A reforma litúrgica e a nossa participação na Liturgia

“CAMINHA BEM A COMUNIDADE QUE CELEBRA BEM”

Pe. Kleber Rodrigues da Silva

Certamente você já ouviu falar, já leu algo ou já estudou, sobre o Concílio
Vaticano II, que ocorreu na Igreja entre 1962-1965, que foi “um lançar de
sementes de vida no campo que é a Igreja”.
A primeira Constituição desse Concílio, refere-se à Sagrada Liturgia. A
Sacrosanctum Concilium (SC), teve e continua a ter a função de “relembrar os
princípios e estatuir as normas práticas para a renovação e o incremento da
Liturgia” (SC 3). Vale lembrar que no próximo ano estaremos comemorando 40 anos
desta Constituição. Todas paróquias serão motivadas, no primeiro Domingo do
Advento de 2003, a celebrar em Ação de Graças. E como proposta desta
comemoração, foi lançado na Assembléia dos Bispos uma tradução popular da
Sacrosanctum Concilium com perguntas a serem estudadas e refletidas pelas
equipes de Liturgia em todos os níveis; Principalmente você que trabalha com
Liturgia não deixe de conhecer.

A participação mais ativa dos Fiéis
A partir do Concílio grandes mudanças ocorreram na vida da Igreja, pois “era
preciso que se abrissem as janelas da Igreja para que entrasse um novo ar”. E
uma dessas foi a Reforma Litúrgica, que possibilitou aos fiéis saírem de uma
celebração onde tudo era centrado na pessoa do Padre, que não tinha um contato
direto com o povo. Passou-se do Latim à Língua Vernácula (a língua do País).
Passou-se de um “assistir” a missa para uma participação mais consciente e ativa.
Vale dizer que, se não tomarmos cuidado, hoje podemos muitas vezes retomar
algumas ações presentes nas celebrações antes da Reforma Litúrgica, pela
influência do mundo, tais como um cumprir preceito, não assumir compromisso na
comunidade, ver na celebração litúrgica – seja ela um sacramento ou um
sacramental – um mero formalismo.
Atento a isso, encontramos na SC 19: “com empenho e paciência procurem dar os
pastores de almas a instrução litúrgica e também promovam a ativa participação
interna e externa dos fiéis”
A Reforma Litúrgica possibilitou o surgimento e o crescimento dos diversos
ministérios na Igreja: leitores, salmistas, comentaristas. Aqui vale salientar
às pessoas que exercem ministérios na Igreja, que procurem fazê-lo fundamentado
numa Espiritualidade de Comunhão, tendo a “capacidade de sentir o irmão de fé
na unidade profunda do Corpo Místico, isto é, como “um que faz parte de mim”
(NMI 43) não esquecendo ainda de ‘criar espaço para o irmão, levando “os fardos
uns dos outros” (Gl 6,2) e rejeitando as tentações egoístas que sempre nos
insidiam e geram competição, arrivismo, suspeitas, ciúmes”(NMI 43). É
necessário que nos empenhemos a trabalhar sempre a Unidade na diversidade.

A função sacerdotal dos leigos
A abertura para a participação mais ativa, consciente e plena a partir do
Concílio Vaticano II deu grande impulso ao exercício da função sacerdotal dos
fiéis na Liturgia. Ione Buyst no seu livro, Como estudar Liturgia, nos
apresenta algo sobre esta função sacerdotal: “associados a Cristo pela participação
na Liturgia, formamos com Ele um só corpo e um só templo espiritual, um só
sacerdócio para oferecer a Deus o sacrifício de louvor pela salvação da
humanidade. Quem realiza a ação litúrgica é o Cristo total: o Corpo todo,
cabeça e membros, o povo sacerdotal”
Exercemos nossa função sacerdotal na liturgia, que nos foi confiada, ou
garantida, pela nossa inserção no Corpo Místico de Cristo, na Igreja, pelo
nosso Batismo, todas as vezes que cantamos, proclamamos uma leitura, entoamos
um salmo, elevamos a Deus as preces da comunidade reunida, participamos de uma
apresentação das oferendas, respondendo às aclamações próprias do povo nas
Orações Eucarísticas. E nesta função sacerdotal, encontramos ainda o sentido
pelo qual somos incensados nas celebrações que em que se usa o turíbulo.

Vai bem a comunidade que celebra bem
Penso que, conscientes de nossa função sacerdotal na liturgia, é de nos
entristecer quando muitos ainda realizam a “Pastoral do Laço” e não a Pastoral
Litúrgica. Não preparam as celebrações, atêm-se apenas a um “folhetinho”
pré-elaborado numa realidade totalmente distante da nossa. Não nos esqueçamos
de que pela liturgia Deus se comunica conosco, por ela ocorre a santificação do
homem e a glorificação de Deus.
Impulsionados pelo Espírito de Deus, celebrando os 40 anos da Sacrosanctum
Concilium, busquemos cada vez mais, uma participação consciente, ativa e plena
na Liturgia. Não vamos tratá-la com desprezo, pois como diz um professor de
Liturgia Pe. Gregório Lutz: “a celebração eucarística reflete o interior da
comunidade, ou seja, se a liturgia não caminha bem, certamente algo na
comunidade não vai bem”. Num espírito de humildade, vamos lançar as redes às
águas mais profundas e assim conseguirmos pescar mais pessoas que ajudem-nos a
edificar o Reino de Deus.

Artigo Publicado no Jornal “O Lábaro” – Diocese de Taubaté – Junho de
2002.

 

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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