A Quaresma

Origem
da Palavra

“Quaresma”
provém do latim “Quadragésima” e significa “quarenta dias”
ou, talvez mais apropriadamente, o “quadragésimo dia”. Outras línguas
de origem latina expressam essa idéia, como “Carême” em francês, “Quaresima”
em italiano, e “Cuaresma” em espanhol. O termo latino, por sua vez, é a
tradução do termo grego “Tessarakoste” (quadragésimo), com certa
ligação ao termo “Pentekoste” (Pentecostes – quinquagésimo), cuja
celebração se dá no 50º dia após a Páscoa. Já os países anglo-saxões, usam o
termo “Lent”, de origem teutônica.

Conceito
de Quaresma

A
Quaresma é o período de preparação para a Páscoa do Senhor, cuja duração é de
40 dias. Tal período, portanto, inicia-se na Quarta-Feira de Cinzas e se
estende até o Domingo de Ramos, uma semana antes da Páscoa. O período é, assim,
marcado pela penitência, pela realização constante de jejuns, pela conversão e
pela preparação dos catecúmenos para o batismo.

No
início da Quaresma, na Quarta-Feira de Cinzas, os fiéis têm suas frontes
marcadas com cinzas, como os primitivos penitentes públicos, excluídos temporariamente
da assembléia (lembrando Adão expulso do Paraíso, de onde vem a fórmula
litúrgica: “Lembra-te de que és pó…”). Nos dias que se seguem,
redescobrem o significado do batismo e se esforçam para tomar a cruz e seguir
fielmente a Cristo. Aprofundam, então, o ódio que sentem pelo pecado e são
ajudados em seus esforços pelas orações em comum.

Esse
tempo de penitência é bem recordado pela liturgia: as vestes e os paramentos
usados são da cor roxa (no quarto domingo da Quaresma, pode-se usar o rosa,
representando a alegria pela proximidade do término da tristeza, pela Páscoa);
o Hino de Louvor não é recitado; a aclamação do “Aleluia” também não
é feita; não se enfeitam os templos com flores; o uso de instrumentos musicais
torna-se moderado, apenas sustentando o canto, etc.

Portanto,
o tempo da Quaresma é um momento forte para a prática penitencial da Igreja, “particularmente
apropriados aos exercícios espirituais, às liturgias penitenciais, às
peregrinações em sinal de penitência, às privações voluntárias como o jejum e a
esmola, a partilha fraterna (obras de caridade e missionárias)”
(Catec.Igr.Cat. nº 1438). O mesmo pode-se aplicar a todas sextas-feiras do ano,
tidas como dias penitenciais, cf. cân. 1250 do Código de Direito Canônico.

3.
Origem do Costume

Ainda
que alguns Padres da Igreja, como São Jerônimo (+420), Sócrates
historiador(+433) e São Leão Magno (+461) creditem aos Apóstolos a instituição
dos quarenta dias de jejum antes da Páscoa, o fato é que o jejum pré-pascal era
observado somente em alguns dias, pois nenhum Padre do período pré-Nicéia (325)
parece ter conhecimento de tal tradição. Em outras palavras, ainda que o jejum
pré-pascal fosse praticado desde os primórdios do Cristianismo, o que denota a
existência de uma tradição apostólica sobre o assunto, não existe segurança
para afirmar que tal jejum durasse realmente quarenta dias, como dá a entender
a quaresma. Prova disso temos em Tertuliano que, ao trocar o Catolicismo pela
heresia Montanista, passou a achar deficitário o jejum dos católicos, uma vez
que os montanistas jejuavam por 15 dias (de Jejunio II e XIV; de Orat. XVIII);
também Santo Ireneu, em uma carta dirigida ao papa São Vítor, sobre a
controvérsia da data da Páscoa, diz que “alguns acham que devem jejuar por
um dia, outros por dois dias, outros por vários dias, e ainda há outros que
calculam 40 horas do dia e da noite para realizarem o jejum”; a Didascália
dos Apóstolos (250) e S. Dionísio de Alexandria também mencionam o jejum pascal
de forma difusa. Parece que a primeira menção à Quaresma, como período de jejum
de 40 dias, pode ser encontrada nas Cartas Festais de Santo Atanásio (331) e
depois, em 339, da pena do mesmo santo, ao se dirigir à comunidade de
Alexandria, pedindo para que esta observe o costume dos 40 dias conforme
praticado pela Igreja de Roma e grande parte da Europa.

4.
Os Quarenta Dias

Indubitavelmente,
o período de tentação de Cristo no deserto, bem como os exemplos de Noé (40
dias na Arca), Moisés (40 anos vagando no deserto) e Elias, exerceram grande
influência na determinação do tempo de duração da Quaresma. É ainda possível
que o fato de Cristo ter permanecido por volta de 40 horas no sepulcro, tenha
também sido levado em conta…

O
historiador Sócrates nos informa, no séc. V, que a Quaresma durava seis semanas
em Roma, mas apenas três destas semanas eram dedicadas ao jejum: a primeira, a
quarta e a sexta. Tendo, porém, o número de 40 dias se estabelecido
solidamente, outra alteração acabou por se introduzir: deixou-se de se fazer
alguns jejuns durante o período de 40 dias e passou-se a jejuar durante todo o
período de 40 dias…

Em
Peregrinação de Etéria, fala-se de um jejum de oito semanas praticado pela
comunidade de Jerusalém, excluídos os sábados e domingos; temos, assim, oito
semanas de cinco dias, o que totaliza os 40 dias de jejum.


no tempo de São Gregório Magno (590-604), Roma observa seis semanas de seis
dias, totalizando 36 dias, a décima parte de um ano completo (365 dias).
Contudo, algum tempo depois, o desejo de manter-se os 40 dias fez com que se
esticasse o período até a Quarta-Feira de Cinzas, como ainda hoje é praticado.

5.
Natureza do Jejum

Também
não são poucas as posições sobre este tema. Sócrates, ao se referir em sua História Eclesiástica
(V,22) sobre a prática do séc. V, nos informa que “alguns se abstêm de
todo tipo de criatura que tenha vida, outros comem somente peixe. Alguns comem
pássaros e peixes […]; outros se abstêm dos frutos de casca dura e de ovos.
Alguns comem somente pão; outros nem isso. Há também os que se fartam de comida
após a hora nona”.

Epifânio,
Paládio e o autor de “Vida de São Melânio o Jovem” eram mais
rigorosos, defendendo um jejum completo de 24 horas ou mais, especialmente
durante a Semana Santa.

Entretanto,
São Gregório, escrevendo para Santo Agostinho da Inglaterra, dita a regra: “nós
nos abstemos da carne fresca e de todas as coisas que vêm da carne fresca, como
o leite, o queijo e os ovos”. Foi essa decisão que mais tarde passou a
figurar no “Corpus Iuris”, tornando-se a regra comum da Igreja, ainda
que algumas exceções e dispensas, especialmente quanto aos laticínios, fossem
permitidas.

Quanto
ao relaxamento dos jejuns, vemos que já desde os tempos do historiador Sócrates
(séc. V) havia cristãos que praticavam o jejum até a hora nona, isto é, até às
três horas da tarde; já por volta do ano 800, passou-se a praticar até às duas
horas da tarde. As regras atuais da Igreja para o jejum, bem como para a
Quaresma podem ser encontradas nos cânones 1249 à 1253 do Código de Direito
Canônico, conforme transcrito abaixo:

“Cân.1249
– Todos os fiéis, cada qual a seu modo, estão obrigados por lei divina a fazer
penitência; mas, para que todos sejam unidos mediante certa observância comum
da penitência, são prescritos dias penitenciais, em que os fiéis se dediquem de
modo especial à oração, façam obras de piedade e caridade, renunciem a si
mesmos, cumprindo ainda mais fielmente as próprias obrigações e observando
principalmente o jejum e a abstinência, de acordo com os cânones seguintes.

Cân.1250
– Os dias e tempos penitenciais, em toda a Igreja, são todas as sextas-feiras
do ano e o tempo da Quaresma.

Cân.1251
– Observe-se a abstinência de carne ou de outro alimento, segundo as
prescrições da Conferência dos Bispos, em todas as sextas-feiras do ano, a não
ser que coincidam com algum dia enumerado entre as solenidades; observem-se a
abstinência e o jejum na Quarta-Feira de Cinzas e na Sexta-Feira da Paixão e
Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Cân.1252
– Estão obrigados à lei da abstinência aqueles que tiverem completado catorze
anos de idade; estão obrigados à lei do jejum todos os maiores de idade até os
sessenta anos começados. Todavia, os pastores de almas e os pais cuidem que
sejam formados para o genuíno sentido da penitência também os que não estão obrigados
à lei do jejum e da abstinência, em razão da pouca idade.

Cân.
1253 – A Conferência dos Bispos pode determinar mais exatamente a observância
do jejum e da abstinência, como também substituí-los total ou parcialmente, por
outras formas de penitência, principalmente por obras de caridade e exercícios
de piedade”.

Isto
colocado, observamos, segundo a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, o
seguinte:

A
abstinência começa aos catorze anos e vai até o final da vida.

O
jejum se inicia aos dezoito anos e vai até os cinquenta e nove anos completos.

Tradicionalmente,
o jejum consiste em não se tomar mais que uma refeição completa ao dia ou,
então, em ingerir alguma quantidade de alimento até duas vezes ao dia.

A
CNBB determinou que, exceto na Sexta-Feira Santa, todas as outras
sextas-feiras, inclusive as da Quaresma, têm sua abstinência convertida em “outras
formas de penitência, principalmente em obras de caridade e exercícios de
piedade”.

Para
finalizar, existem documentos do Magistério que abordam o assunto,
principalmente quanto a abstinência e o jejum, tão ligados à Quaresma, de uma
forma mais exaustiva. São eles:

Constituição
Apostólica “Paenitemini”, de Paulo VI

Exortação
Apostólica “Reconciliatio et Paenitentia”, de João Paulo II.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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