“A Papisa”, história de um papa que jamais existiu

ROMA,
quarta-feira, 7 de julho de 2010 (ZENIT.org) – Desde a antiguidade, os romanos sempre
adoraram uma boa farsa. De Plauto a Neri Parenti, mulheres
fantasiadas de homens, personagens de clichê e bufões têm deleitado os
habitantes da Cidade Eterna.

O novo
filme alemão “A Papisa”, que estreia nesta semana nos cinemas italianos, porém,
esquivou-se do âmbito da comédia para apresentar a história fictícia de um Papa
do sexo feminino, numa narrativa longa e cansativa que nos faz lembrar os
Monty Python com nostalgia.

“A Papisa”
baseia-se no livro homônimo da escritora norte-americana Donna Woolfolk Cross.
Publicado em 1996 após “sete anos de pesquisas”, narra uma fábula
com suficientes viradas grotescas para ser digna dos irmãos Grimm.

A história
gira em torno de Joana, uma jovem criada na Alemanha do século IX por um
sacerdote que se recusava a reconhecer suas qualidades intelectuais, uma vez
que “sob a perspectiva católica”, as mulheres seriam inferiores.

Este último
aspecto, destacado pelos múltiplos maus-tratos sofridos pela protagonista,
evidencia a convicção pessoal da autora da “evidente carência da Igreja
católica” de um toque feminino.

Joana
cresce travestida de homem, e mediante uma série de incidentes providenciais,
chega a Roma, onde, graças às suas aptidões médicas únicas, seu alter ego,
“Giovanni Anglicus”, torna-se confidente do papa Sérgio II (844-847).
Com a morte prematura do pontífice, provocada por intrigas, “Giovanni
Anglicus” torna-se papa por aclamação popular.

Joana
dedica-se então a uma série de reformas, que incluem a implementação das
“escolas catedrais” para mulheres (ainda que, na verdade, tais escolas só
fossem surgir dois séculos mais tarde), a reforma dos aquedutos e melhorias na
vida cívica. Obviamente, a missa, a oração e os sacramentos não tem lugar na
vida atarefada de Joana, e o filme não faz menção a uma possível ordenação de
“Giovanni Anglicus”.

Seu breve
pontificado encerra-se com sua morte, durante a procissão do Domingo de Páscoa,
em razão de um aborto. Seu nome teria sido então apagado do Liber
Pontificalis por vingança.

O filme
apresenta uma típica visão do pontificado como uma corporação, na qual uma
mulher pode exercer o papel de “diretora executiva” como qualquer homem. As
cenas sensuais que retratam a relação de Joana com seu amante, o Conde Gerold
(interpretado por David Wetham, o “Faramir” de “O Senhor dos anéis”), lembram
cenas de “Sex in the City”.

A lenda da
Papisa Joana nasceu há cerca de 800 anos, e é atribuída aos hereges cátaros. Há
muitas discrepâncias nas diferentes versões: algumas dizem que teria sido
eleita em 847, outras falam em 1087; algumas afirmam que seu nome era Joana
(Giovanna), outras Agnese ou Giberta; o que é certo é que não há registros
anteriores a 1250 da história, quando a Crônica Universal de Menz a menciona
pela primeira vez.

O mito foi
retomado pelos protestantes no século XVI e divulgado a fim de danificar a
imagem do pontificado. David Blondel demonstrou a falsidade da história em uma
série de estudos publicados em Amsterdã em 1650.

Como a
maior parte dos filmes anticatólicos, “A Papisa” faz uso livre das palavras de
São Paulo sobre as mulheres, a fim de sustentar que a Igreja as tem oprimido
desde as origens. Ignora, por exemplo, que a mais antiga universidade do
ocidente – a Universidade de Bolonha – já admitia estudantes mulheres desde o
início de suas atividades, em 1088.

O filme se
toma muito a sério, mas o resultado são 2 horas e 19 minutos de tédio. Na
tentativa de resgatar o expectador do estado de torpor, quando a história é
transportada para Roma, as cenas rurais desaparecem para dar lugar à suntuosa
corte papal, enquanto os aposentos (situados erroneamente em São Pedro e não em São João Latrão)
ostentam brilhantes colunas de mármore negro e um leito papal faraônico, com
cortinas de veludo e estátuas douradas.

Embora o
filme ainda não tenha encontrado um distribuidor nos EUA, estreou na telas
italianas a tempo para as comemorações de São Pedro e São Paulo; e enquanto o
mundo celebrava o testemunho daquele que foi o primeiro papa, seus expectadores
puderam acompanhar a história de um papa que jamais existiu.Por
Elizabeth Lev

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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