A Missa Afro – EB

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb
Nº 403 – Ano 1995 – Pág. 560

Em síntese: O rito de Missa Afro exibido pela televisão aos 20/08/95 não passa de um ensaio infeliz de inculturação que de modo nenhum gozava da aprovação do Papa João Paulo II, ao contrário do que foi declarado. Trata-se, antes, de uma iniciativa local, cujos mentores visavam a utilizar símbolos da cultura africana para exprimir a fé e a Liturgia católicas; acontece, porém, que o espetáculo daí resultante não atingiu a sua finalidade, que era elevar as mentes a Deus em atitude de oração; lembrou muito mais os festejos folclóricos do nosso povo, associados a Carnaval e a cultos não cristãos. A inculturação tem em vista aproveitar expressões da cultura africana, asiática e indígena para transmitir as verdades do Evangelho; estas são destinadas a todos os povos e devem ser apresentadas aos destinatários de tal maneira que as possam compreender e viver, sem que percam a sua identidade africana, asiática ou indígena. Esta tarefa de inculturação é delicada e difícil, como se pode depreender da iniciativa mal sucedida de que nos deu notícias a televisão. – Importa frisar que o espetáculo assim apresentado não representa os rumos oficiais da Igreja Católica. Quanto à escreva Anastácia, é notório que ela nunca existiu; o seu rosto recoberto de máscara se deve à fusão de duas gravuras que representavam rostos masculinos! A biografia respectiva se deve ao Sr. Yolando Guerra, falecido em 1983, que, com a melhor das intenções, reuniu documentos diversos dos quais resultou a estória da escrava Anastácia.

Nos últimos tempos algumas paróquias do Brasil têm apresentado aos fiéis o espetáculo de Missa com instrumentos musicais, cantos, gestos e símbolos que lembram fortemente o folclore popular ou mesmo o Candomblé, a Umbanda, o Carnaval… Um dos momentos mais expressivos desses novos rituais foi a celebração exibida pela TV Globo em seu programa “Fantástico” de 20/08 pp: além de danças, paramentos fortemente coloridos, pipocas, foi ostentada a imagem da “Escrava Anastácia”, que nunca existiu, sendo então presidente da celebração um Cardeal da S. Igreja. O espetáculo, presenciado por espectadores de todo o Brasil, causou impacto profundo, de mais a mais que a emissora de televisão afirmou que tal ritual fora aprovado e abençoado pelo Papa. À guisa de confirmação desta falsa notícia, a TV Globo mostrou quadros de uma Missa celebrada por João Paulo II utilizando símbolos africanos na basílica de São Pedro em Roma.

Que dizer a propósito? O ritual da Missa será mudado? Os símbolos que lembram folclore e festas populares tornar-se-ão habituais na Igreja?

É preciso responder, de imediato, que tais ensaios, especialmente o que a TV apresentou em 20/08…, são tentativas infelizes ou mal sucedidas de inculturação, tentativas que contrariam as instruções oficiais da Santa Sé. Esta preconiza a inculturação dentro de moldes dignos, que preservem ou mesmo favoreçam o caráter sagrado e orante da Liturgia. Vejamos, pois, o que a Igreja entende por “inculturação”.

1. Inculturação
A Liturgia é o exercício continuado do sacerdócio de Jesus Cristo, que, com a sua Santa Igreja, adora, agradece, suplica e desagrava Deus Pai. Ora a Igreja é a hierarquia e o povo santo de Deus; em consequência, o povo católico toma parte nesse culto sagrado que a Igreja unida a Cristo presta ao Pai… E toma parte segundo os seus moldes próprios de expressão: língua, gestos, símbolos… aptos a significar o louvor a Deus e as preces do coração humano. Cada povo tem o direito de se exprimir diante de Deus segundo os seus canais típicos de manifestação ou, numa palavra, conforme a sua cultura¹.

É por isto que na S. Igreja existem, desde épocas antigas, diversos ritos litúrgicos e, em particular, diversos ritos de celebração da Eucaristia: além do romano, há os ritos orientais (o bizantino, o melquita, o maronita…) e os ritos ocidentais menos propagados (o ambrosiano, o visigótico, o lionês…). Acontece, porém, que, ao expandir-se para a África, a Ásia e a América, os missionários levaram o rito latino romano, com seus símbolos e gestos…, assaz diversos do linguajar dos povos não europeus. Em consequência, o Cristianismo tomou, por vezes, a feição de uma religião de europeus para europeus ou ocidentais…, religião muito estranha aos povos da África, da Ásia e da América indígena. Para que um filho de qualquer desses povos se fizesse cristão, deveria deixar de se sentir africano, asiático, indígena? Haveria dilema entre as culturas não europeias e a mensagem cristã, de modo que quem optasse por uma deveria renunciar a outra? Um africano que se faça cristão, deverá desintegrar-se de sua nação?

– Está claro que não. O Cristianismo é essencialmente católico, universal, destinado a todos os povos; ele deve levar o ser humano à sua plena realização, adotando tudo o que haja de válido e sadio no expressionismo humano para louvar e suplicar a Deus. Eis por que nos últimos decênios a Igreja tem apregoado a inculturação da S. Liturgia.

Donde se vê que inculturar é assumir, dentre os elementos da cultura (linguagem, gastos, símbolos…) de cada povo, aqueles que possam ser veículos fiéis e dignos da fé católica, não deteriorada nem adulterada. Pode acontecer que em certas regiões determinados símbolos sejam muito significativos de reverência e louvor, mas que em outras partes do mundo nada signifiquem ou até exprimam o contrário; basta lembrar o uso do chapéu por parte dos homens (o ocidental tira o chapéu em sinal de respeito, ao passo que o judeu o coloca sobre a cabeça para significar a mesma coisa).

A inculturação assim concebida é tarefa muito delicada e difícil. Deve levar rigorosamente em conta a sensibilidade, a psicologia, os costumes dos povos mais diversos, a fim de não suscitar, por parte de quem a considera, interpretações indesejáveis ou falsas. Deve evitar todas as expressões populares já consagradas pelo folclore carnavalesco ou quase carnavalesco, como também todos os símbolos característicos de cultos não católicos.

Eis o que a propósito dizia o Concílio do Vaticano II em 1963:
“A Igreja não deseja impor na Liturgia uma forma rígida e única para aquelas coisas que não dizem respeito à fé ou ao bem de toda a comunidade. Antes, cultiva e desenvolve os valores e os dotes de espírito das várias nações e povos. O que quer que nos costumes dos povos não esteja ligado indissoluvelmente a superstições e erros, Ela o examina com benevolência e, se pode, o conserva intato. Até, por vezes, admite-o na própria Liturgia, contanto que esteja de acordo com as normas do verdadeiro e autêntico espírito litúrgico” (Constituição Sacrosanctum Concilium n° 38).

“Salva a unidade substancial do rito romano, dê-se lugar a legítimas variações e adaptações para os diversos grupos, regiões e povos, principalmente nos territórios de missão, também quando forem reformados os livros litúrgicos” (ibid. n° 38).

“A competente autoridade eclesiástica.. considere acurada e prudentemente o que, das tradições e da índole de cada povo, se pode oportunamente admitir no culto divino. As adaptações que pareçam úteis ou necessárias sejam propostas á Sé Apostólica, para serem introduzidas com o seu consentimento” (ibid. nº 40, 1).

Em 1975 o Santo Padre Pauto VI assim se exprimia, falando da pregação do Evangelho em geral:
“O Evangelho e, conseqüentemente, a evangelização não se identificam por certo com a cultura, e são independentes em relação a todas as culturas. E, no entanto, o Reino que o Evangelho anuncia, é vivido por homens profundamente ligados a uma determinada cultura, e a edificação do Reino não pode deixar de servir-se de elementos da cultura e das culturas humanas. O Evangelho e a evangelização independentes em relação ás culturas não são necessariamente incompatíveis com elas, mas suscetíveis de as impregnar a todas sem se escravizar a nenhuma delas” (Exortação Apostólica Evangelium Nuntiandi nº 20).

O  Papa João Paulo II tem presidido a celebrações que utilizam a simbologia de povos não europeus, todavia dentro dos parâmetros da reverência indispensável à Sagrada Liturgia. Quaisquer que sejam os gestos e sinais aplicados à Liturgia, deverão sempre contribuir para que se levem as mentes a Deus numa atitude de oração e adoração. Caso este objetivo não seja atingido, mas, ao contrário, se provoque dispersão e perplexidade entre os fiéis, os símbolos não podem ser considerados autênticos.

É à luz de tais ponderações que se devem avaliar as tentativas de adotar elementos culturais novos para enriquecer sadiamente o ritual católico.

Quanto à Escrava Anastácia, deve-se dizer o seguinte:

2.  A “Escrava Anastácia”
A devoção a “Escrava Anastácia” está baseada numa lenda, pois cultua uma personagem que nunca existiu.

2.1. Como surgiu a lenda?

Em 1971 houve uma solenidade, com toda razão, cara aos homens de cor: a trasladação para o mausoléu, na Catedral de Petrópolis, dos restos mortais da Princesa Isabel e de seu marido o Conde d’Eu. Antes de seguirem em 29/7/1971 para lá, ficaram, para uma vigília cívica, na igreja do Rosário. Para acentuar o merecimento da Princesa na questão da Abolição da Escravidão, organizou o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico do então Estado da Guanabara uma exposição iconográfica no museu desta igreja e, a pedido do diretor deste, Sr. Yolando Guerra (+ 30/11/83), ficou após o encerramento da exposição uma ampliação fotográfica, feita pelo Serviço do Patrimônio, da ilustração dum livro francês que apresentava, como diz o título do desenho, “châtiment des esclaves (Brésil)” – “Castigo dos escravos no Brasil”. O “poster” está ainda no Museu.

O resto é totalmente inventado do Sr. Yolando Guerra. Condoído pela apresentação dos castigos e influenciado pelo interesse despertado entre os visitantes, começou a escrever sobre o assunto (ele já tinha escrito anteriormente artigos sobre a igreja do Rosário, a escravidão, a Princesa Isabel, a Umbanda) e avançou pouco a pouco: começou achando que se tratava de uma mulher escrava (se bem que inicialmente comentasse “que nada se sabia dela”); achou que “poderia ter sido” – e apresentou uma biografia completa com o nome Anastácia, princesa banto-Angola, ligada a Abaeté-Bahia e Rio. Até acrescentou uma “prece” de sua autoria, nesta “Oferta de Yolando Guerra”. Tudo isso consta de documentos impressos ou mimeografados pelo Sr. Yolando Guerra.

2.2. E a origem do “poster”?
Em 1817 visitou o Rio de Janeiro um escritor e desenhista francês, Jacques Étienne Victor Arago.

Como outros dessa época, participou de uma expedição científica, encarregado da documentação iconográfica. Desenhou (pois não existia máquina fotográfica) e seus trabalhos foram, por técnicos especializados, transformados em litografias, algumas coloridas, outras em preto e branco.

Observou, com espírito crítico e bastante negativo, a sociedade brasileiro-portuguesa da época, ficando particularmente penalizado e escandalizado com o sofrimento dos escravos. No livro Viagem ao redor do mundo. Memória de um cego, conta muitos detalhes e a certa altura descreve dois dos castigos observados: “Olhe aquele homem que passa por lá, com um anel de ferro, ao qual é adaptada uma haste do mesmo metal, fortemente presa à nuca: é um escravo que tentou fugir”; “Eis um outro cujo rosto é totalmente coberto por uma máscara de flandres, na qual foram abertos dois furos para os olhos; o miserável comeu terra e capim para se suicidar… “Para mostrar isso, juntou os dois castigos numa só ilustração, aliás não com toda precisão. Pois a haste da “gargantilha” costumava ser mais alta, para cumprir a finalidade: dificultar a fuga pelo mato, embaraçando-se nos galhos. E, se bem que existisse também uma máscara em forma de bridão, era mais usada a máscara total. Temos gravuras de muitos outros visitantes do Brasil nessa época.

Portanto: 1º – o sr. Arago reúne numa só figura o castigo que tinha observado em dois homens;

2º – ele, que em outros trechos menciona os nomes dos escravos em questão, aqui apresenta um anônimo (em lugar de dois);

3º – numa edição de 1840, é fácil ver que quis apresentar um homem e não uma “mulher de extraordinária beleza” (as ilustrações de outras edições não puderam ser controladas por ele, que tinha ficado cego);

4º – a ilustração é em preto e branco. Portanto é pura fantasia falar de “olhos azuis”;

5º – fantasia igual é afirmar que este “retrato” da escrava Anastácia foi encontrado entre as cinzas da igreja após o incêndio de 25/3/1967. Não sobraram quadros a óleo, quanto menos um papel fotográfico (!), levado à igreja em 1971, como explicamos. O sr. Guerra comenta claramente que, antes de 1971, não se sabe nem se diz algo sobre o assunto.

Assim, devemos chegar à conclusão de que, por mais justo que seja compadecer-se com o sofrimento dos escravos negros, não podemos aceitar o culto litúrgico duma figura que não existiu, baseando nos numa gravura que não apresenta uma mulher, mas um homem (melhor: dois homens). Um movimento popular surgiu pela fantasia inventora do sr. Yolando Guerra. Esta fantasia pode servir para um romance, um filme, se quisermos.

Apesar de tudo, assumiu características de uma “devoção”: com orações, pedidos e agradecimentos por graças recebidas (promessas), confecção e venda de santinhos com orações, medalhas, estatuetas em gesso, “posters”, livrinhos impressos com uma suposta biografia, missas à escrava Anastácia, velas – e até um movimento para pedir a canonização litúrgica. Um esperto, afastado pelos responsáveis da Irmandade de N. S. do Rosário, se colocou nas imediações da igreja, com um grande saco aberto e um cartaz, pedindo contribuições “para as despesas da canonização” da “Escrava – Princesa”, da “Princesa – Deusa”, da “Deusa  –    Escrava”.

2.3. A nota da Cúria Arquidiciocesana do Rio
Em vista dos resultados atrás publicados, entende-se que a Cúria Arquidiocesana do Rio de Janeiro tenha publicado a seguinte nota.

“Escrava Anastácia”

“O culto dos Santos sempre foi objeto de especiais cuidados por parte da Igreja, pois o exemplo de suas vidas é proposto como modelo de santidade a ser imitado.

Assim sendo, antes que uma pessoa falecida seja declarada Santa oficialmente, sua vida é submetida a sérios exames e pesquisas, efetuados por estudiosos competentes, como vem acontecendo, por exemplo, com o Venerável Pe. Anchieta e outros.

Nestes últimos decênios, tendo surgido um certo movimento de culto popular à “Escrava Anastácia”, a Autoridade Eclesiástica viu-se na obrigação de promover estudos e pesquisas sobre este assunto, a fim de que a piedade dos fiéis possa ter um sólido e firme suporte e não seja, eventualmente, decepcionada na sua boa fé. Os estudos, em fase de conclusão, são negativos quanto à autenticidade da existência dessa personagem.

Determina-se aos Sacerdotes que se abstenham de aceitar intenções de Missa de ação de graças ou por outro qualquer motivo à “Escrava Anastácia”. Tal determinação, naturalmente, não impede que sejam aceitas por almas dos escravos.

Rio de Janeiro, 26 de agosto de 1987

Dom Romeu Brigenti
Vigário Geral e Moderador da Cúria”

O interesse da Igreja, no caso, é evitar que a piedade se torne meramente sentimental e quase irracional, baseando-se em “estórias” não devidamente reconhecidas e avaliadas. A atitude da autoridade eclesiástica está longe de significar descaso do problema da escravatura, que deve ser abordado na base de fatos históricos e não sobre fundamentos lendários.

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¹ Assim define cultura o Concílio do Vaticano II:

“Pela palavra cultura indicam-se todos os elementos pelos quais o homem aperfeiçoa e desenvolve as suas variadas qualidades de alma e de corpo; procura submeter a seu poder, pelo conhecimento e pelo trabalho, o orbe terrestre; torna a vida social mais humana, tanto na família quanto na comunidade civil, pelo progresso dos costumes e das instituições; enfim, exprime, comunica e conserva em suas  obras no decurso dos tempos as grandes experiências espirituais e as aspirações, para que sirvam ao proveito de muitos ou mesmo de todo o gênero humano” (constituição Gaudium et Spes nº 53).

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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