A Igreja: Sua origem e sua natureza (Parte 2)

vaticano2) At 2, 42-47: Quatro características assinalam a Igreja nascente: a fidelidade ao ensinamento dos Apóstolos, a comunhão fraterna, a  fração do pão e a oração. Isto quer dizer:

– a Palavra de Deus e o pão sacramental fundamentam a Igreja de Deus;

– esta é algo de institucional; é preciso obedecer aos ensinamentos dos Apóstolos; o Cristianismo não é algo que se possa viver isoladamente, na base de intuições particulares. O Cristão deve sentir-se membro de uma comunidade, selada pela fração e a partilha do pão (eucarístico);

– a fidelidade dos cristãos a Cristo implica o respeito a um testemunho vivo (a Palavra viva dos Apóstolos, a vida e o agir da comunidade) mais do que a um livro. Os livros sagrados (Evangelhos, epístolas) são posteriores a essa fase da Igreja nascente; esta encontrava na Palavra proferida e vivida o seu liame e a sua luz ou o roteiro de sua fidelidade a Cristo.

3) Entre At 1, 12-26 e At 2, 42-47 acha-se a cena do primeiro Pentecostes cristão (At 2, 1-14). Esta significa que a Igreja (ekklesía = convocação) não é obra criada ou fundada pelos homens, mas pelo Espírito Santo; é este quem comunica aos Apóstolos o dom das línguas, mediante as quais puderam chamar à nova qahal judeus e não judeus ou pagãos. As línguas multiplicadas em Pentecostes significam as muitas culturas humanas convocadas a se entrelaçarem sob a orientação de uma só fé e um só amor. É interessante que São Lucas registra como presentes ao primeiro Pentecostes judeus provenientes de doze partes do mundo (partos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judéia e da Capadócia, do Ponto, da Ásia, da Panfília, do Egito e das regiões da Líbia próximas de Cirene), além dos romanos, representantes do mundo pagão. Com outras palavras: são convocados judeus e gentios, ou seja, todos os povos. Assim a Igreja, já ao nascer, é católica ou universal; depois da comunidade de Jerusalém foram fundadas outras comunidades na Terra Santa e também fora  da Terra Santa; mas não foram essas comunidades esparsas que deram à Igreja o seu cunho de católica; ao contrário, foi a índole católica da Igreja oriunda em Jerusalém que se transferiu para as outras comunidades eclesiais, tornando-as católicas.

Pentecostes, levando a multiplicidade dos homens e das culturas à unidade da Ekklesía, resgata o episódio de Babel, no qual a unidade se dissolveu em multiplicidade por causa da arrogância dos homens frente a Deus. A volta è unidade se  faz sem violência nem constrangimento, mas por efeito do amor derramado pelo Espírito Santo nos corações (cf. Rm 5,5).

No decorrer do livro dos Atos, São Lucas desenvolve o acontecido em Pentecostes: o caminho da Boa-Nova e da Igreja oriundas em Jerusalém, berço judaico, e destinadas aos pagãos, cuja capital era  Roma. Sim; o livro começa em Jerusalém no Cenáculo, apresentando a nova qahal e seu Pentecostes, e termina em Roma; esta cidade, na mente de Lucas, tem valor teológico, é o ponto que sela e confirma a catolicidade da  Igreja.

O livro de São Lucas, aliás, é todo ele escrito em perspectiva profundamente teológica: demonstra o mistério da Igreja, que é a continuação da assembléia do povo do Antigo Testamento, disperso  nos tempos de Cristo e convocado para constituir novo povo, baseado não sobre a pertença a uma raça, mas sim sobre a pertença a Jesus Cristo, que é o Reino de Deus iniciado; tal pertença  implica nova  Aliança firmada no sacrifício de Cristo, que pão e vinho sacramentais perpetuam sobre os altares.

Assim São Lucas, de certo modo, antecipou as questões que se colocariam posteriormente sobre a origem e a natureza da Igreja, e forneceu a chave para resolver os problemas eclesiológicos de nossos tempos.

Eis a síntese da conferência do Cardeal J. Ratzinger. A conclusão (parágrafo final) deste texto responde às indagações iniciais: quis Jesus fundar a Igreja? Que é a Igreja? – Como se vê, a resposta não é deduzida de contingências da história, mas da “memória” da Igreja, ou seja, dos arquivos mais autênticos da mesma; é a história da salvação, considerada desde o Antigo Testamento, que apresenta a Igreja como o fruto de  longa preparação: a Aliança do Sinai, a Ceia de Páscoa, a assembléia (qahal) de culto a Deus e de comunhão fraterna… são concepções do antigo Israel que chegam à sua plenitude na Ekklesía ou na assembléia convocada, que reúne em seu bojo judeus  e gentios, ou seja, todos os homens; a catolicidade da Igreja não extingue as peculiaridades étnicas e culturais, mas fá-las convergir para constituírem um novo povo consolidado pelo amor de Deus derramado nos corações mediante o Espírito Santo (Rm 5,5). São Lucas, nos Atos dos Apóstolos é o doutor que faz reviver os antigos episódios e mostra a Igreja fundada pelo próprio Cristo como emissário do Pai e Patriarca da linhagem dos filhos de Deus (em Cristo os homens são feitos filhos no Filho).

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¹ Eis as palavras com que o próprio Cardeal Ratzinger exprime seu pensamento no artigo “A Memória Histórica da Igreja” publicado no JORNAL DO BRASIL, caderno “Ideias/Ensaios” de 5/8/90, pp. 7s. Tais dizeres ajudam a compreender afirmações de teólogos da libertação no Brasil:

“Esse novo tipo de liberdade pode  transformar-se, com grande facilidade, em uma interpretação de orientação marxista da Bíblia. O confronto entre sacerdotes e profetas converte-se na chave da luta de classes como lei da História. Nesse caso, Jesus foi morto na luta contra as forças opressoras e se converte em símbolo do proletariado que sofre e luta, símbolo do povo, como se prefere dizer. O caráter escatológico da mensagem remete para o finde  uma sociedade classista; na dialética  profeta-sacerdote expressa-se a dialética da  História, que culmina com a  vitória dos oprimidos e o surgimento de uma sociedade sem classes. Nesta concepção pode-se encaixar o fato de que Jesus quase nunca falou de Igreja, referindo-se, constantemente, ao Reino de Deus; o Reino será, então, a sociedade sem classes, e será a meta da luta do povo oprimido; ele ocorre onde o proletariado organizado, isto é, seu partido, com o socialismo alcançou vitória. A eclesiologia volta a ter significado, neste modelo dialético, dado pelo desmembramento da Bíblia em sacerdotes e profetas, correspondente à  diferença entre instituição e povo. Segundo esse modelo dialético, à Igreja institucional, oficial, se opõe a Igreja do povo, aquela que, renascendo constantemente com ele, perpetua as intenções de Jesus, sua luta contra as instituições e seu poder opressor, a favor de uma nova sociedade livre, o reino.”

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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