A Ressurreição, mito ou realidade? (Parte 2)

Vejamos, agora, algumas reflexões sobre a credibilidade da Ressurreição.

(1) Fato histórico incontrastável é a brusca e inexplicável mudança de atitude e comportamento dos discípulos. Durante todo o ministério de Jesus, muitíssimas vezes os evangelhos dão testemunho da lentidão e da dificuldade dos Doze em compreender Jesus (cf. Mc 8,14-22; 8,31-33; 10,32-45); um dos Doze o traiu, os outros apóstolos não lhe foram solidários e até fugiram (cf. Mt 26,36-56), seu líder negou Jesus (cf. Mc 14,66-72). Tudo isto é historicamente irrefutável. O moral do grupo após a sexta-feira era o pior possível; ninguém esperava uma ressurreição de Jesus (cf. Lc 24,21-24). Ora, logo após, os apóstolos mudaram completamente de atitude, de ânimo, de vida! Passaram da depressão ao ânimo, da estupefação ao testemunho, da dispersão à comunhão em torno dos Doze. Resta a pergunta insistente: o que houve? Uma fraude poderia causar tal transformação? Certamente, não! Então, uma alucinação?

(2) Os relatos dos evangelhos também não dão margem a uma teoria de alucinação. Note-se que as manifestações do Ressuscitado dão-se no cotidiano, quando os apóstolos não esperavam e não estavam em estado de excitação místico-religiosa. Também é importante o fato de não reconhecerem logo a Jesus (cf. Lc 24,16; Jo 21,4) e mais importante ainda é a surpreendente informação que muitos duvidaram (cf. Mt 28,16; Mc 16,9-14; Jo 20,24-29). É impressionante a insistência dessa dúvida!

(3) Há discrepâncias nos relatos evangélicos. A Igreja não as harmonizou, num claríssimo sinal de respeito às fontes. Não são lendas ou frutos de imaginações excitadas! Também apontam para a historicidade (a) o fato de Jesus confiar o anúncio da Ressurreição a mulheres, (b) o fato de não ser reconhecido imediatamente e (c) o fato da incredulidade dos discípulos. Nada disso apareceria num texto fraudulento, pois deporia contra a veracidade da Ressurreição!

(4) É digno de nota também que o túmulo vazio nunca foi contestado pelos judeus ou pelos romanos. Se é exato que tal fato não garante nem prova o feto da Ressurreição, também é verdadeiro que deixa uma pergunta não respondida: onde está o corpo de Jesus? O que lhe aconteceu? Os discípulos respondem, decididos: “Ele ressuscitou! Nós o vimos!” Note-se que os cristãos nunca usaram o sepulcro vazio como argumento ou prova em favor da Ressurreição; foram os encontros com o Ressuscitado que primeiramente fundamentaram a fé na ressurreição. O sepulcro vazio apenas confirmou o fato! Ele fecha a porta para interpretar as manifestações como alucinações ou para uma interpretação “espiritualizada” da Ressurreição de Jesus!

(5) É impressionante também a concordância da Ressurreição com a fé de Israel. Se é verdade que ninguém em Israel esperava uma ressurreição antes do fim dos tempos – e neste sentido a Ressurreição de Jesus é algo absolutamente original e revolucionário -, não é menos verdadeiro que o Senhor Deus é sempre apresentado como o Deus da vida, da justiça, do poder e da fidelidade, de modo que conheciam o Deus de Israel, revelado nos textos sagrados, estavam preparados para compreender a Ressurreição de Jesus como ação culminante desse Deus! Aquele que foi obediente e fiel até a morte, não foi abandonado pelo Senhor Deus que, “segundo as Escrituras” o ressuscitou em sua fidelidade!

(6) É interessante também o quanto a Ressurreição de Jesus dá uma chave potente e coerente para tudo quanto aconteceu na história de Israel e do próprio Jesus de Nazaré, sugerindo realmente a veracidade de tal evento! A própria fé cristã somente pode explicar-se e articular-se à luz da Ressurreição: sem ela todo o edifício teológico cai e o próprio Antigo Testamento fica sem um final e sem sentido pleno…

(7) Não menos digno de nota é o testemunho dos discípulos: eles nunca falaram de aparições interiores nem de um cadáver reanimado; falaram de um Jesus totalmente transformado e glorioso! Ora, crer neste testemunho é aceitar a palavra de pessoas que se encontraram com Jesus ressuscitado através de um tipo especial de experiência exclusiva deles. Desde Orígenes e dos Padres da Igreja, chama-se atenção para a coerência dos apóstolos e sua vida heróica, exatamente por causa de sua experiência com o Ressuscitado.

Pode-se concluir esta apresentação com o raciocínio lúcido de São Tomás de Aquino: Nenhuma razão particular, em si mesma, pode provar a Ressurreição: os argumentos individuais tomados em si mesmos não são prova suficiente da Ressurreição de Cristo, porém tomados em conjunto, de um modo cumulativo, manifestam-na de um modo perfeito. A Ressurreição, por um lado, exige sempre o salto da fé; por outro lado, uma fé esclarecida e racionalmente justificável. Por quanto sejam louváveis, os seguintes versos fideístas não são suficientes para uma adesão humanamente responsável: “Vive, vive Jesus Cristo vive hoje:/ Passeia comigo e me fala/ Ao largo do estreito caminho da vida./ Vive, vive para nos salvar;/ tu me perguntas como sei que vive…/ Vive dentro do meu coração!” Se Jesus vive simplesmente porque vive no meu coração, então eu o ressuscito e não ele a mim; eu o salvo da morte e do esquecimento do nada e não ele a mim!

É muito mais lúcida, humana, responsável, madura e católica a observação de Tomás de Aquino: Não devemos crer se não tivermos razões para crer!


Por Dom Henrique Soares da Costa, Bispo Titular de Acúfica e Auxiliar de Aracaju

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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