A Historicidade dos Evangelhos – EB (Parte 1)

Revista:
“PERGUNTE E RESPONDEREMOS”

D. Estevão
Bettencourt, osb

Nº 427 –
Ano 1997 – p. 530

 

 por  José Miguel Garcia

Em síntese:
Ao passo que no século passado os críticos propunham a redação dos Evangelhos
em datas muito distantes de Jesus, adentrando-se por decênios no século II, a
fim de “dar o prazo” necessário à criação do mito “Jesus Deus e Homem” , muitos
dos críticos do século XX têm outra perspectiva. Não são guiados por premissas
filosóficas apenas, mas pela evidência de numerosos papiros antigos que vêm
sendo descobertos e interpretados; estes mostram que a redação dos Evangelhos
ocorreu em datas muito próximas de Jesus. Como espécimens de tais descobertas,
podem-se citar a de José O’Callaghan S.J., que atribui a redação de Marcos a
meados do século I, e a Carsten Peter Thiede, que chega a semelhante conclusão
com referência a S. Mateus.

O Pe. José
Miguel Garcia, por outra via, defende a antigüidade da composição dos
Evangelhos: julga que muitas das passagens respectivas só podem ser
adequadamente entendidas se traduzidas para o aramaico, que era a língua falada
por Jesus e pelos primeiros pregadores da Palavra. Isto demonstra que o texto
grego dos Evangelhos vem a ser uma quase tradução da pregação de Jesus e dos
Apóstolos.

A fixação
da data de origem dos Evangelhos é ponto muito delicado, pois está ligada à questão
da historicidade e fidelidade histórica dos mesmos.

No século passado,
os críticos impregnados de racionalismo, atribuíam à origem dos Evangelhos
datas tardias, distanciando-a de Jesus por decênios ou mesmo mais de um século.
Com isto queriam “dar um prazo” para que a figura de Jesus fosse aureolada,
embelezada e endeusada pelos discípulos; afinal a história de Jesus narrada
pelos evangelistas teria muito pouco de fidedigno e muito de ficção. É o que
exprime o quadro abaixo:

                        S.
Mateus      S. Marcos      S. Lucas       S. João

Baur
1847          130-134            150        cerca de 150         160-170

Volkmar
1870     105-110          75-80      cerca de 100         150-160

Keim 1873            68                120                
90                     130

Hilgenfeld 1875     70               81-96              100                
120-140

Renan 1877           84                 76                 94                    125

Holtzmann
1885     87               68             70-100              100-133 

Weiss 1890            70                69                 80                     95

Jülicher 1894       81-96          70-100            80-120              após 100

Réville 1897    a breves intervalos entre     98-117               130-140

Harnack 1897     70-75             65-70            78-93                  80-110  

No século
XX, o quadro tem mudado. Muitos dos estudiosos não se guiam apenas por
premissas filosóficas, mas têm a seu dispor um novo acervo de material
papiráceo, que evidencia datas muito mais pró­ximas de Jesus para a redação dos
Evangelhos. Com efeito; a papirologia ou a descoberta e o estudo de papiros
antigos têm levado a ver que os Evangelhos datam do século I; a Palavra escrita
parece fazer eco direto à pregação oral dos Apóstolos. Já citamos a propósito o
caso de José O’Callaghan S.J., que julga poder situar a redação de Marcos em
meados do século I; ver PR 288/1986, pp. 194-200. Foi citado também em PR
398/1995, pp. 290-294 o trabalho de Carsten Peter Thiede, que chega a conclusão
semelhantes para o texto de S. Mateus.

O Pe. José
Miguel Garcia propõe as mesmas teses analisando o texto grego dos Evangelhos à
luz de uma possível tradução aramaica do mesmo; verifica que vinte ou mais
passagens obscuras ou controverti­das dos Evangelhos se tornam claras ou mais
inteligíveis se se supõe um arquétipo aramaico subjacente ao atual texto grego.
Isto quer dizer que o texto escrito dos Evangelhos é a ressonância grega da
pregação aramaica de Jesus e dos primeiros discípulos. Há, pois, continuidade
entre Jesus e o texto escrito dos Evangelhos; este não refere as idéias
imaginosas de antigas gerações cristãs, mas sim o conteúdo da mensa­gem
apregoada pelo próprio Senhor Jesus.

O texto que
se segue, é o de uma conferência proferida pelo Pe. José Miguel Garcia no Rio
de Janeiro aos 18/9/97. –  O autor é
Doutor em Teologia pela Faculdade de Teologia do Norte da Espanha, com sede em Burgos. Em 1980/81
estudou na École Biblique de Jerusalém sob a orientação do famoso Pe. Prof.
Pierre Benoit O. P., obtendo o título de Aluno Diplomado. A seguir, dedicou-se
intensamente aos estudos bíbli­cos, 
consagrando-se muito especialmente às pesquisas concernentes ao texto
grego e a uma possível versão aramaica do mesmo.

A nossa
revista é muito grata ao Pe. José Miguel Garcia pela vali­osa colaboração que
lhe presta.

 I. Introdução

No ano 253
houve uma grande peste na cidade de Alexandria. Daquela epidemia, que açoitou
por igual pagãos e cristãos, nos dá notí­cia uma carta de Dionísio, o bispo da
referida cidade. Nela descreve o comportamento dos cristãos com estas palavras.

“A maioria
dos nossos irmãos, por excesso de seu amor e de seu afeto fraterno,
esquecendo-se de si mesmos e unidos uns aos outros, visitavam sem precaução os
enfermos, serviam-nos com abundância, cuidavam deles em Cristo e até morriam
contentíssimos com eles, contagiados pelo mal dos outros; atraíam sobre si a enfermidade
do próximo e assumiam voluntariamente suas dores. Muitos que curaram e
fortalece­ram a outros, morreram, transferindo para si mesmos a morte daqueles
e convertendo em realidade o dito popular, que sempre parecia mera cortesia:
“Despedindo-se deles como humildes servidores”. Em todo caso, os melhores de
nossos irmãos partiram da vida deste mundo, presbíteros – alguns -, diáconos e
leigos,  todos muito elogiados, já que
este gênero de morte, por multa piedade e fé robusta que entranha, em nada
parece ser inferior ao martírio. Assim, tomavam com as palmas de suas mãos e em
seus regaços os corpos dos santos (cristãos), limpavam-lhes os olhos, fechavam
suas bocas e, agarrando-se a eles e abraçando-os, depois de lavá-los e
envolvê-los em sudários, os levavam nos ombros e os enterra­vam. Pouco depois,
recebiam eles estes mesmos cuidados, pois sempre os que ficavam seguiam os
passos de quem os precederam.”

E,
acrescenta, referindo-se aos cidadãos não cristãos:

“Ao
contrário, entre os pagãos dava-se o oposto: apartavam os que começavam a
adoecer; evitavam os mais queridos e atiravam moribundos às ruas e cadáveres
insepultos ao lixo, tentando evitar o contá­gio e a companhia da morte, tarefa
nada fácil até para os que tinham mais interesse em executá-la”.

Lendo o
relato, salta-nos à vista o contraste entre os dois modos de se comportar. Tal
contraste deve ter parecido evidente aos olhos dos vizinhos e familiares dos
cristãos de Alexandria. E, todavia, uns e outros eram homens e mulheres da
mesma raça, vestiam e falavam a mesma língua, compartilhavam com eles as mesmas
casas, praças e mercados realizavam com empenho as mesmas tarefas e trabalhos.
Que é que levava, os cristãos a proceder de modo tão diferente? Qual era a
origem desta humanidade nova? Dionísio de Alexandria no-lo disse rapidamen­te,
como se fosse algo conhecido por aqueles aos quais escrevia sua carta: “por
excesso de seu amor fraterno cuidavam deles em Cristo”. A origem não era um
dever, nem a força de sua decisão, nem muito menos a recordação sentimental de
algo sucedido no passado. Tudo realiza­vam dentro de uma presença real que
haviam encontrado, Cristo, movidos pelo amor mútuo que esta presença, presente
no meio deles, havia gerado. A novidade de vida nascia de algo diferente de
suas capacida­des, de algo exterior a eles e atuava neles. Sua vida diferente,
mudada, era sinal de outra coisa. Eram como seus concidadãos  pagãos, porém em sua humanidade florescia
algo que vinha de Outrem.

Como nos
informa o autor deste relato, o comportamento daqueles cristãos foi o motivo
pelo qual muitos pagãos se aproximaram da fé cristã. Na realidade, alguém se
interessa por um passado por causa de um presente atraente, fascinante. Se nos
interessa uma mostra sobre a origem do Cristianismo, é pelo encontro feito com
esta humanidade transformada. Acontece-nos o que se dá com o rapaz apaixonado:
preocupa-se em conhecer a história passada, a infância e a adolescência da moca
que ama, por causa da experiência de afeto real que tem por essa pessoa viva
que encontrou e acompanha. Naturalmente, uma pessoa não se interessa pelo
Cristianismo através do exame de sua história ou da leitura dos Evangelhos.
Como na origem, como no século IV, também hoje tudo começa com um encontro
humano, que nos faz contemporâneos ao acontecimento cris­tão, quer dizer, a
Cristo. Um encontro humano no qual se percebe uma correspondência com os
desejos do coração; com a ânsia de humanidade, de vida, que alguém experimenta
no seu íntimo; em tais casos, aquelas pessoas encontradas contém uma Presença
que se experimenta e se reco­nhece como resposta as exigências e perguntas que
a realidade nos des­perta. Por isto alguém é atraído, fascinado por esses
homens mudados. Dito com outras palavras: em um fato presente se manifesta e se
reconhece um acontecimento do passado, que se revela como significado e origem
do fato presente. Se alguém recém-chegado a Alexandria durante a peste;
surpreendido pelo modo de se comportar dos cristãos, perguntasse a alguns
deles: “Quem sois vós?”, esse mesmo não poderia responder de modo adequado, não
daria uma razão suficiente, a não ser referindo-se a um fato passado, no qual
começou a história, a novidade da qual participa. Se não se chegasse àquela
origem, não se chegaria a compreender o que sucede no presente: o que percebem
os sentidos, é incompreensível,  se não
se reconhece o acontecimento passado que o origina. A excepcionalidade do fato
presente, da pessoa mudada que encontro, nasce daquele aconteci­mento do
passado. Um acontecimento que está narrado nos Evangelhos.

Uma Tradição Sagrada

A
peculiaridade destes livros reside principalmente no seu conteúdo, que se
propõe como acontecimento único: o fato de que Deus se fez homem em Jesus, para
ser companhia e Salvador do homem. Proclamam algo nunca ouvido: que um homem,
Jesus de Nazaré, é Deus. Os Evangelhos são o testemunho daqueles que
encontraram Jesus e conviveram com Ele. Nestes livros recolheram as palavras e
os atos de Jesus de Nazaré, sua vida de pregação, Paixão, morte e ressurreição.
Mas, sobretudo através da narração destes acontecimentos anunciam quem é este
Jesus, qual  é a sua “pretensão”. Não
transmitem apenas uma doutrina ou um conjunto de ver­dades, mas também o ser de
uma pessoa. De fato, o motivo principal pelo qual foram escritos os Evangelhos,
segundo se lê neles, é comunicar a todos este acontecimento extraordinário, é
conhecer Jesus. Ao final de seu Evangelho, São João afirma: “Isto foi escrito
para que creiais que Jesus é o Messias, o Filho de Deus” (Jo 20,31). Ou, como
disse São Lucas no prólogo a seu Evangelho:”… para que conheças a firmeza dos
ensinamentos que recebeste de viva voz”; isto quer dizer: o que foi anunciado,
e que não é outra coisa senão o visto, contemplado e tocado pelas testemunhas,
como afirma São João na sua primeira carta (cf. 1Jo 1, 1-4).

São
documentos, pois, vinculados à intenção de anunciar, de dar a conhecer algo que
aconteceu e que se reconhece como vital para a vida do homem. Compreende-se
facilmente que todos aqueles que cre­ram em Cristo, tenham manifestado por esses
escritos um afeto, uma predileção especial. A Igreja, desde os seus primórdios,
como nos informam as notícias dos antigos Padres da Igreja (Papias de
Hierápolis, Inácio de Antioquia, Irineu de Lião, Justino, Clemente de
Alexandria, etc.), os venerou e leu publicamente em suas celebrações. Assim
mantinha viva a memória do que havia sucedido. Ao mesmo tempo, serviam de
critério para discernir a verdade da experiência transmitida por aqueles que ha­viam
sido testemunhas desse acontecimento nunca escutado.

O motivo da
veneração da Igreja por tais livros reside certamente em que falam de Jesus, ou
seja, daquele que é a origem e o sentido da própria Igreja. Mas, também…
porque transmitem a pregação de Jesus; são suas palavras e seus atos, venerados
desde o início como tradição sagrada. O exegeta escandinavo H. Riesenfeld, em
seu famoso trabalho sobre as origens da tradição evangélica, publicado em 1959,
afirma:

“As
palavras de Jesus e as narrações de seus atos foram concebidos  desde uma data multo antiga como uma nova e
definitiva Aliança”.

 

   

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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