A Tradição da Igreja (Parte 1)

O Magistério da Igreja extrai todo o ensinamento que dá aos fiéis, da Revelação Divina, que se compõe da Tradição (oral) que veio dos Apóstolos e da Tradição (escrita), a Bíblia.

É sobre essa Tradição (escrita e oral), com igual importância nas suas formas, que o Magistério acenta seus ensinamentos infalíveis.

Portanto, a Igreja católica não se guia apenas pela Bíblia (a Revelação escrita), mas também pela Revelação oral que chegou até nós. Sem esta última, nem mesmo a Bíblia existiria como a temos hoje, já que ela foi “berçada” ” como diz D. Estevão Bettencourt ” e redigida pela Igreja.

A transmissão do Evangelho, feita pelos Apóstolos, fez-se de duas maneiras: oralmente e, depois, por escrito, cerca de 20 anos após a morte de Jesus. No ensino oral os Apóstolos “transmitiram aquelas coisas que ou receberam das palavras, da convivência e das obras de Cristo ou aprenderam das sugestões do Espírito Santo” (CIC, 76), nos ensina o Catecismo.

Ensina-nos a Constituição Dogmática “Dei Verbum”, do Concílio Vaticano II, sobre a Revelação Divina, que:

“Para que o Evangelho sempre se conservasse inalterado e vivo na Igreja, os apóstolos deixaram como sucessores os bispos, a eles transmitindo o seu próprio encargo de Magistério” (DV, 7).

Essa transmissão viva, realizada no Espírito Santo, é chamada de Tradição apostólica, distinta da Bíblia, mas ligada a ela intimamente.

A “Dei Verbum” ensina que através da Tradição:

“A Igreja, em sua doutrina, vida e culto, perpetua e transmite a todas as gerações tudo o que ela é, e tudo o que crê” ( DV,8).

E diz ainda que: “Os ensinamentos dos Santos Padres [sec. I a VIII] testemunham a presença vivificante desta Tradição cujas riquezas se transfundem na praxe e na vida da Igreja crente e orante” (DV,8).

Embora a Igreja tenha ciência de que “já não há que esperar nenhuma nova revelação pública antes da gloriosa manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo” (DV,4), no entanto, ela sabe que “embora a Revelação esteja terminada, não está explicitada por completo; caberá à fé cristã captar gradualmente todo o seu alcance ao longo dos séculos” (CIC, 66). E isso o Espírito Santo continua a fazer na Igreja através dos teólogos e do Magistério oficial. Aos teólogos cabe aprofundar os conhecimentos do “mistério da fé”, guiados pelos dogmas já revelados; mas somente ao Magistério cabe definir as verdades da fé.

A Tradição e a Bíblia estão intimamente ligadas. Tanto uma como a outra tornam presente e fecundo na Igreja o mistério de Cristo, presente na Igreja até o fim do mundo (cf Mt 28,20).

Ensina-nos a “Dei Verbum” que:

“A Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura estão, portanto, estreitamente conexas e interpenetradas. Ambas promanam da mesma fonte divina, formam de certo modo um só todo e tendem para o mesmo fim. Com efeito a Sagrada Escritura é a fala de Deus, enquanto é redigida sob a moção do Espírito Santo; a Sagrada Tradição, por sua vez, transmite integralmente aos sucessores dos Apóstolos a palavra de Deus confiada por Cristo Senhor e pelo Espírito Santo aos apóstolos para que, sob a luz do Espírito e da verdade, eles por sua pregação fielmente a conservem, exponham e difundam. Resulta, assim, que não é através da Escritura apenas que a Igreja consegue sua certeza a respeito de tudo o que foi revelado. Por isso, ambas ” Escritura e Tradição ” devem ser aceitas e veneradas com igual sentimento de piedade e reverência” (DV,9), (CIC, 82).

Já mostramos no capítulo anterior, através dos escritos de S. Ireneu, a riqueza da Tradição apostólica. É ainda ele quem a confirma, dizendo:

“Sendo nossas provas de tal monta, não é preciso ir procurar alhures a verdade, tão fácil de se haurir na Igreja, pois os apóstolos, como num rico celeiro, aí depuseram a verdade em sua plenitude, a fim de que todo o que desejar possa tirar dela a bebida da vida…”

“Pois bem, se ainda que apenas uma questão de detalhe provocasse discussão, não se haveria de renovar às Igrejas mais antigas, àquelas onde viveram os apóstolos, para se esclarecer a questão? E se os apóstolos não tivessem deixado quaisquer Escrituras, não se haveria de seguir a ordem da Tradição que eles legaram aos mesmos aos quais confiaram as igrejas?”

Vemos aí todo o valor da Tradição oral!

O Catecismo nos ensina que ela consiste em tudo aquilo “que vem dos apóstolos e transmite o que estes receberam do ensinamento e do exemplo de Jesus e o que receberam através do Espírito Santo. Com efeito a primeira geração de cristãos ainda não dispunha de um Novo Testamento escrito, e o próprio Novo Testamento atesta o processo da Tradição viva” (CIC, 83).

Muitas são as passagens do Novo Testamento que revelam a importância da Tradição oral. São Paulo diz a Timóteo:

“O que ouvistes de mim em presença de muitas testemunhas, confia-o a homens fiéis, que sejam capazes de ensinar ainda a outros” (2 Tm 2,2). Note bem o “ouvistes” de mim. É a transmissão oral do depósito da fé.

Vemos aí a própria Escritura atestando a existência da transmissão oral, de geração a geração. Este “depósito” oral chegou até nós pela palavra oficial da Igreja, e não pode ser desprezada.
Jesus deixou claro a seus discípulos, na noite da despedida, que Ele não lhes tinha ensinado tudo, mas que o Espírito Santo o faria ao longo do tempo:

“Muitas coisas tenho a dizer-vos, mas não as podeis suportar agora. Quando vier o Advogado, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a verdade…”(Jo 16,12).

Todo esse ensinamento que o Espírito Santo foi acrescentando à Igreja é o que foi formando a sua Sagrada Tradição. Era tão marcante a inspiração do Espírito Santo que, por exemplo, após o Concílio de Jerusalém, os apóstolos escreveram à Igreja de Antioquia:

“Com efeito, pareceu bem ao Espírito Santo e a nós…” (At 15,28).

Outras passagens mostram essa “intimidade” deles com o Espírito Santo.

“Então Pedro, cheio do Espírito Santo (…)” (At 4,8).

“Por que combinastes para por à prova o Espírito do Senhor ?” (At 5,9).

Leia também: http://cleofas.com.br/a-tradicao-da-igreja-parte-2/

Diante do Grande Conselho dos Judeus e do Sumo Sacerdote:

“Deste fato nós somos testemunhas, nós e o Espírito Santo (…)”(At 5,32).

Podemos, portanto, afirmar, com toda certeza, que tudo o que está na Bíblia é verdade, mas nem toda a verdade está na Bíblia. Parte da Revelação foi oral e está na Tradição, que, por isso é Sagrada e indispensável.

Na segunda Carta aos tessalonicenses vemos claramente a Tradição oral:

“Não vos lembrais de que vos dizia estas coisas, quando estava ainda convosco?” (2Ts 2,5).

“Assim, pois, irmãos, ficai firmes e conservai os ensinamentos que de nós aprendestes, seja por palavras, seja por carta nossa” (2Ts 2,15).

Nem tudo o que Jesus ensinou e fez, e nem tudo o que os apóstolos ensinaram, foi escrito. Naquele tempo era difícil escrever. Não havia papel e caneta fácil como hoje. Usava-se pergaminhos, peles de carneiros, papiros, etc., penas molhadas nas tintas. Escrever era raridade.

São João encerra o seu Evangelho mostrando claramente isto:

“Jesus fez, diante dos seus discípulos, muitos outros sinais ainda, que não se acham escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para crerdes que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que crendo, tenhais a vida em seu nome”(Jo 20,30s).

Mais adiante ele repete:

“Há muitas outras coisas que Jesus fez e que, se fossem escritas uma por uma, creio que o mundo não poderia conter os livros que se escreveriam”(Jo 21,25).

Essas passagens deixam claro que os evangelistas e Apóstolos só escreveram o “essencial da mensagem de Cristo, ” para crerdes que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que crendo, tenhais a vida em seu nome”.

Vemos assim que a própria Bíblia nos encaminha para as fontes orais da Palavra de Deus; isto é a Tradição oral que a berçou.

Não podemos jamais nos esquecer de que a Igreja é anterior ao Novo Testamento e que foi ela que formou o cânon do Antigo Testamento como o temos hoje. Logo, sem a Igreja a Bíblia se esfacela. O Cristianismo já existia quando foi escrito o Novo Testamento: “os fiéis eram assíduos aos ensinamentos (orais) dos apóstolos” (At 2,4).
Portanto, é a Igreja que credencia a Bíblia. Foi a Igreja que “constituiu” a Bíblia, como a temos, e não o contrário.

Todo este ensinamento é reafirmado pelo último Concílio, quando diz na “Dei Verbum”:

“Assim a pregação apostólica, expressa de modo especial nos livros inspirados, devia conservar”se sem interrupção até a consumação dos tempos. Por isso os Apóstolos, transmitiram aquilo que eles próprios receberam (cf. 1Cor 11,23; 15,3), exortam os fiéis a manter as tradições que aprenderam seja oralmente, seja por carta (cf. 2Ts 2,15) e a combater pela fé uma vez transmitida aos santos (cf. Jd 3). Quanto à Tradição recebida dos Apóstolos ela compreende todas aquelas coisas que contribuem para santamente conduzir a vida e fazer crescer a fé do povo de Deus, e assim a Igreja, em sua doutrina, vida e culto, perpetua e transmite a todas as gerações tudo o que ela é, tudo o que crê” (DV,8).

Infelizmente os reformadores protestantes (Lutero, Calvino, etc) tomaram a Bíblia como “a única fonte de fé”, e, pior ainda, entendida segundo o “livre exame” de cada crente, podendo interpretá-la segundo o seu parecer, “guiado pelo Espírito Santo”. Negaram a Tradição oral, repudiaram o Magistério, abandonaram a Igreja, esquecendo-se que Ela é anterior à Bíblia (Novo Testamento). Foi uma grande traição a Jesus, à Igreja, e ao Espírito Santo que, há quinze séculos (1500 anos!) já conduzia a Igreja sem nunca abandoná-la.

Na verdade, a reforma protestante foi o começo de toda esta lamentável situação que vivemos hoje, um mundo ateu, materialista, racionalista e hedonista, ofensivo a Deus e à Igreja.

A Reforma protestante, influenciada pelo Renascimento, deu a partida ao liberalismo e ao relativismo religioso que hoje assola o mundo todo.

Transcrevo aqui o que disse D. Estevão Bettencourt, OSB, no seu artigo “Origem dos vários grupos cristãos”:

“Os reformadores deram início à destruição do grande patrimônio de fé e cultura dos séculos anteriores, que associavam entre si Deus, Jesus Cristo e a Igreja.

“a reforma no século XVI disse SIM a Deus e a Cristo e NÃO à Igreja;

“os iluministas racionalistas do século XVIII disseram SIM a Deus, NÃO a Cristo e a Igreja;

“os ateus do século XIX disseram NÃO também a Deus;

“finalmente os estruturalistas do século XX disseram NÃO também ao homem, pois a morte de Deus vem a ser também a morte do homem”.

“Negando a Igreja de Cristo, os reformadores aceitaram a fundação de numerosas igrejas e igrejinhas de líderes humanos, todas originadas do subjetivismo dos seus fundadores” (PR, nº 404, 1996, pp 14 e 15).

A maneira subjetiva com que leem a Bíblia levou o Protestantismo ao esfacelamento, especialmente da doutrina: uns aceitam o batismo de crianças, outros não; uns guardam o sábado como o dia santo, outros o domingo; umas igrejas têm bispos, outras não; umas aceitam o batismo só por imersão na água, outras aceitam-no apenas por infusão. As denominações mais recentes (Testemunhas de Jeová, Mormons, Ciência Cristã) já não aceitam Jesus Cristo como Deus e Homem e nem aceitam a SS. Trindade. Os Mormons por exemplo, chegam a ter uma “bíblia” acima da Bíblia. E a confusão vai longe (…).

Em relação à Jesus Cristo há divergências profundas entre luteranos e “reformados”. Para muitos o dogma da Santíssima Trindade é a base do Cristianismo, para outros é uma “pedra de escândalo” e “aberração politeista”, embora muitas vezes convivam juntos achando que essas diferenças são “insignificantes”.

Algumas denominações levam a sério a questão doutrinária, outras, como a “Union Church”, admitem todas as doutrinas.

Resumindo podemos dizer que não há um só ponto de acordo, nem mesmo a respeito da Pessoa do próprio Jesus Cristo, que para uns é consubstancial ao Pai, mas para outros não. Se neste ponto central do Cristianismo ” a Pessoa de Jesus Cristo ” não há acordo no protestantismo, imagine no resto (…).

O próprio Lutero, amargurado, foi obrigado a reconhecer em 1525, apenas oito anos após o seu rompimento com a Igreja:

“Há tantas seitas e crenças quantas cabeças. Um não terá nada a fazer com o Batismo; outro nega o Sacramento; um terceiro acredita que há outro mundo entre este e o último dia. Alguns ensinam que Cristo não é Deus; uns dizem isto, outros dizem aquilo. Não há rústico, por mais rude que seja, que, se sonhar ou fantasiar alguma coisa não deva ser o sussurro do Espírito Santo, e ele próprio um profeta” ( “Martinho Lutero”, John A. O’ Brien, Ed. Vozes, 1959, p.32).

Lutero chegou ao fim da vida angustiado. Sentia-se atormentado pelos demônios, sem tréguas: “não dão descanso sequer um só dia”. E dizia que de todos os assaltos, “nenhum foi mais severo ou maior do que o acerca da minha pregação, acudindo”me à mente este pensamento: “Toda essa confusão foi causada por você” (John A. O’ Brien, idem, p. 28).

Vemos aí a voz de uma consciência pesada falando a Lutero.

No seu último sermão em Wittenberg, diz O’ Brien, ele denuncia a razão como “o orgulho do diabo” e como uma “petulante prostituta”( idem, p.29).

Para mostrar o quanto Lutero foi incoerente na defesa do “livre exame da Bíblia”, cito o que diz O’ Brien:

“Lutero começou declarando que a Bíblia podia ser interpretada por qualquer um “até mesmo pela humilde criada do moleiro; antes, até por uma criança de nove anos”. Mais tarde, no entanto, quando os Anabatistas, Zwinglianos e outros contrariaram as suas vistas, a Bíblia tornou-se para ele “um livro de heresias”, muito obscuro e difícil de entender ( idem, p.32).

Nos relata O” Brien que, em Ingolstadt, em 1577, trinta e um anos após a morte de Lutero (1546), Cristovão Rasperger citava duzentas interpretações diferentes das quatro palavras da consagração: “Isto é o Meu corpo”; interpretações sustentadas pelos seguidores da Reforma (The Faith of Millions, J. A. O’ Brien, Ind.1938, p.227).

Que confusão!

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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