A fobia para com a deficiência está levando à eutanásia

alerta um neonatólogo – Fala o doutor Carlo Bellieni

SIENA, quinta-feira, 5 de maio de 2005 (ZENIT.org).-
O intento de suprimir o sofrimento, não do enfermo, mas o próprio, é um dos
motores da eutanásia; uma atitude da qual alerta o neonatólogo Carlo Bellieni
com o termo «handifobia», ou fobia para com o «handicap» (a deficiência).

Quando ainda está recente na memória o ocorrido nos Estados Unidos com Terri
Schiavo, na Itália a atenção se deslocou a Eluana Englaro, uma jovem de Lecco
desde 1992 em estado neurovegetativo irreversível.

Beppino Englaro, seu pai, solicitou aos juizes da Corte Suprema a autorização
para suspender a alimentação, igual ocorreu no caso de Terri Schiavo –cujo
marido empreendeu o mesmo caminho–. Mas foi declarado inadmissível o recurso
do pai da jovem de Lecco.

Em finais de agosto passado saltou aos meios de comunicação a existência de um
acordo entre as autoridades judiciais holandesas e a clínica universitária de
Groningen –dirigida pelo doutor Edward Verhagen–, que autorizaria a eutanásia
em crianças menores de 12 anos até a idade pré-natal, logicamente tampouco
contando com seu consentimento.

Nesta entrevista concedida a Zenit, o doutor Bellieni –do departamento de
Terapia Intensiva Neonatal da Policlínica Universitária Santa Maria «Le
Scotte»– chama a atenção sobre as verdadeiras razões destas práticas.

–A declaração de Groningen (Holanda) voltou a pôr no centro do debate o
problema da eutanásia com respeito aos neonatos. Como se sente um neonatólogo
frente a esta possibilidade?

–Dr. Bellieni: A primeira incredulidade está no fato de que hoje dispomos no
campo da neonatologia de tais fármacos analgésicos que pensar que se possa
recorrer à eutanásia em caso de dor inaceitável é verdadeiramente anacrônico. O
problema é que os fármacos analgésicos devem ser realmente empregados, mas
ainda se encontram resistências.

–Mas o sofrimento não é só dor, mas também mal-estar psíquico…

–Dr. Bellieni: Sim, mas enquanto que para um adulto se pode falar de
sofrimento frente a um prognóstico infausto, no caso do neonato este raciocínio
decai: é óbvio que o sofrimento pelo próprio futuro não se propõe no caso de
quem não é capaz de raciocinar sobre ele, nem de compreender dados, noções ou
símbolos.

–Contudo, com o tempo, uma vez passada a idade neonatal, a dor e o sofrimento
de uma criança poderão manifestar-se…

–Dr. Bellieni: Sim, mas isto não fará nunca este estado «não-humano», ou «não
digno de viver», temos testemunhos de enfermos graves que estão mais serenos
que certos «sãos». O sofrimento existe e é um desafio, mas não um «abismo
escuro» de uma tragédia sem sentido.

–Então, que nos diz do sofrimento de quem quer se curar propondo a eutanásia?

–Dr. Bellieni: Talvez… o nosso: por que discutir a possibilidade da
eutanásia junto aos pais? («É vital ter um prognóstico preciso e discutir com
os pais», escreve Verhagen a propósito do protocolo de Groningen). Implicar os
pais significa que não estamos dentro de um caminho «blindado» de certezas, mas
ainda submetido às paixões, dúvidas e incertezas humanas.

Por isso, digo que a eutanásia não atende ao sofrimento de quem está enfermo,
mas de quem decide. E é verdadeiramente trágico. Ao contrário, o ponto é
entender que é aqui onde se joga nossa responsabilidade: ajudar a fugir ou a
viver.

Porque o sofrimento se atende, acompanha-se, não se resolve fugindo, nem sequer
com a morte se resolve. Contudo, pense quão libertador e positivo é, também
desde o ponto de vista terapêutico, a criança entender mais além da enfermidade
ou da má-formação.

Sabemos pela leitura científica que o modo em que um filho deficiente é aceito
depende muitíssimo do caráter dos pais, mas também do ambiente humano que o
rodeia. Obviamente isto não significa o mal oposto, isto é, que o médico é
árbitro absoluto da vida, mas queria fazer entender quanta incerteza existe.

–O caso de Terri Schiavo suscitou apreensão?

–Dr. Bellieni: É óbvio, mas o problema permanece idêntico: que sofrimento se
quer atender em uma pessoa que “não sente nada”? É aparentemente um
contra-senso! O fato é que se permanece demasiado na superfície: vê-se um
«estado ao que nós não queríamos chegar e, por indução, pensa-se que esse é um
estado impossível de viver. A realidade é que temos uma idéia tão estreita de
nossa vida que cremos possível que seja digna só se tem certas características.

–Então por que há um impulso a favor da eutanásia?

–Dr. Bellieni: Creio que isto está bem explicado pela palavra «handifobia»: a
fobia para com «o handicap» (a deficiência. Ndr), a fobia do que não está sob
controle, que impede de pensar com serenidade em quem é deficiente. Talvez
pensamos nele para compadecer, mas jamais como em alguém que é substancialmente
idêntico a quem não é deficiente.

Parece paradoxo, mas dá mais medo a realidade imaginada que a realidade
verdadeira. Quantas famílias conhecemos que estavam aterrorizadas pela idéia de
ter um filho com grave paralisia ou com grave retardo mental e que no momento
em que esta circunstância se manifestou entenderam algo fundamental: sua vida
mudava, mas não acabava! Ao contrário, a «handifobia» é o medo do que não
sabemos dominar, calcular e medir, e que como em todas as fobias deve
desaparecer.

–Há mais pontos problemáticos?

–Dr. Bellieni: A dúvida da certeza do diagnóstico, que é verdadeiramente árdua
em período perinatal, J.M. Lorenz, de neonatologia da Columbia University,
valorizando o pró e o contra dos esforços de reanimação, escrevia na revista
«Pediatrics», em 2004: «Os esforços para reduzir o número de sobreviventes
deficientes através de uma reanimação neonatal seletiva levam a uma diminuição
de deficientes sobreviventes, mas algumas crianças que haveriam sobrevivido sem
deficiência morreriam».

Também, a dúvida ética: segundo um artigo do «Journal of American Medical
Association», Peter Singer justifica o infanticídio sobre a base da «utilidade
total»: «Quando a morte de uma criança deficiente leva ao nascimento de outra
criança com melhores perspectivas de vida feliz, a quantidade total de
felicidade será maior se a criança deficiente é morta».

–Que solução pode haver no caso de uma criança com sérias lesões cerebrais?

–Dr. Bellieni: Não deixá-la só. Nem ela e nem sua família. A criança quer a
sua família, e sua família quer uma companhia no médico e nas enfermeiras, que
ajudem a identificar um caminho para a terapia. E se não é possível uma terapia
que devolva a saúde, deve haver ser ao menos possível um caminho para a
compreensão, para o confronto racional da circunstância, para que os pais não
fiquem inválidos por sentimentos de culpa ou de impotência. E deve ser prevista
também uma participação séria da comunidade e das autoridades que abram a todos
os canais de apoio e de facilidades para a família.

Ouvir falar de eutanásia não é confortante para as famílias que empreenderam
este caminho há anos! Necessitam-se em todo caso de linhas mestras para ajudar
a distinguir entre quem é não-reanimável enquanto é sem dúvida moribundo, e
quem, ao contrário, está seriamente ferido como para correr perigo de
deficiência, mas não de morte, ou quem, finalmente, tem pelo menos só um grave
risco.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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