A Moralidade no Antigo Testamento ( II ) – EB Parte 4

A luta misteriosa de Jacó
significa, portanto, uma dobra na vida do Patriarca: de conquistador trapaceiro
e turbulento, ele havia de se tornar o triunfador abençoado, alheio às
maquinações ilícitas e confiante em Deus só.36

O valor destas explicações
não impede ainda que se pergunte: mas por que terá Deus escolhido tal varão
para colocá-lo à frente do povo messiânico, na linhagem dos grandes precursores
de Cristo?  Não será isto uma insinuação
de que a fraude ainda hoje poderia ser abençoada?

O Senhor quis escolher o
“Suplantador” para ensinar aos homens que os dons divinos são absolutamente
gratuitos; não é a criatura que, por seus títulos naturais, suscita a
munificência divina; esta se atua também sobre os que nada de meritório têm,
pois a graça pode fazer dos iníquos os justos que sirvam a uma obra
perfeita.  O Senhor, portanto, queria
escolher, dentre os dois filhos de Isaque, o mais destituído de qualidades, ou
seja, o mais jovem, propenso a suplantar fraudulentamente.  Mas nem por isto violentou a personalidade
humana de Jacó; deixou que se afirmasse com liberdade, para finalmente envolver
mesmo a miséria de tal homem dentro da obra da Redenção; a bondade de Deus
triunfou em Jacó, como triunfou em outros varões indignos, herdeiros da
promessa messiânica, de sorte que foi pelos miseráveis que Deus quis libertar
da miséria a criatura.37  Esta afirmação,
porém, de modo nenhum implica que ao homem seja lícito agir contra a
consciência ou fraudulentamente, alegando que Deus salva os pecadores.  O Senhor salva, sim, mas não “tem obrigação”
de o fazer; salva segundo um plano muito belo e harmonioso, a nós desconhecido
(cf. Rm 9,15s); por isto ninguém presumirá abusar da Misericórdia, lançando-se
voluntariamente num abismo de que não se pode retirar por suas próprias
forças.  Para o homem, portanto, fica
sendo única norma inabalável: cumprir em todo tempo a Vontade de Deus tal como
a consciência a manifesta.

Judite, Aod e Jael : 

A amabilidade a serviço do
morticínio (…)

O livro de Judite nos
apresenta a história de uma viúva israelita que, pela astúcia, salvou a sua
cidade, Betúlia, assediada pelo General assírio Holofernes.  Quando os seus concidadãos já perdiam à
confiança no auxílio divino, Judite revestiu-se dos ornamentos mais valiosos e,
dada a sua beleza, conseguiu entrar no acampamento inimigo; apresentou-se ao
General como a desertora que lhe havia de denunciar os segredos aptos para
captar Israel; Holofernes acolheu-a com carinho e, após alguns dias, excitado
pela paixão, ofereceu-lhe uma ceia, durante a qual se embriagou; a alta noite,
deixada a sós na tenda com o General adormecido, Judite aproveitou a ocasião
para decepá-lo.  A seguir, alegando às
sentinelas que ia rezar fora do acampamento, voltou para Betúlia, onde
estimulou a sua gente ao ataque; este foi vitorioso para Israel, pois o pânico
se apoderara dos assírios estupefatos.

Em poucas palavras, Judite
parecer ter enganado; a seguir, matou.  E
o Senhor (…), em vez de a punir, abençoou-a, dando-lhe pleno êxito.  Que significa isto?

Para aproximar-nos da reta
interpretação, recordemo-nos de que estamos diante de um episódio das guerras
de Israel, as quais, na Sagrada Escritura, tomam o significado de luta entre o
reino de Deus e o reino de Satanás, entre a luz e as trevas; são combates, pois,
 em que todo o fervor religioso se acha
empenhado e, o que não é para desprezar, fervor de orientais exuberantes e
rudes.

Nessa luta, eis que Judite
foi ambígua em suas atitudes e palavras. 
Fez o papel de fugitiva; procurou seduzir por sua beleza feminina e suas
expressões de duplo sentido (note-se: dando a entender a Holofernes que
denunciaria os segredos da derrota de Israel, não mentiu, pois, de fato, disse
ao General que somente a apostasia religiosa seria capaz de prostrar aquele
povo – o que era verdade; cf. 11, 1-12, Holofernes, porém, entendeu que lhe
seriam revelados segredos estratégicos). 
Procedimento e declarações como os de Judite em tempo de guerra são por
si mesmos suspeitos; não enganam senão os imperitos ou os obcecados, como
Holofernes; se este não estivera detido pela concupiscência, poderia ter
desconfiado de um ardil de guerra; ora os estratagemas jamais foram condenados
entre beligerantes.  Observe-se,
outrosssim, que Judite procedeu depois de ter orado e várias vezes pedido ao
Senhor que abençoasse o seu empreendimento (cf. 9, 1-14; 12, 5-9; 13, 6s); não
teve, pois, consciência de ofender a Deus; ao contrário, era impelida pelo zelo
religioso que a vida continente e piedosa nela havia acendido.  A sua consciência é assim isenta de culpa
subjetiva.

Deus quis dar pleno êxito à
tarefa de Judite (…). O que o Senhor assim sancionou não foi tanto o modo de
agir da heroína; o expediente a que esta recorreu era condicionado pelos
costumes bélicos da época.  O que o Senhor
houve por bem confirmar em Judite e propor a todos os homens (também aos
cristãos) é a fé dessa mulher, que continuou a crer no auxílio divino quando os
concidadãos já perdiam todo o entusiasmo teocrático.  Deus recompensa  a fidelidade, e serve-se dos humildes,
piedosos (Judite) para prostrar os soberbos e ímpios (Holofernes e seu
exército); eis a tese perene que o livro de Judite nos comunica através de seus
dizeres circunstanciados pela mentalidade de uma época!

O feito de Judite tinha dois
precedentes semelhantes nos primórdios de Israel (época dos Juizes, 1160-1020 a.C.):

O Juiz ou chefe israelita
Aod, tendo ido certa vez pagar o tributo a Eglon, rei de Moab, que oprimia o
povo de Deus, alegou Ter um oráculo de Deus a transmitir ao monarca.  Deixado então a sós com Eglon, tirou de sob o
manto uma espada que trazia oculta e, enfiando-lha na carne, matou-o
desapiedadamente (Jz 3, 15-22).

Jael, mulher cineia,
estrangeira aliada a Israel, recebeu em sua tenda o chefe cananeu Sisará, que
fugia derrotado em guerra pelos israelitas; mostrou-se disposta a ocultá-lo, a
fim de que não fosse capturado pelos vencedores.  Fê-lo, pois, deitar-se a recobriu-o
cuidadosamente; a seguir, tendo Sisará adormecido, com um martelo enfiou-lhe
nas têmporas um piquete, que lhe perfurou por completo o crânio e o deixou
morto, fixo ao solo (Jz 4, 17-22).

Difícil será proferir um
juízo sobre a moralidade desses atos.  À
diferença do que se dá no livro de Judite, o texto sagrado de modo nenhum
insinua que tenham sido inspirados por Deus ou feitos após oração ao
Senhor.  Pode Ter havido culpa em Aod e
Jael (…). Não é isto o que o Autor Sagrado quer julgar quando relata os dois
episódios; ele os narra com toda a objetividade, não para os propor como norma,
mas para mostrar como Deus, permitindo que a natureza humana atue os seus
instintos, sabe, não obstante, fazê-la cooperar para a realização de um plano
sábio; 38 mais uma vez, a Escritura dá a ver que a própria imperfeição do
homem, no plano do Criador, pode ser aproveitada para comunicar benefícios divinos.  Eis o que os episódios de Aod e Jael devem
significar para o leitor moderno.

§ 6º  PUREZA E IMPUREZA RITUAL

A Lei mosaica enumerava
longa série de atos e ocasiões que tornavam o homem “impuro”, impuro, porém, do
ponto de vista meramente legal, extrínseco, sem que contraísse necessariamente
alguma culpa em
consciência.  Assim,
por exemplo, era considerado imundo quem comesse ou simplesmente tocasse certos
animais –a lebre, o porco, a águia, a avestruz, o cisne … (cf. Lv. 11,
1-47), quem tocasse objetos julgados impuros (cf. Lv 11,44s,; 20, 25s), quem
fosse acometido por lepra (cf. Lv 13, 1-14, 57), gonorréia (cf. Lv 15, 1-17),
hemorragia crônica (cf. Lv 15, 25-30); impuros eram também os cônjuges após o
ato conjugal (cf. Lv. 15, 18), a mulher após o parto (cf. Lv 12, 1-8).  O impuro não era reabilitado senão após um ou
mais dias, devendo finalmente sujeitar-se a um ritual de purificação (banho,
oferta de sacrifício …).

Quem lê essas minuciosas
prescrições do mosaísmo concebe sem demora duas questões importantes:

As leis de pureza e impureza
ritual têm seus paralelos em cultos pagãos da antigüidade e dos nossos tempos.
Onde está, pois, a originalidade da religião judaica?  Como é então revelada por Deus?

Abstração feita da origem
dos preceitos de pureza legal, não será que a pureza ou a santidade inculcada
pelo Antigo Testamento era algo de meramente exterior, ritual, independente da
vontade e da pureza interior, moral? 
Havia no mosaísmo um autêntico conceito de santidade?

O termo hebraico qodesh
(santidade) implica a idéia de separação; daí concluírem alguns autores que a
santidade originariamente para os judeus significava pureza de ordem física, ou
simplesmente limpeza; assim, por exemplo, escrevia Renan:

“As idéias de pureza e
impureza eram a princípio equivalentes às de limpeza e sujeita (…).  A higiene e a limpeza foram uma das
principais preocupações dos antigos legisladores”, Histoire du peuple d’Israel,
IV (Paris), 55s.

Certas leis que visavam a
garantir a saúde pública teriam sido sancionadas em nome da religião pela
autoridade competente, a fim de se assegurar mais eficazmente a sua fiel
observância (em regiões de clima quente, como as que habitavam os antigos
semitas, era rigorosamente necessário que o povo rude ou infantil não negligenciasse
certas cautelas de higiene!).

Eis a resposta global que se
há de dar a essas duas questões:

É inegável que muitas das
prescrições mosaicas concernentes à pureza exterior são análogas às de povos
pagãos antigos e modernos.  Observa-se,
porém, em todas as tribos primitivas que tais normas não têm significado
meramente higiênico, utilidade medicinal apenas, mas geralmente possuem valor
religioso.  Com efeito, não se poderia
assinalar para cada qual dessas determinações uma causa respectiva, de ordem
unicamente natural ou fisiológica; não, elas muitas vezes só se explicam por
motivos religiosos ou “místicos”, isto é, porque os homens julgavam haver nexo
especial entre tal objeto ou tal animal, tal doença ou tal função fisiológica,
e determinada divindade;39  era, pois, o
respeito à Divindade que de maneira geral ditava tais observâncias de caráter
aparentemente profano.

Ora o povo de Israel,
oriundo do ambiente pagão da Mesopotâmia, desde as suas origens, ou seja, desde
os tempos de Abraão (ca. De 1800
a.C.), conheceu usos de pureza e impureza legal; os seus
antepassados caldeus os observavam. 
Retirando-o da terra idólatra e constituindo-o como nação independente,
agraciada pela revelação da verdadeira fé, Deus não quis simplesmente extirpar
as observâncias tradicionais da gente de Abraão; a pedagogia divina sempre teve
por tática tomar o homem como ele é, e pacientemente elevá-lo a maior
perfeição.  Por conseguinte, quando em
1240 Moisés, em nome de Deus, promulgou a Magna Carta de Israel, incluiu nela
as prescrições rituais já vigentes em sua nação.  Apenas tratou de incutir espírito novo,
significado superior, a tais observâncias; removendo tudo que poderia Ter saber
de superstição dou de algum modo lembrar a idolatria, procurou fazer desses
usos o estímulo para que os israelitas, observando uma pureza exterior, ritual,
se tornassem outrossim ciosos da fidelidade a Deus, ou seja, de pureza moral,
interior (muito mais importante!): “Vós vos santificareis e sereis santos,
porque sou santo, e não vos tornareis impuros” (Lv 11,44).

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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