou-se diante do véu exclamando: “Agora vou abandonar tudo, o Senhor deu-me uma lembrança”.

Esse véu era de lã fina, cerca de três vezes mais longo do que largo.  Costumava-se usar em volta do pescoço; às vezes usavam ainda outro em torno dos ombros.  Era uso ir ao encontro de pessoas aflitas, cansadas, tristes e doentes e enxugar-lhes o rosto; era sinal de luto e compaixão; nas regiões quentes também usavam dá-lo de presente.  Verônica guardava esse véu sempre à cabeceira da cama.  Depois de sua morte veio ter, por intermédio das santas mulheres, às mãos da Santíssima Mãe de Deus e dos Apóstolos e depois à Igreja”. (pp. 256-258).

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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