“Alegra-te cheia de graça!”

bartolomc3a9_esteban_murillo_the_annunciationHoje a Igreja celebra a Solenidade da Anunciação do Senhor!

A Igreja celebra em 25 de março a Anunciação do Anjo a Virgem Maria”; pois, nove meses depois celebramos o seu Natal.

A Anunciação a Maria inaugura a “plenitude dos tempos” (Gl 4,4), o cumprimento das promessas e das preparações. Maria é convidada a conceber aquele em quem habitará “corporalmente a plenitude da divindade” (Cl 2,9). A resposta divina à sua pergunta “Como se fará isto, se não conheço homem algum?” (Lc 1,34) é dada pelo poder do Espírito: “O Espírito Santo virá sobre ti” (Lc 1,35).

O Espírito Santo é enviado para santificar o seio da Virgem Maria e fecundá-la divinamente, ele que é “o Senhor que da a Vida”, fazendo com que ela conceba o Filho Eterno do Pai em uma humanidade proveniente da sua. Torna-se, assim, “Mãe do Verbo humanado” (São Bernardo).

Diz o Catecismo que: “Deus enviou Seu Filho” (Gl 4,4), mas, para “formar-lhe um corpo” quis a livre cooperação de uma criatura. Por isso, desde toda a eternidade, Deus escolheu, para ser a Mãe de Seu Filho, uma filha de Israel, uma jovem judia de Nazaré na Galileia, “uma virgem desposada com um varão chamado José, da casa de Davi, e o nome da virgem era Maria” (Lc 1,26-27) (n.488).

“Quis o Pai das misericórdias que a Encarnação fosse precedida pela aceitação daquela que era predestinada a ser Mãe de seu Filho, para que, assim como uma mulher contribuiu para a morte, uma mulher também contribuísse para a vida” (Lumen Gentium, 56).

Alguns perguntam: “Mas, por que foi Maria a escolhida?” O santos doutores dizem que foi por sua superior humildade. E ela mesma canta isso: “Ele olhou para a humildade de Sua serva!”. Esta foi a razão. O mundo se perdeu pela soberba de Eva; foi resgatado pela humildade de Maria, a nova Eva. Santo Irineu (+200) ensina que “a obediência de Maria desatou o nó da desobediência de Eva”.

Muitas são as glórias de Maria Santíssima, “mais numerosas que as estrelas do céu”, diz S. Luiz de Montfort. Por isso ela mesma cantou no Magnificat que “todas as gerações a proclamarão bem–aventurada”. Não apenas os anjos e santos nos céus, mas também nós os pecadores glorificamos todos os dias a tão excelsa mãe de Deus. A Sagrada Escritura narra as glórias de Maria: “Entrando o anjo disse-lhe: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor é contigo” (Lc 1, 28).

Maria é convidada a alegrar-se, sobretudo porque Deus a ama e a cumulou de graça em vista da maternidade divina! A fé da Igreja e a experiência dos santos ensinam que “a graça é fonte de alegria” e que a verdadeira alegria vem de Deus. Em Maria, como nos cristãos, o dom divino gera uma profunda alegria.

Em suas Catequeses sobre a Virgem Maria, o Papa João Paulo II disse que: “o fato de o mensageiro celeste a chamar assim, confere à saudação angélica um valor mais alto: é manifestação do misterioso plano salvífico de Deus a respeito de Maria. Como escrevi na Encíclica Redemptoris Mater. “A plenitude de graça indica ao mesmo tempo toda a profusão de dons sobrenaturais com que Maria é beneficiada em relação com o fato de ter sido escolhida e destinada para ser Mãe de Cristo” (n.9). “Cheia de graça”, é o nome que Maria possui diante de Deus. O anjo, com efeito, segundo a narração do evangelista Lucas, usa-o antes ainda de pronunciar o nome de “Maria”.”

Em Maria tudo procede de uma graça soberana. Tudo o que lhe é concedido não provém de nenhum título de mérito, mas unicamente da livre e gratuita predileção divina. O Arcanjo S. Gabriel anunciou o dom extraordinário da Imaculada Conceição de Maria e sua santidade perene. Ela desde o momento de sua concepção foi isenta – por graça divina – do pecado original. Se Maria Santíssima tivesse sido gerada com o pecado herdado de Adão, ou tivesse qualquer pecado pessoal, o Arcanjo Gabriel teria falhado chamando-a de “cheia de graça” (“gratia plena”). Santo Agostinho diz que ofende ao Filho quem diz que a Sua Mãe teve pecado.

“Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38). Ao dizer seu “sim” incondicional a Deus, Maria introduziu no mundo o Verbo Divino feito homem, Jesus Cristo. É a única criatura a “gerar o seu Criador” segundo a natureza humana. Deus não precisava, mas quis precisar nascer e depender dela enquanto homem. É um grande mistério. Diz o nosso Catecismo que ela foi eleita por Deus, desde toda eternidade para ser a Mãe do Divino Redentor (cf. Cat. §488).

Com o seu “Sim” Maria cooperou com Deus para o restabelecimento da concórdia entre Deus e os homens conforme está escrito: “Por isso, Deus os abandonará, até o tempo em que der à luz aquela que há de dar à luz” (Miq 5,2). Com o sim de Maria cumpre-se a Promessa de Deus de que a Mulher esmagaria a cabeça do demônio (Gn 3,15).

Maria é Filha de Deus Pai, esposa do Espírito Santo, mãe de Deus Filho! Sua relação com a Santíssima Trindade é plena; sua glória é exuberante, por isso ela canta: “Doravante todas as gerações me chamarão bem-aventurada” (Lc 1, 48).

Santa Isabel, mãe de João Batista logo a reconhece como Mãe de Deus; a chama de “Mãe do meu Senhor”. Os judeus só usavam a expressão Senhor para Deus. Isabel a chama de Mãe de Deus. “Donde me vem esta honra de vir a mim a Mãe do meu Senhor? Pois assim que a voz da tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança estremeceu de alegria no meu seio”. (Lc 1, 44)

Jesus disse que “dos nascidos de mulher nenhum foi maior que João” (cf. Lc 7 28). Pois este João (Batista), mais importante que todos os patriarcas, profetas e santos do Antigo Testamento, ao ouvir a doce voz de Maria “estremeceu de alegria”. O Espírito Santo, que nele habitava, exultou de alegria ao ouvir a voz da doce Mãe! Portanto, nós também exultemos de alegria ao ouvir o doce nome de Maria!

Maria foi a que mais cooperou com Deus na obra da nossa Redenção, disse o Papa João Paulo II. Uma lança transpassou o coração do Cristo na Cruz; mas outra espada de dor transpassou o coração de Maria no Calvário! Deus revela ao profeta Simeão como Nossa Senhora partilharia com Jesus Cristo a Sagrada Paixão. “E uma espada transpassará a tua alma” (Lc 2, 35). Jesus sofreu a Paixão, Maria a compaixão. Junto com o sacrifício expiatório, doloroso e único de Jesus Cristo no Calvário, subiu também aos céus, o sacrifício doloroso de Nossa Senhora.

Nas bodas de Caná da Galileia, ela mostrou ao mundo o poder intercessor diante do seu Filho. Mesmo sabendo que não era ainda o momento dele realizar os milagres, ela intercede pelo casal de noivos: “Eles não têm mais vinho!”… Disse então sua mãe aos serventes: ‘Fazei o que ele vos disser’” (Jo 2, 3-5). Na mais plena confiança, diz aos serventes: “façam o que ele lhes disser”. Ela deu início ao ministério de Jesus pela sua intercessão. Sua intercessão é infinitamente mais eficaz do que as orações de todos os santos que oram diante de Deus por nós sem cessar.

Maria “conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração” (Lc 2, 19.51). Eis o exemplo da perfeita discípula de Jesus.

Finalmente aos pés da Cruz, o apóstolo João representava todos os discípulos de Jesus, de todos os tempos e lugares. Neste momento Jesus consagrou Maria, Mãe espiritual dos apóstolos e de todos os batizados. “Quando Jesus viu sua mãe e perto dela o discípulo que amava, disse à sua mãe: ‘Mulher, eis aí teu filho’. Depois disse ao discípulo: ‘Eis aí tua mãe’” (Jo 19, 26-27).

Alegra-te “gratia plena”!

Prof. Felipe Aquino

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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