“A inquietude de Santo Agostinho é a constante procura pelo melhor”

São Paulo (Segunda-feira, 27-08-2012, Gaudium Press) Dia 28 de agosto é o dia em que os católicos recordam um dos mais conhecidos e importantes santos que brilham no firmamento da Igreja. Um chamados Santos Padres que formaram a Patrística, ou seja, a fase da organização inicial da Teologia Cristã com elucidação progressiva do dogma cristão. Coube à Patrística a apoologia, a defesa do cristianismo frente às religiões pagãs e às sucessivas interpretações heterodóxas que dariam lugar às heresias.

Santo Agostinho fundou a ordem religiosa dos Agostinianos. Eles espalharam-se pelo mundo e até hoje têm importância dentro do cenário eclesiástico e leigo.

Frei Felipe da Cruz, OSA, pertencente ao Vicariato Agostiniano Nossa Senhora da Consolação do Brasil, respondeu algumas perguntas feitas pela Gaudium Press.

Gaudium Press – Qual o significado do escudo da Ordem Agostiniana?

Frei Felipe da Cruz, OSA – A Espiritualidade Agostiniana é movida, particularmente, pela inquietude. É justamente essa postura que explica, em resumo, o significado de nosso “símbolo”. Tudo nele faz referência à experiência vivida por Agostinho, que nos inspira.

O coração em chamas sinaliza a constante vitalidade da inquietude que nada mais é do que a constante procura pelo melhor, tendo em vista o amor a Deus, e aos irmãos e irmãs por Sua causa. O coração é traspassado por uma flecha, sinalizando que a inquietude é causada, não por vontade própria, mas por que Deus, mediante sua palavra que é viva e eficaz, toca-nos profundamente. E um reflexo da inquietude é o ardente empenho na busca da Verdade, sinalizada no livro aberto.

Gaudium Press – Qual é o carisma da Ordem de Santo Agostinho?

Frei Felipe da Cruz, OSA – Ao contrário da maioria das Ordens e Congregações, que optam por um carisma específico (educação, saúde, catequese, etc.), a Ordem de Santo Agostinho, em virtude da experiência originária e por razões históricas, prefere adotar um “estilo de vida”. Agostinho, quando fundou as primeiras comunidades almejava apenas viver o duplo mandamento do amor, segundo a regra dos Apóstolos, no serviço disponível à Igreja. A vida agostiniana, então se baseia em três princípios fundamentais: interioridade, manifestada na comunhão com Deus e no autoconhecimento; vida fraterna, a exemplo dos Apóstolos que “tinham tudo em comum”; e o serviço à Igreja, manifestado nos mais diversos tipos de apostolado. A Ordem, portanto, vive o caráter contemplativo e apostólico enfatizando, como meio eficaz de santificação, a vida comunitária.

Gaudium Press – Como e quando os Agostinianos chegaram ao Brasil?

Frei Felipe da Cruz, OSA – A primeira referência à presença Agostiniana no Brasil, diz respeito aos Agostinianos Reformados, na Bahia. Em 1963, alguns frades provindos da Real Congregação de Agostinianos Reformados, se estabeleceram numa das colinas de Salvador, onde fundaram o convento de Nossa Senhora da Palma, onde permaneceram até 1824, quando se deu a supressão do convento pelo Imperador Pedro I. Com a supressão e a impossibilidade de receber noviços, os frades voltam a Portugal. É certo, no entanto, que a presença carismática e espiritual agostiniana continuou na Terra de Santa Cruz por meio de outras congregações que seguiam a Regra de Santo Agostinho, ou que se inspiravam em seu exemplo. De qualquer forma, a presença efetiva dos Agostinianos só pode ser reabilitada no final do século XIX, com frades provenientes da Província das Filipinas e da Congregação de Agostinianos Recoletos, da Espanha. Em 1899, chegam então os Agostinianos da Província das Filipinas (Vicariato do Santíssimo Nome de Jesus). Em 1929, os da Província Matritense do Sagrado Coração de Jesus (Vicariato Nossa Senhora da Consolação do Brasil). Em 1933, os da Província de Castela (Vicariato de Castela). Em 1962, os da Província de Malta (Delegação de Malta). Atualmente os Vicariatos do Santíssimo Nome e de Castela, bem como a Delegação de Malta estão no processo de unificação, visando a fundação de uma Província Brasileira. O Vicariato da Consolação segue um processo similar, caminhando para o mesmo destino.

Gaudium Press – Em quais países a Ordem se faz presente? Quantos são os religiosos agostinianos no mundo?

Frei Felipe da Cruz, OSA – Os países divididos pelos continentes são:

África: Quênia, Tanzânia, Congo, Nigéria, Guiné Equatorial e Argélia.

Américas: Canadá, Estados Unidos, México, El Salvador, Nicarágua, Costa Rica, Cuba, República Dominicana, Porto Rico, Panamá, Colômbia, Venezuela, Equador, Perú, Bolívia, Brasil, Chile, Argentina e Uruguai. Também temos uma representação não governamental na sede da ONU.

Ásia: Indonésia, Índia, Coréia, Papua Nova Guiné, Filipinas e Japão.

Europa: Itália, Espanha, França, Alemanha, Bélgica, República Tcheca, Holanda, Inglaterra, Escócia, Irlanda, Malta, Polônia e Aústria.

Oceania: Austrália

Num total de 2786 Religiosos.

(Dados de 2010)

Gaudium Press – Quando comentava a ligação entre crer e conhecer, no Ângelus de ontem, Bento XVI lembrou ensinamentos de Santo Agostinho. Pode fazer uma relação entre a doutrina de seu fundador e o Ano da Fé que será aberto brevemente?

Frei Felipe da Cruz, OSA – O Papa Bento, no que diz respeito à Teologia, é marcadamente agostiniano. Sem dúvida, Agostinho é um importante luminar para a vivência do Ano da fé. A relação entre a fé e a razão foi um dos instigantes temas tratados por ele em suas obras e sermões. É preciso crer para compreender e compreender para se continuar crendo. Fé e razão são, então, “duas asas” que nos permitem alçar voo. A celebração proposta pelo Santo Padre, no espírito das comemorações jubilares do Vaticano II, precisa ser marcada pelo exercício do aprofundamento daquilo em que cremos. Os cristãos católicos devem aproveitar esse “tempo de graça” para encontrar e mergulhar nas razões da fé. Agostinho é uma referência especial: encontrando, continuou a buscar sempre mais. Diante de uma sociedade que reclama o testemunho dos crentes, vale o esforço pelo aprofundamento da fé e, sobretudo, pelo testemunho dela.

Por Emílio Portugal Coutinho

Fonte:
http://www.gaudiumpress.org/content/39692–A-inquietude-de-Santo-Agostinho-e-a-constante-procura-pelo-melhor-

Compartilhe!

    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
    Adicionar a favoritos link permanente.