A Profecia – EB

Em síntese:  O filme “A Profecia” alude a dados bíblicos referentes ao Anticristo, a Megido, ao número 666…, apresentando um menino, filho de uma fera, como o próprio Anticristo, portador do nº 666 debaixo dos cabelos. A presença desse menino acarreta desastres e lutos; seu pai e sua mãe parecem vítimas de tais desgraças, ao passo que ele, ferido mortalmente, sobrevive ao lado do Presidente dos Estados Unidos.

Na verdade, o enredo do filme muito se distancia da mensagem bíblica. O autor estava muito mais interessado em provocar sensacionalismo do que em traduzir o conteúdo dos textos bíblicos. Como quer que seja, tal película testemunha o interesse que o público dedica a files religiosos. É de lamentar, porém, que o autor tenha contribuído para alimentar uma religião de medo e pavor, presa a portentos e sinais extraordinários, baseada em credulidade emotiva ou mesmo irracional, em vez de colaborar para avivar a imagem de uma religião de fé, confiança e otimismo.

O filme “A Profecia” é talvez mais impressionante do que “O Exorcista”, pois este apresentava a ação do demônio em termos tão estrondosos que fugiam às raias do verossímil. Ao contrário, “A Profecia” mostra o demônio agindo mediante desastres e mortes,… desses que frequentemente ocorrem, e que o público, impressionado, poderá julgar que ocorrerão na vida de cada um dos espectadores.

É para desejar que os cristãos não se preocupem tanto com as intervenções extraordinárias do Maligno na vida dos homens e dêem muito mais atenção às artimanhas “ordinárias” do mesmo.

Comentário

Nos últimos anos tem estado no cartaz com relativa frequência a figura do demônio e de sua ação no mundo. Entre os motivos que explicam o fato, há, sem dúvida, o perene interesse religioso existente em todo ser humano; todavia convém mencionar outrossim o desejo de provocar o sensacionalismo no público, ainda que totalmente dissociado da autêntica mensagem da fé; o sensacionalismo religioso, ainda que destituído de fundamento doutrinário, é suficiente para produzir dinheiro; por conseguinte, torna-se válido tema para filmes em nossos dias.

Após “O Exorcista”, famosa película desse tipo foi lançada a 21 de fevereiro pp. em diversos pontos do Brasil, com o título “A Profecia” (The Omen). Apresenta com muita vivacidade o conteúdo do livro homônimo de David Seltzer, já tendo obtido no cinema a renda de US$ 93.500.000 – o que ultrapassa todos os recordes de bilheteria após “O Exorcista”. Convém, pois, propor alguns comentários a esta película, que tanto vem chamando a atenção do público brasileiro.

1. O enredo

A película abre-se numa Clínica de Roma, onde uma criança morre logo depois de ter sido dada à luz; trata-se do filho do Embaixador Robert Thorn, dos Estados Unidos. Um sacerdote da Clínica persuade então o genitor de adotar um filho cuja mãe acabara de morrer depois de o ter gerado. Robert termina aceitando a ideia e põe a criança nos braços de sua esposa, que não desconfia do artifício. – Logo depois o embaixador é transferido para Londres, partindo então com a esposa Kathy e o “filho” Damien.

Aos cinco anos de idade, o menino começa a revelar algo de estranho: por ocasião de sua festa de aniversário, fixa os olhos no de um cão estranho e muito feio, que imprevistamente aparece em cena. Logo após, a governanta do menino chama Damien e se atira de uma das janelas do alto da mansão com uma corda no pescoço. O fato provoca alarde, principalmente pelo seu caráter inexplicável.

A seguir, o Pe. Brennan, de Roma, vai procurar o embaixador e o incita veementemente a se converter a Cristo e receber a S. Comunhão para poder resistir ao furor do Anticristo, que o ameaça. Todavia o embaixador não lhe dá a mínima importância.

A esta cena segue-se a de uma governanta misteriosa, que, sem ter sido chamada pelo casal, se apresenta para tomar conta de Damien. Após hesitação dos genitores, entra em função e se dá muito bem com o menino; ela coloca um cão horrível em companhia deste, que sente prazer em ter esse animal consigo. Por ocasião de um casamento em Igreja, a governanta advertiu os pais de que não levassem Damien ao templo; estes insistem, mas finalmente voltam logo que chegam à Igreja, visto que o menino se assustou ao ver o recinto. Poucos dias depois, no Jardim Zoológico o menino afugenta as girafas e provoca o ataque dos macacos sobre o carro em que passeia. Este fato abate profundamente a Sra. Kathy Thorn, que resolve submeter-se a tratamento médico, enquanto o Pe. Brennan faz nova exortação ao embaixador e lhe prediz o fim do mundo para breve, devendo então o padre e o embaixador morrer vítimas do Anticristo. Dito isto, o padre é colhido por uma tempestade e morre perpassado por uma vara de pai que cai do alto.

Mais tarde, a mãe de Damien é vítima de um desastre em casa, enquanto o menino lhe passa perto em seu triciclo; tal acidente, com o tempo, se tornaria mortal.

É então que o embaixador é procurado por um fotógrafo que acompanhou o Pe. Brennan em diversos momentos de sua vida; esse profissional observa que o sacerdote tinha sobre a pela o número 666; escrevera diversas notas, nas quais dizia que às 6 h. de 6 de junho do ano em que nascera o filho do embaixador, uma estrela se transformara em cometa e dera início à era do Anticristo; os judeus voltariam para a sua terra de origem, sucerde-se-iam guerras, pânico, etc.

Estas notícias impressionam o embaixador, que resolve apurar quem fora a mão real de Damien. Finalmente, após diversas sindicâncias, descobre num cemitério etrusco a 50 km de Roma uma lápide com o nome de Maria Scianna, falecida a 6/06; abrindo essa sepultura, descobre os ossos de uma fera, ao passo que no túmulo ao lado encontra o esqueleto de uma criança. Não há dúvida, esta era o verdadeiro filho do embaixador, que havia sido morto por uma quadrilha de agentes do Anticristo e substituído por Damien no lar de Robert Thorn. Prosseguindo em suas pesquisas, o embaixador foi a Israel; nas ruínas de Megido – lugar indicado por Brennan como cenário da batalha final da história -, encontrou o profeta Bugenhagen, que deu a Robert Thorn cinco facas para matar seu filho Damien, tido como o Anticristo. O embaixador, porém, compadecido, jogou fora essas facas. Mas, regressando a Londres, descobre que Damien traz na cabeça, sob os cabelos, o número 666. Decide-se então a matá-lo numa igreja, segundo as instruções de Bugenhagen. Quando desfere o golpe contra Damien, a polícia também o fere e mata. Em conseqüência, o filme apresenta a cena de enterro de Robert Thorn e, presumivelmente, de Damien (veem-se dois caixões)… Uma vez terminada a cerimônia, porém, aparece o menino Damien sorrindo ao lado do Presidente dos Estados Unidos (presente ao enterro), como se nada houvesse acontecido ao menino. Tal é a cena final: o Anticristo, ainda que mortalmente golpeado, não morrem, mas sorri tranquilamente e se dispõe a continuar as suas façanhas… ao lado do Presidente norteamericano!

Procuremos agora confrontar este enredo com os autênticos dados da Bíblia e da fé católica, nas quais a trama do filme pretende apoiar-se. É certo que todo autor de filmes cinematográficos costuma crias suas peculiaridades, mesmo quando reproduz fatos históricos ou elementos doutrinários religiosos. Interessa-nos, porém, saber até que ponto o enredo de “A Profecia” tem base segura no texto bíblico.

2. Reflexões e crítica

Proporemos dois títulos:

2.1. Que é o Anticristo?

1. vejamos, antes do mais, o que nos diz a Bíblia a respeito.

A palavra “Anticristo” ocorre nas epístolas de São João  (1Jo 2,18a.22; 4,3), designando o Adversário Supremo de Jesus Cristo. O autor sagrado julga que o Anticristo deve aparecer no fim dos tempos; mas, dado que a última hora já chegou (cf. 1Jo 2,18), São João identifica o Anticristo com os falsos mestres do seu tempo, os quais negavam ser Jesus Cristo verdadeiro Deus e verdadeiro homem; por isto fala também de “Anticristos” no plural (cf. 1Jo 2,18b; 2Jo 7; 1Jo 4,3). Desta forma a idéia de Anticristo, em São João, nada tem de prodigioso ou terrível no sentido físico; vê-se também que Anticristo, segundo o autor sagrado, pode ser uma coletividade (a dos hereges).

São Paulo não usa a palavra “Anticristo”, mas propõe como equivalentes os conceitos de “homem do pecado, filho da perdição, adversário, ímpio” (cf. 2Ts 2,3-8). Este Adversário deverá manifestar-se no fim dos tempos, precedendo imediatamente a segunda vinda de Jesus, e será por este vencido. Ele imitará o Cristo, com sua vinda retumbante (parusia), seus prodígios enganadores, que seduzirão muitos homens para a apostasia em relação a cristo.

O Evangelho,  por sua vez, prediz, para o fim dos tempos, o aparecimento de “falsos Cristos”, que por seus portentos arrastarão os homens para a impiedade (cf. Mc 13,5s. 21s; Mt 24,11).

O Apocalipse recorre ao símbolo de duas Bestas monstruosas: a primeira significa o poder político endeusado e blasfemo; a segunda, a falsa religião, que realiza falsos prodígios e leva os homens a adorar a primeira Besta ou o poder político (cf. Ao 13,1-18). É a primeira Besta que tem número de homem, isto é, 666 (número que resulta da soma das letras que compõem o nome de um indivíduo). Ao propor estes símbolos, São João não tem em vista somente o final dos tempos, mas também a sua própria época (séc. I), quando o Imperador Romano atribuía a si títulos e honras divinos e se servia da religião oficial do Império para promover o culto do Imperador.

Na Tradição cristã dos primeiros séculos, o conceito de Anticristo voltou a ser explanado em alguns escritos; cf. Didaquê 16,4; Apocalipse de Pedro 2, Sibila 3, 63-74…

2. Os exegetas discutem a questão: será o Anticristo um indivíduo ou uma coletividade? Nos escritos de São João, parece ser uma coletividade, ao passo que São Paulo é ambíguo: ora fala de “homem do pecado”, ora fala do “mistério da iniquidade”, que já no início da era cristã estava em atividade e que nos últimos tempos terá expressões mais violentas de sua maldade (cf. 2Ts 2,7s). Talvez se possa dizer que o Anticristo, segundo São Paulo, é instigado pelo demônio desde o início da história da salvação e tende a se tornar ainda mais requintado e sedutor no fim dos tempos. O Homem do pecado seria, pois, um indivíduo que, em grau supremo, personificaria a impiedade e a blasfêmia que desde o início do mundo se opõem a Deus.

3. Vê-se que os dizeres bíblicos não são suficientemente claros para poderem servir de base a uma reconstituição da figura do Anticristo. David Seltzer serviu-se dos textos bíblicos com grande liberdade e exuberante fantasia, apresentando-nos mesmo uma estória que está longe de corresponder à mensagem bíblica e às autênticas concepções cristãs. Observem-se, por exemplo, os seguintes pontos:

a) a criança “Anticristo” nasce de um chacal ou de uma fera – o que absolutamente não cabe nem nas concepções da ciência nem nas da teologia;

b) uma estrela se transforma em cometa, quando a criança nasce. Ora, se a Bíblia fala de transformações da natureza no fim dos tempos (“as estrelas cairão do céu, o sol não mais dará a sua luz…”), usa de figuras próprias do gênero apocalíptico, que não devem ser tomadas ao pé da letra;

c) o Anticristo estaria relacionado com o Mercado Comum Europeu, o que é absolutamente gratuito da parte de David Seltzer. O mesmo Anticristo, no final do filme, aparece ao lado do Presidente norteamericano – o que é outra insinuação política descabida;

d) a Bíblia não contém indicação alguma a respeito da data do fim do mundo. Jesus mesmo se recusou terminantemente a revelá-la (cf. Mc 13,32; At 1,7). Não se deve, pois, insinuar que esteja próxima ou que seja o fim do século XX (2000 d.C.?). Embora os tempos atuais sejam calamitosos, é preciso lembrar que já houve outras épocas de confusão e tribulação, em consequência das quais os homens imaginaram estar perto do fim dos tempos (séc. V, VI e queda de Roma, séc. X e proximidade do ano 1000, séc. XV e pestes na Europa…);

e) o enredo do filme lembra que Megido será o lugar da batalha final da história. Na verdade, o Apocalipse (16,13-16) diz que no fim dos tempos os espíritos imundos reunirão em Harmagedom os reis da terra inteira “para a guerra do Grande Dia do Deus todo-poderoso” (Ap 16,15).

Bons exegetas entendem “Harmagedon” como sendo “Monte de Magedo ou de Megido”¹; Megido é uma cidade da planície que acompanha a cadeia montanhosa do Carmelo, foi aí que Josias sofreu tremenda derrota (cf. 2Rs 23,29s) – o que deu a Magedo ou Megido a fama de ser o clássico campo de batalha da Palestina, marcado por desastre de violência inaudita (cf. 1Rs 14,25; Zc 12,11). – Outros exegetas, porém, interpretam Harmagedon como tradução grega do hebraico Har-mo ed (monte de reunião; cf. Is 14,13); Harmagedon seria, pois, o lugar estabelecido por Satanás para congregar as forças do mal. – Van den Born prefere entender Harmagedon como tradução grega de um suposto nome hebraico  Har-(ham) magedon, monte do Macedônio (Alexandre Magno).

Esta exposição de sentenças dá-nos a ver, ao menos, que Harmagedon, embora seja um lugar geográfico, vem a ser no Apocalipse um símbolo ou um tipo da reunião das forças do mal e de batalha. Os autores bíblicos falavam segundo o expressionismo usual em Israel, não pretendendo, nos casos de Zc 12,11 e Ap 16,16, ser entendidos literalmente. Qualquer batalha árdua ou catastrófica devia estar associada, para eles, com Megido ou Harmagedon;

f) os sinais que aparecem nas fotografias do Pe. Brennan e que prefiguram o tipo de morte deste sacerdote, incitam o público a procurar (e imaginar) sinais de bom ou de mau agouro na vida cotidiana. Provocam a credulidade, a crendice e a superstição, em vez de educar o senso religioso na sua autêntica linha de fé, confiança e amor. O mesmo se diga com relação ao cão e aos cães que aparecem do lado do Anticristo no filme; tendem a tornar fantasistas ou imaginosos certos conceitos cuja índole própria deveria ser respeitada.

Importa agora considerar, de modo particular

2.2. O número da Besta (666)

Em Ap 13,18 lê-se o seguinte:

“Aqui é preciso discernimento! Quem é inteligente, calcule o número da Besta, pois é um número de homem; seu número é 666 !”

Tal Besta, no contexto do Apocalipse, é o símbolo do poder político que arroga para si honras e culto divinos. Segundo a gematria, ¹ na qual a passagem do Apocalipse 13,18 se inspira, é necessário procuremos um nome de homem cujas letras somadas deem o tal 666. esse homem há de ser algum dos personagens políticos conhecidos a São João e a seus leitores; deve, pois, encontrar-se no séc. I d.C. ou antes, não, porém, em séculos posteriores da história da Igreja, visto que São João não tinha conhecimento destes. Os exegetas, desde o século II, têm apresentado as mais diversas interpretações do famoso número, das quais vamos aqui enumerar tão somente as mais dignas de atenção:

a) S. Ireneu (Adv Haer. 5,40), no séc. II, propunha o nome Lateinos em grego (Império Latino, Romano) :

L       A       T       E       I       N       O       S
30  +  1   + 300 + 5  +  10 + 50  + 70  + 200  =  666

b) Hugo Grócio (+ 1645) propõe Marcus Ulpius Traianus:

O       Y       L       P       I       O      S
70  + 400 + 30 + 80 +  10  + 70 +  6  =   666

ou ainda o imperador Nero,  cujo nome seria escrito com caracteres hebraicos:

N      R      W      N       Q      S      R
50 + 200 + 6  + 50  + 100 + 60 + 200  = 666

c) E. Stauffer, exegeta contemporâneo, lembrando que o Apocalipse foi escrito sob Domiciano, propõe seja 666 o valor numérico do nome deste Imperador, como era encontrado algumas vezes nas inscrições (só as primeiras letras de cada palavra, postas em negrito abaixo) :

Autokrator         Kaisar        Dometianos        Sebastos        Germanikos

1          +        31   +           419          +                207      +           9       =  666

d) Van der Berg e Van Eysingha, contemporâneos, observam que 666 é o número triangular de 36, isto é, a soma de 1, 2, 3, 4 … 36 = 666. Por sua vez, 36 é o número triangular de 8 (1 + 2 + 3 …  …. + 8 = 36). Ora em Ap 17,11 o número 8 está relacionado com a Besta; 666, portanto, seria tão somente um ampliamento de 8.

e) Note-se ainda que no século II alguns manuscritos do Apocalipse, em 13,18, já davam a ler 616, em vez de 666. Isto significa que a consciência que os cristãos tinham do significado desse número, se ia esvaecendo. Alguns exegetas interpretam 616 como sendo o equivalente a Gaios Kaisar,  isto é, Imperador Calígula (37-40).

De todas as interpretações propostas, a mais verossímil é a que identifica a Besta com o Imperador Nero, visto que foi este o primeiro perseguidor dos cristãos; ficou, pois, na memória dos discípulos de Cristo como o protótipo ou o modelo do Anticristo ou do Adversário. Os nomes “neron Kaisar” estariam escritos em caracteres hebraicos, embora fossem de língua grega, precisamente para dissimular mais ainda a alusão ao Imperador no fim do século I, quando foi escrito o Apocalipse. Grande perigo para os cristãos haveria, se os pagãos conseguissem decifrar a linguagem gemática ou simbolista de Apocalipse 13,18.

A variante 616 se explicaria muito bem pelo fato de que Neron também podia ser escrito sem n final (Nero); ora o n valia 50. Donde 666 – 50 = 616.

Como quer que seja, o número 666 é símbolo que indica um personagem prototípico ou modelo de perseguidor do Cristo. Esse número não estava gravado na pele de Nero nem na de Calígula ou Dominiciano, nem estará gravado sobre a tez de qualquer hipotético perseguidor da Igreja que assuma proporções do Anticristo final da história.

Por conseguinte, quando o filme propõe o nascimento de Damien às 6 h do dia 6 do mês 06, está fazendo uso imaginoso ou fantasista do texto bíblico. Muito menos tem que ver a tríplice 6 ou o 666 com a SS. Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo). Tais associações são totalmente arbitrárias, tão somente aptas a gerar confusão.

Passemos agora a uma

3. Conclusão

O filme “A Profecia” é mais um testemunho de quanto os temas religiosos interessam ao público de nossos dias, apesar do fenômeno da secularização e do ateísmo. É por isto que o cinema (e, em geral, os meios de comunicação social) os vêm explorando.

1. É de lamentar, porém, que os produtores se interessem tão pouco por apresentar a religião em seus autênticos aspectos. Empenham-se quase exclusivamente por despertar ondas de sensacionalismo, deturpando ou desfigurando valores religiosos e alimentando a crendice e a superstição (que não são a fé propriamente dita). Suscitam  imagens de uma religião de medo ou pavor (principalmente quando entra o demônio em cena), ou seja, de religiosidade primitiva, irracional, emotiva – o que não deve ser confundido em absoluto com a autêntica religião; esta é um incentivo à confiança, ao amor, ao otimismo e à paz. Satanás e os anjos maus existem, sem dúvida, pois a Bíblia e a Tradição cristã (explicitada pelo Magistério da Igreja) no-lo atestam. Todavia Satanás é figura secundária nas perspectivas do cristão. O que importa a este, é ter consciência de que Deus é Pai, é o primeiro Amor, irreversível e todo-poderoso; Deus permite a Satanás que tente o homem em vista de acrisolar a virtude e a fidelidade dos homens; todavia a ação de Satanás é sabiamente delimitada e dominada pelo Senhor Deus.

2. É para desejar que os fiéis cristãos procurem cada vez mais ter uma fé esclarecida, apoiada no estudo da Palavra de Deus e da doutrina oficial da Igreja. Não se contentem apenas com os rudimentos da catequese, nem se deixem levar tão somente por emotividade e fantasia no plano religioso; a razão iluminada pela fé deve reger o comportamento do cristão e contribuir para que este faça a triagem de seus sentimentos religiosos. Mais do que nunca, hoje em dia é necessário valorizar a inteligência e sua função iluminadora e crítica.

3. Comparando “A Profecia” e “O Exorcista”, julgamos dever dizer:

a) O filme “O Exorcista” supõe mais estudo teológico do assunto focalizado. O autor procurou informar-se com os padres jesuítas sobre a possessão e o exorcismo e fez obra que, teologicamente, está correta. Ao contrário, “A Profecia” foge à mensagem intencionada pelas Escrituras e associa livre e fantasticamente os dados bíblicos, iludindo o povo e explorando a capacidade de se impressionar sensivelmente que existe no grande público. Isto não é muito honesto; David Seltzer parece não ter feito grande caso de mensagem religiosa, mas se interessou muito mais por sensacionalismo.

b) “A Profecia” é filme talvez mais nocivo ao público do que “O Exorcista”. Este mostrava a ação do demônio em termos tão estranhos e inverossímeis que era fácil ao público perceber aí artifícios da arte cinematográfica; muitas pessoas riram ou zombetearam diante das cenas de “O Exorcista”, tão pouco prováveis pareciam… Todavia o mesmo não se dá com “A Profecia”; este filme apresenta a ação do demônio em termos de desastres,… desses que costumam acontecer; leva assim o público a esperar que talvez algo de semelhante venha a ocorrer na vida de cada um por influência do demônio. Ora tal efeito equivaleria a deformar a religiosidade do público; seria mesmo algo de desonesto, pois, na verdade, não se deve dar tanta importância aos pretensos fenômenos extraordinários atribuídos a Satanás (são geralmente efeitos de psicologia ou parapsicologia); mas, ao contrário, é necessário que os homens se preocupem seriamente com os efeitos cotidianos e “naturais” da ação diabólica, como são a conculcação inteligente ou requintada da verdade e da honestidade, a venda de tudo (brio, honra, corpo…) em troca de dinheiro, a pornografia industrializada, o prometeísmo ou o desafio do homem a Deus…

Possa o filme “A Profecia” despertar a atenção do público para esses aspectos reais e cada vez mais daninhos da ação do diabo! E, assim, um filme de pouco valor religioso poderá deixar seus frutos positivos no povo de Deus.

***
¹ Har = monte, em hebraico.
¹ A gematria é a arte de atribuir valor numérico às letras.

 

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
Autor: Estevão Bettencourt, Osb
Nº 209, – Ano 1977, p. 214

Compartilhe!

    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
    Adicionar a favoritos link permanente.