A Igreja: Sua origem e sua natureza (Parte 1)

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb
Nº 341 – Ano 1990 – p. 434

Em síntese: O Cardeal Joseph Ratzinger proferiu palestra pública, no Rio de Janeiro aos 26/07/90, sobre o tema acima. Antes do mais, colocou a pergunta: Quis Jesus fundar a Igreja? Que é a Igreja? – Frente às teorias dos últimos cem anos, inspiradas por fatores filosóficos e culturais contingentes, mostrou que a Igreja tem uma memória, ou seja, tem fontes próprias para reconhecer sua identidade; é a Ekklesía (= convocação ou assembléia convocada, em grego), que corresponde aos anseios do povo de Deus no Antigo Testamento; este, após o exílio babilônico (587-538 a.C.), pedia a Deus que  reunisse os segmentos de Israel dispersos entre os diversos povos do Oriente, do Egito e do Ocidente; essa reunião seria o cumprimento das profecias do Antigo Testamento referentes à vinda do Reino de Deus. Ora Jesus  realizou essa convocação, reunindo não só  o povo de Israel disperso, mas também os povos pagãos, numa assembléia católica, universal. O Reino de Deus não é algo de topográfico ou espacial, mas é o próprio Cristo; estar com Cristo é estar no Reino.

O episódio de Pentecostes (At 2, 1-41) concretizou muito vivamente essa  convocação, que deu origem ao povo de Deus: as línguas foram multiplicadas para que as muitas culturas da humanidade fossem levadas á unidade da  Igreja; nesta há uma só fé e uma só Eucaristia, que sela a definitiva Aliança de Deus com os homens. Assim se vê que a Igreja não é o produto da criatividade humana, mas tem origem em Deus; ela vem a ser a realização das expectativas dos Profetas do  antigo Israel.

De 23 a 27 de 1990 realizou-se no Rio de Janeiro um Curso para Bispos sobre “O Munus Petrino (a função de Pedro) no final do milênio, diante dos problemas da Igreja”, com a  participação de 96 Bispos brasileiros. A abertura, na noite de 23 de julho, foi feita pelo Cardeal-Arcebispo do Rio de Janeiro, D. Eugenio Sales; pelo presidente da CNBB, Dom Luciano Mendes de Almeida; pelo Núncio Apostólico, Dom Carlo Furno; e pelo coordenador do curso, Dom Karl Josef Romer. O objetivo desse Curso foi proporcionar atualização teológica aos Bispos e defender a unidade doutrinária da Igreja. O Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Cardeal Joseph Ratzinger, fez três palestras, sempre na primeira sessão da manhã, sobre “Igreja Universal e Igreja Particular”, “Pedro e a Unidade dos Cristãos”, o “Munus do Bispo e a Igreja Particular”. O Cardeal-Arcebispo de  Salvador na Bahia e Primaz no Brasil fez duas conferências sobre “Desafios à Igreja no final do 2.º Milênio” e “Mensagem do Magistério de João Paulo II ao nosso tempo”. O Bispo da  Diocese gaúcha de Novo Hamburgo, Dom Boaventura Kloppenburg, falou sobre a “Igreja na América Latina após o Concílio Vaticano II, sinais do Espírito e desafios”. O Bispo da  Diocese paulistana de Santo Amaro, Dom Fernando Figueiredo, expôs sobre a “Unidade e Multiformidade na Igreja Apostólica”. O Secretário do Departamento de Ecumenismo do CELAM (Conselho Episcopal Latino-americano), Padre Luis Eduardo Castaño, dissertou sobre  “Ecumenismo: compromisso e limites na América Latina”. O Bispo Auxiliar de Olinda e  Recife, Dom João Evangelista Martins Terra, falou sobre “Aspectos bíblicos da unidade e diversidade na Igreja”. O Curso terminou ao meio-dia da sexta-feira 27 de julho, após diálogo com os conferencistas.

Aos 26 de julho o Sr. Cardeal Joseph Ratzinger proferiu uma palestra pública sobre “A Igreja: sua origem e sua natureza”. Perante um auditório superlotado discorreu serenamente sobre um tema hoje controvertido, visto que há estudiosos que negam tenha Jesus fundado a Igreja; esta seria criação dos Apóstolos após sofrerem a decepção de não verem o fim dos tempos; por conseguinte, dizem, se os Apóstolos fundaram a Igreja, os sucessores dos Apóstolos podem hoje reformá-la radicalmente ou extinguir a instituição existente para fundar outra (oriunda do povo e moldada segundo os traços de  uma república democrática contemporânea).

Eis, em síntese, o teor da magistral conferência do Cardeal Joseph Ratzinger:

Um pouco de história recente

Que é a Igreja? Donde provém? Será expressão da vontade de Jesus Cristo?

Para elucidar tais perguntas, há tantas teorias entre os exegetas e teólogos que parece impossível dar uma resposta segura a tais indagações. Deveremos, então, desistir da pesquisa? … e passar simplesmente para a vivência do Evangelho segundo os critérios individuais de cada cristão? – Tal atitude seria grave infidelidade a Cristo. Ao estudioso cristão não é lícito fechar-se no ceticismo.

Como então proceder para chegar a uma elucidação dos quesitos propostos?

O melhor ponto de partida há de ser a procura de uma visão de conjunto das teorias existentes. Uma vista aérea panorâmica das mesmas permitirá descobrir caminhos que levem a uma solução do aparente impasse.

Ora podem-se distinguir três camadas de teorias sobre Jesus e a  Igreja propostas pelos teólogos dos últimos anos:

1) A exegese dita “liberal” concebia Jesus como um pregador liberal, que reduzia a Religião à ética cristã. Opunha-se às instituições existentes em sua época; por conseguinte, não terá fundado alguma instituição ou Igreja, mas haverá despertado nos homens o desejo de experiência de deus meramente pessoal ou subjetiva.

2) Tais concepções perderam sua voga após a primeira guerra mundial (1914-18). Os povos perceberam que o cientificismo e muitos esteios de uma falsa auto-afirmação do homem haviam fracassado; a guerra incitou os homens a reconhecer sua fragilidade. Isto os levou a procurar estimar de novo os valores sagrados. Tomaram consciência de que Jesus era avesso ao culto de Deus e à Liturgia, como fora dito pelas gerações anteriores. Conseqüentemente o protestantismo na Alemanha, na Inglaterra, na Escandinávia restaurou com novo interesse a prática da oração e os ritos sagrados. Entre os católicos a Eucaristia foi mais reconhecida como centro da vida cristã; o movimento litúrgico tomou vulto e reavivou a piedade. Nesta fase tiveram certa influência os teólogos ortodoxos russos exilados em Paris, que contribuíram notavelmente para a elaboração de uma Eclesiologia eucarística mais densa e profunda. Tornou-se forte a consciência de que o Messias deixou as linhas fundamentais da constituição de um povo santo ou messiânico.

3) Sobreveio a segunda guerra mundial, que por sua vez deslocou o foco de atenção dos estudiosos. Uma das mais notáveis conseqüências do conflito foi a abertura de um fosso crescente entre povos ricos (liberais) e povos pobres; no Ocidente  os povos do bem-estar restauraram a antiga filosofia Liberal, que por sua vez ressuscitou a teologia liberal, segundo a qual Jesus  foi tão somente um moralista, desligado de instituições. Alguns teólogos apelaram para a distinção, existente no Antigo Testamento, entre sacerdotes e profetas; aqueles teriam representado a Lei e as instituições de Israel, ao passo que estes significavam o carisma e a oposição às  instituições; ora Jesus se terá alinhado do lado dos Profetas, contra os sacerdotes; por conseguinte, não terá fundado Igreja alguma. Mais, diziam tais estudiosos: Jesus julgava que o mundo acabaria em breve ou com a geração do próprio Cristo, de modo que lhe era alheia a idéia de criar uma instituição duradoura.¹

A sumária exposição das três camadas de teorias feita até aqui manifesta que cada qual delas é o reflexo da sua época ou foi marcada pelas circunstâncias sociais, políticas e culturais da respectiva época. A Eclesiologia foi formulada em consonância com esses fatores extrínsecos e contingentes, e não de acordo com a memória da Igreja, ou seja, com as concepções constantes e tradicionais que formam o fio condutor da história e da doutrina da Igreja. É, pois, necessário redescobrir a memória e a Tradição da Igreja.

A memória e a Tradição da Igreja

Para começar, notemos a freqüente ocorrência da expressão Reino de Deus nos escritos do Novo Testamento: aparece 122 vezes nestes, sendo que 99 vezes nos Evangelhos sinóticos e 90 vezes diretamente nos lábios de Jesus. Era na base desta verificação que Loisy dizia: “Jesus pregou o Reino de Deus (= a consumação definitiva da história), mas o que veio é a Igreja”.

Eis, porém, que a oposição “Reino de Deus x Igreja” é falsa. Com efeito; os Profetas do Antigo Testamento anunciavam o Reino de Deus como realidade última e definitiva; São João Batista também reunia os homens numa só comunidade que aguardava o termo final da história. Ora Jesus veio justamente, como representante de Deus Pai, para reunir os homens no reino prometido. Este, porém, não é um lugar, um espaço; é Jesus mesmo; é Deus posto diante do homem. Observemos que, quando Jesus se aproximava do povo para anunciar-lhe a Boa-Nova, dizia-lhe: “Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo” (Mc 1,15). Jesus é o Reino que se aproxima; onde  Ele está, aí está o Reino; o Reino de Deus é a atuação de Deus na história dos homens. Por isto a frase de Loisy deveria ser assim corrigida: “Anunciou-se o Reino e chegou Jesus”.

Esse Jesus nunca está só. Ele veio reunir os homens num só povo. Dentre as diversas imagens que designam esse povo – rebanho, cidade de Deus, templo de Deus, campo de  Deus (…) -, a preferida é a imagem da família de  Deus; nesta os homens são filhos de Deus e Jesus é o Primogênito.

Nessa  família  três pontos chamam-nos a atenção:
1) Os discípulos pediram ao Mestre que lhes ensinasse uma oração: a oração da comunidade. Na verdade, os grupos religiosos outrora tinham, como marco constitutivo, uma oração própria. Em resposta, Jesus ensinou o Pai-Nosso. Isto quer dizer que a  comunidade congregada por Jesus está ligada à oração; a oração a distingue, caracteriza e consolida.

2) Mais: a comunidade de Jesus não é um núcleo amorfo. Jesus chamou doze seguidores; este número é tão importante que servia para designar, sem aposto, a comunidade (só após a ressurreição do Senhor foram eles chamados Apóstolos); cf. Lc 9,1; Mc 6,7; 3,14. Por isto, após a defecção de Judas, o número 12 foi restaurado pela escolha de Matias. – Ora o número 12 lembra os filhos de Jacó, dos quais descendiam as doze tribos de Israel. Jesus, acompanhado pelos doze, faz as vezes de Patriarca de um novo Israel; este é consagrado não pelos traços do sangue, mas pelos da pertença a Jesus.

Além dos doze seguidores imediatos, Jesus tinha setenta discípulos. Ora também este número tem suas conotações valiosas. Com efeito; os antigos concebiam o mundo povoado por setenta povos (cf. Gn 10, 1-32); também foram, segundo se dizia, setenta os tradutores da Bíblia de Israel do hebraico em grego – o que significava que era um livro destinado a todas as nações.

Assim acompanhado por doze apóstolos e setenta discípulos, Jesus quer chamar todos os homens para que integrem o novo povo de Deus. Ele, aliás, termina a sua missão terrestre enviando os Apóstolos a todos os povos para que os batizem e os façam discípulos de Jesus; cf. Mt 28, 18-20.

3) A oração comum dos seguidores de Jesus foi acompanhada de novo elemento cúltico. Sim; Jesus quis transformar a Páscoa de Israel em selo de uma nova Aliança de Deus com os homens, (…) com todos os homens. Cumpriram-se assim as profecias de Isaías concernentes ao Servo de Javé (cf. Is. 52,13-53,12), vítima de expiação pelos pecados, que reuniria os homens todos e, reconciliados, os levaria a Deus Pai. O pão e o vinho da  nova Páscoa foram entregues aos Apóstolos como sendo o alimento que une os discípulos com o Senhor Deus e uns com os outros. A Aliança do Sinai foi assim ultrapassada em favor de outra, cujo mediador e ponto central é o próprio Jesus.

A Eucaristia – nome dado à ceia instituída por Jesus – não é, pois, um culto semelhante aos que já existiam, É celebração de Aliança, … da nova e definitiva Aliança; ela faz dos homens o povo da Aliança mediante a participação no corpo  e no sangue de Cristo. Desta maneira a  Eucaristia é a origem e  o centro da vida da Igreja; ela faz a Igreja, e a Igreja, por sua vez, faz a Eucaristia.

Tendo assim percorrido as grandes linhas do ministério de Jesus, examinemos a face de

A Igreja dos Apóstolos

Os livros do Antigo  Testamento designavam Israel como o povo de Deus. No Novo Testamento o povo constituído pela Eucaristia é chamado Ekklesía = Igreja. Por que isto?

– A palavra qahal, no Antigo Testamento, significa assembleia (…).
Assembleia de caráter cúltico, político, jurídico. Compreendia não só homens (como as assembleias políticas e jurídicas da Grécia), mas também mulheres e crianças (…). Ora, após o exílio de Israel na Babilônia (587-538 a. C.), os judeus ficaram esparsos por diversas regiões do Oriente Médio, do Egito e do Ocidente; essa dispersão quebrava brutalmente a unidade do povo (aliás, já violada pelo cisma das dez tribos em 930 após a morte de Salomão; (cf. 1Rs 12, 1-33). Por isto os judeus pediam a Javé que congregasse o povo disperso, restaurando o qahal ou o povo reunido; nutriam ardentes anseios neste sentido, especialmente nos tempos próximos à vinda de Cristo.

Ora Jesus veio realizar estes anseios. Por isto os cristãos das primeiras gerações, assumindo o nome grego Ekklesía (= convocação, chamamento dos que estavam longe), queriam declarar que neles se realizava a nova qahal almejada pelos  judeus. A Lei (Torá) da qahal antiga se transformava em Lei do amor (cf. Jo 13, 34): “Eu vos dou um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros, como eu vos amei”. Jesus, entregando a vida por seus discípulos num gesto de amor, podia promulgar a nova aliança sobre esse amor, fazendo dele a grande diretriz de vida dos seus seguidores.

A noção de Igreja assim entendida é explicitada no livro dos Atos dos Apóstolos, escrito por São Lucas. Tem-se aí uma Eclesiologia  narrativa, isto é, descrita através da narração de fatos históricos. Todo esse livro sagrado se prestaria a fecundo estudo da concepção eclesiológica dos Apóstolos e das primeiras comunidades cristãs. Neste contexto seja suficiente  realçar três quadros apresentados no início de tal obra:

1) At 1,12-26: temos aqui a primeira reunião dos seguidores de Jesus. Estavam no Cenáculo Pedro e os dez (Judas apostatara e Matias ainda havia de ser eleito), Maria SS. e alguns discípulos (homens e mulheres) fiéis. Todos os pormenores deste quadro são importantes na sua própria singeleza: a sala de reunião era o Cenáculo ou a sala da instituição da Eucaristia na última Ceia; os onze Apóstolos são apresentados um por um. Perseveravam unânimes na oração ou numa atitude de abertura para a graça e a vontade de Deus; o seu número total era de cento e vinte – o que lembra o número 12 sagrado e profético, pois indica a totalidade; era o número das tribos de Israel e dos Apóstolos de Jesus.

São Pedro se  fez  porta-voz do desígnio de Deus: era preciso escolher o substituto do 12º apóstolo ou do traidor. A escolha se fez mediante um sinal de Deus, que indicava Matias à comunidade orante; a decisão veio do Alto, pois o quadro não era o de um Parlamento, que decide por critérios  humanos, mas era o de uma autêntica qahal-ekklesía, ou de um povo convocado pela graça de Deus, unido, em santa Aliança, ao Senhor e regido por critérios transcendentais; era ele o espelho do novo povo de Deus, no qual Pedro exerce uma função primacial, fortalecendo e confirmando seus irmãos, levando-os a identificar-se com o plano de Deus.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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