Abrace o mistério, descubra a aventura…

desertoO objetivo fundamental na formação dos fiéis leigos é uma descoberta cada vez mais clara da própria vocação e cada vez maior, afim de vivê-la de forma a cumprir sua missão…

Os fiéis leigos, de fato, “são chamados por Deus, a fim de que, guiados pelo espírito do Evangelho, possam contribuir para a santificação do mundo, a partir de dentro, como fermento, em cumprimento de suas próprias funções específicas. Assim, especialmente neste modo de vida resplandecente de fé, esperança e caridade, manifestem Cristo aos outros”.

Papa João Paulo II anos atrás, durante um treinamento motivacional da área  de Vendas, o palestrante desenhou um grande iceberg no quadro. Perto do topo, ele desenhou uma linha ondulada, indicando a superfície do oceano. Em seguida, apontou para a grande massa submersa e perguntou aos ouvintes: “O que é isso?” Alguém respondeu: “A parte do fundo do iceberg.” O palestrante respondeu:

“Sim, mas é mais correto afirmar que este é o potencial invisível do iceberg. O que vemos é apenas 10% do iceberg, enquanto que 90% de sua massa é um certo mistério, não é?”.

Somos muito parecidos com o iceberg: muito do que somos se encontra abaixo da superfície. Você e eu estamos utilizando apenas uma pequena parcela do potencial que Deus implantou em nós.

Imagine como nossa vida mudaria, como o mundo se beneficiaria, se começássemos a exercer os outros 90% de nossas bênçãos, dons, carismas e talentos, que se ocultam abaixo da superfície de nossa personalidade.

As pessoas que estão longe da Igreja sofrem de uma “mentalidade  iceberg”, no que diz respeito à Igreja – elas veem apenas uma parcela do que a Igreja tem a oferecer; elas não têm ideia de quanta beleza e maravilha não se encontram mais abaixo da superfície, esperando para serem exploradas.

Não muito tempo depois do meu retiro de conversão, Jill, uma colega que eu tinha conhecido havia alguns anos, se encontrou comigo para tomarmos um café da manhã. Quando  estávamos falando sobre os recentes acontecimentos de nossa vida, eu contei a ela sobre a minha experiência de conversão. Depois que eu fiz um resumo dos pontos relevantes do meu retiro, Jill me disse que, embora tivesse sido criada na Igreja Luterana, alguns parentes seus eram católicos e, ocasionalmente, ela havia pensado em se tornar católica também, o que nos levou a uma conversa profunda sobre a Igreja e a fé.

Poucos meses depois, Jill fazia sua inscrição no Rito de Iniciação Cristã de Adultos (o RICA) numa paróquia católica. Mesmo antes de ser recebida na Igreja, ela tinha se tornado uma evangelizadora católica iniciante cheia de entusiasmo. Certa noite, ela me ligou para perguntar se eu estaria disposto a falar com um amigo dela, Michael, que se afastara da Igreja. Isso ocorreu apenas alguns meses depois da minha conversão, o que fez a ideia de falar sobre a fé com um estranho ainda me deixar não muito à vontade.

No dia seguinte, Michael me ligou. Apesar de a perspectiva de falar com uma pessoa que eu não conhecia sobre um tema tão delicado como a fé ainda me deixar pouco à vontade, com a ajuda de Deus, a conversa fluiu naturalmente. Depois de 45 minutos ao telefone, ele me disse: “Eu vou voltar. Eu já devia ter feito isso há anos, e estou convencido de que o bom Deus está me chamando de volta à fé”. Foi um momento emocionante! Michael tinha tomado a decisão de mudar de vida, e eu fiquei muito grato ao Espírito Santo por ter permitido que eu, humildemente, fosse o Seu instrumento para o retorno dele à Igreja.

Jill ligou para me agradecer pelo fato de ter falado com Michael,e me disse quanto ele estava animado em ter voltado à Igreja, depois de tê-la abandonado quando seus filhos ainda eram adolescentes.

Uma nova ligação de Jill dois dias depois, porém, mostrava sua voz bastante trêmula. Começou me dizendo: “Eu lhe agradeço novamente por ter ajudado Michael, mas tenho más notícias para lhe contar. Nesta manhã, ele faleceu”. Completamente chocado e sem acreditar, perguntei: “O cara que eu acabei de falar há dois dias?”

– “Sim, ele acabou de morrer”, repetiu ela. Era difícil compreender que esse cara legal tinha morrido tão de repente. E ela continuou:

“Mas o motivo da minha ligação para você não foi somente para lhe dar essa notícia; e eu sou muito grata a você por tê-lo ajudado, mas é porque, agora, precisamos ajudar a família dele. Há anos que eles não frequentam a Missa também, mas querem que o Michael tenha um funeral católico, o que é uma coisa complicada. O padre disse que ele pode fazer o velório na funerária, mas não pode acompanhar o enterro devido a outro compromisso nesta mesma tarde. Ele me disse que é permitido a um leigo fazer as orações finais junto à sepultura, e assim sendo, você poderia fazer esse serviço para a família?”.

Pensei que Jill estava brincando. Contudo, concordei em ajudar da maneira que me fosse possível. Obediente aos ensinamentos da Igreja, eu quis me certificar com o padre se um leigo realmente poderia conduzir uma cerimônia fúnebre. Então, na manhã seguinte, logo após a Missa, fui à sacristia e perguntei ao Padre Doug se isso era permitido. Quando ele me respondeu que sim, comecei a suar frio pelo corpo todo: “Mas o que devo rezar e que livro de orações devo usar?”, perguntei a ele. “Eu não preciso aspergir água benta para benzer o caixão e a sepultura?”. Depois de algumas orientações simples do Pe. Doug, liguei para Jill para confirmar que eu iria fazer as orações no enterro. Novamente, isso me levou para além da minha zona de conforto, mas parecia que a família de Michael não tinha nenhuma outra opção melhor.

Disse Jill: “Espere, há outro detalhe bem particular nessa história. O filho do Michael, Keith, acabou de ser preso ontem à noite, acusado de assassinato. Sua irmã, Heather, perguntou se você e eu poderíamos ir com ela até a prisão para dar a notícia da morte de seu pai a ele”. Contei à minha esposa o que tinha acontecido, entrei no carro e fui para a cadeia da região no centro de Phoenix.catolicos_voltem_para_casa_menor

A adrenalina bombeava em minhas veias, além de sentir náuseas e estar muito nervoso.

Na prisão, Jill explicou ao funcionário as circunstâncias da morte súbita de Michael e me apresentou como conselheiro espiritual da família. Antes de entrar na área reservada aos presos, eu era obrigado a tirar o meu relógio e minha aliança de casamento, e a colocá-los, junto com minha carteira, num cesto. Depois eu deveria retirar meus pertences, quando fosse deixar o prédio. Naquele momento, me senti nu e um pouco desamparado. À medida que eu descia aqueles cinzentos corredores estreitos, meu estômago dava reviravoltas. Mais do que em qualquer outro momento da minha vida, eu me sentia completamente fora do meu contexto.

Fomos levados para uma sala grande com várias mesas e bancos num estilo piquenique. Grossas barras de ferro estavam em todas as janelas. O guarda nos instruiu a sentar e esperar numa das mesas. Depois dos dez minutos mais longos da minha vida, ouvimos o tintilar de barras e portas de aço e, depois, um guarda trouxe Keith para a sala até a nossa mesa. Sua irmã sentou-se calmamente numa extremidade do banco, Jill ficou no meio e eu, sentado na outra extremidade. Sua irmã chorou e com a voz embargada disse ao irmão que seu pai havia falecido após um ataque cardíaco fulminante. Enquanto ela lhe contava a horrível notícia, Keith olhou para mim e perguntou: “Quem, diabos, é você?”. Instantaneamente, sentindo-me totalmente desambientado, respondi: “Sou apenas um cara que falei com seu pai há dois dias sobre a Igreja, e ele se mostrou determinado a voltar para a Igreja Católica. Se você é culpado ou não, isso não é o motivo de eu ter vindo aqui, mas há um padre que atende aqui como capelão; e ele se prontificou a vir se encontrar com você, se fosse possível. Seu pai me disse que você foi criado na fé católica, por isso, por favor, se encontre com o padre, fale com ele, e ele manterá tudo o que vocês conversarem de forma totalmente confidencial. Seu pai queria convidar você a voltar para a Igreja, pois ele tinha acabado de tomar essa mesma decisão de retornar”.

Santo Tomás de Aquino escreveu que “para converter alguém, vá, tome-o pela mão e guie-o”. E foi o que eu fiz naquela cadeia. Senti que eu fiz o que o Michael queria que eu fizesse. Convidei seu filho, Keith, a voltar para a casa de Deus e para a Igreja.

Jill, Keith e sua irmã conversaram entre si por cerca de 15 minutos.

Em seguida, o guarda escoltou Keith de volta à cela e nós deixamos a cadeia.

Dois dias depois, fui ao velório do Michael e me sentei numa cadeira no fundo da sala da funerária. Vários familiares e amigos, todos estranhos a mim, foram prestar suas últimas homenagens a Michael. Depois de meia hora, chegou um padre, fez algumas orações curtas e disse algumas palavras de conforto à família. Quando tudo terminou, me dei conta de que Jill não tinha aparecido, e eu esperava que, talvez, ela fosse nos encontrar no cemitério.

Quando aí chegamos, enquanto caminhávamos para o túmulo do Michael com seus familiares e amigos, olhei ao redor, mas Jill não estava lá. O caixão de Michael estava sob um amplo baldaquino preto. Com a água benta numa mão e o Sacramentário na outra, comecei a ler as orações de exéquias, conforme o Pe. Doug havia me ensinado dias antes. A seguir, foi a hora de fazer um elogio a Michael. Embora não o conhecesse pessoalmente, a família me pediu que também o fizesse. Pensei então, em basear em palavras sobre a decisão de Michael de retornar à Igreja e disse: “Acho que a mensagem que Michael gostaria que todos vocês soubessem é de que Deus tem um plano maravilhoso para cada um de vocês, de suas vidas. Michael gostaria de encorajá-los a voltar para a Igreja, justamente como ele planejou fazer”. Quando o enterro terminou, todos foram rumo à entrada voltando para seus carros, e Heather e eu fomos os últimos a sair. Quando Heather disse um último adeus a seu pai, Jill finalmente chegou, descendo de uma van amassada e chorando incontrolavelmente. “Eu perdi tudo! Perdi o enterro de Michael, pois me envolvi num acidente”, disse ela. Pareceu-me que as circunstâncias haviam se invertido: inicialmente Jill ajudou os outros, mas agora, era ela quem estava precisando de consolo e amparo.

Enfim, depois daquele fim de semana, fiz uma reflexão sobre tudo o que havia ocorrido desde o meu café da manhã com Jill, seu regresso para a Igreja, minha conversa telefônica com Michael, a visita para ajudar Keith na cadeia, o elogio no túmulo e, finalmente, o acidente de Jill. Pensei: “A vida com Deus é certamente imprevisível”.

A vida é um mistério, como o Iceberg que mencionei anteriormente  neste capítulo. Nunca podemos ter a certeza do que existe abaixo da superfície das nossas experiências do dia a dia.

Muitos planos não saem como esperado, e a vida se torna complicada.

Com Deus nós temos um propósito, e nossa fé nos dá esperança. Com Deus, todas as coisas são verdadeiramente possíveis. Quando seguimos os sinais do Espírito Santo, somos, às vezes, convidados a compartilhar nosso amor com os outros, com muitos outros até na missão de ajudar os Católicos a voltar para casa.

Hoje e todos os dias, Nosso Senhor nos convida você a usarmos nossos talentos específicos, em nossas casas e bairros, para servi-Lo,vivendo e compartilhando a nossa fé com aqueles que estão à nossa volta. Hoje damos muita ênfase na tomada de decisões baseadas em nossos sentimentos, para não sair da nossa zona de conforto.

No entanto, fazendo algo necessário, mesmo que isso possa ser incômodo para nós, tal ato não só constrói o caráter, mas fortalece a nossa fé e nos ajuda a crescer nessa fortaleza. Fazer algo além da nossa zona de conforto é um ato de confiança no Espírito Santo, e é uma oportunidade de tocarmos em algo do nosso potencial que está submerso.

Tornamos Nosso Senhor conhecido pelo exemplo da nossa vida, procurando as ocasiões para falar Dele, sem perder uma simples oportunidade. Nossa tarefa consiste, em grande parte, na tomada de um caminho alegre e atraente para Cristo. Se nos comportarmos desta maneira, muitos se encorajarão a segui-lo e a trazer a alegria e a paz do Senhor para outros homens e mulheres.

Retirado do livro: “Católicos voltem para casa”

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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