A Mocidade

“Lembra-te do teu Criador nos dias da mocidade, antes que venham os dias da desgraça e cheguem os anos dos quais dirás: “Não tenho mais prazer” (Ecl 12,1)”.

É impossível explicitar a beleza monumental da mocidade. É abissal a riqueza das aventuras da juventude.
Como é encantador, fenomenal e lúdico esse período. Na verdade, ninguém desejaria o fim desse belíssimo tempo. Esse é o período do ouro puro e das pedras mais preciosas do mundo.
Realmente, quão belo são os moços e as moças. Seus jeitos, seus estilos, seus gostos, seus pensamentos, seus sonhos e fantasias, seus grupos e “tribos”, seus dilemas e suas comunidades virtuais.
É tão rica a mocidade que o bom Deus se faz presente em seus corações. A dimensão da fé acompanha esse período tão impetuoso e extraordinário.

“O Brasil ficou em terceiro lugar em estudo sobre os países com os jovens mais religiosos do mundo, segundo o Instituto alemão Bertelsmann Stiftung, que percorreu 21 países e entrevistou 21 mil jovens entre 18 e 29 anos para produzir o mais extenso e detalhado levantamento comparativo sobre a importância da religião nas principais culturas globais. A Indonésia e o Marrocos, países de maioria muçulmana, empataram com o Brasil, que só perdeu para a Nigéria, em primeiro lugar, e a Guatemala, em segundo. De acordo com a pesquisa, 65% dos jovens brasileiros são “profundamente religiosos”1.

Não despreze a mocidade

O poeta latino Horácio (65-8 a.C.), dizia para mocidade: “Carpe diem – Aproveita o dia de hoje”.
São Paulo Apóstolo escreve para o jovem Timóteo: “Que ninguém despreze a tua jovem idade. Não descuides do dom da graça que há em ti” (Tm 4, 12. 14).

Com certeza, ninguém deve abandonar a sua juventude, ou seja, deixar de aproveitar o feliz dia de hoje – esse tempo que nunca deveria acabar -, todavia, jamais esquecer do seu Criador e do dom da graça que cada jovem recebeu para o seu bem e da comunidade.

O descuido desse dom, pode ser fatal.

Afirma São Pedro Apóstolo: “Jovens, sede sábios e vigilantes! Eis que o vosso adversário, o diabo, vos rodeia como um leão a rugir, procurando a quem devora. Resisti-lhe, firmes na fé” (1 Pd 5, 5-9).
Por que resistir na fé? Porque com ela podemos destruir todos os dardos inflamados do Maligno (Ef 6, 16).

São João Apóstolo declara magistralmente: “E esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé” (1 Jo 5,4).
Como é maravilhoso ver os jovens curtindo as alegrias da sua mocidade com fé, com graça e muito amor ao Senhor Jesus Cristo e ao próximo. Dentro desse contexto, os jovens ficam livres da cultura de morte que o sistema propõe para ceifar suas belíssimas vidas.

Estatísticas Mortais “Construir uma escola é destruir uma prisão”
Victor Hugo (1802-1885)
Poeta e Filósofo Francês

São Pedro, profeticamente sabia que os jovens seriam as maiores vítimas da cultura de morte. São João também sabia que a sedução do mundo era o gigante desafiador e destruidor da juventude. Ele mesmo escreveu: “O mundo inteiro está no poder do Maligno” (1 Jo 5, 19).

Para vencer o Maligno com o seu sistema de sedução mortal, são necessárias três ferramentas ensinadas pelos apóstolos: a humildade, a fé e a poderosa Palavra de Deus (1 Pd 5, 5-9; 1 Jo 2, 14; 5, 4).

O Ministério da Justiça divulgou dados que mostram pelo menos sete jovens, entre 18 e 29 anos, ingressando no sistema prisional brasileiro a cada hora. O ritmo de entrada de jovens na prisão (684 mil / ano) supera em 58% ao de saída (43,2 mil jovens / ano). Isso significa que 187 jovem entram a cada dia em unidade prisionais, contra 118 que deixam o sistema.

De acordo com a Secretaria Geral da Presidência, dos 50,5 milhões de jovens brasileiros entre 15 e 29 anos, 4,5 milhões estão sob “estado de risco”, pois, não tem o ensino fundamental e estão fora da escola e desempregado (2).

Quase metade (46,6 %) da população brasileira entre 15 e 24 anos, hoje estimada em cerca de 40 milhões de indivíduos, está sem emprego. Deste contingente, 9,7 milhões vivem em famílias com renda per capita de até meio salário mínimo (R$ 207, 50), 12,5 milhões não tinham concluído o ensino fundamental e 1,4milhões é constituído por analfabetos. Estes são alguns dos resultados da pesquisa Juventude e política sociais, elaborada pelos economistas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Jorge Abrahão de Castro e Luseni Aquino.

O mais grave é que o desemprego entre jovens da faixa etária pesquisada é 3,5 vezes maior do que entre adultos com mais de 24 anos, e esta proporção vem aumentando continuamente. Em 1990, era de 2,8 e, em 1995, 2,9 maior (3).

O demógrafo, economista e autor do livro: Uma História da Violência, o francês Jean-Claude Chenais afirma: “A escola é o melhor organismo de prevenção contra a violência, pois modela os espíritos, as mentalidades e as percepções”.

Sobre o trabalho a Sentença Latina diz tudo: “Lábor ómnia vincit -O trabalho tudo vence”.

Sexo e aborto

As brasileiras estão iniciando a vida sexual mais cedo, tendo mais acesso a contraceptivos e menos filhos. Este é o novo perfil da mulher brasileira, divulgado pelo Ministério da Saúde. Segundo a Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde, que avaliou 15 mil mulheres em idade fértil, o número de brasileiras que começaram a ter relações aos 15 anos triplicou de 11% em 1996 para 32,6% em 2006 (4).

Estudo realizado pelas universidades de Brasília (UnB e Estadual do Rio de Janeiro [UERJ]) indica que pelo menos 70% de todas as mulheres brasileiras que fizeram aborto já tinham ao menos um filho e, na maioria dos casos, decidiram interromper a gravidez planejadamente porque os métodos contraceptivos falharam ou não foram usados corretamente. A pesquisa diz que 3,7 milhões de mulheres em idade fértil (entre 15 e 49 anos) já abortaram (5).

Fumo e álcool

Especialistas em fumo têm alertado há muito tempo que o potencial viciante de nicotina é tão grande quanto o da heroína.

De acordo com o Vigiescola 2002-2005 -estudo sobre o tabagismo entre estudantes no Brasil do Instituto Nacional de Câncer (Inca)-a maioria dos fumantes experimenta o primeiro cigarro antes dos 12 anos.

Ainda segundo estatísticas do Inca, existem 22 milhões de fumantes no país. Da população carioca, 20% dos homens e 15% das mulheres têm o vício.

Fumar provoca mudanças duradouras no cérebro semelhantes às deixadas em animais com o uso de cocaína, heroína e outras drogas viciantes, afirma o pesquisador Dr. Michael Kuhar, da Emory University, em Atlanta, EUA (6).

São os adolescentes hoje o principal foco de preocupação dos especialistas em alcoolismo do País. A exemplo do que mostram os depoimentos do início da matéria, levantamento recente da Secretaria Nacional Antidrogas (Senad) mostra que 13,3% dos brasileiros têm características de dependência de álcool. E 13% dos adolescentes de capitais e regiões metropolitanas são considerados bebedores “pesados”, com o consumo superior a cinco doses por vez, mais de uma vez por semana, o que representa risco alto de dependência. A cerveja aparece como a bebida mais consumida por esses adolescentes: 53% dos meninos e 50% das meninas até 18 anos preferem a cerveja. Para a especialista da Universidade de Brasília (UnB), a psicóloga Josenir de Oliveira, a influencia da propaganda é decisiva na formação do hábito da bebida em adolescentes (7).

Drogas e Mortes

Relatório divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU) aponta um crescimento de 160% no número de usuários de maconha e de 75% no de consumidores de cocaína no Brasil entre 2001 e 2004. O documento, elaborado pelo escritório da ONU contra Drogas e Crime (UNODC), indica que o país tem hoje cerca de 870 mil usuários de cocaína. Em 2001, os usuários da droga equivaliam a 0,4% da população entre 12 e 65 anos de idade. Em 2004, o percentual subiu para 0,7%. O mercado de consumo da cocaína no Brasil é o segundo do continente. Só fica atrás dos EUA, onde mais de dez milhões assumira, o uso da droga pelo menos uma vez ao ano.

Segundo o UNODC, o país tem mais de três milhões de consumidores de maconha. Em 2001, eles eram 1% da população entre 12 e 65 anos. Três anos depois, eram 2,6%. Os autores do relatório informam, sem citar números, que está havendo aumento no consumo de ecstasy, crack e merla, entre outras drogas no país. O quadro é considerado preocupante. Segundo Giovanni Quaglia, representante do UNODC, é possível que a próxima pesquisa apresente números ainda mais elevados sobre trafico e uso de drogas (8).

As políticas públicas voltadas para a saúde do jovem brasileiro, segundo o levantamento do Ipea, ainda não fizeram frente, de modo efetivo, aos desafios fundamentais do setor. Entre os 15 e 29 anos, a violência continua sendo o principal problema, especialmente para os rapazes que morrem significativamente mais do que as moças.

Em um grupo de 100 mil pessoas, a taxa de mortalidade média das mulheres foi de 58,43 contra 261,80 dos homens. Entre 2003 e 205, morreram cerca de 60 mil jovens do sexo masculino. Destes casos, 78% foram por causas externas, majoritariamente homicídios e acidentes de transporte. No mesmo período, morreram 15 mil jovens do sexo feminino, sendo 35% pelas mesmas causas externas.

O estudo detectou, ainda, que os pretos e os pardos morrem mais. Entre os 18 e 24 anos para cada grupo de 100 mil jovens, a taxa de óbitos alcançou 204,58 entre os brancos e 352,04 entre os negros.
A Aids é outro problema entre os jovens. No país, houve 112 mil casos notificados da doença entre jovens de 15 a 29 anos até 2005. O total significa 30% do total de casos brasileiros desde o início da epidemia, no começo da década de 1980. A principal forma de contágio nesta época se dá por transmissão sexual, em 60% dos casos. A transmissão pelo sangue ocupa segundo lugar, com 23% e em 96% dos ocorridos e é causada pelo uso de drogas injetáveis (9).

 No encontro com os jovens no estágio do Pacaembu em São Paulo, em 10 de maio de 2007, O Papa Bento XVI disse: “Registramos o alto índice de mortes entre os jovens, a ameaça da violência, a deplorável proliferação das drogas que sacode até a raiz mais profunda a juventude de hoje. Fala-se por isso, seguidamente, de uma juventude perdida”.

O Santo Padre exorta os jovens à não entrarem nesse corredor mortal dizendo: “Podeis ser protagonistas de uma sociedade nova se procurais pôr em prática uma vivência real inspirada nos valores morais universais, mas também um empenho pessoal de formação humana e espiritual de vital importância” (10).

O Documento de Aparecida, no Nº 422, é bem contundente sobre esse assunto.

“O problema da droga é como mancha de óleo que invade tudo. Não reconhece fronteiras, nem geográficas, nem humanas. Ataca igualmente a países ricos e pobres, a criança, jovens, adultos e idosos, a homens e mulheres. A Igreja não pode permanecer indiferente diante desse flagelo que está destruindo a humanidade, especialmente as novas gerações”.

Conclusão

Diante de uma sociedade materialista, relativista, hedonista e narcisista; de uma economia capitalista perversa; de uma política corrupta; de um lar destruturado e de uma cultura de morte, o  que resta para os jovens?

Resta sim! Acreditar na família como instituição divina e referência fundamental de valores como: educação, amor e comunhão.

Confiar na Igreja de Cristo como instituição sagrada e fortaleza da vida e da esperança. Portadora da mais rica tradição da educação evangélica e dos eternos valores sacramentais.
Aceitar e viver a escola como instrumento importante e principal da cultura e progresso do saber cientifico e tecnológico.

A educação familiar religiosa, escolar e esportiva, são fatores determinantes para o sucesso dos jovens em todos os setores de suas vidas.

“Como um jovem conservará puro o seu caminho? Observando a tua palavra.
Eu te busco de todo o coração, não me deixes afastar dos teus mandamentos.
Conservei tuas promessas no meu coração para não pecar contra ti.
Bendito sejas, Senhor, ensina-me teus estatutos.
Com meus lábios eu enumero todas as normas de tua boca.
Eu me alegro com o caminho dos teus testemunhos, mas do que com todas as riquezas”.(Sl 119, 9-14)  

Pe. Inácio José do Vale
Pároco da Paróquia São Paulo Apóstolo
Professor de História da Igreja
Faculdade de Teologia de Volta Redonda
e-mail: pe.inaciojose.osbm@hotmail.com

Referências

(1)    Jornal do Brasil, 25/07/2008, p.A24.
(2)    Folha Universal, 22/07/2007, p.13.
(3)    Jornal do Brasil, 21/05/2008, p.A2.
(4)    O Dia, 04/07/2008, p.10.
(5)    O Globo, 02/05/2008, p.13.
(6)    Jornal do Brasil, 22/02/2007, p.A23.
(7)    Jornal do Brasil, 12/05/2008, p.A2.
(8)    O Globo 27/06/2008, p.11.
(9)    Jornal do Brasil, 21/05/2008, p. A3.
(10)  Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – Pronunciamentos do Papa Bento XVI no Brasil, Brasília: Edições CNBB, 2007, p.14.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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