A Igreja, Nossa Mãe

Existe na
rica Tradição cristã uma afirmação de São Cipriano, Bispo de Cartago e mártir ,
que talvez surpreenda muitos cristãos de nossos dias: “Não pode ter Deus
como Pai quem não tenha a Igreja por mãe” (De Catholicae Ecclesiae Unitate
, c. 6). Estas palavras foram escritas numa época turbulenta, em que S. Cipriano se
via frente a duas tentativas de ruptura da Igreja; para ele, a fidelidade à
Igreja era a fidelidade a Deus Pai; ser filho do Pai Celeste é ser ” filho
da Igreja. – Como entender isto?

O Evangelho
nos diz que “ninguém vai ao Pai senão por Cristo” (Jo 14,6),…Cristo
que é inseparável do seu corpo eclesial ou da sua Igreja (cf. CI1 ,24). O
mistério da Encarnação não é um fato isolado, mas algo que repercute em toda a
história do Cristianismo. A vida do Pai, que se derramou sobre a humanidade de
Cristo, chega a cada cristão através da S. Igreja, que, por isto, é
adequadamente chamada “Mãe” na Tradição cristã.

Mãe (…) Este
vocábulo é dos mais significativos para todo ser humano. É talvez o primeiro
conceito que a criança formula, a primeira palavra que ela pronuncia. É da mãe
que a criança recebe a vida e os rudimentos da educação e do saber; os
ensinamentos, os exemplos, os costumes, o amor da mãe se gravam na memória dos
filhos e se tomam decisivos para o futuro destes. É na sua mãe que a criança
encontra o primeiro sustentáculo, o seu amparo, a sua força e alegria; é a mãe
que explica o mundo ao filho e lhe mostra tudo o que há de bom e belo, como
também o que há de insidioso, neste mundo.

Pois bem. A
Tradição cristã é constante ao afirmar que a Igreja é nossa Mãe. Não conheço
Jesus Cristo senão através dos ensinamentos multisseculares da Santa Mãe
Igreja; recebi o Livro que me fala de Jesus Cristo, das mãos dessa Mãe e Mestra;
foi ela que ouviu, por primeiro, a Palavra de Cristo; vivenciou-a, aprofundou-a
e consignou-a por escrito nos livros do Novo Testamento. Aliás, que cristão
seria eu, que seria minha fé, que seria minha oração, se eu estivesse entregue
a mim mesmo e me encontrasse a sós diante da Bíblia? Talvés eu fizesse a Bíblia
dizer o que eu pensasse, em vez de ouvir a genuína mensagem de Cristo recebida
de viva voz pela Igreja e oportunamente redigida pelas suas mãos, que foram
Mateus, Marcos, Lucas, (…).

Mesmo
aqueles que se afastam da Igreja para ficar somente com Jesus Cristo, só podem
falar do Cristo que eles conhecem através da Igreja. Não há outra via de acesso
a Cristo senão a Tradição viva da Igreja. Apesar disto, há aqueles que a
abandonam, embora alimentados por essa Santa Mãe. Um vento de crítica amarga
bate em muitas mentes e resseca os corações, impedindo-os de ouvir o sopro do
Espírito. Muito sabiamente dizia S. Agostinho: “Onde está a Igreja, aí
está o Espírito de Deus”.

A Igreja é
minha Mãe (…). As censuras que lhe são feitas, não carecem, todas, de fundamento.
Mas o volume dessas queixas não supera a grandeza do mistério-sacramento que é
a Santa Mãe Igreja, o Corpo de Cristo prolongado!

 

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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