A Renovação Carismática e seus grupos

Por: Maria Lúcia Vianna
fonte: Folheto “Jesus Vive e é o Senhor”

I – O QUE É A RENOVAÇÃO CARISMÁTICA

A renovação carismática é uma corrente de graça pela qual o
Espírito do Senhor nos leva a viver de maneira experimental a realidade do
Corpo de Cristo.

O Papa João XXIII pediu que o Concílio Vaticano II fosse
“um novo Pentecostes”. Mas terminado o Concílio começou-se a produzir
em todo o mundo um ressurgir dos carismas que foram recordados no Concílio. E
desde então se vem produzindo uma “renovação espiritual” que Paulo VI
qualificou como “uma oportunidade providencial para a Igreja e para o
mundo”.

Em 1967, um grupo de jovens estudantes da Universidade de
Duquesne, Estados Unidos, cristãos fervorosos, leram o livro “A Cruz e o
Punhal”. Surgiu então a pergunta: “Como é possível que nós,
católicos, estejamos tão longe da experiência da realidade do Espírito Santo?
Por que não vemos mais sinais do Poder do Senhor?”. Aplicaram-se então a
reler e a meditar os Atos dos Apóstolos e começaram a rezar, pedindo a efusão
do Espírito Santo. Transformaram-se em cristãos irradiantes de alegria e
manifestando, por sua vida, a presença de Jesus Cristo. Em pouco tempo, grupos
de oração formaram-se em outros locais, sempre fazendo a mesma descoberta.
Hoje, a Renovação Carismática existe em quase todas as partes do mundo.

Para o indivíduo, a renovação é uma conversão e uma entrega
constante a Deus, numa docilidade crescente ao Espírito Santo. É também um
encontro mais profundo com os irmãos, tornando realidade a formação de um só
Corpo em Cristo.

É uma ação do Espírito Santo (Paulo VI) que vivifica,
fortalece e constrói a Igreja.

“A Renovação Carismática não é um movimento dentro da
Igreja; é a Igreja em movimento” (Herlbert Mühlen).

Pelos frutos da Renovação, verificamos que não se trata de
uma nova doutrina, nem de um programa de ação e sim da descoberta da riqueza da
vida em Cristo.

Assim, efeitos desta graça são:

·        Jesus como
centro de nossas vidas;

·        Maior gosto
pelas Escrituras;

·        Progresso no caminho
da liberdade espiritual, deixando de lado atitudes que não são de acordo com o
Evangelho;

·        Tomada de
consciência de que somos instrumentos de Deus na formação de seu Reino.

A vida cristã começa no batismo e deve desenvolver-se. O
cristão “criança em Cristo” (1Cor 3,1) deve crescer até à maturidade
do adulto capaz de contribuir para a comunidade. Os carismas são precisamente
isto: manifestação do Espírito para o proveito ou a construção da
comunidade” (cf. 1Cor 12,7).

Todo cristão é chamado a ser um “Embaixador de
Cristo”, um “colaborador de Deus” para o estabelecimento de seu
Reino (cf. 2Cor 5,20; 1Cor 3,9 e Mt 28,18-20).

Esta receptividade ante a ação do Espírito inclui entrega e
docilidade cada vez maior para o cumprimento da vontade de Deus. Esta se
manifesta pela Sagrada Escritura, pelo magistério da Igreja e pela inspiração
devidamente discernida. E o discernimento também é ação do Espírito Santo
juntamente com os dons espirituais mencionados por Isaías (11,2) e pedidos por
S. Paulo para os cristãos (cf. 1,9-12).

A Renovação, pois, não é senão viver o cristianismo até as
últimas consequências, nos tornando semelhantes cada vez mais a Jesus e a
Maria, incorporando-nos na obra do Redentor, construindo a Igreja,
transformando a sociedade e a criação para que “Cristo reine e entregue
logo o reino a seu Pai para que Deus seja tudo em todos” (1Cor 15,24-28).

II – OS GRUPOS DE ORAÇÃO

Os grupos de oração sustentam uma vida espiritual dinâmica
para os cristãos, individualmente e em comunidade. As
diversas atividades dos grupos de oração favorecem um encontro pessoal com o
Senhor:

·        A oração, sob
várias formas: louvor, ação de graças, orações contemplativas, orações em
línguas, petições de graças e cura;

·        A canção, que é
uma forma de oração;

·        O silêncio;

·        O exercício dos
dons carismáticos, como profecia, palavras de sabedoria e de ciência,
discernimento;

·        As leituras da
Bíblia;

·        A instrução;

·        Os testemunhos,
ou partilhas que edificam a comunidade.

A Oração

As reuniões de oração baseiam-se na fé na promessa de Jesus:
“Onde quer que duas ou mais pessoas se reunam em meu nome, estarei no meio
delas” (Mt 18,20).

A oração espontânea, simples e sincera, brota do coração
agradecido. É uma partilha de louvor. Cada um que levanta a sua voz,
possibilita a todos participarem da oração dizendo: “Aleluia”,
“Glória a ti, Senhor”, “Muito obrigado”…

Louvar é celebrar a bondade e os atributos de nosso Deus,
que se manifestam em nossas vidas, exprimindo nosso desejo de viver na sua
Graça, no seu Amor e na sua Presença.

Há grande liberdade de expressão. Alguns murmurarão preces e
as orações podem ser acompanhadas por gestos, como levantar os braços. Como
Deus é perfeição infinita, e sua grandeza transcende toda linguagem humana, nós
O contemplamos, repousando silenciosamente em união com Ele ou orando em
línguas, que é a expressão verbal de um louvor livre de conceitos. “Um
homem que fala em línguas fala não com os homens mas com Deus. Ninguém o
compreende, porque ele enuncia mistérios no Espírito” (1Cor 14,2). Deus
trata com carinho todas as orações que partem do coração.

“Pedi e recebeis” (Lc 11,9). Os grupos de oração
são uma oportunidade de nos unirmos aos irmãos e irmãs em todas as suas
necessidades físicas, psíquicas e espirituais. Se confiamos profundamente na
bondade amorosa de Deus, devemos esperar ver sinais maravilhosos de seu Poder
agindo entre nós.

“Portanto, confessem seus pecados uns aos outros e rezem
uns pelos outros, e assim serão ouvidos. A oração do justo é poderosa” (Tg
5,16).

Em todas as orações, deixemos que o Espírito nos guie o
pensamento e a escolha das palavras.

O Canto

As canções nos grupos de oração variam de acordo com o tema
da oração. Podem ser longas ou curtas, efusivas ou mediativas, dependendo do
momento. E há ainda o canto em línguas, quando o grupo exulta em louvor,
cantando as glórias do Senhor. É um momento em que a presença de Deus é sentida
profundamente. Embora cada um entoe a música que lhe é inspirada no fundo do
coração, o côro uníssono sobe em verdadeira harmonia como incenso ao trono do
Pai. Em geral, depois deste canto há silêncio na presença do Senhor e quase
sempre se segue a palavra profética. São momentos preciosos para receber a
inspiração do Espírito Santo.

O Silêncio

Para ser sensível ao Espírito de Jesus deve-se escutar e,
para tal, precisa-se ficar em
silêncio. Este fato explica porque há períodos de silêncio ou
de “espera no Senhor” nas reuniões de oração.

Tais silêncios não são sinais de que a reunião está perdendo
o impulso. Antes, são oportunidades para que cada um dos presentes se una mais
intimamente a Deus, que não só deseja que falemos com Ele, mas também quer se
comunicar conosco.

Os Dons Carismáticos

Os carismas são “manifestações do Espírito” (1Cor
12,7). São diferentes maneiras nas quais o Espírito Santo atua através dos
membros das comunidades dos fiéis, com o objetivo de demonstrar sua presença
entre eles edificando a comunidade: por exemplo, podemos ouvir uma profecia,
quando alguém fala na primeira pessoa, em nome do Senhor. É uma mensagem para o
grupo (ou para alguém do grupo) que exorta, consola e edifica.

A palavra de sabedoria e a palavra da ciência (1Cor 12,8)
ocorrem quando o Espírito Santo inspira uma pessoa a dizer algo sobre como
aplicar um princípio do Evangelho a um problema imediato ou algo que venha a
elucidar uma verdade do Senhor.

A comunidade discerne quando o Espírito realmente inspira
declarações deste tipo, com base no seu efeito poderoso e convincente no grupo
e na sua concordância com a Escritura.

Os dons de cura e de milagres são manifestações do Espírito
que curam um enfêrmo, causam conversões, ou modificam acontecimentos
humanamente impossíveis.

O Espírito Santo torna sua presença realmente sentida quando
o grupo que esses canais carismáticos são realidades do dia a dia, e ora por
eles. Mas o grupo, assim, como cada pessoa, deve aprender a discernir a voz do
Espírito e a utilizar os dons espirituais de um modo que aumente a fé e o amor
de todos.

As Leituras

O Senhor também fala ao grupo através de passagens da
Bíblia. As pessoas que se sentem movidas, lêem em voz alta, no momento
adequado, a passagem inspirada. Assim um tema frequentemente se desenvolve no
correr da reunião, elucidando um determinado aspecto do que Deus nos quer
falar.

A Instrução

Geralmente há um ensinamento sobre um tema da Escritura,
feita por um líder. A palestra pode ser preparada antecipadamente ou inspirada
no momento. A Bíblia é um dos principais instrumentos que Deus usa para se
comunicar conosco. E a Palavra do Senhor penetra no coração para se tornar vida
em nós. A
instrução ajuda a comunidade a crescer, corrige erros e esclarece ajudando a
manter a fidelidade à doutrina.

Os Testemunhos

Muitas vezes há testemunhos da ação de Deus nas vidas das
pessoas, que os relatam para maior glória do Senhor e para a edificação da
comunidade.

Nem toda experiência deve ser compartilhada. A pessoa deve
discernir se o Senhor deseja que ela fale.

Os testemunhos devem ser breves, objetivos e sinceros.

III – CONCLUSÕES

As reuniões de oração carismáticas geralmente não são
estruturadas. Os diferentes elementos fluem uns dos outros, não sendo,
portanto, necessário um programa de atividades. Orar, cantar, ler, exercer os
dons espirituais, partilhar e comungar silenciosamente com Deus, tudo isto é
feito com fé e amor, na paz do Senhor. Um grupo que queira conhecer a alegria
do Senhor deve confiar em Jesus e partilhar também seu amor. Cada membro deve
sentir que é aceito, benvindo e amado pelos outros. Qualquer atitude crítica ou
contestadora pode reduzir a vitalidade do grupo e limitar a receptividade das
graças divinas.

A reunião de oração é um lugar de renovação espiritual. Não
substitui a vida sacramental, mas leva-nos a valorizá-la. Não é terapia de
grupo, nem deve ser procurada com esta finalidade. Estimula a vida espiritual,
a fé e todas as formas pelas quais Deus vem a seu povo transformando-o numa comunidade
de amor.

 

 

 

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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