A força do Natal

Estamos acostumados com os anjos no Natal. Eles ajudam Maria e José a acolher o projeto de Deus. Convidam os pastores a ir a Belém para encontrar o recém-nascido deitado numa manjedoura. A todos, eles repetem: “Não tenham medo!” Por que ter medo? Os anjos não estavam anunciando boas notícias? Isso já nos deixa entender que as notícias eram, sim, boas, mas tão novas e surpreendentes – impossíveis, no entender comum – que suscitavam incertezas dúvida, apreensão. O evangelista Lucas nos deixa entender, porém, outro detalhe. Um dos anjos tem nome e é ele quem fala a Zacarias e a Maria. O anjo se chamava Gabriel, que significa: manifestação da força de Deus. Para vencer esse estranho medo que toma conta das pessoas, não bastam suas próprias forças: elas precisam da força de Deus. Por quê?

Para entender isso, será suficiente lembrar que o “sim” de Maria não foi simples e, menos ainda, fácil.  A jovem de Nazaré conhecia bem a Lei por deixá-la ecoar na sua mente e no seu coração todos os dias. A virgem, já prometida como esposa a um homem, que tivesse ficado grávida antes do matrimônio, por causa da violência de outro homem, devia ser apedrejada junto com o homem se, estando ela, na cidade, não tivesse gritado por socorro (cfr. Dt 22,22-29). O grito era a única possibilidade que a moça tinha de ser socorrida e, com isso, repudiar o abuso do qual estava sendo vítima. O silêncio significava consentimento. Maria estava na cidade e não gritou. Devia ser levada ao tribunal. Qual juiz teria acreditado que o filho que ia nascer dela era obra de Deus e não de um pai humano? Ela sabia que estava arriscando a vida. Uma angústia mortal deve ter tomado conta dela, precisou da força de Deus para vencer o medo e aceitar o novo e “impossível” que estava acontecendo. Agora entendemos, também, o medo de José em assumir uma paternidade não sua e a decisão de despedir Maria às escondidas.

A história do Natal de Jesus é uma história dramática. De vida e de morte. De medo e de coragem. De humildade e grandeza. A história das maravilhas que Deus faz quando vencemos os medos humanos e entregamos a nossa vida à força de Deus. Também os pequenos, os pobres do Senhor, como Maria, José e os pastores, podem ganhar essa força, que não vem do poder das armas, ou de qualquer outro poder humano, mas somente de Deus. É a única força que pode vencer a morte: a força do amor.

Jesus, o Filho de Deus, feito homem, também precisou de muita força. Ao nascer, diz a carta aos Filipenses, “Ele, existindo em forma divina, não se apegou ao ser igual a Deus, mas despojou-se, assumindo a forma de escravo e tornando-se semelhante ao ser humano (Fl 2, 6-7). É impossível para nós compreendermos esta passagem, porque nós só conhecemos o lado humano. Não sabemos o que significa ser Deus! A única comparação que a carta aos Filipenses faz é a de passar de livre para a condição de “escravo”, provavelmente a pior condição humana imaginável naquele tempo. Antes de morrer, na agonia do Jardim das Oliveiras, Jesus também precisou de um anjo para dar-lhe força (cfr. Lc 22,43). Ele aceitou ser humano até a morte, destino de cada ser que nasce neste mundo.

Com certeza não será por essas minhas considerações que o Natal perderá o seu lado de ternura e carinho, de calor humano e de solidariedade. Ao contrário, vai ganhar em dignidade. Não um Natal adocicado das musicas comerciais, com Papai Noel distribuindo bombons às crianças, mas a festa da decisão “inaudita” – isto é, nunca ouvida antes! – de Deus de nos amar tanto até se tornar um de nós, no nascer e no morrer. Tudo para que pudéssemos conhecê-lo e amá-lo como resposta livre e sincera a quem nos amou por primeiro.

Ser cristãos exige, cada vez mais, força e coragem. Infelizmente ainda duvidamos se tem mais coragem quem assalta e rouba, também dos cofres públicos, ou quem é honesto e administra corretamente as coisas dos outros. Vale a pena nos perguntarmos: tem mais coragem uma mulher que pratica o aborto ou aquela que enfrenta zombarias e renúncias para criar o seu filho? Precisa de mais força o jovem que se entrega à bebida e às drogas, ou aquele que resiste e não cai na armadilha das emoções? Quem é mais corajoso: o marido fiel à esposa da sua juventude, ou aquele que lamenta a sua infelicidade nos braços de uma amante, mais ou menos, ocasional? É mais corajoso quem não tem vergonha de sua fé e a manifesta publicamente, ou aquele que já desistiu de dar um sentido mais profundo à sua vida? Natal significa muita força e muita coragem. Foi o que Jesus fez nascendo criança como nós. Sem nada, somente com a força do amor. Seja esta também a nossa única força.

Feliz Natal para todos!

Dom Pedro José Conti
Bispo de Macapá – AP

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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