A resposta cristã ao secularismo (Parte 2)

Quem sabe
se a fé cristã não pode voltar à Inglaterra e ao continente europeu pela mesma
razão pela que fez sua entrada: como a única que tem uma resposta definitiva a
dar às grandes interrogações da vida terrena. A melhor oportunidade de
transmitir esta mensagem são os funerais. Neles, as pessoas estão menos
distraídas que nos outros ritos de passagem (Batismo, Casamento); eles
questionam o seu próprio destino. Quando se chora por um ente querido, se chora
também por si mesmo.

Certa vez
ouvi um interessante programa da BBC inglesa sobre os chamados “funerais
seculares”, com a gravação ao vivo de um deles. Em certo momento o mestre de
cerimônias dizia aos presentes: “Nós não devemos ficar tristes. Viver uma vida
boa, satisfatória, por 70 anos (a idade da falecida), é algo pelo qual se
deveria ser grato”. “Grato a quem?, me perguntava. Tais funerais não fazem mais
que deixar evidente a derrota total do homem frente à morte.

Os
sociólogos e estudiosos da cultura, chamado a explicar o fenômeno dos funerais
seculares ou “humanistas”, viam a causa da propagação desta prática em alguns
países do norte da Europa no fato de que estes funerais religiosos envolvem os
presentes numa fé que não se sentem à vontade para compartilhar. A proposta
sugerida era: a Igreja, nos funerais, deveria evitar qualquer menção a Deus, à
vida eterna, a Jesus Cristo morto e ressuscitado, e limitar  seu papel ao
de “organizadora natural e experiente dos ritos de passagem”! Em outras
palavras, resignar-se à secularização inclusive da morte!

5. Vamos à
casa do Senhor! 

Não
precisamos de uma fé renovada na eternidade somente para evangelizar, isto é,
para o anúncio aos outros, precisamos dela, mesmo antes, para dar um novo
impulso à nossa caminhada rumo à santidade. O enfraquecimento da ideia de
eternidade atinge também os crentes, diminuindo neles a capacidade de enfrentar
com coragem o sofrimento e as provas da vida.

Pensemos em
um homem com uma balança na mão: uma daquelas balanças se equilibram com uma
mão e tem de um lado um prato onde se colocam as coisas para pesar e do outro
uma barra que marca o peso ou a medida. Se cai no chão ou perde a medida, tudo
o que e colocado no prato levanta a barra e inclina a balança. Até um punhado
de penas.

Assim somos
nós quando perdemos o peso, a medida de tudo que é a eternidade: as coisas e os
sofrimentos terrenos levam facilmente nossa alma ao chão. Tudo parece muito
pesado, excessivo. Jesus dizia: “Se tua mão ou teu pé te leva à queda, corta e
joga fora. É melhor entrares na vida tendo só uma das mãos ou dos pés do que,
com duas mãos ou dois pés, seres lançado ao fogo eterno. Se teu olho te leva à
queda, arranca-o e joga fora. É melhor entrares na vida tendo um olho só do
que, com os dois, seres lançado ao fogo do inferno”. (cf. Mt 18,8-9). Mas nós,
tendo perdido de vista a eternidade, achamos já excessivo que se nos peça
fechar os olhos a um espetáculo imoral.

São Paulo
se atreve a escrever: “Com efeito, a insignificância de uma tribulação
momentânea acarreta para nós um volume incomensurável e eterno de glória. Isto
acontece porque miramos às coisas invisíveis e não às visíveis. Pois o que é
visível é passageiro, mas o que é invisível é eterno” (2 Cor 4,17-18). O peso
da tribulação é “leve, porque provisório, o da glória é enorme exatamente por
ser eterno”.  Por esta razão, o mesmo Apóstolo pode dizer: “Eu penso que
os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória que há de ser
revelada em nós.” (Rm 8:18).

O cardeal
Newman, que foi escolhido como mestre especial neste Advento, obriga-nos a
adicionar uma verdade que falta na reflexão realizada até agora sobre a
eternidade. Ele faz isso com o poema “O Sonho de Gerôncio”, com
música do grande compositor inglês Edgar Elgar. Uma verdadeira obra-prima pela
profundidade de pensamento, pela inspiração e dramaticidade lírica.

Descreve o
sonho de um ancião (o que significa o nome Gerontius-Gerôncio) que se sente
perto do fim. A seus pensamentos sobre o sentido da vida, a morte, o abismo do
nada no qual se precipita, se sobrepõem os comentários dos espectadores, a voz
orante da Igreja: “Parte desse mundo, alma cristã” (proficiscere, alma
christiana ), as vozes de contestação de anjos e demônios que pesam sua
vida e reclamam sua alma. É particularmente bela e profunda a descrição do
momento da morte e do despertar no outro mundo:

“Fui
dormir, e agora estou renovado.
Um refresco estranho: por que eu sinto em mim
Uma leveza indescritível, e um sentido
De liberdade, como se eu finalmente fosse
E nunca tinha sido antes. Que paz!
Já não ouço mais que a incessante batida do tempo,
Não, nem me falta a minha respiração, ou o pulso;
Não é um momento diferente do outro” [12].

As últimas
palavras que a alma pronuncia no poema são aquelas com as quais chega serena e
até ansiosa ao Purgatório:

Lá cantarei
o meu Senhor e amor ausente: 
Leve-me embora,
Que, mais cedo eu possa subir, e ir acima,
E vê-Lo na verdade do dia eterno.” [13].

Para o
imperador Adriano, a morte era a passagem da realidade às sombras, para o
cristão John Newman ela é a passagem das sombras à realidade ex umbris et
imaginibusin veritatem como quis que fosse escrito sobre seu túmulo.

Qual é,
então, a verdade que Newman nos obriga a não manter em silêncio? Que a passagem
do tempo à eternidade não é retilínea e igual para todos. Há um juízo para
enfrentar, um juízo que pode ter dois resultados muito diferentes, o inferno ou
o paraíso. A espiritualidade de Newman é austera, inclusive rigorosa, como a
do Dies irae, mas que salutar nessa época inclinada a tomar tudo como
brincadeira, como dizia  Kierkegaard, com o pensamento da eternidade!

Elevemos o
nosso pensamento à eternidade com renovado ímpeto. Repitamos a nós mesmos as
palavras do poeta: “Tudo, exceto o eterno, o mundo é em vão.” No saltério
hebraico há um grupo de salmos, chamados de “salmos de ascensão” ou “cânticos
de Sião”. Eram os salmos que os peregrinos israelitas cantavam quando saíam em
peregrinação à cidade santa, Jerusalém. Um deles começa assim: “Fiquei alegre,
quando me disseram: Vamos à casa do Senhor!”. Estes salmos de ascensão 
tornaram-se os salmos de quem, na Igreja, segue a caminho da Jerusalém celeste;
são os nossos salmos. Comentando sobre as palavras iniciais do salmo, Santo
Agostinho dizia a seus seguidores: 

“Corremos
porque vamos para a casa do Senhor, corremos porque uma corrida como essa não
cansa; porque chegaremos a uma meta onde não existe cansaço. Corramos à casa do
Senhor e nossa alma se alegra por aqueles que repetem essas palavras. Estes
viram primeiro que nós a pátria, os apóstolos a viram e nos disseram: “Corram,
apressem-se, venham atrás! Vamos para a casa do Senhor!” [14].

Temos
diante de nós, nesta capela, uma esplêndida representação em mosaico da
Jerusalém celeste, com Maria, os apóstolos e uma longa procissão de santos
orientais e ocidentais. Eles repetem silenciosamente este convite. Aceitemo-lo
e levemo-lo conosco nesta jornada e ao longo da vida.

Notas

[1] Cf. M.
Pohlenz, L’uomo greco, Florença 1967, p. 173ss.

[2] Animula
vagula, blandula,  In ‘Memórias de Adriano’, p. 251, Editora Circulo
do Livro, 1974

[3] S.
Kierkegaard, Postilla conclusiva, 4, in Opere, a cura di C. Fabro,
Firenze 1972, p. 458.

[4] Miguel
de Unamuno, “Cartas inéditas de Miguel de Unamuno e Pedro Jiménez Ilundain,”
ed. Hernán Benítez, Revista de la Universidad de Buenos Aires, vol. 3, no. 9
(Gennaio-Marzo 1949), pp. 135. 150.

[5] S.
Agostinho, Tratado sobre o Evangelho de João, 45, 2 (PL,  35, 1720).

[6] Antonio
Fogazzaro, “A Sera,” in Le poesie, Milano, Mondadori, 1935, pp.
194-197.

[7] G.E.
Lessing, Über den Beweis des Geistes und der Kraft, ed. Lachmann, X, p.36.

[8] S.
Tomás deAquino, Somma teologica, II-IIae, q. 24, art.3, ad 2.

[9] S.
Agostinho, Sermo 378,1 (PL, 39, 1673).

[10] N.
Cabasilas, Vida em Cristo, I,1-2, UTET, 1971, pp.65-67.,

[11] Beda,
o Venerável, Historia ecclesiastica Anglorum, II, 13.

[12] O
sonho de Gerôncio, in Newman Poeta, a cura di L. Obertello, Jaka Book,
Milano 2010, p.124

[13] O
sonho de Gerôncio, in Newman Poeta, a cura di L. Obertello, Jaka Book,
Milano 2010, p.124

[14] S.
Agostino, Enarrationes in Psalmos 121,2 (CCL, 40, p. 1802).

Compartilhe!

    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
    Adicionar a favoritos link permanente.