A Moralidade no Antigo Testamento ( II ) – EB Parte 2

Também Davi parece Ter-se
deixado arrastar a excesso no episódio relatado em 1Sm 27, 8-11.  Certa vez, perseguido por Saul, o futuro
monarca de Israel se refugiou nas terras do rei filisteu Aquis, que o recebeu
benevolamente; de sua nova mansão, porém, Davi fazia incursões contra
populações vizinhas: os amalecitas, que Samuel condenaria ao anátema (cf. 1Sm 15,3);
os gessurianos e os gezrianos, que eram provavelmente tribos amalecitas.  O grande guerreiro tudo devastava, matando
homens e mulheres, roubando gado e vestes. 
A seguir, voltava à presença do rei Aquís e, temendo controle ou
represálias da parte deste, dizia-lhe ter feito expedições na regiões do negeb,
regiões que pertenciam à tribo de Judá e a seus aliados.  Tais depredações procediam realmente de zelo
religioso?  E a mentira subsequente que
as encobria, poderia ser justificada?

De resto, a Sagrada
Escritura fornece indício de que os freqüentes derramamentos de sangue por Davi
cometidos não sempre corresponderam ao plano divino; antes, desagradaram ao
Senhor.  Com efeito, quando o rei de
Israel desejou edificar o templo de Javé em Jerusalém, recebeu do Senhor formal
recusa, pois, como reconheceu o próprio monarca, não convinha que o templo,
santuário da paz, fosse erguido por mãos que haviam feito correr tanto sangue
(cf. 1Cr 22, 8-10; 28.3).

5. Era igualmente a
necessidade de manter pura a religião de Israel que fazia com que fosse o herém
praticado entre os próprios hebreus, caso um ou mais indivíduos caíssem na
idolatria ou em outro pecado grave.  Tal
sanção é prescrita por Moisés em Dt 13, 13-19; foi a aplicação da mesma que
motivou a guerra fratricida contra a tribo de Benjamim (Jz 20, 1-48; 21,
1-14).  À medida, porém, que se ia
elevando o nível cultural e moral de Israel, abrandava-se a praxe do herém
entre conacionais; assim na época de Esdras (séc. V/IV), implicava não já a
morte do réu, mas a confiscação dos seus bens e a sua exclusão das assembleias
do povo (Esd 10,8).

6. Ainda outro elemento deve
ser levado em conta para se entenderem devidamente as façanhas bélicas do
Antigo Testamento : é a mentalidade do clã ou coletivista.  Entre os antigos de modo geral, o indivíduo
costumava ser prezado não somente como tal, mas também (e, não raro,
preponderantemente) como membro de uma coletividade; dava-se muita importância
à solidariedade natural que une todo homem à família, tribo ou nação.  Isto se explica, em grande parte, pelo gênero
de vida nômade que levavam que os acompanham, e isto (dizem os psicólogos) não
pode deixar de imprimir um caráter gregário ou coletivista à vista do clã,
fazendo com que o indivíduo como tal desapareça na engrenagem do todo.  Ademais na vida nômade é mais difícil que na
vida sedentária descobrir o autor de um crime (fora os casos de delito
flagrante); por conseguinte, julgava-se muitas vezes na antigüidade que os
fatores da história não são “este” e “aquele indivíduo”, mas “este” e, “aquele
clã”.18  Ora este modo de ver implicava
que, ao se cometer um crime contra determinado sujeitos, todo o grupo
respectivo se julgava atingido; por conseguinte, era a tribo inteira que se
levantava para reagir, e reagir não contra o agressor isolado, mas contra a
coletividade de que fazia parte o ofensor. 
É o que explica os freqüentes choques de tribo contra tribo, choques em
que nem as mulheres, nem as crianças eram poupadas; é também esse o motivo por
que muitas vezes os filhos, netos e ulteriores descendentes da geração
criminosa eram por um legislador condenados à maldição.19  A história sagrada apresenta disto um exemplo
assaz significativo em 1 Sm 15, 1-3: Samuel manda a Saul que extermine os
amalecitas – homens, mulheres, crianças – e todo o seu gado, porque em três
ocasiões  durante a travessia do deserto,
havia já mais de dois séculos, se tinham oposto à passagem do povo de Deus (cf.
Êx. 17, 8-13; Nm 14, 45; Jz 3, 13; 6,3): Moisés, em conseqüência, os tinha
condenado a completo e extermínio (cf. Dt 25, 17-19; Nm 24,20).  Segundo a ordem de Samuel, pois, uma geração
bem posterior pagaria pela culpa de antepassados longínquos!20

Aos poucos, porém, Deus quis
corrigir também esse modo de ver imperfeito. 
Acontecia no séc. VI que os judeus, punidos por guerras e deportações,
se queixavam de que seus pais haviam comido uvas amargas e os entes dos filhos
sofriam em conseqüência (cf. Ez 18, 2; Jr. 31, 29); apoiados em tal tese,
dispensavam-se hipocritamente de qualquer propósito de penitência, pois se
apregoavam inocentes.  Foi então que o
Senhor se dignou explicitamente negar a veracidade do pressuposto:

“Eis que todas as almas Me
pertencem: a alma do filho como a alma do pai é minha: a alma que pecar, essa
morrerá”. (Ez 18, 4; cf. Jr 31,30).

Assim mais uma vez se
manifestava a paciência divina em lenta tarefa educacional (…)

§ 3º  AS IMPRECAÇÕES

Ocorrem no Antigo
Testamento, principalmente nos salmos, fórmulas em que o autor sagrado ou outro
personagem deseja o mal àqueles que o angustiam.  São frases que, à primeira leitura, parecem
aptas a ofender a consciência do cristão e pedem um esclarecimento exegético.

Dentre essas fórmulas, não
se negará que algumas sejam expressão da paixão desregrada; acham-se
simplesmente citadas ou consignadas, como ditos alheios, pelo hagiógrafo, não,
porém, aprovadas nem propostas pelo Espírito Santo qual modelo de sentimentos
do homem de Deus.  O contexto indica
quais sejam tais imprecações pecaminosas (cf., por exemplo, 1Sm 22, 16; Sl 39,
16; 40, 6-10).

Muitas, porém, das
imprecações do Antigo Testamento, mormente do saltério, não são de modo nenhum
condenáveis; têm significado bom, até hoje válido.

Para entendê-las, será
preciso considerar que procedem de um ânimo intimamente unido a Deus, (…) por mais
estranho que isto pareça.  Em verdade os
autores sagrados, ao pleitear sua causa perante o Senhor, não o costumavam
fazer a título pessoal, reivindicando direitos particulares, próprios, mas
advogavam os interesses do bem, da justiça ou da verdadeira religião; por
conseguinte, explícita ou implicitamente a sua causa se identificava com a de
Deus, e os seus inimigos vinham a ser os adversários do próprio Deus.21 Assim
entendida a situação, não podiam ver motivo para abrandar o rigor dos termos
com que os antigos orientais, dotados de ânimo férvido costumavam pedir a
extirpação dos adversários; não pode haver compatibilidade entre o bem e o mal,
o reino de Deus e o do pecado; a toda instituição que se opõe a Deus, o homem
justo não pode deixar de desejar completa ruína.

Isto mais ainda se
compreende se se leva em conta que os hagiógrafos não costumavam fazer
distinção explícita entre a pessoa que praticava o mal e o mal por ela
cometido; já que, na realidade cotidiana, a injúria se nos depara geralmente associada
a determinado indivíduo que lhe dá origem, o autor sagrado, desejando a
extinção das injúrias (o que em si é coisa ótima), envolvia na sua fórmula
imprecatória a pessoa mesma injuriante (o que não quer dizer que desejasse mal
a esta como tal).  É dessa situação
psicológica que resulta o modo de falar surpreendente das imprecações bíblicas.

Quanto aos termos com que se
acham formuladas, convém frisar que pertencem ao vocabulário oriental, tendente
às hipérboles à ênfase.  São muitas vezes
tirados diretamente da linguagem militar ou do direito de guerra de
outrora.  É o que dá tanta vivacidade –
dir-se-ia mesmo: crueldade – às frases imprecatórias.  Para se perceber a verdadeiramente do autor
sagrado, será preciso descontar o que tais fórmulas possam ter de hiperbólico e
convencional.

À luz destas considerações,
o leitor da Bíblia verá nas imprecações (em particular, nos salmos
imprecatórios) a expressão do desejo de que justiça seja feita, os abusos
coibidos; entendê-las-á como fórmulas dirigidas contra os males e o Mal, não
contra os maus; transportar-se-á, em suma, para um plano todo impessoal.

Para o cristão, pois, mesmo
as imprecações mais veementes do saltério tomam valor cristão.  Não há dúvida, o discípulo de Jesus tem por
lei “amar os inimigos, orar pelos que o perseguem” (cf. Mt 5, 39,44).  Sem, porém, derrogar ao amor dos homens, ele
pode, e deve, devotar ódio ao pecado e ao reino de Satanás; deve desejar a
extirpação completa deste potentado e dos seus baluartes, baluartes que, em
parte, são as tendências desregradas da própria natureza humana, em parte são
tudo que há de mal disseminado em torno de nós. 
Que o cristão, pois, reze os salmos imprecatórios, tendo em vista os
vícios e as instituições hodiermas inimigas do reino de Cristo, todas as
instituições e seitas que se esforçam por disseminar o erro e o pecado no
mundo.  E contra tais esteios do mal não
hesitará em proferir os salmos imprecatórios, do íntimo do coração, com a
plenitude do seu amor para com Deus e o próximo.

§  4º POLIGAMIA, DIVÓRCIO E INCESTO

Poligamia

O matrimônio, quando pela
primeira vez aparece na história sagrada, é união monogâmica; o Criador mesmo o
instituiu e abençoou, subtraindo-o ao plano de simples função da natureza para
lhe dar valor religioso (cf. Gn, 1, 28; 2, 23s).  Por isto, o contrato entre marido e esposa é,
nos livros posteriores da Sagrada Escritura, chamado “aliança de Deus” (Pr
2,17), aliança “da qual o Senhor é testemunha” (cf. Ml 2,14).22

Visto ser “aliança de Deus”,
o matrimônio – e, note-se bem, o matrimônio monogâmico – é, principalmente nos
escritos dos Profetas, apresentado como figura da união de Deus – que faz as
vezes de Esposo – com seu povo – que se comporta como esposa. Vejam-se Os
1,2;2, 21.s; 3,3; Is 50, 1; 54, 5s.; 62, 5; Jr 2,2; 3, 1-4.23  O livro que por excelência apregoa a
santidade da vida conjugal, o livro de Tobias, se refere ao contrato de um
jovem com uma donzela (Sara).

O primeiro caso de bigamia
que a Sagrada Escritura registrada verifica-se na família de Lameque (cf. Gn
4,19).  Este é o sexto membro da linhagem
de Caim, caracterizada pela corrupção (o que já por si torna suspeita a
novidade dos matrimônios de Lameque). Ora, referindo o episódio, o hagiógrafo
indiretamente condena o bígamo, pois frisa a índole sanguinária e vingativa que
o Patriarca manifesta em versos às duas esposas:

“Adá e Selá, ouvi minha voz,

Mulheres de Lameque, escutai
minha palavra;

Matei um homem em troca de
um ferimento recebido,

E um jovem em compensação de
uma contusão.

Caim será vingado sete vezes,

Lameque, porém, setenta e
sete vezes”.  (Gn 4, 23s)

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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