A resposta cristã ao secularismo (Parte 1)

Segunda
pregação do Advento

CIDADE DO
VATICANO, sexta-feira, 10 de dezembro de 2010 (ZENIT.org) – Apresentamos a segunda pregação do Advento pronunciada
nesta sexta-feira pelo Pe. Raniero Cantalamessa OFM cap, pregador da Casa
Pontifícia, diante de Bento XVI e da Cúria Romana, na Capela Redemptoris
Mater do Palácio Apostólico Vaticano, sobre o tema da resposta cristão ao
secularismo.

* * * 

P. Raniero
Cantalamessa, ofmcap.

Segunda
Pregação de Advento

“A VIDA
ETERNA QUE A VÓS ANUNCIAMOS” (1 Jo 1,2)

1.
Secularização e secularismo

Nesta
meditação, veremos o segundo obstáculo que a evangelização no mundo ocidental moderno
encontra: a secularização. No Motu Proprio com o qual o Papa criou o
Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização, é dito que este
“está a serviço das Igrejas particulares, especialmente naqueles territórios de
antiga tradição cristã onde se manifesta mais claramente o fenômeno da
secularização”.

A
secularização é um fenômeno complexo e ambivalente. Pode significar a autonomia
das realidades terrenas e a separação entre o reino de Deus e o reino de César
e, neste sentido, não só não é contra o Evangelho, mas encontra nele uma de
suas raízes profundas. Pode, no entanto, indicar também todo um conjunto de
atitudes contrárias à religião e à fé, pelo qual é preferível usar o termo
secularismo. O secularismo está para secularização assim como o cientificismo
para a ciência e o racionalismo à racionalidade.

Cuidando
dos obstáculos ou desafios que a fé encontra no mundo moderno, referimo-nos
exclusivamente a este sentido negativo da secularização. Mesmo assim
delimitada, no entanto, a secularização tem muitas faces, dependendo dos campos
em que se manifesta: a teologia, ciência, ética, a hermenêutica bíblica, a
cultura em geral, a vida cotidiana. Nesta meditação, tomo o termo em seu
primordial. A secularização, como o secularismo, na verdade, derivam da
palavra saeculum, que no uso comum termina por indicar o tempo presente (aeon atual,
segundo a Bíblia), por oposição à eternidade (aeon futuro,  “séculos
dos séculos”, da Bíblia. NT: um período de tempo extremamente longo e
indefinido). Nesse sentido, o secularismo é sinônimo de temporalidade, de
redução do real somente à dimensão terrena.

A queda do
horizonte da eternidade ou da vida eterna tem, sobre a fé cristã, o mesmo
efeito que a areia jogada sobre uma chama: a sufoca, a apaga. A crença na vida
eterna é uma das condições de possibilidade da evangelização. “Se é só para
esta vida que pusemos a nossa esperança em Cristo, somos, dentre todos os
homens, os mais dignos de compaixão”. (1 Coríntios 15,19).

2. A ascensão e a queda da ideia de
eternidade

Recordemos
brevemente a história da crença na vida após a morte, vai nos ajudar a medir a
novidade trazida pelo Evangelho neste campo. Na religião hebraica do Antigo
Testamento, essa crença se afirma tardiamente. Somente depois do exílio, diante
do fracasso das expectativas temporais, nasce a ideia da ressurreição da carne
e de uma recompensa após a morte para os justos, e ainda assim não todos a
adotam (os saduceus, como sabemos, não partilham tal crença).  

Isso
desmente clamorosamente a tese daqueles (Feuerbach, Marx, Freud) que explicam a
crença em Deus com o desejo de uma recompensa eterna, como projeção no além de
expectativas temporais frustradas. Israel acreditou em Deus, muitos séculos
antes do que em uma recompensa eterna no além!  Não é, portanto, o desejo
de uma recompensa eterna que produziu a fé em Deus, mas é a fé que produziu a
crença em uma recompensa pós morte.

No mundo
bíblico, temos a plena revelação da vida eterna com a vinda de Cristo. Jesus
não estabelece a certeza da vida eterna sobre a natureza do homem, a
imortalidade da alma, mas sobre “o poder de Deus”, que é um “Deus não
de mortos, mas de vivos” (Lc 20, 38). Depois da Páscoa, a este
fundamento teológico, os apóstolos acrescentarão o cristológico: a
ressurreição de Cristo dentre os mortos. Nela, o Apóstolo fundou a fé na
ressurreição da carne e na vida eterna: “Ora, se se prega que Cristo
ressuscitou dentre os mortos, como podem alguns dentre vós dizer que não há
ressurreição dos mortos? Mas, na realidade, Cristo ressuscitou dos mortos como
primícias dos que morreram” (1 Cor 15, 12.20).

Também no
mundo greco-romano assiste-se a uma evolução na concepção de vida após a morte.
A mais antiga ideia é a de que a verdadeira vida termina com a morte; depois
dessa existe somente um simulacro de vida, num mundo de sombras. Uma novidade
se registra com o aparecimento religião órfico-pitagórica. De acordo com ela, o
verdadeiro eu do homem é a alma, que, libertada da prisão (sema) do corpo (soma),
pode finalmente viver sua verdadeira vida. Platão dará uma dignidade filosófica
a esta descoberta, baseando-a na natureza espiritual e, portanto, imortal, da
alma [1]. 

Essa crença
permanecerá, no entanto, sendo minoritária, reservada aos iniciados nos
mistérios e aos seguidores de escolas filosóficas especiais. Para a massa,
persistirá a antiga crença de que a vida real termina com a morte. São
conhecidas as palavras que o imperador Adriano dirigi a si próprio próximo de
morrer:

“Pequena alma, alma terna e inconstante, 

companheira
do meu corpo, de que foste hóspede,

vais descer
àqueles lugares pálidos,

duros e
nus, onde deverás renunciar aos jogos de outrora.

Por um
momento, contemplemos juntos ainda os lugares familiares,

os objetos
que certamente nunca mais veremos…” [2].

Entende-se
neste contexto o impacto que devia ter a mensagem cristã de vida após a morte
infinitamente mais plena e mais alegre do que a da terra; também podemos
entender por que a ideia e os símbolos da vida eterna são tão comuns nas
sepultura cristãs das catacumbas romanas.

Mas o que
aconteceu à ideia cristã de uma vida eterna para a alma e para o corpo depois
de ter triunfado sobre a ideia pagã de “escuridão além da morte”? Ao contrário
do momento atual, no qual o ateísmo é primariamente expresso na negação da
existência de um Criador, no século XIX, ele se expressava na negação da vida
após a morte. Acolhendo a afirmação de Hegel, segundo a qual “os cristãos
desperdiçam no céu a energia destinada à terra”, Feuerbach e principalmente
Marx combateram a crença na vida após a morte, sob o pretexto de que aliena o
compromisso terreno. À ideia de uma sobrevivência pessoal em Deus, se substitui
uma ideia de sobrevivência na espécie e na sociedade do futuro.

Pouco a
pouco, recaiu sobre a palavra eternidade a suspeita e o silêncio. O
materialismo e o consumismo completaram a obra nas sociedades opulentas,
fazendo parecer inconveniente que se fale ainda de eternidade entre pessoas
cultas e em sintonia com os tempos. Tudo isso provocou claramente um retrocesso
na fé dos crentes que, com o tempo, fez-se tímida e reticente sobre este ponto.
Quando ouvimos o último sermão sobre a vida eterna? Continuamos a rezar o
Credo: “Et expecto resurrectionem mortuorum et vitam venturi saeculi” (“E
Espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir”),  mas
sem dar muito peso a estas palavras. Kierkegaard tinha razão quando escreveu:
“A vida após a morte tornou-se uma piada, uma necessidade tão incerta que
não só ninguém respeita, mas nem mesmo se cogita que exista, ao ponto que se
divertem com o pensamento de que houve um tempo em que esta ideia transformava
a toda a existência” [3].

Qual é o
efeito prático desse eclipse da ideia de eternidade? São Paulo refere-se à
intenção daqueles que não acreditam na ressurreição dos mortos: “Comamos e
bebamos, pois amanhã morreremos” (1 Cor. 15,32). O desejo natural de
viver sempre, distorcido, torna-se um desejo ou frenesi de viver bem,
ou seja, agradavelmente, mesmo que às custas dos outros, se necessário. Toda a
terra se torna o que Dante disse da Itália da sua época: “o canteiro que
tão nos faz ferozes”. Perdido o horizonte da eternidade, o sofrimento
humano parece dupla e irremediavelmente absurdo.

3. A eternidade: uma esperança e uma
presença

Ainda a
propósito do secularismo, como para o cientificismo, a resposta mais eficaz não
é combater o erro contrário, mas fazer brilhar novamente diante dos homens a
certeza da vida eterna, confiando na força intrínseca que possui a verdade
quando é acompanhada pelo testemunho de vida. “Sempre se poderá negar uma
ideia com outra – escreve um antigo Padre – e uma opinião pode ser oposta à
outra; mas o que poderá se opor a uma vida?”

Devemos
também aproveitar a correspondência de tal verdade ao desejo mais profundo,
ainda que reprimido, do coração humano. A um amigo que o repreendeu, quase como
se seu desejo de eternidade fosse uma forma de orgulho e arrogância, Miguel de
Unamuno, que não era um apologista da fé, disse em uma carta:

“Eu não
estou dizendo que merecemos uma vida depois da morte, nem que a lógica nos
mostre isso; estou dizendo que a necessito, mereça ou não, e nada mais. Estou
dizendo que o que é passageiro não me satisfaz, que tenho sede de eternidade, e
que, sem ela, tudo dá no mesmo para mim. Eu necessito disso, necessito! E, sem
isso, nem a alegria de viver quer dizer coisa alguma. É muito cômodo dizer
‘temos de viver, temos de estar contentes com a vida!’ E os que não nos
contentamos com ela?” [4].

Não é que
desejasse a eternidade – acrescentava na mesma ocasião – desprezando o mundo e
a vida aqui embaixo: “Eu amo tanto a vida que, perdê-la, parece-me o pior dos
males. Não amam realmente a vida aqueles que vivem o dia a dia, sem
preocupar-se por saber se vão perdê-la totalmente ou não”. Santo Agostinho
dizia a mesma coisa: Cui non datur semper vivere, quid prodest bene
vivere?, “De que serve viver bem, se não nos é dado viver para sempre?” [5].
“Tudo, exceto o eterno, é vão ao mundo”, cantou um dos nossos poetas [6].

Aos homens
do nosso tempo, que cultivam no fundo do coração esta necessidade de
eternidade, sem talvez ter a coragem de confessar a outros e nem para si mesmo,
podemos repetir o que Paulo disse aos atenienses: “Pois bem, aquilo que adorais
sem conhecer, eu vos anuncio” (cf. At 17,23).

A resposta
cristã ao secularismo, no sentido que entendemos aqui, não se baseia, como para
Platão, em uma ideia filosófica – imortalidade da alma – mas em um evento. O
Iluminismo tinha colocado a famosa pergunta de como é possível atingir a
eternidade, enquanto você estiver no tempo, e como dar um ponto de partida
histórico para uma consciência eterna [7]. Em outras palavras: como se pode
justificar a alegação da fé cristã de prometer uma vida eterna e de ameaçar com
uma pena igualmente eterna por atos realizados no tempo.

A única
resposta válida para este problema é aquela baseada na fé na encarnação de
Deus. Em Cristo, o eterno entrou no tempo, manifestado na carne; diante dele é
possível tomar uma decisão para a eternidade. É assim que o evangelista João
fala da vida eterna: “Vida eterna que a vós anunciamos, que estava junto do Pai
e que se tornou visível para nós” (1 Jo 1, 2).

Para o
crente, a eternidade não é, como se vê, somente uma esperança, é também uma
presença. Realizamos a experiência cada vez que fazemos um verdadeiro ato de fé
em Cristo, porque todo aquele que nele crê “já possui a vida eterna” (cf. 1 Jo
5,13), e toda vez que recebemos a comunhão, onde nos é dado “o penhor da glória
futura” (futurae gloriae nobis pignus datur); toda vez que escutamos as
palavras do Evangelho são “palavras de vida eterna “(Jo 6,68). São Tomás
de Aquino também afirma que “a graça é o início da glória” [8].

Esta
presença da eternidade no tempo é chamada Espírito Santo. Ele é descrito como
“garantia da nossa herança” (Ef 1,14; 2 Coríntios 5,5), e foi dada a nós
porque, tendo recebido as primícias, nós ansiamos pela plenitude. “Cristo –
escreve Santo Agostinho – nos deu o penhor do Espírito Santo com o qual ele,
que não poderia enganar-nos, quis ter certeza do cumprimento de sua promessa. O
que ele prometeu? Ele prometeu a vida eterna, cuja garantia é o Espírito Santo
que nos foi dado ” [9]. 

4. Quem
somos nós? De onde viemos? Para onde vamos?

Entre a
vida de fé no tempo e a vida eterna no tempo há uma relação semelhante à que
existe entre a vida do embrião no seio materno e a do bebê, uma vez nascido.
Cabasilas escreve:

“Este mundo
traz, em gestação, o homem interior, novo, criado segundo Deus, para que ele,
formado, moldado e tornado perfeito, não seja gerado àquele mundo perfeito que
não envelhece. Como o embrião que, enquanto está na existência escura e
líquida, a natureza prepara à vida na luz, é assim com os santos […]. Para o
embrião, no entanto, a vida futura é absolutamente futura: não chega a ele
nenhum raio de luz, nada do que é desta vida. Não é assim para nós, do momento
que o século futuro foi como derramado e misturado ao presente […] Então,
agora já é concedido aos santos não só dispor-se e preparar-se à vida, mas viver
e atuar” [10].

Há uma
história que ilustra essa comparação. Havia dois gêmeos, um menino e uma
menina, tão inteligentes e precoces que, mesmo no útero materno, já conversavam
entre si. A menina perguntava ao irmão: “Pra você, haverá vida após o nascimento?”.
Ele respondia: “Não seja ridícula. O que faz você pensar que exista algo fora
desse espaço estreito e escuro em que nos encontramos? A menina, criando
coragem, insistia: “Talvez haja uma mãe, alguém que nos colocou aqui e que vai
cuidar de nós.” Ele disse: “Você vê alguma mãe em algum lugar? O que você vê é
tudo que existe”. Ela de novo: “Mas você não sente, às vezes, uma pressão no
peito que aumenta dia a dia e nos impele para frente?”. “Pensando bem, ele
respondeu, é verdade, sinto isso o tempo todo”. “Veja, concluiu, triunfante, a
irmã mais nova, essa dor não pode ser para nada. Eu acho que está nos
preparando para algo maior do que este pequeno espaço”.

Podemos
usar esta simpática história quando tivermos de anunciar a vida eterna para as
pessoas que perderam a fé nela, mas conservaram a nostalgia e talvez esperam
que a Igreja, como aquela menina, as ajude a acreditar.


perguntas que os homens não deixam de fazer desde que o mundo é mundo e os
homens de hoje não são exceção: “Quem somos nós? De onde viemos? Para onde
vamos”. Na sua “História Eclesiástica do Povo Inglês”, Beda, o Venerável,
relata como a fé cristã entrou no norte da Inglaterra. Quando os missionários,
vindos de Roma, chegaram a Northumberland, o rei Edwin convocou um
conselho de notáveis para decidir se permitiam a eles ou não, pelo menos,
divulgar a nova mensagem. Um deles se levantou e disse:

“Suponha, ó
rei, esta cena. Você se senta para jantar com seus ministros e líderes: é
inverno, o fogo arde no meio e aquece a sala, enquanto lá fora, a tempestade
grita e a neve cai. Um passarinho entra pela abertura de uma parede e sai
imediatamente do outro lado. Enquanto está dentro, está protegido da tempestade
de inverno mas, depois de desfrutar o calor rapidamente, apenas desaparece de vista,
perdendo-se no inverno escuro de onde veio. Assim parece ser a vida do homem na
terra: ignoramos tudo o que a segue e que a precedeu. Se esta nova doutrina nos
traz algo mais seguro sobre isso, acho que deve ser acolhida” [11].

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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