A Virgindade Perpétua de Maria – Parte 4

» CAPÍTULO XXI

Mas como não
negamos o que está escrito, assim também rejeitamos o que não está escrito.
Acreditamos que Deus nasceu de uma Virgem, porque lemos assim. Não acreditamos
que Maria teve união marital depois que deu à luz porque não lemos isso. Nem
afirmamos tal para condenar o casamento, porque a virgindade é o fruto do
casamento; mas porque quando estamos tratando de santos não devemos julgar
apressadamente. Pois se adotássemos a possibilidade como padrão de julgamento,
poderíamos sustentar que José teve várias esposas porque Abraão teve, e também
Jacó, e que aqueles que eram irmãos do Senhor nasceram daquelas esposas, uma
criação imaginária que alguns sustentam com uma temeridade que nasce da audácia
e da piedade.

Você diz que
Maria não continuou virgem. Eu brado ainda mais que José, ele mesmo, aceitou
que Maria era virgem, de modo que de um casamento virgem nasceu um filho
virgem. Porque se, como um homem santo, ele não se apresentou com a acusação de
fornicação, e está escrito que ele não teve outra esposa, mas foi o guardião de
Maria, aquela que foi tida por sua esposa mas não ele por seu marido; a
conclusão é que aquele que foi julgado digno de ser chamado pai do Senhor,
permaneceu casto.

» CAPÍTULO XXII

E agora que vou
fazer uma comparação entre virgindade e casamento, rogo a meus leitores para
não suporem que louvando a virgindade, tenho em menor grau o casamento, e
discrimino os santos do Antigo Testamento com relação àqueles do Novo, isto é,
aqueles que tinham esposas daqueles que se mantiveram livres dos laços de
mulheres; antes, penso que de acordo com a diferença de tempo e circunstâncias,
uma regra foi aplicada aos primeiros, uma outra a nós, sobre quem sobrevirá o
fim do mundo.

Tanto que
continua vigorando a lei : “Sede férteis e multipliquai-vos e povoai a
terra”; e: “Amaldiçoada é a mulher estéril que não gerou semente em
Israel”; elas todas que casaram e foram dadas em matrimônio, deixaram pai
e mãe, e se tornaram uma só carne.

Mas de repente
com a força do trovão se fizeram ouvir essas palavras: “O tempo está se
acabando, em que doravante aqueles que têm esposas sejam como se não
tivessem”; aderindo ao Senhor, nós somos feitos um espírito com Ele. E por
quê?

Porque “aquele
que é solteiro está preocupado com as coisas do Senhor, de modo que poderá
agradar ao Senhor; mas aquele que é casado está preocupado com as coisas do
mundo, do modo como agradará a sua esposa. E aqui está a diferença também entre
a esposa e a virgem. Aquela que é solteira está preocupada com as coisas do
Senhor, porque será santa tanto no corpo como no espírito; mas aquela que é
casada, está preocupada com as coisas do mundo, do modo como agradará a seu
marido”.

Por que você
sofisma? Por que resiste? O vaso de eleição disse isso. Disse-nos que há uma
diferença entre a esposa e a virgem. Observe qual deva ser a felicidade daquele
estado no qual mesmo a distinção de sexo desaparece. A virgem não é mais
chamada mulher. “Aquela que é solteira está preocupada com as coisas do
Senhor, de modo que é santa no corpo e no espírito”.

A virgem é
definida como aquela que é santa no corpo e no espírito, porque não é bom ter
uma carne virgem se a mulher se põe casada no espírito. “Mas aquela que é
casada está preocupada com as coisas do mundo, do modo como agradará a seu
marido”. Julga você que não há diferença entre uma que gasta seu tempo em
oração e jejuns daquela que se sente impelida, ao aproximar-se seu marido, a
arranjar sua aparência, andar com passos afetados, e demonstrar atos de
carinho?

O objetivo da
virgem é aparecer menos faceira; ela quer se guardar de modo a esconder suas atrações
naturais. A mulher casada tem seu pincel preparado ante seu espelho, e em
desacordo com seu Criador, esforça-se para adquirir algo mais do que sua beleza
natural. Então lhe chegam as conversas de seus filhos, o barulho da casa, as
crianças buscando sua palavra e pedindo seus beijos, a lista das despesas, o
cuidado para acertar as despesas. De um lado você a vê na companhia dos
cozidos, cercada de gritos e preparando o alimento; você ali ouve o barulho de
uma multidão de fiandeiras. Enquanto isso, chega uma mensagem que o marido e
seus amigos estão chegando. A esposa, como uma andorinha, voa por toda a casa.
Ela deve cuidar de todas as coisas. Está o sofá arrumado? Está o piso varrido?
Estão as flores nas jarras? E o jantar está pronto?

Diga-me, rogo-lhe,
onde entre tudo isso há lugar para pensar em Deus? São essas casas tranqüilas?
Onde há as batidas do tambor, o barulho e a algazarra do órgão e do alaúde, o
tinir dos címbalos, pode se encontrar alguma preocupação com o temor de Deus? O
parasita é repreendido e se sente orgulhoso da honra. Entram depois as vítimas
meio despreparadas para as paixões, uma referência para todo olhar lúbrico. A
infeliz esposa ou deve achar prazer neles e perecer, ou ficar desgostosa e
provocar seu marido. Disso surge a discórdia, a semente conspiratória do
divórcio.

Ou suponha que
você encontre uma casa onde essas coisas são desconhecidas, o que acontece em
pequena proporção! Contudo, mesmo ali, o desempenho do dono da casa, a educação
das crianças, as necessidades do marido, a correção dos servos, não falham em
afastar a mente do pensamento de Deus. “Deixou de ficar com Sara como se
fica com as mulheres” – assim diz a Escritura, e mais tarde Abraão recebeu
a ordem: “Presta atenção em tudo o que Sara te disser”. [Porque] ela
não está tomada de ansiedades e dor de parto e, tendo passado pela mudança de
vida [sexual], deixou de exercer as funções de uma mulher, estando liberta do
esquecimento de Deus; não tem desejo por seu marido, mas, pelo contrário, seu
marido se torna sujeita a ela, e a voz do Senhor lhe ordena: “Presta
atenção em tudo o que Sara te disser”. Então, começam a ter tempo para
rezar. Porque enquanto demorou a ser pago o dever do matrimônio, a determinação
de rezar foi negligenciada.

» CAPÍTULO XXIII

Não nego que se
encontram mulheres santas entre as viúvas e aquelas que têm marido; mas se
tornam santas logo que deixam de ser esposas, ou se no estrito dever do
matrimônio imitam a castidade virginal. O Apóstolo, como se Cristo falasse por
sua boca, brevemente deu testemunha disso quando disse: “Aquela que é
solteira está preocupada com as coisas do Senhor, como poderá agradar ao
Senhor; mas aquela que é casada está preocupada com as coisas do mundo, como
poderá agradar a seu marido”.

Ele nos deixa ao
livre exercício de nossa razão a esse respeito. Não determina obrigação a
ninguém nem induz alguém em cilada; somente persuade àquilo que é próprio
quando deseja que todos os homens sejam como ele mesmo. Não emitiu, é verdade,
um mandamento do Senhor a favor da virgindade, porque essa graça sobrepuja o
poder do homem desassistido, e seria usar um ar de imodéstia forçar os homens a
se porem a voar em face de sua natureza, e dizer em outras palavras: “Quero
que você seja como são os anjos do céu”. É essa angélica pureza que
assegura à virgindade a mais alta recompensa, e o Apóstolo poderia parecer
desprezar um sistema de vida que não é culposo.

Não obstante, no
contexto a seguir diz: “Mas presto meu julgamento como alguém que obteve
misericórdia do Senhor para ficar fiel. Penso, portanto, que isso é bom em
razão da atual aflição, ou seja, que é bom para um homem ser como ele é”.
O que quer dizer com “a atual aflição”?

“Haverá
aflição para aqueles que tiverem crianças e para aquelas que amamentarem
naqueles dias!” A razão por que a madeira cresce é que poderá ser cortada.
O campo é semeado porque poderá ser segado. O mundo está já repleto, e a
população está demasiado grande para a terra. A cada dia somos dizimados pela
guerra, levados pelas doenças, tragados pelos naufrágios, embora continuemos a
levar alguém a juízo por causa dos muros de nossa propriedade.

É somente uma
adição à regra geral que é feita por aqueles que seguem o Cordeiro, e que não
desvestiram seus ornamentos, que continuam em seu estado de virgindade. Preste
atenção ao significado de desvestir. Eu não me aventuro a explicá-lo, por medo
de que Helvídio possa se tornar abusivo.

Concordo com
você, quando diz que algumas virgens não são senão mulheres de taverna; digo
ainda mais, que mesmo o pecado do adultério pode ser encontrado entre elas, e
você ficará sem dúvida mais surpreso de ouvir que alguns do clero são
taberneiros e alguns monges não são castos. Quem não entende logo que uma
mulher de taverna não persistirá virgem, nem adúltero um monge, nem taberneiro
um clérigo? Exigiremos virgindade se a virgindade corrompida é um pecado?

De minha parte,
me omitindo das outras pessoas, e tratando dos castos, afirmo que aquela que
trabalha como vendeira, embora sem provas, poderá ser virgem no corpo, porém
não mais será casta em espírito.

Parte V
Conclusão

» CAPÍTULO XXIV

Eu me tornei
retórico e agi um pouco como orador de plataforma. A isso me levou você,
Helvídio; porque, da forma lúcida como brilha o Evangelho atualmente, você quer
que se dê uma glória igual à virgindade e ao estado matrimonial. E porque penso
que, sentindo a verdade muito forte, você virá aviltar minha vida e abusar de
meu caráter (este é o modo das mulheres fracas cochicharem nos cantos quando
são repreendidas por seus senhores), vou me antecipando a você:

– Asseguro que
darei atenção às suas injúrias como a uma elevada distinção, uma vez que os
mesmos lábios que me atacam aviltaram Maria, e eu – um servo do Senhor – sou
favorecido com a mesma brava eloquência de Sua mãe.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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