Alimentos contaminados com dioxinas: aumentam escândalos

Comportamentos
fraudulentos alteram a produção de alimentos

ROMA,
terça-feira, 25 de janeiro de 2011 (ZENIT.org) – Dioxina é uma denominação genérica para uma
gama de quase duzentas moléculas diferentes. As dioxinas têm causado medo. Na
Itália, a memória do desastre ambiental de Seveso ainda está bem viva: era 10
de julho de 1976 quando, após o meio-dia, uma nuvem de dioxinas de tipo TCDD –
talvez o tipo mais perigoso delas – saiu da fábrica da ICMESA (da gigante suíça
Roche), em Meda, e contaminou uma vasta área, especialmente a adjacente a
Seveso, na atual província lombarda de Monza-Brianza.

Quando a
temida substância tóxica foi descoberta na cadeia alimentar, os alarmes
dispararam. A grande maioria de casos de exposição à dioxina acontece graças a
alimentos contaminados (outra via de exposição, rara hoje em dia, é a combustão
de resíduos incinerados). A contaminação ocorre quando o homem come carne ou
alimentos gordurosos (as dioxinas aderem aos tecidos adiposos) ou ingredientes
de animais expostos à dioxina. Um exemplo são os frangos e seus derivados
descobertos no verão de 1999 na Bélgica: as aves foram criadas com rações
enriquecidas (legalmente) com gorduras contaminadas com dioxina de óleos
industriais.

Os alarmes
agora voltam a disparar. Desta vez, veio à tona no fim de 2010, na Alemanha, um
escândalo de ovos e carne de porco contaminados com dioxina. De novo a fonte da
contaminação foram as rações para os animais. A empresa
produtora Harles&Jentzsch, com sede em Uetersen, em
Schleswig-Holstein, comprou rações compostas e ácidos graxos de exclusivo uso
industrial da companhia Petrotec, que produz quase 100.000 toneladas por ano de
biodiesel em Emden (Baixa Saxônia). Enquanto a Harles&Jentzsch se
declarou insolvente diante dos primeiros pedidos de indenizações, a Petrotec,
que recorreu a laboratórios alemães e holandeses, afirma que não é a origem do
escândalo (Westfalen-Blatt, 13 de janeiro).

Casos como
estes convidam a refletir sobre os sistemas de produção no setor
agro-alimentício, crucial para a economia europeia. “O dano é imenso”, admitiu
a ministra federal de Alimentação, Agricultura e Defesa dos Consumidores, Ilse
Aigner (CSU). “Este caso terá graves consequências”, anunciou, acrescentando
que “os produtores de ingredientes para rações têm uma responsabilidade
concreta” (Frankfurter Rundschau, 13 de janeiro).

O enésimo
escândalo de alimentos contaminados com dioxina chama a atenção para a
complexidade da produção de alimentos em cadeia. Antes de
chegar aos nossos pratos, um alimento e seus ingredientes passam por muitas,
talvez excessivas, mãos. Basta pouco para contaminá-los; ou para contaminar as
rações dos animais que os originarão, como aconteceu na Bélgica, onde o uso de
tanques sujos parece ter sido a fonte da contaminação.

Na origem
de outros escândalos, como o dos vinhos adulterados com dietilenoglicol, em
1985 na Áustria, ou o das rações alemãs com dioxina, há um comportamento
fraudulento, além de doloso. Por algum motivo,
a Harles&Jentzsch decidiu substituir um ingrediente por outro
completamente inadequado ao consumo humano, e não só uma vez, mas durante um
longo período: pelo menos 9 meses, segundo as autoridades de
Schleswig-Holstein. Neste caso, ficamos diante de uma grave distorção do
processo produtivo.

A
sofisticação alimentar representa uma verdadeira dissociação entre ética e
economia. O Papa Bento XVI reiterou diversas vezes que a economia não é nem
pode ser alheia à ética. “O setor econômico não é eticamente neutro nem
desumano ou antissocial por natureza. É uma atividade do homem, e precisamente
porque é humana, essa atividade deve ser articulada e institucionalizada
eticamente”, escreveu no ponto 36 da encíclica “Caritas in veritate” (29 de
junho de 2009). “A doutrina social da Igreja sempre sustentou que a justiça
afeta todas as fases da atividade econômica, porque em todo momento ela se
refere ao homem e aos seus direitos. A obtenção de recursos, o financiamento, a
produção, o consumo e todas as demais fases do processo econômico têm
ineludíveis implicações morais. Assim, toda decisão econômica tem consequências
de caráter moral” (ponto 37).

O Papa
explica que a atividade econômica “deve estar ordenada à consecução do bem
comum” (36), ou seja, o bem que o Concílio Vaticano II definiu como “o conjunto
de condições da vida social que possibilitam às associações e a cada um dos
seus membros a conquista mais plena e mais fácil da própria perfeição” (Gaudium
et Spes, 26). É uma definição enraizada no Catecismo da Igreja Católica
(nº1906).

Para Bento
XVI, uma economia baseada na busca do lucro rápido e imediato, despreocupada do
bem comum, é uma expressão da natureza pecaminosa da humanidade, fruto, por sua
vez, do pecado original. “A sabedoria da Igreja sempre nos convidou a não
esquecer a realidade do pecado original, nem sequer na interpretação dos
fenômenos sociais e na construção da sociedade: ‘Ignorar que o homem possui uma
natureza ferida, inclinada ao mal, abre espaço para graves erros no domínio da
educação, da política, da ação social e dos costumes’. A economia faz parte do
conjunto dos âmbitos em que se manifestam os efeitos perniciosos do pecado”,
observa no ponto 34 da “Caritas in veritate”, referindo-se sempre ao Catecismo
(nº 407) e à encíclica “Centesimus Annus”, de João Paulo II (ponto 25).

 Os
escândalos alimentares, com suas consequências – graves riscos para a saúde
pública, o sacrifício de multidões de animais (inclusive sadios, por medidas de
precaução), o dano econômico, grandes áreas contaminadas, etc… – demonstram
uma coisa: é necessária uma evangelização do processo produtivo e da economia.
Ou, como escreveu Bento XVI na “Caritas in veritate”, “uma civilização da
economia” (38)

(Paul de
Maeyer)

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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