A Paixão de Cristo em favor dos pobres

[Cardeal Ratzinger]

Autor: Everton do N. Siqueira

“Onde está Deus? Por que pudeste criar tal mundo? Por que podes ficar vendo como, muitas vezes, precisamente as tuas criaturas mais inocentes sofrem de modo mais terrível, são levadas como ovelhas para o matadouro, não podendo abrir a boca?” (1)

Perguntas como essas se tornam comuns e são difundidas nos meios de comunicação ateus, ao passo que nós, cristãos, muitas vezes encontramos dificuldades para responder questionamentos neste sentido.

O século XX foi o século da tecnologia, onde nasceram as grandes indústrias, as novas conquistas da ciência, da computação, da internet, dentre tantas outros avanços que hoje já fazem parte de nossas vidas cotidianas, mas, por outro lado, também ficou conhecido como o século das guerras e das mortes: foram duas grandes guerras mundiais, o nazismo, o comunismo, a Guerra Fria, a guerra no Vietnã, e tantas outras que, juntas, deixaram centenas de milhões de mortos.

O momento mais terrível da paixão de Nosso Senhor, sem sombra de dúvidas, foi no instante em que ele gritou em voz alta: “Meu Deus, Meu Deus, porque me abandonaste?”(Mt 26,46; Mc 15,34). Esse grito, não pode ser entendido apenas de forma histórica, hoje “o eco deste grito ressoa mil vezes, multiplicado nos nossos ouvidos: do inferno dos campos de concentração, das frentes de batalha de luta de guerrilha, dos quarteirões de miséria dos famintos e desesperados.”(2).

Em cada pessoa sofrida, faminta, vítima da pobreza ou de crimes que se multiplicam a todo dia, é Cristo que continua a gritar:” Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?”, e com isso, neste século XX toda a humanidade foi como que transportada àquele momento da paixão repetindo o mesmo grito de forma constante. (3)

Meu Deus, meu Deus, porque abandonastes o teu povo?</b>

O povo sofrido que vive no deserto da fome continuam a fazer essa pergunta sem cessar, assim surge uma proposta marxista pretendendo dar solução terrena a essas necessidades temporais dos pobres, e, mais em evidência nos dias atuais, uma teologia mundana (Teologia da Libertação) que pretende colocar o alimento corporal acima do alimento espiritual. “O pão é importante, a liberdade é importante, mas o mais importante de tudo é a adoração.” (4) Onde esta ordem dos bens não for respeitada, mas invertida, não haverá nenhuma justiça. (5). E não é somente a mentalidade marxista que comprova essa Verdade. Foi esse tipo de “ajuda” para o desenvolvimento ocidental com base em princípios puramente técnicos e materiais que criou o Terceiro Mundo, substituindo as estruturas religiosas, morais e sociais, instaurando no vazio uma mentalidade tecnológica (6).

Ao tentar Jesus, o diabo prometeu transformar as pedras em pão, mas foi o resultado foi exatamente o contrário: pães transformados em pedras.(7)

Ainda sobre a atual dualidade que remonta os tempos da Guerra Fria convém lembrar que a propagação do cristianismo não leva automaticamente à melhora do mundo e que a salvação que vem de Deus não é nenhuma grandeza quantitativa. “Não é, por si só, a instituição de um novo sistema político e social que excluiria a desgraça” (8), portanto uma teologia que defenda esse princípio não pode ser verdadeira, nem tampouco deve ser chamada de cristã.

Então, como podemos, afinal explicar o sofrimento do mundo que clama cada dia mais por misericórdia e justiça? De fato, todos nós temos uma parcela de culpa no sofrimento dessas pessoas, pois, todas as vezes que ficamos sentados em nossas poltronas, assistindo como meros espectadores os terrores que acontecem a nível global é a Jesus que deixamos de ajudar (Cf. Mt 25,45).

Também devemos ter claro que essa pergunta não pode ser respondida somente com palavras e argumentos porque atinge uma profundidade que o intelecto não é capaz de alcançar: “Essa realidade só pode ser suportada, sofrida, com Jesus, perto de Jesus que a sofreu por todos nós e conosco.” (9)

Um dos erro dos marxistas é exatamente a tentativa perversa de destruir a promessa da consolação das Bem-Aventuranças (Cf. Mt  5,4) e exigir uma mudança humana, sem a necessidade de um auxílio divino. (10).

A salvação não se dá neste mundo, pois o próprio Jesus afirma perante Pilatos que o teu Reino não é deste mundo (Cf. Jo 18,36), “a salvação do mundo não vem de uma mudança ou de uma política absolutamente estabelecida que se tornou divina. Deve-se trabalhar na transformação do mundo continuamente: com sobriedade, realismo, paciência, humanidade. Mas há uma exigência e uma pergunta do homem que ultrapassa tudo o que podem realizar a política e a economia, capaz de ser respondida só por Cristo crucificado, pelo homem no qual o nosso sofrimento toca o coração de Deus, o amor eterno.” (11)

Referências:

(01)  RATZINGER, Joseph,  Dogma e Anúncio, Tradução de Pe. Antônio Steffen, SJ, São Paulo: Edições Loyola, 2008,  pág 284.

(02)  Ibidem

(03)  Conf. RATZINGER, Joseph,  Dogma e Anúncio, Tradução de Pe. Antônio Steffen, SJ, São Paulo: Edições Loyola, 2008,  pág 284.

(04)  RATZINGER, Joseph,  Jesus de Nazaré, Tradução de José Jacinto de Farias, SCJ, São Paulo: Editora Planeta, 2007,  pág 45.

(05)  Conf. RATZINGER, Joseph,  Jesus de Nazaré, Tradução de José Jacinto de Farias, SCJ, São Paulo: Editora Planeta, 2007,  pág 45.

(06)  Ibidem

(07)  Ibidem

(08)  RATZINGER, Joseph,  O Sal da Terra, Tradução de Inês Madeira de Andrade, Rio de Janeiro: Ed. Imago, 1997,  pág 175.

(09)  RATZINGER, Joseph,  Dogma e Anúncio, Tradução de Pe. Antônio Steffen, SJ, São Paulo: Edições Loyola, 2008,  pág 285.

(10)  Conf. RATZINGER, Joseph,  Dogma e Anúncio, Tradução de Pe. Antônio Steffen, SJ, São Paulo: Edições Loyola, 2008,  pág 287.

(11)  RATZINGER, Joseph,  Dogma e Anúncio, Tradução de Pe. Antônio Steffen, SJ, São Paulo: Edições Loyola, 2008,  pág 289.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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