A Teologia da Reconciliação – EB

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb
Nº 290 – Ano 1986 – Pág. 291

Em síntese: Vai tomando vulto na América latina, a partir do Peru, uma corrente de pensamento centrada na Teologia da Reconciliação. O tema da reconciliação foi enfaticamente apregoado pelo S. Padre João Paulo II quando esteve em Puebla no ano de 1979; desde então o conceito vem sendo mais e mais estudado com vistas à situação agitada que vive o continente latino-americano. O interesse pela temática da Reconciliação se prende também ao apelo de “Nova Evangelização” lançado por João Paulo II quando abriu em São Domingos o novenário de preparação para a celebração dos quatrocentos anos de descoberta e evangelização da América (12/10/1992).

A fim de aprofundar a Teologia da Reconciliação, já se realizaram dois Congressos Internacionais no Peru, em 1985 e 1986 respectivamente. As páginas que se seguem, apresentam breve relatório dos pronunciamentos ocorridos no segundo certame (16-19/01/1986), do qual participaram três cardeais, diversos Arcebispos e Bispos e centenas de clérigos, Religiosas e leigos: as conclusões dos estudos realizados levaram a ver que, de um lado é ilícito cruzar os braços diante da situação social das populações latino-americanas e, de outro lado, a revolução violenta tende a submeter tais populações a totalitarismos, que, em vez de libertar, reduzem a novas formas de escravidão.

Foi no Peru que Gustavo Gutiérrez, o pai da Teologia da Libertação extremada, deu início a esta corrente de pensamento. É também no Peru que vai tomando vulto nos últimos anos a Teologia da Reconciliação, concebida como resposta autenticamente evangélica aos
problemas do continente latino-americano. A inspiração fundamental desta procede de Puebla, onde o S. Padre lançou a temática em 1979; o assunto foi retomado por Bispos, teólogos e leigos do continente latino-americano, a tal ponto que em janeiro de 1985 se realizou o I Congresso Internacional de Teologia da Reconciliação, reunindo em Ayacucho, sob o patrocínio de Mons. Fernando Vargas Ruiz de Somancio, Arcebispo de Arequipa (Peru), algumas centenas de participantes de vários países.

O amadurecimento das idéias ocasionou o segundo certame dito “Congresso Internacional sobre Reconciliação e Nova Evangelização segundo o Pensamento de João Paulo II”. Ocorreu de 16 a 19 de janeiro de 1986 em El Callao, perto de Lima (Peru). Reuniu três Cardeais: Mons. Landázuri Ricketts, de Lima; Mons. Alfonso López Trujillo, de Medellín (Colômbia) e Mons. Bernard F. Law, de Boston (U.S.A.), diversos Arcebispos e Bispos, entre os quais D. Lucas Moreira Neves, brasileiro, Secretário da Congregação para os Bispos (Roma) e centenas de congressistas da América do Sul, do Centro e do Norte.  Na verdade, o Congresso versou sobre dois temas principais:

1) as dimensões da Teologia da Reconciliação aplicada ao nosso continente, muito sacudido por tensões. São palavras de João Paulo II: “A Igreja considera como missão específica sua a reconciliação de todos os indivíduos e de todos os povos”;

2) a Nova Evangelização da América Latina, preconizada por João Paulo II, quando em São Domingos abriu a novena de preparação para o quarto centenário da descoberta e da evangelização da América (12/10/1992). Esta Nova Evangelização deve fazer frente a desafios que os primórdios do Evangelho ignoraram na América; o secularismo, as injustiças sociais, o contra-testemunho de cristãos (…).

O Congresso constou de seis densas conferências e de dezoito Seminários de trabalho, que versaram sobre temas especiais, como se depreende da lista abaixo:

a) Mons. Darío Castrillón Geral do CELAM: “A celebração da Evangelização na América Latina”,

b) Mons. John Hass, Professor no Seminário Pontifício Josephinum (U.S.A.): “A Evangelização na América do Norte”;

c) Sr. Hervé Marie Catta, do Comitê Internacional da Renovação Carismática Católica: “Reconciliação no Espírito”;

d) Mons. Oscar Alzamora, Bispo de Tacna (Peru): “Perspectivas de uma Teologia da Reconciliação”;

e) Mons. Pe. Teodoro Jimenez Urresti, Professor da Universidade de Salamanca (Espanha): “A Espanha e o 4º Centenário da Evangelização”;

f) Mons. Gregorio Rosa Chavez, Bispo Auxiliar de San Salvador: “Urgência de uma Reconciliação na América Central”;

g) Mons. Alberto Brazzino, Bispo Auxiliar de Lima (Peru). “O Serviço Ministerial”;

h) Sr. German Doig, Instituto “Vida e Espiritualidade” (Peru): “Os cristãos consagrados: servidores da reconciliação”;

i) Mons. Sean O’Malley, Bispo das Ilhas Virgens (U.S.A.): “Missão da Juventude hoje”,

j) Mons. Alfredo Noriega, Bispo Auxiliar de Lima (Peru): “Missão da Família Cristã no Mundo Contemporâneo”;

k) Pe. Lorenzo Albacete, do Arcebispo de Boston (U.S.A.): “O compromisso do teólogo”,

l) Sr. Virgílio Levaggi, da Associação Promotora do Apostolado (Peru): “Os movimentos eclesiais”;

m) Pe. Cipriano Calderón, responsável pela edição de L’Osservatore Romano em espanhol: “Importância dos Meios de Comunicação Social”;

n) Sta. Lila Blanca Archideo, CIAFIC (Argentina): “Educação para a reconciliação e o Progresso”,

o) Sr. Federico Müggenburg do Conselho Coordenador das Empresas (México): “Empregados e Empregadores reconciliados na Empresa”;

p) Sr. Augusto Blacker, da Revista “Efficacia” (Peru): “Economia, Finanças e Solidariedade Internacional”;

q) Pe. Claudio Solano, da Escola Social João XXIII (Costa Rica): “Evangelização e Solidariedade dos Trabalhadores”;

r) Sr. Pedro Morandé, Professor na Pontifícia Universidade Católica do Chile: “Religiosidade popular e Espírito solidário na cultura latino-americana”.

A seguir, proporemos o conteúdo de algumas das principais conferências do notável Congresso.

Em continuidade com o passado, o futuro (…).

Mons. Ricardo Durand Flores

O Arcebispo bispo de Callao, Mons. Ricardo Durand Flores, foi o primeiro  conferencista do certame. Iniciou sua exposição com uma referência à dignidade humana, que só encontra seu verdadeiro sentido em Cristo e na obra de reconciliação realizada por Ele. Para se alcançar esta reconciliação, tanto a nível individual como a nível social, no ambiente civil e dentro da Igreja, requer-se uma atitude de humildade, que leva à conversão do coração. Esta implica renovação; todavia a renovação jamais poderá significar uma mudança do depósito da fé ou da Revelação. A Teologia da reconciliação não tenciona construir “nova Igreja” nem modificar a missão confiada por Jesus Cristo aos Apóstolos e à Igreja Universal.

Em Puebla, sob o impulso de João Paulo II e a despeito de pressões exercidas em contrário, a Igreja tomou distância em relação às ideologias tanto de inspiração marxista quanto de “Segurança Nacional”. As primeiras (tenha-se em vista a Nicarágua) sufocam a liberdade do homem; as outras (veja-se o regime chileno) ofendem sua dignidade, impondo-lhe um sistema que os cidadãos rejeitam.

A confusão provém do fato de que cada uma dessas ideologias pretende encarnar de maneiras diversas a “civilização cristã”. Todavia quem pode sustentar que o Evangelho leve a  algum sistema político determinado? Ao contrário, toda autêntica reconciliação deve apoiar-se sobre humildade, profundo respeito pela S. Escritura, grande sinceridade e ardente amor à verdade. A genuína Nova Evangelização preconizada por João Paulo II deve promover essa reconciliação. Em São Domingos, o S. Padre exprimiu votos de que haja “novo esforço criador”, uma “evangelização renovada”, mais dentro dos parâmetros da fidelidade à Igreja e aos textos do Magistério.

A Nova Evangelização deve ocorrer sem perder de vista a opção (ou o amor) preferencial pelos pobres, que não é nem exclusiva nem excludente. Segundo a doutrina da Igreja, não é lícito identificar o mundo dos pobres e uma classe social em luta. O combate pela
justiça em favor dos pobres há de ser travado sem que os pobres corram o risco de tornar-se escravos de um sistema que os prive da sua liberdade e que os submeta ao ateísmo sistemático; também se deve evitar que tal combate leve a um materialismo prático, apto a despojar os pobres da sua riqueza interior e do seu senso de transcendência.

A primeira libertação que devemos propiciar a todo homem, é a do pecado, a do mal moral, que está em seu coração e que dá origem ao “pecado social” e às estruturas opressoras.

Assim entendida, a libertação social faz parte integrante da libertação simplesmente dita. Todavia nenhum partido político, nem sistema político-econômico algum pode pretender apropriar a si o dinamismo do Evangelho e, menos ainda, a Palavra de Deus tal como a Bíblia no-la entregou.

Será graças a uma tal libertação que a reconciliação poderá ocorrer e levar à paz.

Uma Evangelização Reconciliadora

Pe. Julio Terán Dutari S. J.

O Reitor da Pontifícia Universidade  Católica do Equador, o Pe. Julio Terán Dutari S.J., dissertou sobre “As Dimensões de uma Evangelização Reconciliadora: Salvação, Libertação e Promoção Humana”. Estes três aspectos estão, de resto, intimamente ligados entre si. O Pe. Terán mostrou que, se a missão de Cristo não era nem econômica nem política nem social, não obstante o Evangelho comporta em si uma força capaz de transformar a comunidade dos homens.

Foi isto que a Conferência do CELAM em Medellín (1968) quis exprimir. Mas a recusa de cumplicidade com situações de injustiça não significa, como abusivamente foi dito, que a Igreja identifique libertação e revolução.

A libertação cristã apoia-se sobre os  valores bíblicos. Abre perspectivas que englobam o homem todo e todo homem. A Igreja liga, mas não confunde, associa, mas não identifica a salvação do homem e a promoção humana. O que João Paulo II denunciou em Puebla, foi a redução da salvação evangélica à promoção humana. A mudança de estruturas é apenas um dos elementos da transformação total que o Evangelho preconiza.

Medellín e Puebla vêm a ser “aberturas” aos problemas sociais, mas Puebla insistiu principalmente na necessidade da conversão dos corações.

A autêntica libertação deve integrar também a “encarnação da misericórdia”. Isto significa que ela não pode pactuar nem com o materialismo de um “capitalismo selvagem” nem com a luta de classes. Da mesma forma, o amor da Igreja pelos pobres não se pode reduzir aos aspectos políticos e sociais, mas deve tender impreterivelmente a levar-lhes os bens definitivos e transcendentais.

Os Bispos e a Reconciliação

D. Lucas Moreira Neves

O Secretário da S. Congregação para os Bispos abordou o papel dos Bispos na Nova Evangelização. Em primeiro lugar, enfatizou  que falar de “Nova Evangelização” significa que se admite uma evangelização anterior, evangelização que deve ser aceita e assumida sem ser julgada a partir de critérios de nossos dias. Trata-se não propriamente de pôr em relevo  as inevitáveis limitações do passado, mas de construir projetos novos de evangelização a partir das exigências do presente.

Evangelizar hoje não significa contentarmo-nos com passar verniz sobre estruturas antigas, mas trabalharmos na transformação do homem de hoje, suscitando aspirações, correntes de pensamento e mentalidade novas. Implica agir sobre as culturas comunicando-lhes um sopro vital. Significa ainda entrar em diálogo com a cultura moderna, valorizar seus melhores aspectos, corrigir o que é medíocre, recusar o que é inaceitável.

Outro aspecto enfatizado por D. Lucas Neves: a evangelização na América Latina não pode ser uma cópia do que ocorre (ou ocorreu) na Europa de maneira mais ou menos bem sucedida. É preciso inventar uma dinâmica evangelizadora para a América Latina.

Todavia o que importa acima de tudo, é a fé. O Bispo não é somente homem de fé. Deve ser também um defensor da fé, que saiba não apenas transmiti-la, mas também como a fazer crescer; seja um confessor da fé, que, por certo, há de respeitar o mundo tal como é, mas não se sentirá intimidado ou complexado diante deste.

Não sem certo humor, D. Lucas evocou a questão do pluralismo, tão apregoado por aqueles que procuram um pretexto para se calar quando deveriam falar: “A Igreja, disse, não quer
impor-se a ninguém, mas, em nome do pluralismo, Ela reivindica o direito de proclamar a Palavra de Deus, da qual Ela é depositário”. Ela crê que essa Palavra é profética e é capaz de iluminar o momento presente. Trata-se menos de denunciar do que de anunciar.

A irrupção de ideologias

Card. Alfonso López Trujillo

O Cardeal Trujillo teve por tema “A Reconciliação na Verdade e no Amor: do conflito à paz”. Aprofundou o sentido dos dois termos: Verdade e Amor.

A opção pela Verdade exclui todos os relativismos; trata-se da Verdade de Cristo ou de Cristo-Verdade. A exigência  de fidelidade à Revelação, manifestada na Escritura e na Tradição, e ao seu intérprete legítimo, o Magistério da Igreja, é de especial necessidade nestes tempos de confusão e conflitos. A fidelidade à Verdade leva-nos a acautelar-nos contra duas armadilhas: 1) a irrupção, dentro da Igreja, de ideologias que trazem consigo a divisão, como o vento traz a tempestade; essas ideologias são portadoras de conflitos internos e externos. Por conseguinte, um certo realismo exige que se restabeleça primeiramente a paz entre os cristãos, reunindo todos em torno daqueles que têm o encargo da unidade: o Papa e os Bispos. 2) A segunda armadilha é a da confusão das línguas: marxistas e não marxistas pronunciam freqüentemente as mesmas palavras (paz, libertação, Igreja dos pobres…), mas esses vocábulos não recobrem sempre as mesmas realidades. Para uns, a paz é a “tranqüilidade da ordem” (S. Agostinho, S. Tomás); para outros, é “a lei do mais forte”, ou seja, daquele que tiver conseguido impor suas idéias, mesmo pela força, sem levar em conta a vontade do povo (veja-se o caso de El Salvador).

Quanto ao amor, o cristão deve participar do amor de Deus para com os homens, manifestado em Cristo Jesus. A opção pelo amor implica a recusa de todos os sistemas que se apresentam em termos conflitivos. Aludindo às palavras de Hobbes “o homem é lobo para o homem”  e às de Sartre “o inferno são os outros”, o cardeal Trujillo observou como o marxismo é uma ideologia de conflito, que propõe a violência e o ódio como meios de salvação. Ora os sistemas assinalados pelo espírito de conflito estão em radical oposição à Revelação cristã; por isto não é lícito interpretar a mensagem do Evangelho em chave de conflito.

O caminho da Reconciliação nasce precisamente da Revelação do mistério do amor de deus em Cristo. Trata-se de uma afirmativa que, rejeitando a opção pelo conflito “sacralizado” ou “santificado”, leva à paz mediante o amor. Isto não significa que fuja da realidade, mas
implica realismo oriundo de um reconhecimento da verdade sobre o homem, sobre Jesus Cristo e sobre a Igreja.

O conferencista encerrou sua exposição detendo-se sobre o sentido da paz cristã: esta é centrada na verdade e no amor e distingue-se claramente do irenismo (ou da paz irreal, amorfa, que pactua com qualquer proposta),… irenismo que carece da solidez da paz verdadeira, pois não se norteia por definições.

Fecho do Congresso

Cardeal Landázuri-Ricketts

O Cardeal-arcebispo de Lima, Mons. Landázuri-Ricketts, tomou a palavra no encerramento do Congresso. Após enfatizar o valor das teses apresentadas, observou: “Este Congresso de Callao, estou certo, contribuirá poderosamente para que as duas pilastras básicas da Igreja Reconciliação e Evangelização – se reavivem não só no Peru, mas também em outros países. Uma Reconciliação baseada na justiça, no respeito à pessoa humana e ao direito dos demais homens. Reconciliação com Deus e com os irmãos a fim de sustentar uma Nova Evangelização. Se a conseguirmos, creremos, com a graça do Senhor, ter cumprido a nossa missão”.

Comenta o Pe. Jaime Baertl Gómez, Secretário Geral do Congresso, ao terminar breve relatório do mesmo:

“Após ter analisado a situação da nossa América Latina e a situação do mundo em que vivemos, um mundo e uma sociedade sulcados pela ruptura, a desunião social, a violência, a injustiça, a desconfiança de uns em relação aos outros, mundo que gera homens e mulheres fechados em seu próprio egoísmo por falta de Amor, não nos é lícito assumir a atitude de indiferença ou de quem não quer ver, de quem não quer exercer seu papel na história e na Igreja, de quem não deseja ser guardião do seu irmão, porque isto incomoda. Também não é lícito aceitar a atitude daqueles que julgam ser a violência a única via fácil e eficaz para uma transformação importante.

A reta posição, a atitude certa há de ser a de Maria, Mãe da Fé, Pedagoga do Evangelho, que, acolhendo o Plano de Deus, acreditou no poder de conversão da Boa-Nova e permitiu que o Senhor nela fizesse maravilhas. Devemos  ter fé, crer na força do Cristo, que pode converter e transformar” (Vida y Espiritualidad, nº 3, Enero-abril 1986, p. 119).

Outros Encontros do tipo do que foi apresentado, estão sendo preparados, a fim de se dar vulto e eficácia à Nova Evangelização reconciliadora tão apregoada pelo Santo Padre João Paulo II.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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