O caso Galileu – EB (Parte 1)

Justus_Sustermans_-_Portrait_of_Galileo_Galilei,_16361. O Mito

Três séculos e meio de uma publicidade distorcida e laicista fizeram nascer o mito de que Galileu foi um “mártir da ciência e da liberdade de pensamento e a Igreja a costumeira inimiga da liberdade e do progresso humano”, comenta Cintra (1). Também transcrevemos o seguinte trecho, retirado de obra de Massara (2), página 28: “Não se tratou de um conflito entre ciência e religião, entre razão e fé, como uma certa literatura laica, claramente interessada, tem feito crer; mas de uma crise interna do organismo eclesiástico”.

Aliás, não é a única distorção histórica. Há muitas. Monumental, é por exemplo, a que apresenta a Idade Médica como uma época de obscurantismo e estagnação, o que não corresponde à realidade. Parece haver uma tendência de cada época denegrir a que veio imediatamente antes. Pense-se, por exemplo, na Renascença. Ou, atualmente, a atitude de muitos católicos, com suas críticas por vezes contundentes à Igreja de antes do Concílio Vaticano II. Parece que se baseiam em uma afirmação de Cristo, convenientemente deturpada: “Eu estarei convosco até a consumação dos séculos, porém só a partir do Concílio Vaticano II (…)”.

A seguir, reproduziremos afirmações errôneas sobre o caso Galileu, que conseguimos coletar. Algumas delas serão refutadas logo após serem enunciadas. As demais, no decorrer deste trabalho.

“Galileu foi condenado na Idade Média.” Esta vai até meados do século XV. Ora, Galileu nasceu em 1564. Ou seja, cerca de um século após o término da Idade Média.

“Galileu foi condenado por dizer que a Terra era redonda.” Ora, já na antiga Grécia isto era admitido por muitos. Por exemplo, Pitágoras (século VI a.C.) e seus discípulos falavam da esfericidade da Terra, da Lua e do Sol, bem como da rotação da Terra. E na Europa a esfericidade da Terra já tinha defensores quatro séculos antes de Galileu. Uma prova concreta já tinha sido dada pela expedição de circunavegação da Terra, comandada por Fernão de Magalhães, em 1521.

“Galileu teve Copérnico como discípulo.” Ora, Copérnico faleceu em 1543. Galileu nasceu 21 anos depois, em 1564.

“Galileu foi o autor da teoria heliocêntrica.” Ora, o sistema heliocêntrico deve-se a Aristarco de Samos, no século III a.C., cerca de 1.900 anos antes de Galileu publicar e defender suas concepções astronômicas.

“Galileu foi condenado porque defendia o sistema heliocêntrico.” Não, ele foi condenado pelo modo como o defendia.

Outras afirmações errôneas, que tentaremos esclarecer neste trabalho, são as seguintes: Galileu foi torturado, cegado, aprisionado em uma masmorra, queimado vivo, condenado por heresia.

Se quisermos analisar corretamente, e com a máxima isenção de ânimo possível, fatos ocorridos em outra época, é necessário que nos ponhamos a pensar com a mentalidade, os costumes e, importante, com os conhecimentos e o “senso comum” daquela época. Por isto, o capítulo “O Ambiente”.

2. O Ambiente

2.1. A Filosofia

Eram, principalmente, as de: a) Aristóteles e b) São Tomás de Aquino.

Aristóteles

Partia da observação dos fatos naturais, e a partir daí raciocina e chega a um conjunto de princípios gerais que permitam a compreensão do mundo material. Adota a astronomia geocêntrica, com a Terra, esférica e imóvel, no centro do universo. No mundo celeste, separado da terra pela esfera lunar, reina a perfeição. Na Terra, a imperfeição, coma geração, alteração e corrupção dos corpos, formados por quatro elementos básicos: terra, água, ar e fogo.

Antes de Galileu, na Idade Média, muitos filósofos e teólogos admitiam as idéias físico-astronômicas de Aristóteles, porém sem vinculá-las diretamente à Filosofia. Infelizmente, os aristotélicos da Renascença confundiram Filosofia e ciência.

São Tomás de Aquino

Na Suma Teológica, São Tomás de Aquino deixa bem claro que a realidade física, o fenômeno observado, é uma coisa; e outra são as teorias científicas que tentam explicá-lo: “Uma teoria deve salvar as aparências sensíveis” (isto é, deve estar de acordo com o que aparece aos sentidos, com a realidade física). “Isto, entretanto, não constitui uma prova suficiente e decisiva, porque talvez pudéssemos salvar as aparências sensíveis  com uma teoria diferente e mais simples”.

Em outras palavras, uma teoria científica não pretende corresponder à realidade, mas apenas explicá-la. Exemplifiquemos:

A teoria do contínuo, na engenharia. Admite-se, na engenharia, que a matéria é contínua, sem falhas, fissuras, vazios, poros, espaços entres cristais ou moléculas. É mais do que evidente que isto não corresponde à realidade. Mas as teorias baseadas neste postulado explicam satisfatoriamente o comportamento dos materiais e facilitam enormemente os cálculos, quer se trate de uma ponte, torre, barragem ou outra estrutura qualquer, quer se trate do movimento e de forças existentes nos líquidos e gases, tais como: sustentação de um avião, bolas com “efeito” (futebol, tênis, ping-pong) e mesmo no movimento do sangue nas veias e artérias, etc.).

Leia também: Ainda o caso Galileu – EB (Parte 2)

Ainda o caso Galileu – EB (Parte 3)

Ainda o caso Galileu – EB (Final)

Isaac Newton: “Tudo se passa como se a matéria atraísse a matéria na razão direta das massas e na razão inversa dos quadrados das distâncias” (gravitação universal). Note-se a modéstia do verdadeiro cientista. Não afirma, categórico: “a matéria atrai a matéria…”, mas, modestamente, sugere que “tudo se passa como se…”

Oven Gingerich (Ref. 3 pág. 91), astrônomo de Harvard: “Os átomos, como os imaginamos, não podem ser comprovados de um modo absoluto. O máximo que podemos dizer, é que o universo age como se fosse feito de átomos”. Novamente, um modesto “como se”, indicando que se pretende explicar a realidade, sem a pretensão de afirmar que é assim e não pode ser diferente.

O mesmo vale para o mundo psíquico: uma teoria pode explicar o comportamento humano, mas nada assegura que ela dê a razão real deste comportamento. E aqui penso nas teorias de Freud e de outros, conflitantes entre elas; cada autor rejeita explicações diferentes da sua, a qual, no seu entender, exprime a própria realidade.

2.2. A Astronomia

a – Sistema geocêntrico

É o sistema mais antigo, cuja origem é incerta. Na antiguidade apresentaram-no, entre outros, Hiparco (190 a 120 a.C.). No século II de nossa era, o grego Claudio Ptolomeu fez melhoramentos na hipótese de Hiparco, mostrando, por suas observações, que as órbitas dos planetas não podem ser circulares, como queriam Hiparco e Aristóteles, entre outros (o círculo era símbolo da perfeição). A Terra, imóvel, ocupa o centro do universo. Em torno dela giram, na seguinte ordem: Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter e Saturno.

Esta concepção perdurou não só na Antiguidade, mas também por toda a Idade Média, em parte pela adesão de Aristóteles ao geocentrismo, em parte pelas objeções postas ao heliocentrismo, como veremos mais adiante.

b – Sistema heliocêntrico

Aristarco de Samos (século III a.C.) foi o primeiro a adotar e ensinar o sistema heliocêntrico. De acordo com Aristarco, o Sol está imóvel no centro do universo, e à sua volta os planetas descrevem órbitas circulares; as estrelas fixas encontram-se em uma esfera cristalina. Avaliou que as distâncias entre as estrelas eram extraordinariamente superiores à distância entre Sol e Terra.

Não havia provas convincentes de que a realidade estivesse de acordo com esta teoria, mas ela justificava plenamente a regularidade do movimento dos planetas. Por outro lado, havia argumentos de peso contra ela, baseados nos conhecimentos e no “bom senso” da época, proveniente da observação de fenômenos naturais. O argumento de maior importância (creio que muitas pessoas, mesmo nos tempos atuais, não sabem como o refutar) é o seguinte:

Se a Terra gira em torno do Sol, é necessário que também gire em torno de si, para produzir o dia e a noite. Se ela gira em torno de si, deve haver um movimento relativo terra-ar e, portanto, para quem está parado na superfície da Terra, um vento com a mesma velocidade. Se estou andando a cavalo, pensavam, quanto mais rápido andar o cavalo, mais veloz o vento que sentirei, devido ao movimento relativo cavalo-ar. Se estou parado, não sobre o cavalo, mas sim na superfície da Terra, e ela está “correndo” em sua rotação, deverei sentir um vento correspondente. E qual a velocidade deste vento? Os gregos já tinham feito o cálculo. Mais precisamente, Eratóstenes, medindo a diferença de latitude entre Siena (atualmente, Assuan) e Alexandria, e medindo a distância entre estas duas cidades, determinou a circunferência da Terra, no Equador. Foi concluído que, se a Terra girasse sobre si mesma, a velocidade no Equador seria de cerca de 400 m/s (1.440 km/h). E esta seria a velocidade do vento causado pela rotação da terra, velocidade essa suficiente para destruir florestas, veículos, construções, etc. (Na realidade, a velocidade é ainda maior: 1.670 km/h.) Este vento não existe. Logo: a Terra não pode ter o movimento de rotação requerido pelo sistema heliocêntrico para formar dias e noites.

Outro argumento contra o sistema heliocêntrico exporemos a seguir:

cienciaefeSe uma pedra for atirada verticalmente para cima, enquanto ela sobe e desce, a Terra se desloca e a pedra chocar-se-á com o terreno em um ponto afastado do ponto de lançamento. Se, após seu lançamento, a pedra levar dez segundos para chocar-se com o terreno, no Equador ela estaria a quatro quilômetros a oeste de seu ponto de lançamento! Repito o comentário feito acima: hoje em dia, quantos saberão explicar por que isto não acontece?

Por estas e outras dificuldades, a teoria heliocêntrica foi abandonada, voltando a ser apresentada muitos séculos depois por Nicolaus Copérnico, nascido em Toruñ, Polônia, em 14/02/1493, e falecido em Frauenburg, Polônia, em 24/05/1543.

Copérnico estudou astronomia e matemática na Universidade de Cracóvia e, por três anos, Direito Canônico em Bolonha, Itália. Também frequentou as Universidades de Roma, Pádua e Ferrara. Em 1501 aceitou o posto de cônego da Catedral de Frauenburg, cidade onde fez suas observações astronômicas.

Reintroduziu o sistema heliocêntrico de Aristarco, com modificações, em dois trabalhos: em 1530: “Comentários sobre as Hipóteses da Constituição do Movimento Celeste”; em 1543: “Sobre a Revolução dos Corpos Celestes”.

Este último trabalho foi dedicado ao Papa Paulo III, que aceitou a dedicatória, sem problemas. E, mais ainda, o sistema proposto por Copérnico foi usado pela Igreja para reformar o calendário litúrgico, permitindo prever a data da Páscoa e, a partir dela, as demais datas do ano litúrgico. O sistema geocêntrico de Ptolomeu havia levado a erros cumulativos importantes. Os cálculos para definir as datas litúrgicas foram enormemente simplificados com o sistema heliocêntrico. Estes cálculos foram feitos pelo jesuíta e matemático Clavius.

Segundo Copérnico, o Sol ocupa o centro do sistema planetário. Em torno dele os planetas giram em órbitas circulares, na seguinte ordem: Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno.

c – Sistema misto

Proposto por Tucho Brahe (1571 – 1630), astrônomo dinamarquês. Tornou-se conhecido e admirado pelas medidas precisas que realizou, com instrumentos adequados, construídos por ele mesmo com muita perfeição.

O seu sistema é considerado por alguns autores como um sistema “conciliatório”. No centro do universo, a Terra, imóvel. À sua volta giram a Lua e o Sol. Os demais planetas giram em torno do Sol, acompanhando-o em seu movimento em torno da Terra. À distância, a esfera das estrelas.

2.3. Os Eclesiásticos e a Astronomia

Embora a maioria dos eclesiásticos estivesse de acordo com a teoria geocêntrica, havia Cardeais e outros eclesiásticos adeptos do sistema de Copérnico ou defensores de Galileu. Citamos uns poucos:

O beneditino Castelli (filósofo e teólogo) diz, referindo-se ao sistema geocêntrico, defendido por Aristóteles: “Aristóteles errou nessa, como em muitas outras coisas” (Ref. 4, pág. 24).

O Cardeal Maffeo Barberini opôs-se a que Galileu fosse declarado herético, bem como o Cardeal Caetani (ref. 4, pág. 24).

O mesmo Barberini, como Papa Urbano VIII, declarou ao Cardeal Zoller que a Igreja não tinha condenado, nem estava por condenar, a teoria heliocêntrica como herética, mas apenas como temerária (Ref. 4, pág. 24).

Riccardi, Mestre do S. Palácio, está convencido de que o heliocentrismo não é matéria de fé e de que, de forma alguma, convém comprometer nele as Escrituras (Ref. 4, pág. 24).

Em 1632, na iminência do segundo processo, Castelli professa sua fé copernicana a V. Maculano, Mestre do S. Palácio e Comissário do S. Ofício (Ref. 4, pág. 24).

Relembramos que o sistema heliocêntrico foi usado para a reforma do calendário litúrgico.

2.4. A Interpretação da Bíblia

Desde os Santos Padres dos primeiros séculos do Cristianismo, já eram conhecidos outros sentidos, além do estritamente literal, ao ser interpretada a Bíblia. Henri de Lubac (“Exégèse médiévale, Aubier, Paris, 1962, conforme Ref. 1, pág. 18) destaca que na exegese medieval se procedia à leitura da Sagrada Escritura segundo os quatro sentidos: literal, histórico, alegórico e moral.

Entretanto, no tempo de Galileu a interpretação da Bíblia era feita de modo mais rígido e, em geral, atendo-se exageradamente ao sentido literal do texto. Como causa principal desse modo de proceder, está o protestantismo, que, desde o manifesto de Lutero, em 1517, vinha promulgando a livre interpretação da Bíblia. Para evitar os males que estavam sendo causados à fé cristã por este modo de proceder, a Igreja passou a se fixar mais no sentido literal das palavras, enquanto não houvesse motivos fortes que desaconselhassem tal proceder.

Lembramos aqui o princípio da consciência possível, da sociologia: “Todo pensamento é socialmente condicionado e limitado. Devido aos condicionamentos que limitam a visão da realidade, há um limite máximo que o conhecimento ou a compreensão de um indivíduo, um grupo, uma classe social ou toda uma época pode atingir… Outros fatores condicionantes que integram o conceito de consciência possível são a religião, o pensamento científico, as ideologias, as solidariedades étnicas e nacionais, o gosto artístico, etc., que limitam o campo da consciência para toda uma comunidades humana e até mesmo para uma época. Cada época possui paradigmas que condicionam sua cosmovisão científica e sua práxis concreta” (Ref. 5, pág. 19-20).

Naquela época, com o exíguo desenvolvimento das ciências naturais, as Escrituras eram usadas também para explicações científicas. Sem o conhecimento dos gêneros literários dos antigos orientais, do sentido correto de certas palavras, os teólogos interpretavam a Bíblia literalmente, o que, aliás, é um princípio da hermenêutica: “Não é lícito abandonar o sentido literal de um texto, sem que haja evidentes indícios de que é metafórico” (Ref. 6, pág. 268). Por exemplo, no caso de existirem argumentos de peso a favor de uma hipótese científica.

Além do quê, a interpretação literal de certos trechos da Bíblia (que apontavam para o geocentrismo) estava de acordo com o bom senso geral da época, que via o movimento do Sol e da Lua, bem como com os filósofos aristotélicos e com a quase totalidade dos astrônomos. Antes de Galileu, Aristarco e Copérnico já haviam lançado a hipótese do heliocentrismo, mas sem qualquer argumento convincente. E sem que alguém tivesse refutado o forte argumento contrário à rotação da Terra: “e o vento, senhores, o vento de 1.440 km/h oriundo da rotação da terra?”.

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”

D. Estevão Bettencourt, osb

Nº 382 – Ano 1994 – p. 107

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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