A Virgem Maria foi destinada para dar ao Senhor uma digna morada

O capítulo nono dos Provérbios é aberto com este versículo: “A sabedoria edificou para sí uma casa”. Qual é esta sabedoria e que morada construiu ela para seu uso? São Bernardo nos responde: “Esta sabedoria que era de Deus e que era Deus, vinda a nós do seio do Pai, construiu para si uma casa, e esta casa foi a Virgem Maria, sua Mãe.” [1].

Casa Decorada pelo Divino Arquiteto
Corroborado pelas opiniões do santo Abade de Claraval e de outros eminentes varões da Igreja, escreve o Padre Paulo Ségneri, afamado jesuíta e pregador na Corte Pontifícia, no século XVII:

“Segundo os santos doutores, a casa que a Sabedoria para si edificou é a Virgem Santa que o Verbo escolheu desde toda a eternidade por Mãe. Agora, um rei poderoso e rico que deseje construir para si uma mansão, deseja, ao mesmo tempo, que nada se economize para a retidão, ornamento e magnificência do edifício.

A Sabedoria Eterna faria menos pela sua morada?

“Não. O Verbo, tendo resolvido tomar um corpo humano no seio de uma Virgem, e de nele permanecer nove meses, não descuidou nada para adornar este templo de sua divindade, para enriquecê-lo de todos seus dons, em uma palavra, para torná-lo digno de si. Deste modo a Escritura fala do Verbo sob o nome de Sabedoria, ‘Sapientia ædificavit sibi domum’, a fim de assinalar nos que é a a sabedoria que Ele emprega, para escolher e formar uma criatura da qual jamais se envergonhará o Filho.

“O Verbo, pois, como hábil arquiteto que nada deixa irregular, nada defeituoso, na obra prima de sua arte, e que lhe dá, ao contrário, toda a perfeição que é capaz, o Verbo, disse, longe de suportar em sua Mãe qualquer desordem, qualquer defeito, terá prazer em aperfeiçoá-la, como em una obra à qual preside sua sabedoria infinita.

“Que prova não é necessária, depois disso, das grandes prerrogativas da Santíssima Virgem? Pode alguém negar-lhe alguma, quando se faz a reflexão de que ela é a casa que a Sabedoria edificou para si: Sapientia ædificavit sibi domum?” [2].

Na mesma linha seguem os comentários do Padre Jourdain:

“Não a um homem, senão ao próprio Deus era mister preparar uma residencia, a qual em tudo fosse digna do hóspede divino que a ocuparia, não por um dia, de passagem, senão que para nela habitar e dela tomar os elementos de uma nova vida . (…)

“Tal mansão está necessariamente ao abrigo de qualquer mácula. Ou seja, Maria, Mãe do Deus feito homem, criada e preparada por ele para encarnar-se seu seio, foi necessariamente livre de qualquer falta, seja atual, seja original. […] Isto não basta, agrega ainda Santo Agostinho; conviria que Ela fosse adornada e enriquecida de todas as virtudes: «O Filho de Deus não construiu jamais uma casa mais digna de Si que Maria. Esta habitação nunca foi assaltada por ladrões, jamais atacada pelos inimigos, nunca despojada de seus ornamentos». (…)

A mais ilustre habitação de Deus
“São Pedro Damião e São Jeronimo, assim entendem o capítulo III de Isaías: a Santíssima Virgem é verdadeiramente a casa de Deua, ou melhor, o palácio ou a corte real onde o Filho do Rei Eterno, revestido de nossa carne, fez sua entrada neste mundo. «O palácio sagrado do Rei, única habitação d’Aquele que nenhum lugar pode conter», como disse Santo André de Creta. (…)

“A Santíssima Virgem Maria é, por tanto, a casa de Deus. Se, como disse o Apóstolo, «os que vivem castamente são o templo de Deus», a Virgem, a castíssima Mãe de Deus poderia não sê-lo? Sim, Ela o é, e jamais possuiu Deus morada mais digna de Si. Por isto diz São Gregório: «Salve, templo vivo da Divindade! Salve, casa equivalente ao Céu e à Terra! ¡Salve, templo digno de Deus!»” [3]

Habitação adornada com as mais belas prendas
E Santo Afonso de Ligório, citando o Doutor Angélico, comenta:
“Devem ser santas e limpas todas as coisas destinadas a Deus. Por isso David, ao traçar o plano do templo de Jerusalém com a magnificência digna do Senhor, exclamou: Não se prepara a morada para algum homem, sinão que para Deus (IPar. XXIX, 1). Agora o soberano Criador havia destinado Maria para Mãe de seu próprio Filho. Não devia, então, adornar-lhe a alma com todas as mais belas prendas, tornando-a digna habitação de um Deus?

“Afirma o Beato Dionísio Cartuxo: O divino artífice do universo queria preparar para seu Filho uma digna habitação, e por isso ornou Maria com as mais encantadoras graças. Dessa verdade nos assegura a própria Igreja. Na oração depois da Salve Rainha, certifica que Deus preparou o corpo e a alma da Santíssima Virgem, para ser na Terra digna habitação de seu Unigênito” [4].

A morada do Rei Crucificado
Finalmente, outro aspecto – talvez mais sublime que os demais– de Maria Santíssima como casa de Deus, nos é apresentado por Santo Ambrósio, o pai da Mariologia ocidental. Comentando o Evangelho de São Lucas (XXIII, 33-49), designa ele a Nossa Senhora, junto à Cruz, como sendo “a morada do Rey” [5].

A isto observa, por sua vez, o beneditino Dom Manuel Bonaño: “A Virgem é a corte, o palácio, a morada por excelência do grande Rei. Aos pés da Cruz, quando Nosso Senhor é abandonado por todos, Ela continua sendo sua morada, como o foi na Encarnação” [6].

Maria, templo onde Jesus quer ser invocado
Oh Jesus que vives em Maria, venha e viva em vossos servos, no espirito de vossa santidade, diz a conhecida Oração a Jesus em Maria. Comentando esta passagem, assim se expressa o Professor Plinio Corrêa de Oliveira:
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“Jesus viveu em Maria, e, de Maria, Jesus se comunicou aos homens. Nossa Senhora é o sacrário onde está Nosso Senhor Jesus Cristo, e o santuário de dentro do qual todas as graças se difundem para o gênero humano.

“Por isso, devemos rezar a Jesus como vivendo em Maria, porque Ele quer ser invocado dentro de seu templo, que é a Santíssima Virgem. Pedir o que a Ele? Que Ele venha e viva em nós, como vivia n’Ela.

“Viver em nós, quer dizer, é ter o espírito da santidade de Jesus Cristo, que é o espírito da Santa Igreja Católica Apostólica Romana. E é, portanto, o espírito «ultramontano», a expressão mais característica do espírito da Santa Igreja.

“Isto é o que devemos pedir a Jesus, por meio de Nossa Senhora, como vivendo n’Ela.” [7]

Por Mons. João Scognamiglio Clá Dias

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[1] BERNARDO. Obras Completas. Madrid: BAC, 1953. Vol. I. p. 1070.

[2] SÉGNERI, Paulo. Meditações. Apud JOURDAIN, Z.-C. Somme des Grandeurs de Ma-
rie. Paris: Hippolyte Walzer, 1900. Vol. VIII. p. 1-2.

[3] JOURDAIN, Z.-C. Somme des Grandeurs de Marie. Paris: Hippolyte Walzer, 1900.
Vol. III. p. 247-248.

[4] LIGUORI, Afonso Maria de. Glórias de Maria Santíssima, 6. ed. Petrópolis: Vozes,
1964. p. 192.

[5] AMBROSIO. Obras de San Ambrosio: Tratado sobre el Evangelio de San Lucas. Ma-
drid: BAC, 1966. Vol. I. p. 612.

[6] BONAÑO, Manuel. In: AMBROSIO. Loc. cit.

[7] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência em 23/5/1966. (Arquivo pessoal).

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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