A sã Doutrina – EB

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb
Nº 363 – Ano 1992 – p. 337

(1Tm 1,10)

Em suas cartas pastorais (1/2Tm, Tt), o Apóstolo refere-se a pregadores de falsas doutrinas que perturbavam as comunidades cristãs. Tratava-se de erros na fé. São Paulo os rejeita e quer advertir os seus fiéis recorrendo a uma imagem nunca dantes utilizada pelo Apóstolo: a heresia é gangrena (gangraina), ao passo que a reta fé é fator de saúde, é a sã doutrina: “Evita os palavrórios ímpios, pois tendem a disseminar sempre mais a impiedade. A palavra dos ímpios é como uma gangrena
que corrói” (2Tm 2, 16s).

Gangrena é palavra que só ocorre em 2Tm 2,17 no epistolário paulino. A metáfora é muito enfática, pois gangrena vem a ser uma necrose de tecidos que tende a se propagar, contaminando sempre novas e novas células. Tal seria, conforme o Apóstolo, a perniciosidade das doutrinas errôneas; atingem toda a comunidade cristã, contagiando os membros sadios.

Observemos, aliás, que as três epístolas pastorais são caracterizadas pela imagem de saúde e doença da alma para designar respectivamente a reta doutrina e as heresias; ver 1Tm 6,4 (doença); Tt 1,15 (contaminação e infecção); 1Tm 4,2 (cauterização). Tal é a importância que o Apóstolo atribui à reta fé; é condição e fator de vigor espiritual; implica adesão à Palavra da Vida (cf. Jo 6,63). Ao contrário, a heresia (= escolha de uma ou algumas verdades da fé, e recusa de outras) é mortífera, portadora de necrose e putrefação!

Recorrendo a tais imagens, o Apóstolo, de certo modo, fazia eco a pensadores gregos clássicos: Platão (+ 348 a.C.), por exemplo, afirmava que a virtude é saúde da alma (República IV a.C.), por exemplo, afirmava que a virtude é saúde da alma (República IV 18); Aristóteles (+ 322 a.C.) comparava os vícios a doenças (Ética a Nicômaco  III 7s); os Estóicos diziam que a arte de dominar as paixões é terapia. Notemos, porém, que, para o Apóstolo, o mal não está apenas nos vícios morais; ele já existe quando alguém deturpa a verdade. Tal é o apreço que São Paulo e, com ele, o Cristianismo dedica à Verdade, especialmente à Verdade revelada por Deus ou à Verdade da fé. Pode-se acrescentar que a imagem persistiu na literatura cristã. Sim; no Apocalipse São João verifica que os adoradores da Besta são portadores de úlcera maligna e perniciosa (cf. Ap 16,2).

Como se vê, os escritores sagrados são veementes. Sem dúvida, em nossos dias muitos são aqueles que não crêem ou professam Credos diversos, com sinceridade e candura. Não os julguemos. Importa, porém, tomar consciência do enorme valor que, segundo o Novo Testamento, tem a Palavra de Deus confiada aos Apóstolos, dos quais Pedro é o Chefe visível. Deturpar tal palavra significa ameaçar de gangrena e necrose a comunidade fiel.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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