A Mulher de Lot transformada em estátua de sal

a mulher de ló(Gn 19, 15-26)

Diz o texto sagrado (Gn 19, 15-26) que, tendo o Senhor resolvido destruir pelo fogo a cidade de Sodoma prevaricadora, mandou que um sobrinho de Abraão nela residente, o justo Lote, com sua esposa e suas filhas, se retirasse da mesma, a fim de não ser punido com os pescadores. Eis, porém, que, durante a fuga, a mulher de Lote, desejosa de verificar se  cumpria a promessa divina, lançou para trás um olhar curioso e inoportuno, olhar que contradizia diretamente as instruções dadas pelo Senhor.2 Em conseqüência, “tornou-se uma estátua de sal”, refere o autor bíblico (v. 26).

Como se há de entender a narrativa?

A transformação de um corpo de mulher em estátua de sal não implica absurdo que a Onipotência Divina não possa efetuar. Contudo não parece ser isto o que o texto sagrado quer dizer. Com insistência advertem os exegetas que, para compreender o episódio, é preciso Ter visitado as regiões do Mar Morto (ao Sul ou Sudoeste do qual ficava Sodoma) e convivido um pouco com os beduínos habitantes da região.A “transformação de indivíduos humanos em estátuas de rocha por efeito de castigo divino” é tema não raro nas tradições árabes palestinenses. Eis algumas destas. Tais como têm sido relatadas por recentes exploradores do Oriente:

Jaussen narra que certo dia, na zona de Maã, ao atravessar uma planície cercada por montanhas de estranha silhueta, lhe disse o guia:

“Vê esta planície? Outrora era coberta de arrozais. Essas rochas são jovens que, ao dançar, se mostraram inconvenientes; Alá as transformou em pedra e amaldiçoou a região”.

O mesmo refere que no território de Durah, ao Sul de Hebron, se encontra uma rocha de configuração mais ou menos fantástica, a propósito da qual o guia lhe contou a história seguinte: jovem senhora, montada sobre um camelo, atravessava a região com o marido; não longe de Durah, acometida pelas dores do parto, deu à luz. Não tendo, porém, pano a fim de enxugar o recém-nascido, usou para isto o pão que levava como provisão de viagem. Alá, porém, o percebeu, e irritou-se de tal modo que transformou em rochedo a mulher, a criança, o marido com a espingarda e os camelos.

No folclore árabe relata-se que Ahmud era oficial muito conceituado junto ao seu xeque Kerak. Certo dia, porém, em viagem foi caluniado por dois homens, contra os quais o jumentinho de Ahmud tomou a palavra a fim de o defender. Depois do incidente, prosseguiu a estrada. Ao voltar, o oficial encontrou os dois malvados imóveis como pedra; estavam fixos ao solo, tendo-se tornado semelhantes a rochedos: “Perdoa-nos, pecamos”, disseram-lhe eles com voz surda análoga ao tinir da pedra. Ahmud, de boa índole como era, perdoou-lhes. Os dois árabes, então, restituídos à natureza humana, narraram a todos os vizinhos o prodígio que com eles cpa_ci_ncia_e_f_se dera.4O conto das “Duas Irmãs Ciumentas”, na série das Mil e Uma Noites, alude também a dois príncipes metamorfoseados em rocha negra.

Entre os gregos, as histórias de Niobe, Cadmos e Harmonia incluem semelhante tópico.5

Estas averiguações levam a concluir que, entre os antigos semitas, falar de petrificação de um indivíduo era o mesmo que afirmar haver sido castigado, e severamente castigado, pela Divindade. A expressão tinha sentido meramente metafórico e parece Ter entrado como tal na Escritura Sagrada. Na realidade, pois, dever-se-á dizer que a mulher de Lote foi fulminada pela morte em castigo da sua incredulidade e desobediência ao Senhor; é isto o que o texto sagrado quer incutir em primeira linha. Tendo sido assim punida, é possível que uma crosta de sal haja em breve recoberto o seu cadáver, como costuma recobrir árvores e demais objetos postos à margem do Mar Morto.6 Independentemente, porém, deste outro fenômeno, a fulminação da esposa de Lote já era fato suficiente para que o Autor Sagrado, recorrendo à imagem comum na literatura de seu tempo, falasse de “petrificação” da criatura renitente.Na região de Djebel Sudum ou Usdum, hoje correspondente à antiga cidade de Sodoma, ainda se vê em nossos tempos extensa colina de sal-gema semelhante a uma baleia; é mina inesgotável, da qual se abastecem as famílias de Jerusalém. Ora aí as erosões e outros fenômenos geológicos produzem constantemente a formação de blocos rochosos, de configuração estranha, aos quais a fantasia popular facilmente atribui o aspecto de mulher; tais blocos podem conservar por tempo notável a sua aparência. Não é, pois, para admirar que, no decorrer dos tempos. A imaginação do povo tenha associado entre si o episódio da mulher de Lote, “petrificada” conforme o modo de falar antigo, e uma ou outra dessas pedras às quais a erosão dava aspecto feminino. Assim, pouco antes da era cristã, o autor do livro bíblico da Sabedoria (10, 7) aludia a uma “coluna de sal, monumento de uma alma incrédula” existente na região de Sodoma;7 no séc. I d.C., o historiador judeu Flávio José dizia ter visto um bloco salino que era comumente identificado com a mulher de Lote (Ant. 1, 11, 4); sabe-se, porém, que em fins do séc. IV, quando a peregrina Sílvia Etéria, das Gálias, visitou a Terra Santa, não se apontava estátua da esposa de Lote. Em nossos tempos, indicam os beduínos um bloco de aproximadamente 15 m de altura, que eles dizer ser “a mulher” ou também “a filha de Lote” (bint Lourt)!

Em conclusão: uma exegese atenta do episódio da mulher de Lote leva a distinguir entre o “fato” e a “maneira literária ou popular” de exprimir o fato. “Petrificação” e identificação de rochas com os vestígios da criatura incrédula são expressões de mentalidade e linguagem dos povos do Oriente e da tradição israelita. Estas expressões, na Sagrada Escritura, recobrem um fato certamente histórico, muito sóbrio, porém, em pormenores: a esposa de Lote foi fulminada pela morte sobre a estrada, quando fugia de Sodoma.

Não toca aos homens ponderar os motivos por que o Senhor procedeu tão severamente no caso. Não foi para isto que o Espírito de Deus nos quis transmitir o episódio, mas, sim, em vista de uma admoestação salutar dirigida a cada fiel. Jesus mesmo se fez para nós o
intérprete da história, deduzindo o seu significado perene:

No dia solene do juízo sobre Jerusalém, “quem estiver nos campos não volte atrás. Lembrai-vos da mulher de Lote. Quem procurar conservar a vida, perdê-la-á; e quem a perder, conservá-la-á”. (Lc 17,31-33).

Com estas palavras, Cristo incutia aos discípulos total desprendimento para poderem salvar a sua alma. Na admoestação do Senhor, a mulher de Lote vem a ser o tipo de todos aqueles que, ao empreenderem uma tarefa importante ou a máxima tarefa de salvação eterna, olham para trás, isto é, procedem fútil ou levianamente, movidos por fé tíbia, nutrindo ainda a nostalgia do que abandonaram e permanecendo apegados a prazeres e bens que não lhes são de utilidade para a vida eterna. Para estes pode-se recear castigo análogo ao que fulminou a desgraçada mulher, ou seja, a morte, a morte ao plano espiritual.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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