A Rosa e a Trindade

“Rosa mística” – eis um dos títulos que a devoção mariana dedicou à Mãe de Deus. Trata-se de um título poético, extremamente simbólico, que somente pode ser compreendido e saboreado poeticamente. Se “rosa” é um apelativo extremamente evocativo do sentimento, da beleza, da ternura cândida, o adjetivo “mística”, derivado de mistério, remete esta Rosa ao mistério do próprio Deus: Rosa Mística significa, então, Rosa misteriosa, Rosa tomada pelo Mistério que é Deus, o Deus uno e trino dos cristãos. Por tudo isso, para relacionar a Rosa Mística com a Trindade Santa, devemos partir da poesia, modo intuitivo e profundo de captar a realidade.

Partamos destes versos suaves e teologicamente precisos de um cântico de Natal:

Duma Flor germinada na terra
fecundada por Sopro de Deus
hoje um novo começo desponta
e se abraçam a terra e os céus.

A Flor é a Virgem Maria. Ao chamá-la assim o poeta coloca-se na tradição mariana que a considera flor, rosa, lírio. É um costume antigo. Baste-nos esta belíssima citação da oração mariana da Igreja síria-ocidental no século VIII:

Tu és a Rosa desejável e pura
e o teu rosto resplandecente não foi despetalado
pelo vento infestado pelo pecado
desde o momento da tua origem
no jardim do Altíssimo e magnífico Soberano.

Aqui aparece claramente o título de Rosa dado a Maria; rosa que não foi descaracterizada pelo pecado original: desde sua origem foi preservada por Deus do vento infestado de pecado. Por quê? A resposta, também poética, encontra-se nos versos de Natal, acima citados: esta Rosa, Flor germinada na terra, foi fecundada pelo Sopro de Deus. Este Sopro, sabemo-lo biblicamente, é o Santo Espírito.

Assim, a estrofe do Natal apresenta a Rosa mística, misteriosa, toda envolta pelo Mistério de Deus: foi, desde o início, “desejável e pura” porque o “Altíssimo e magnífico Soberano” a preservou do vento do pecado e derramou sobre ela o seu Sopro fecundo. Desde o início a Rosa vive deste Sopro, do Espírito, que é água derramada sobre nós, água que bebemos para a vida eterna (cf. 1Cor 12,13; Jo 7,37ss). O Pai desde toda a eternidade pensou em plantar esta Rosa, amou-a, predestinou-a (cf. Ef 1,3-4) e santificou-a pelo Sopro, que é o Espírito; Espírito que arranca o pecado, Espírito que vivifica, Espírito de vida e fecundidade. E para que tudo isso? Porque a Rosa, a Flor deveria das Fruto: “Bendito o Fruto do teu ventre: Jesus!” Isto mesmo: segundo a tradição cristã, a Rosa não tem fim em si mesmo: ela existe, ela é bela, ela é agraciada pelo Sopro de Deus para dar Fruto, Fruto bendito e salvador, o Filho Jesus! Seriam totalmente equivocadas uma mariologia e uma piedade mariana que parassem em Maria mesma, que não a colocassem no conjunto do desígnio salvífico de Deus, que não a relacionassem o nossa Salvação, Cristo Jesus!

Assim, o título de Maria como Rosa mística pode ser trinitariamente pensado do seguinte modo: ela é mística (= misteriosa) porque totalmente envolta no Mistério do Deus uno e trino e a ele totalmente relacionada: Rosa plantada pelo Pai, feita germinar pela potência do seu Sopro, que é o Espírito; preservada do vento danoso do pecado original, regada pela água e o orvalho do Santo Espírito, ela deu o Fruto de Salvação, Fruto por nós esperado, Fruto de vida, diverso e contrário o fruto de morte do Paraíso. Deste modo, o título “Rosa Mística” aparece com toda sua beleza e significado teológico! Aliás, nunca, nunca se deve esquecer: a verdadeira devoção à Toda Santa, deve ser sempre, como na grande Tradição da Igreja, bíblica, teológica e ligada à história salvífica, que tem seu centro em Cristo Jesus, enviado pelo Pai na potência do Santo Espírito.

Podemos concluir com uma pérola do lirismo do Ofício de Laudes da Assunção da Virgem Maria, da Igreja armena:

Ó Flor imarcescível,
ramo sem condenação, brotado da raiz de Jessé,
um dia Isaías te profetizou
como sede da graça septiforme do Espírito:
Mãe de Deus e Virgem,
nós te exaltamos!

Tu és o ramo vivente do Fruto dulcíssimo,
ramo do qual foi tirado para nós o cacho inesgotável,
para alegria dos tristes que se alimentam da árvore da vida!
Ó santa e imaculada, nós todos de exaltamos!

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D. Henrique Soares da Costa
http://www.padrehenrique.com

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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