Ainda o caso Galileu – EB (Final)

images (3)e – Em 03/07/1981, o Papa João Paulo II nomeou uma comissão de teólogos, cientistas e historiadores, a fim de aprofundarem o exame do caso Galileu. Os resultados foram apresentados após onze anos, em 31/10/1992. Neste mesmo dia, 350.º aniversário da morte de Galileu, realizou-se sessão solene da Pontifícia Academia de Ciências. Do discurso que então proferiu João Paulo II extraímos os seguintes trechos (16):

“Galileu rejeitou a sugestão de apresentar o sistema de Copérnico como uma hipótese, até ser confirmado por provas irrefutáveis. Tratava-se de uma exigência do método experimental, do qual ele foi o iniciador genial.” (Isto é, Galileu errou em seu próprio terreno.)

“O problema que os teólogos da época se puseram era o da compatibilidade do heliocentrismo e da Escritura. A ciência nova, com os seus métodos e a liberdade de investigação que eles supõem, obrigava os teólogos a interrogarem-se sobre os seus próprios critérios de interpretação da Escritura. A maioria não o soube fazer. Paradoxalmente, Galileu, fiel sincero, mostrou-se sobre este ponto mais perspicaz do que os seus adversários teólogos. Se a Escritura não pode errar, escreve ele a Benedetto Castelli (em 1613), alguns dos seus intérpretes e comentaristas o podem e de muitas maneiras. Também é conhecida a sua carta à Cristina de Lorena (em 1615), que é como que um pequeno tratado de hermenêutica bíblica.”

“A maioria dos teólogos não percebia a distinção formal entre a Escritura Sagrada e a sua interpretação, o que os levou a transpor indevidamente para o campo da doutrina da fé uma questão, de fato relevante, da investigação científica.”

“Recordemos a frase célebre atribuída a Baronio: O Espírito Santo quer nos dizer como se vai para o céu; não como vai o céu.”

“Belarmino, que tinha percebido o que estava realmente em jogo no debate, considerava que, diante de eventuais provas científicas do movimento orbital da Terra ao redor do Sol, devíamos interpretar, com uma grande circunspecção, toda a passagem da Bíblia que parece afirmar que a Terra é imóvel, e “dizer que não o compreendemos, antes de afirmar que é falso o que se demonstra” (Carta ao Pe. ª Foscarini, 12/04/1615)”.

f – João Paulo II recordou um fato histórico pouco conhecido: Galileu já tinha sido reabilitado por Bento XIV em 1741, com a concessão do “Imprimatur” à primeira edição das obras completas de Galileu. Em 1757, as obras científicas favoráveis à teoria heliocêntrica foram retiradas do Index de livros proibidos. Em 1822, Pio VII determinou que o “Imprimatur” podia ser dado também aos estudos que apresentavam a teoria copernicana como tese.

g – Destacando alguns pontos do que foi apresentado neste trabalho, diremos que a condenação de Galileu foi devida ao modo como ele defendeu o sistema heliocêntrico. Quis prová-lo com argumentos bíblicos (incidindo no erro que condenava em seus oponentes, ele, o criador da experiência científica), errou no argumento das marés e insistiu na necessidade de uma pronta reinterpretação de certos trechos da Bíblia. A condenação de 1633 deveu-se à desobediência de Galileu ao compromisso assumido em 1616. Neste processo, sim, os representantes da Igreja cometeram um grave erro, opinando em matéria de interesse exclusivo da ciência, ao declararem um sistema astronômico contrário à fé.

Houve acertos de ambos os lados no campo oposto. Galileu com seus comentários sobre a correta interpretação da Bíblia (“um pequeno tratado de hermenêutica bíblica”, no dizer de João Paulo II). Belarmino e outros eclesiásticos apregoando o que hoje é um princípio fundamental da ciência: nela, nada é definitivo (o heliocentrismo devia ser apresentado como hipótese, não como verdade incontestável). Eles tiveram uma concepção dos fundamentos do saber científico superior à de Galileu, cientista renomado e criador da experiência cientificamente conduzida.

BIBLIOGRAFIA

1 – Jorge Pimentel Cintra – “Galileu”. Ed. Quadrante, São Paulo, SP, 1987.

2 – Franco Massara – “Os grandes julgamentos da história – Galileu Galilei”. Otto Pierre Editores Ltda., São Paulo, SP.

3 – Estêvão Bettencourt – “O caso Galileu Galilei”. Pergunte e Responderemos, Rio de Janeiro, RJ, Ano XXIV, n.º 267, março-abril 1983, p. 90-97.

4 – Mário Viganó – “Algumas considerações sobre o caso Galileu”. Cultura e Fé, Porto Alegre, RS, nº. 32, janeiro-março 1986, p. 11-26.

5 – D. João Evangelista Martins Terra, SJ – “O Negro e a Igreja”. Ed. Loyola, São Paulo, SP, 2ª. ed., 1988.

6 – Estêvão Bettencourt – “História do Cristianismo”. Pergunte e Responderemos, Rio de Janeiro, RJ, Ano X, n.º 114, junho 1969, p. 261-272.

7 – Estêvão Bettencourt – “No caso Galileu Galilei: que houve?”. Pergunte e Responderemos, Rio de Janeiro, RJ, ANO XXI, n.º 250, outubro 1980, p. 420-428.

8 – Antonio Socci – “Iluminados e caçadores de bruxas”. 30 dias, São Paulo, SP, Ano V, n.º 6, junho 1990, p. 68-71.

9 – Estêvão Bettencourt – “O martelo das feiticeiras”. Pergunte e Responderemos, Rio de  Janeiro, RJ, Ano XXXII, n.º 354, novembro 1991, p. 495-508.

10 – Boulanger – “Manual de Apologética”. Livraria Apostolado da Imprensa. Porto, Portugal.

11 – Tüchle e Bouman – “Nova história da Igreja. III – Reforma e Contra-Reforma”. Ed. Vozes, Petrópolis, RJ, 2ª. ed., 1983.

12 – Jorge Pimentel Cintra – “Evolucionismo. Mito e realidade”. Ed. Quadrante, São Paulo, SP. 1988.

13 – Joseph Ratzinger – “O desafio da homologação religiosa”. 30 Dias, São Paulo, SP, Ano V nº. 5, maio 1990, p. 62-67.

14 – Lucio Brunelli – “Galileu, o teólogo”. 30 Dias, São Paulo, SP, Ano VI, nº. 10, novembro 1992, p. 29.

15 – Antonio Socci – “Academia ou política?”. 30 Dias, São Paulo, SP, Ano VII, nº. 1, janeiro 1993, p. 32-35.

16 – L’Osservatore Romano, edição portuguesa, nº. 45 (1.098), 08/11/1992, p. 554-555.

Compartilhe!

    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
    Adicionar a favoritos link permanente.