A Seicho-No-Iê

O fundador da corrente religiosa dita “Seicho-No-Iê” é Masaharu Taniguchi, nascido no Japão. Iniciou o seu movimento em 1930, com a publicação dá revista da Seicho-No-Iê, nome que significa “A Casa da Plenitude”, isto é, a casa onde se encontra vida, amor, sabedoria, abundância e todos os demais bens em grau infinito. Na década de 1940, o movimento foi registrado como religião perante o governo japonês; tem seu culto, sua “bíblia” (Seimei no Jisso) e sua mensagem doutrinária. Vejamos quais as proposições dessa mensagem.

Linhas, doutrinárias

 A Seicho-No-Iê é a mais eclética de todas as novas religiões. Combina entre si elementos do budismo e das crenças religiosas do Oriente com princípios do cristianismo, o que possibilita uma penetração grande não só nos países asiáticos, mas também em terras cristãs como o Brasil. Eis os seus principais artigos de fé:

1 – A matéria não tem existência real. Só existe a realidade espiritual.

Essa parece constituir a posição fundamental da Seicho-No-Iê. As formas físicas, materiais, não passam de “sombras da luz celeste a se refletir sobre a terra”. Muitas vezes, o mundo material é comparado a um filme que vai passando diante dos olhos do espectador. Para Taniguchi, tudo o que acontece no mundo material é mero reflexo da mente. Tudo depende da mente do homem. Descobrir o verdadeiro mundo, que se esconde atrás da ilusória aparência material, é uma das principais tarefas da Seicho-No-Iê.

2- Consequência: o mal não existe; é pura ilusão, produto da mente humana.

Portanto, a doença não existe, é irreal “Doenças e desgraças aparecem porque a mente do indivíduo não está em sintonia com as ondas de pensamento do universo de Deus”. Afirma Taniguchi que de tanto pensar comer demais, o homem acaba tendo indigestão; que de tanto pensar que a umidade produz resfriado e que os bacilos atacam o homem, este acaba adoecendo. É, pois, o homem quem cria sua doença ou sua saúde, conforme os pensamentos que tiver. Para quem cultiva pensamentos positivos, todas doenças desaparecem, e a felicidade é possível.

3 – O pecado também não existe; é irreal, pura ilusão.

Taniguchi acha que um dos maiores males é o fato de os homens considerarem pecadores. É preciso apenas tirar da mente a ideia de pecado, produto falso da mente, para o homem perfeito e puro como Deus o criou. Dessa forma, a Seicho-No-Iê nega; existência real do mundo material e existência de qualquer mal. Nessa perspectiva de um idealismo absoluto, Taniguchi interpreta tudo, inclusive palavras de Cristo.

Os livros e revistas da Seicho-No-Iê estão repletos de- relatos de curas milagrosas. O fundador chegou a afirmar que a Seicho-No-Iê é superior ao cristianismo, pelo fato de produzir mais e maiores milagres que o próprio Cristo. Em outra ocasião, para mostrar a superioridade da Seicho-No-Iê, afirmou: “Nós vemos nas profundezas de Buda e nas profundezas do Deus cristão um Deus ilimitado, o Deus da Seicho-No-Iê, que até agora ainda não foi revelado”.

Refletindo…

Um bom número de católicos indecisos e de pouca formação religiosa frequentam a Seicho-No-Iê. Alguns chegam a afirmar que lá chegaram a compreender em profundidade a doutrina cristã! Tal testemunho revela incompreensão do que seja o cristianismo e a própria Seicho-No-Iê.

O cristianismo é, essencialmente a mensagem do Deus bom, criador de tudo o que existe, inclusive da matéria. Esta, inegavelmente, existe, e não é má em si mesma; ao contrário, é um reflexo da sabedoria e do poder de Deus A alma humana é espiritual e muito digna, porque sede da inteligência e da vontade. Mas nem por isso é lícito depreciar a matéria; o Criador quis unir no ser humano o corpo material e a alma espiritual, para que se complementem entre si e propiciem a formação da personalidade psicossomática, que é a de cada um de nós.

Quanto às doenças, é certo que muitas delas são funcionais, não orgânicas; isto é, muitas doenças dependem do nosso psiquismo. Uma pessoa atormentada em sua mente por infortúnios está mais sujeita a certas moléstias, como úlcera estomacal, asma, eczemas, verrugas, gagueira… Todavia, há doenças de origem genética, infecciosa ou contagiosa, que menos dependem do psiquismo do paciente. É certo também que a cura de uma doença muito depende do ânimo forte e otimista do paciente; a paz de espírito desbloqueia as funções do organismo e permite melhor metabolismo.

As curas anunciadas pela Seicho-No-Iê podem ser assemelhadas às de outras correntes religiosas, e podem ser interpretadas como fenômenos psicológicos ou para psicológicos. Atualmente, o progresso dos estudos psicológicos permite explicar, por vias naturais, certos fatos surpreendentes à primeira vista, que outrora eram tidos como milagrosos ou como sinais de Deus.

Isso não quer dizer que não haja milagres; a Igreja os admite, mas submete todo fato portentoso a sérios exames de índole histórica, médica, científica e religiosa para poder chegar à certeza de que nenhum fator meramente natural e explica e, consequentemente, é sinal de Deus, que se quer manifestar mais eloquentemente através de um milagre. Notemos que todo milagre é um sinal, como diz São João; é uma resposta de Deus mais significativa, resposta a uma prece humilde e confiante de suas criaturas.

Dizer que o pecado não existe ou é pura ilusão é remar contra toda evidência. Não se pode desconhecer o quanto os homens sempre contradisseram a Lei de Deus, que fala não somente pelo Decálogo, mas também pela própria natureza humana, preceituando: “Não matarás, não roubarás, respeitarás pai e mãe…” Muitas pessoas se consolam ao pensar que o conceito do pecado está ultrapassado; todavia, é nisso que há uma grande ilusão, ilusão esta doentia, pois a psicanálise ensina que é muito mais sadio fazer uma kathársis: ou reconhecer a verdade, do que a encobrir com máscaras. Deus é o Deus do perdão, que entregou o próprio Filho pregado à cruz para que tivéssemos confiança nele, que veio apagar o pecado do mundo.

Taniguchi cita, muitas vezes, as palavras de Cristo, e tem uma preferência pelos escritos do apóstolo São João. Contudo, além de selecionar apenas o que lhe é agradável e lhe convém, dá-se o direito de interpretar os ensinamentos de Cristo segundo as suas categorias de pensamento pré-concebidas. Coloca de lado as palavras do Evangelho mais duras e exigentes.

A propósito, escreve dom Lino Vonbommel, bispo franciscano que muito se dedicou à missão entre os japoneses do Brasil: “De tanto insistir pensamento positivo e em coisas agradáveis, tem-se a impressão de que os adeptos da Seicho-No-Iê ficarão fartos de tanto “açúcar”. Aliás, Cristo quer que sejamos o sal da terra e que anunciemos a Verdade nua e crua. Não foi apenas para agradar aos nossos ouvidos que o Filho de Deus se encarnou morreu numa cruz!”

Lembramos aos católicos que a lisonja e as meias-verdades podem ser mais perniciosas do que uma oposição frontal. Os católicos esclarecidos convictos não frequentam a Seicho-No-Iê, cujos ensinamentos, em boa parte, são contrários aos do Evangelho de Cristo; sabem que não basta citar o Evangelho para ser autêntico mensageiro de Cristo. Atualmente, muitas novas correntes religiosas utilizam o Evangelho para captar a simpatia da população de países cristãos.

Por último, notamos que muitas das novas religiões são ecléticas, ou seja, reproduzem elementos de diversos troncos religiosos (budismo, xintoísmo, gnosticismo, ocultismo, cristianismo ). Todas elas dão grande destaque teórico e prático às doenças e propõem métodos “simples e eficazes” para cura de moléstias físicas e mentais. Por isso, compreende-se a sua popularidade para o homem moderno, à procura de uma rápida receita para os males corpo e as aflições do espírito.

Os fiéis católicos, porém, sabem que religião é, antes do mais, culto de adoração, louvor e gratidão ao Senhor Deus; somente em segunda instância é serviço à saúde do homem.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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