Ainda células-tronco- EB

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”

D. Estevão Bettencourt, osb

Nº 486 – Ano 2002 – p. 525

Em
síntese: Vão
apresentados dois estudos colhidos na internet, que expõem com objetividade a
problemática associada aos transplantes de células-tronco. Será lícito produzir
artificialmente embriões para tratar de moléstias de adultos? E que fazer com
os embriões não aproveitados pela medicina? – A Moral católica não aceita
derrogações às leis da natureza, que são as leis do Criador.

Vão, a seguir, reproduzidas duas explanações
colhidas na internet relativas ao transplante de células-tronco. Expõem a
problemática com objetividade. Embora o assunto já tenha sido frequentemente
abordado em PR, não parece inútil voltar a ele, dada a complexidade da
temática.

 1.
A pesquisa sobre
células-tronco

O trabalho é da autoria do Dr. Eloi de S.
Garcia, ex-presidente da Fiocruz, membro da Academia Brasileira de Ciências e
integrante do Ministério de Ciência e Tecnologia.

O presidente americano, George Bush,
resolveu, finalmente, que os Estados Unidos vão financiar pesquisas com
embriões humanos para obtenção de células-tronco. Entretanto, a liberação é
limitada: só os embriões descartados por clínicas de reprodução assistida, e
com autorização dos casais, poderão ser usados. A criação de embriões
exclusivamente para estudos ou a clonagem terapêutica continua proibida. Não
resta dúvida de que essa decisão foi um avanço para a ciência e a tecnologia. O
presidente Bush acatou a pressão de centenas de cientistas e outras
personalidades americanas e mundiais.

O que representa a decisão norte-americana?
Desde 1998 se sabe que as chamadas células-tronco, obtidas a partir de embriões
humanos de 5-7 dias, que ainda não possuem sistema nervoso, têm a capacidade de
reproduzir-se praticamente sem limite e converter-se, uma vez, estimuladas pelo
ambiente orgânico por meio de sinais bioquímicos corretos, em células de
quaisquer tipos: nervosa, óssea, cardíaca, entre outras.

A maioria das células do organismo tem vida
curta e missão específica para cumprir. As células-tronco são diferentes.
Ancestrais das células comuns, não se limitam a gerar o tecido de forma
descontrolada. Elas proliferam, ordenada e sincronicamente, e constroem padrões
normais de tipos celulares, inclusive formando vasos sanguíneos que nutrem o
órgão. Ratos infartados podem recuperar o tecido cardíaco destruído, por
inoculação direta de células-tronco na lesão de um coração que bate seiscentas
vezes por minuto.

Animais dessa espécie com câncer na medula
óssea são curados quando tratados com células-tronco, ou seja, esse tipo
celular repõe a medula óssea destruída. Macacos com defeitos neurológicos
causados durante a gestação têm seus cérebros normalizados por enxerto cerebral
de células-tronco. Esses dados sugerem fortemente que essas células serão
curativas para doenças como diabetes, Parkinson, Alzheimer, vários transtornos
cerebrais, lesões medulares, queimaduras graves e outras enfermidades.

Os dados divulgados por cientistas e outros
fatos levaram o presidente Bush a aprovar o financiamento com recursos
públicos, com as restrições já descritas, de pesquisa que utiliza embriões
humanos. A maioria dos que se opõem a essa investigação não questiona seu valor
científico ou médico, mas  o uso de embriões
humanos. Alguns acreditam que as células-tronco de indivíduos adultos têm o
mesmo efeito terapêutico das células obtidas de embriões.

Recentemente, foi divulgado que o tecido
gorduroso é fonte viável de células-tronco. A lipoaspiração poderia resolver o
problema ético criando a possibilidade de essas células obtidas em grande
quantidade e serem utilizadas pela própria pessoa, o que diminuiria os riscos
de rejeição. Células-tronco obtidas de tecido gorduroso foram transformadas em
músculos, ossos e cartilagens. Infelizmente, essas células não foram tão
versáteis como as células embrionárias. Ainda vai demorar muito tempo para
saber se as células-tronco de tecido adulto são equivalentes às células
embrionárias em termo de potencial para terapia.

O fato de as células-tronco serem obtidas de
embriões humanos, normalmente desprezados nos tratamentos de fertilidade
assistida, tem estimulado governantes, religiosos, advogados e a sociedade a
discutir o assunto. O debate que o tema está suscitando é apaixonante. É uma
discussão sobre a vida e a morte, sobre o bem e o mal. Deve-se abandonar esse
tipo de investigação que tem o potencial enorme de salvar vidas? Que falta
ética ocorreria em fazer o maior esforço possível para ajudar indivíduos que
sofrem de alguma enfermidade? O que fazer com os embriões congelados que
existem nas clínicas de reprodução assistida? Mantê-los congelados? Destruí-los
ou utilizar seus enormes valores terapêuticos? A sociedade, sempre atenta aos
temas sobre saúde, quer fazer parte desse debate e buscar a solução.

Nota da
Redação de PR: A
Moral Católica, baseada na lei natural, que é a lei do Criador, rejeita a
produção artificial de embriões, mesmo que isto se dê com finalidade
terapêutica; na verdade, o fim não justifica os meios. Todavia o transplante de
células-tronco de adulto é plenamente aceito pela doutrina católica, já que não
sacrifica a vida de alguém nem fere a lei natural.

 2. Embriões Congelados

A explanação é de Cláudia Collucci, colunista
da Folha Online.

 Uma questão que vem tirando o sono de muita
gente é o que fazer com o exército de 15 mil embriões congelados em clínicas de
reprodução? Permitam-me explicar melhor essa história. Para fazer uma
fertilização in vitro, a mulher toma remédios para produzir vários óvulos.
Esses óvulos são retirados e fertilizados com os espermatozóides do marido no
laboratório, formando os embriões.

Para evitar a gravidez múltipla, a Resolução
do CFM determina que, no máximo, quatro embriões sejam transferidos para o
útero. O restante deve ficar congelado. Quando a mulher consegue engravidar na
primeira tentativa (ela tem mais ou menos 30% de chances), ótimo, os embriões
excedentes continuam congelados nas clínicas.

Quando a mulher não engravida, ela pode
voltar à clínica, ter alguns dos seus embriões descongelados e implantados no
seu útero, e torcer para que a gravidez dê certo.

Bom, vamos supor que o casal consiga a tão
desejada gravidez, tenha o seu (os seus) lindo(s) filho(s) e se dê por
satisfeito. Então, o que fazer com os outros embriões excedentes que ficaram
congelados? Pela Resolução do CFM, os pais não podem autorizar o descarte. A
eles só restam duas opções: ou se resignam e correm o risco de ter mais filhos
(autorizando a implantação dos embriões) ou fazem a adoção desses embriões.

As duas decisões são terríveis: quem acredita
que o embrião já é uma vida, conclui que o descarte é o mesmo que um aborto; ao
mesmo tempo, quem faz a doação tem a sensação de estar doando um filho a um
estranho. Quem dorme com um barulho desses?

Alguns casais preferem pagar uma taxa para
manter os seus embriões congelados enquanto pensam em uma solução. Outros
simplesmente desaparecem, deixando a bomba nas mãos das clínicas, que não têm
outra alternativa senão manter os “bichinhos” congelados esperando que os pais
apareçam um dia ou que os nossos legisladores decidam o que fazer com eles.

Mesmo sendo uma prática proibida, algumas
clínicas costumam fazer uso, em concordância com o casal, de uma técnica mais
requintada de descarte: implantam o embrião em um período pouco provável de a
mulher engravidar, durante a menstruação, por exemplo.

Na falta de fiscalização, cada clínica no
Brasil age de acordo com os princípios éticos de seus responsáveis. Muitas são
extremamente sérias, com profissionais competentes e confiáveis. Algumas,
porém, agem ao bel prazer, fazendo pesquisas questionáveis e apresentando
resultados inconsistentes, que, certamente, não suportariam o menor
questionamento científico.

Nos últimos anos, conversando com mulheres
que fizeram verdadeiras “vias-sacras” pelas clínicas de reprodução, descobri
verdadeiras atrocidades. Infelizmente fica difícil denunciá-las porque não
existem provas e tampouco os casais estão dispostos a procurar a Justiça
porque, muitas vezes, se sentem cúmplices dos médicos.

Entre as atrocidades, soube, certa vez, de uma
mulher que autorizou a transferência de oito embriões (o dobro do permitido
pela CFM). Resultado: dois se alojaram nas suas trompas e um no útero.
Conclusão: ela ficou sem as duas trompas, e perdeu o bebê que estava no útero.

Nessa corrida maluca por um filho, os casais são
muitas vezes convencidos pelos médicos de que hoje qualquer problema de infertilidade
é facilmente solucionado. A partir disso, topam qualquer coisa para ter um bebê
nos braços. Aí é que mora o perigo. Antes de tomar qualquer decisão, é preciso
pesquisar, entender o procedimento a que está sendo submetido,
questionar, se for preciso, consultar outros médicos, enfim buscar informações.
É um direito e um dever nosso. É óbvio que devemos confiar nos nossos médicos,
mas não custa ter senso crítico.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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