A Historicidade dos Evangelhos – EB (Parte 2)

Segundo
este estudioso, certamente a causa pela qual a tradição das palavras e atos de
Jesus foi considerada como sagrada, é não somente o conteúdo da mesma, mas
também a sua origem: deriva do mesmo Jesus. De fato, nos Evangelhos aparece
Jesus como um Mestre que instrui seus discípulos. E, mais, neles se faz menção
explícita à transmis­são de uma doutrina: “Ele os instruía» (cf. Mt 13,11;
Mc 9,30; Lc 11,1, etc). Isto significa que Jesus fez seus discípulos e, antes
de tudo, os Doze aprender; mais ainda… que os fez aprender de memória suas
palavras2. De fato, muitas palavras de Jesus foram cuidadosamente formu­ladas
com vista à sua transmissão. Com isto, não se pretende afirmar evidentemente
que os Evangelhos, tais como nos chegaram, provêm de Jesus. Sem dúvida alguma,
os evangelistas, para escrever seus livros, tiveram que recolher as palavras e os
relatos, agrupá-los e dar-lhes um marco definitivo, trabalho do qual nos
informa São Lucas no começo de seu Evangelho (Lc 1, 1-4). Porém, certamente,
esta tradição que se cris­talizou em nossos Evangelhos,
se memorizava e recitava como palavra sagrada, em virtude do fato de que suas
origens e linhas fundamentais estão em Jesus como Mestre de seus discípulos.

Por algumas afirmações contidas no
Novo Testamento – segue afirmando do H. Riesenfeld – sabemos que esta tradição
sagrada foi transmiti­da não de forma anárquica e anônima.- como sustentam
certos estudiosos da história das formas (Forrngeschichte), mas seguindo leis
pré­-estabelecidas e através daqueles designados para tal fim: os apóstolos3.
Com efeito, algumas passagens da obra de São Lucas afirmam que uma das
principais obrigações dos Doze era, junto com a pregação e o cuidado das
comunicações, o serviço da Palavra (At 6, 2). E, no prólogo de seu Evangelho,
ao informar-nos da existência de outros relatos se­melhantes situa sua origem
na “transmissão daqueles que desde o iní­cio foram testemunhas oculares e
convertidos em ministros da palavra” (Lc 1, 4). Daí a importância, depois da
traição e morte de Judas Iscariótes,  de
encontrar um substituto, como disse São Pedro em seu breve discur­so no
primeiro capítulo dos Atos, “entre os homens que nos acompanha­ram todo o tempo
em que viveu entre nós o Senhor Jesus, a partir do batismo de João até o dia em
que do nosso meio foi arrebatado para o alto” (At 1, 21s). A eles corresponde a
transmissão desta tradição sobre Jesus, desta palavra sagrada, que data de
muito cedo, corno dissemos, e que é considerada a palavra de Deus da Nova
Aliança.

O lugar
onde se recitava ou proclamava o conteúdo desta tradi­ção eram as assembleia de
comunidade.

Desde
então, até hoje, a Igreja proclama os santos Evangelhos nas celebrações
eucarísticas, indicando que o Evangelho só pode ser lido  e compreendido na Igreja. Quer dizer, a
verdadeira compreensão só se dá se se participa da experiência humana que a
gerou (…), do mesmo modo como a poesia amorosa só é compreensível a quem
participa dessa experiência humana, ou uma sinfonia clássica só é apreciada por
quem está familiarizado com tal tipo de música. Pois bem, como a tradição
sagrada da Antiga Aliança, recolhida nos livros do Antigo Testamen­to, era
proclamada nas celebrações rituais judaicas da sinagoga e do Templo, de modo
igual foram também as celebrações próprias do Cristi­anismo o contexto de
proclamação da Palavra de Deus na Nova Aliança, ou seja, da tradição de Jesus.
Pelos Atos dos Apóstolos sabemos que os cristãos de Jerusalém participavam do
culto judaico e ali escutavam a leitura dos livros da Antiga Aliança e rezavam
as orações que haviam aprendido quando crianças. Contudo, junto à sua
participação no culto judaico, desde o começo, a comunidade cristã se reunia em
casas par­ticulares para a fração do pão, a oração e o ensinamento dos
Apóstolos (At 2,42). É natural considerar este ensinamento apostólico, antes de
tudo, como a narração dos atos e das palavras de Jesus. Certamente não só como
um complemento ao ensinamento que recebiam na sinago­ga, mas como seu
cumprimento. Esta é a razão, provavelmente, pela qual as palavras e os atos de
Jesus não se encontram citados nas pre­gações missionárias e, muito raramente,
nas instruções à comunidade, como observamos nas epístolas recolhidas do Novo
Testamento. Não obstante, a pregação missionária é a instrução às comunidades
pressu­punham e dependiam das palavras e dos atos de Jesus.

Evidentemente
o número de “tradentes” autorizados (aqueles que tinham a permissão de
transmitir esta tradição cresceu com a difusão do Cristianismo, ou seja, ao
aumentar o número das comunidades. Prova­velmente esta circunstância também
influiu na necessidade não só de fixar por escrito esta tradição (processo que
deve ter começado logo), mas de realizar uma narração seguida desde a aparição
pública de Je­sus até sua ascensão ao céu, isto é, o que são nossos Evangelhos
atu­ais. O fato de que os Apóstolos, as testemunhas oculares, não puderam
chegar a todas as comunidades ou se viram obrigados a abandonar aque­las que
haviam fundado por causa de sua atividade missionária, suscitou a necessidade
de redigir por escrito a tradição sagrada e de escrever um relato contínuo do
que Jesus disse e fez, e não apenas coleções de pa­lavras ou milagres
(semelhantes à  coleção que se pode
reconstruir da fonte comum a Mateus e Lucas = fonte Q). Transmitindo uma informação antiga, assegura Eusébio de
Cesareia que este foi o motivo pelo qual Mateus decidiu escrever seu Evangelho:
“Mateus, que primeiro havia pregado aos hebreus, quando estava a ponto de
partir até outros, entregou por escrito seu Evangelho, em sua língua materna,
suprindo assim por meio da escritu­ra o que faltava de sua presença entre
aqueles de quem se afastava”.4

3. A Crítica Moderna

A igreja
desde sempre defendeu o valor histórico desses livros chamados “Evangelhos”;
ela os leu com a certeza de que as coisas afirmadas neles correspondiam ao que
Jesus disse de si mesmo e os fatos narrados coincidiam substancialmente com o
que havia sucedido. Em poucas palavras: a Igreja considerou tais livros como
testemunhos de fatos ocorridos na história. Para o corroborar, bastam algumas
citações da Constituição Dogmática sobre a Divina Revelação do Concílio do
Vaticano II. Aí lemos:

“Santa
Madre Igreja defendeu sempre a historicidade dos Evangelhos; afirma que narram
fielmente o que Jesus, o Filho de Deus, vivendo entre os homens, fez e ensinou
realmente até o dia da Ascensão”. Mais adiante, assegura-se que a igreja
afirmou sem titubear, com firme­za e máxima constância, que os  Evangelhos «nos transmitiram dados autênticos
e genuínos sobre Jesus” (DV 19).

Por isto a
Igreja teve sempre a convicção de que sua fé em Jesus se baseia no que Este
disse e fez, há dois mil anos, na Palestina. A fé católica está tão vinculada
ao sucedido historicamente que a Igreja não duvidou em incluir no Credo, que
recitamos a cada domingo, a referên­cia a um personagem histórico, um
personagem odiado por sua cruelda­de e – intransigência: Pôncio Pilatos.

Todavia
esta certeza da Igreja não impediu que muitos estudiosos dos últimos séculos
tenham questionado com insistência o valor históri­co dos Evangelhos. Segundo o
parecer destes autores, os Evangelhos são de valor histórico limitado ou nulo,
pois sua intenção é puramente propagandista. Segundo o parecer desses autores,
os Evangelhos nos transmitem o que pensavam os cristãos e não o que realmente
sucedeu. A respeito do que Jesus disse e fez, não poderíamos alcançar certeza
alguma. Basta ver, corno exemplo, o que um Dicionário das Religiões afirma
sobre Jesus:

“Legendário
fundador da religião cristã, cuja existência histórica não pode ser demonstrada
com certeza, reconhecido como Deus no culto” (A. Donini).

E um dos
exegetas do Novo Testamento, da maior influência, R. Bultmann afirma que nada
sabemos a respeito de como Jesus viveu, falou e procedeu; nada do conteúdo de
sua pregação e de sua humanidade histó­rica. A única coisa que sabemos com
segurança, é que foi um judeu do século primeiro que a Igreja proclamou Deus.
Na realidade, a única coisa que temos nos Evangelhos é o que a Igreja confessa
a respeito de Jesus.

Apesar da
suspeita sobre o valor histórico, estes estudiosos modernos enfrentam um  dado que não se pode evitar: a existência dos
Evan­gelhos e o fato de que neles se afirma que um homem, Jesus de Nazaré, é
considerado Filho de Deus por um grupo de judeus da Palestina do século
primeiro. Ao não aceitar a explicação que a Igreja deu desde suas origens,
criaram uma explicação alternativa. Segundo esta explicação, os  Evangelhos seriam o resultado de um processo
de mitificação da pessoa de Jesus, segundo o qual quem não era mais que um
profeta foi transformado em Filho de Deus. Com efeito – afirmam – ao se
difundir a fé cristã pelo império Romano, os missionários cristãos tiveram que
com­petir com os fundadores de outros grupos religiosos, descritos como se­res
surpreendentes, de qualidades divinas, capazes de realizar atos prodigiosos.
Esta circunstância obrigou-os a engrandecer aquele judeu, Jesus de Nazaré, que
estava na origem da nova fé.  Para isso,
não duvidaram em atribuir-lhes fatos que não realizou ou colocar em seus lábios
palavras que não pronunciou. Os Evangelhos, segundo esta concepção, são o
produto da fé e da vida da comunidade primitiva e não o testemu­nho fiel que
nos permite chegar à verdade histórica de Jesus.

Este
processo de mitificação de Jesus que a comunidade cristã realizou sem temor de
ser contraditada, atribuindo-lhe coisas que não suce­deram ou agigantando fatos
normais de sua vida, – seguem afirmando estes estudiosos – encontra uma fácil
explicação, dado o período de tempo que transcorreu desde a morte de Jesus até
a redação final dos Evangelhos. Em sua opinião, estes livros foram escritos uns
cinqüenta anos de­pois dos fatos narrados. Além disso, em unia língua diferente
daquela que falaram Jesus e seus contemporâneos, o grego, e sob o Influxo do
helenismo, isto é, da multiplicidade dos cultos e religiões helênicas, pois é
de todo inconcebível que esta mitificação fosse realizada por judeus, dado seu
monoteísmo rígido. Eis aqui como se expressa um dos pioneiros da investigação
histórica de Jesus, H. s. Reimarus, falando dos milagres:

“Até trinta
ou sessenta anos depois da morte de Jesus, não se começou a escrever um relato
dos milagres que realizou: isto foi feito em uma língua que os judeus da
Palestina não conheciam. Tudo isso ocorre em um tempo em que a nação judaica se
encontrava num estado de enorme enfraquecimento e confusão – por causa da
destruição de Jerusalém no ano 70 -, na qual viviam já muito poucos dos que
haviam conhecido  Jesus.   Nada, portanto, mais fácil para os autores
dos Evangelhos do que inventar tantos milagres quantos quisessem, sem medo de
que seus escritos fossem facilmente entendidos ou refutados” 5.

Do que foi
dito até agora, compreende-se a importância da historicidade dos Evangelhos.
Segundo os resultados da linha dominante da investigação moderna, o que a
Igreja crê e anuncia é uma pura invenção ou. no melhor dos casos, um exagero,
não unia realidade histórica.   Em  outras palavras: o que a fé confessa é
mentira. portanto, o Cristianismo seria uma fraude e os fiéis cristãos alguns
crédulos ingênuos ou Igno­rantes. Formula-se assim a relação entre a fé e a história:
se é certo que a maior parte do narrado nos Evangelhos não é histórico, mas
pura cri­ação da comunidade. em que é que se crê? Qual é o conteúdo da fé
cristã? – Negar o valor histórico da fé cristã é destrui-la, confiná-la à
irracionalidade. Pois, à diferença de outras crenças, o Cristianismo não é
apenas um sentimento religioso nem uma experiência religiosa meramente subjetiva
nem, muito menos, o simples cumprimento de algumas máximas de comportamento,
mas é a adesão a um acontecimento, a uma Pessoa que viveu e morreu faz dois mil
anos na Palestina e que, ressuscitado, vive para sempre e está presente no
mundo até o final dos séculos. Por isso. a historicidade do que a Igreja
anuncia é condição indispensável para a existência do Cristianismo e requisito
primário para que o homem dê sua aceitação de forma razoável, humana. O estudo
da historicidade dos Evangelho trata pois, de saber se o narrado nos Evan­gelhos
sucedeu ou não, se o fato que anunciam – Deus se fez homem – aconteceu
historicamente. Não responder ao problema suscitado pela investigação moderna
seria cair no fideísmo; seria dizer que os fiéis po­dem continuar crendo em
algo contrário á razão, aceitando assim que a fé e a razão sejam duas linhas
paralelas, sem contato algum. É esta uma posição totalmente contrária á que
caracterizou a Igreja desde sempre, já que, segundo afirma, não existe
verdadeira adesão de fé sem a ade­são completa da razão.

4.  As Investigações sobre a origem aramaica dos Evangelhos

Investigações
recentes colocaram a público a falsidade das conclusões às quais chegou a
crítica moderna da suspeita. Em primeiro lugar, verifica-se que os quatro Evangelhos
estão cheios de semitismos, o que demonstra que atrás deles existe um texto
original aramaico. Explicarei brevemente o que pretendo afirmar ao falar de
semitismos no Evan­gelho grego.

É fácil
observar que o texto grego dos Evangelhos que chegou até nós, está cheio de
anomalias. Estas podem ser fundamentalmente de dois tipos: 1) um texto grego
gramaticalmente correto e claro, mas cujo conteúdo é estranho e, com
frequência, está em contraste com o con­texto, 2) uma formulação estranha ou,
até, impossível dentro da gramá­tica grega.

Os dois
tipos de dificuldade encontram uma explicação muito simples, se se reconhece o
influxo que exerceu sobre o grego a língua aramaica, que era a língua da
Palestina no primeiro século, a língua que Jesus falava. Com efeito, estas
anomalias são facilmente explicáveis, se se leva em conta que. diante de um
texto aramaico, o tradutor pôde ser demasiadamente servil na versão grega,
violentando a gramática helênica, ou realizar uma tradução equivocada por causa
de entendi­mento equivocado do texto original. Por outro lado, não podemos es­quecer
que toda língua possuí um certo número de peculiaridades que, traduzidas tais e
quais para outra língua, “ao pé da letra”. dizem coisas absurdas. Assim,
se tentarmos traduzir literalmente para o espanhol o ditado português fulano
dorme com as galinhas”. diríamos uma coisa absurda; “dormir com as
galinhas”, quando na realidade isto é uma forma própria (popular) de
referir-se a alguém que vai dormir muito cedo. Por outro lado, como assinalou
há algum tempo o estudioso americano Millar-Burrows, o único modo de provar que
um texto corresponde a uma tradução e não é o texto original, é a descoberta de
casos evidentes de redação incorreta.  Se
estivéssemos diante de uma redação correta, seria impossível saber que se trata
de uma tradução, pois faltariam as anomalias que o delatam.

Pois bem;
em nosso estudo, tivemos que enfrentar numerosas anomalias do texto grego do
Evangelho, que foram resolvidas apelando-se para o substrato aramaico, o que demonstra
que, por detrás, existe um original aramaico. Mas o fato de que a tradição de
Jesus tenha sido escrita em aramaico significa que sua redação foi realizada na
Palestina e em uma língua conhecida pelos judeus; portanto, em uma data muito
mais próxima do que aquela que se sugeriu. De fato, os evangelistas geralmente
dão por óbvio o conhecimento da situação da Palestina, de sua geografia,
costumes, modos de construir e cultivar etc., mostrando que os Evangelhos fo­ram
escritos por gente para quem tudo isso resulta familiar e destinados a um grupo
de pessoas que não necessitavam de explicação alguma. Em outras palavras a
inegável origem aramaica dos nossos Evangelhos gre­gos nos obriga a concluir a
existência de uma tradição fixada muito cedo em aramaico, a pouca distância dos
fatos narrados nos Evangelhos. Chega­mos à uma idêntica conclusão se levarmos
em conta a finalidade pela qual foram escritos os Evangelhos. Já afirmamos que
a dita finalidade era a liturgia das comunidades cristãs. Pois bem, visto que
tais comunidades existiram logo depois da ressurreição de Jesus na Palestina e
arredores, onde a língua falada era o aramaico, se impõe categoricamente a
conclusão de que, multo cedo, foram necessários documentos escritos em aramaico
que narravam as palavras e os atos de Jesus, para que fossem lidos durante as
reuniões dominicais que as comunidades da Palestina celebravam. Tal leitura
acontecia na presença daqueles que haviam sido testemunhas dos atos e das
palavras de Jesus, isto é, de seus contemporâneos. Vejamos em dois exemplos o
que acabamos de afirmar sobre a origem aramaico-­palestinense. Para tal,
faremos referência a duas passagens do Evangelho de S. Marcos, que, segundo os
críticos, é o mais primitivo, aquele que me­lhor reflete a tradição original.

A) Jesus
chega a Jerusalém

No capítulo
onze de seu Evangelho, São Marcos narra os acontecimentos prévios à Paixão e
morte de Jesus. O começo deste capítulo descreve a subida de Jesus e seus
discípulos desde Jericó até Jerusalém, com estas palavras: “E quando se
aproximavam de Jerusalém, de Betfagé e Betânia, junto ao Monte das Oliveiras… ” (v.1). A descrição do caminho que percorre Jesus e seus discípulos é
verdadeiramente estranha, pois diz o contrário do que ocorreu na realidade. Com
efeito, se pela enumeração destes lugares o evangelista quer assinalar o
caminho percorrido desde Jericó até Jerusalém, a ordem lógica teria que ter
sido o inverso. Além disso, a redação do evangelista não parece pretender
descrever um percurso, pois, depois de assinalar o ponto de chegada, Jerusalém,
acrescenta em aposição os nomes de duas aldeias, Betfagé e Betânia. como se
elas também fossem a meta da viagem. São Mateus e São Lucas preferiram uma
redação diferente. na qual desapareceram todas as anomalias. Não é estranho que
alguns estudiosos tenham considerado a descrição do caminho que São Marcos
propõe como um sinal claro de que este evangelista não conhecia a geografia da
Palestina e, por isso, as descrições geográficas que temos em seu Evangelho seriam
de caráter geral, aproximativo. Mas, se esta suposição está certa, temos que
concluir que o autor do segundo Evangelho não pode ser João Marcos, pois este
era originário de Jerusalém; devia estar familiari­zado com a geografia de sua
terra e nos dar, portanto, uma informação precisa exata.

No nosso
modo de entender, a estranha redação do texto grego de São Marcos tem fácil
explicação a partir do aramaico que podemos supor por trás dele. Com efeito; a
preposição grega que rege os nomes de Betfagé e Betânia (eis), é a tradução de
uma partícula aramaica (b), que serve para indicar não só o lugar aonde de um
movimento, mas também o lugar por onde. O tradutor ao grego pensou que a
preposi­ção aramaica diante dos nomes de Betlagé e Betãnia indicava também aonde,
quando na realidade o que indicava era o lugar por onde Jesus chegava a
Jerusalém, vindo de Jericó. Lido assim, o texto aramaico dizia:  “E quando se aproximavam de Jerusalém por
Betfagé e Betânia…». Re­cordemos que, nos tempos de Jesus, o caminho que ia
de Jericó a Jeru­salém, antes de subir a ladeira oriental do Monte das
Oliveiras, tinha à esquerda, a pouca distância, a aldeia de Betfagé e, um pouco
mais afas­tada, Betânia. Portanto, é natural dizer que, para chegar a Jerusalém
desde Jericó, Jesus subia ao Monte das Oliveiras, passando por Betfagé e
Betânia. Assim, pois, o texto aramaico primitivo de São Marcos não só não
continha nenhuma inexatidão geográfica, mas era de unia precisão perfeita nesse sentido.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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