A Família: Dom e Compromisso, Esperança da Humanidade – Parte 3

É impressionante ver como se
perde terreno onde se davam passos promissores para o reconhecimento da criança
no seu lugar central, não periférico ou marginal. A criança é um ser ameaçado,
já quando é no ventre da mãe, que os parlamentos transformam no lugar das mais
injusta sentenças de morte! Enquanto se dão passos firmes na “Convenção
dos Direitos da Criança” das Nações Unidas (sem considerar então as
relações e oscilações em algumas partes, justamente submetidas ao tratamento
das “reservas” por parte da Delegação da Santa Sede), e a Igreja luta
por um estatuto de proteção da criança, proliferam os atentados, de toda
espécie e não encontra-se sempre a devida coerência entre aquilo que se escreve
e promete e a conduta concreta. Existe um abismo de separação entre a
“Convenção” das Nações Unidas e certas recomendações do Parlamento
Europeu.É ainda muito tímida a reação diante os escândalos que golpeiam e
sacodem salutarmente a consciência dos povos, mesmo se tais situações sejam a
consequencia de uma permissividade difundida. São as crianças as principais
vítimas! Esta atitude pode representar um caminho de retorno depois da
prostração.

De acordo com a Familiaris
Consortio, n. 26, sobre os direitos das crianças, o Pontifício Conselho para a
Família veio explicando, com meios bem limitados, uma mobilização das
consciências, especialmente, no que diz respeito à “autoridade” da
criança na família e na sociedade. O Santo Padre já havia expressado na
audiência geral das Nações Unidas, de 2 de outubro 1979: “A solicitude pela
criança, ainda antes do nascimento, desde o primeiro momento da concepção e
depois nos anos da infância e da juventude é primária e fundamental prova da
relação do homem com o homem” (F.C. 26). O “teste” para a
verificaçao do estado de saúde da família e da sociedade é dado pelo cuidado
amoroso pelas crianças. Fico muito preocupado em ver que os esposos dao
ecessivo peso aos “seus” problemas (como se o filho pudesse ficar às
margens) em busca de uma felicidade que se apresenta esquiva e inacessível,
longe dos pontos de referência que regularam a vida daqueles que decidem
compartilhá-la, deixado em segundo lugar as situações do filho. Não é o
divórcio uma prova inconfundível que o filho sofre pela falta de amor”?

A preocupação pelo filho dá
em um processo normal, um sentido novo de responsabilidade e o casal não pode
resolver “os seus problemas” a perda e o dano de quem se transforma
no testemunho da qualidade do seu amor e dos graus de personalidade de quem os
deram a vida37. A criança pode transformar-se também numa vítima que reclama
seus direitos, mesmo se o faz no silêncio.

Cresce a preocupação pelos
custos sociais e pela destruição dos direitos das crianças, porém não se vê
como dar continuidade numa sociedade que caiu num sono pesado. Contemplando a criança
como dom, na transparência de uma inocência que convida a tratá-lo com um amor
privilegiado, comprometido e terno, torna-se mais penoso o contraste da sua
negação de fato.! Diríamos que junto ao portal de Belém são mais escuros os
riscos dos propósitos de Herodes, como são os massacres físicos e morais, que
cobrem as vítimas mais indefesas.

M. Zundel oferece um
belíssimo texto que serve também para ver o horroroso contraste: “Quem não
se sente impulsionado à oração diante do espetáculo maravilhoso da criança que
dorme?. As inumeras possibilidades se ligam à pureza original do dom”38. E
pensar nas terríveis matanças que ocorrem! Visitei uma Paróquia no Ruanda:
durante o genocídio (que com outras modalidades não termina) foram assassinados
no templo e aproximadamente 6000 mulheres e crianças. A humanidade prossegue no
seu “autogenocídio”, e refiro-aos abortos que sepulta o próprio
futuro!

Se é verdade aquilo que diz
Platão, segundo o qual “a educação das crianças, a Paideia, é o princípio
de que se vale toda comunidade humana para a própria conservação”, observa
um jornalista, temos que dizer que as comunidades que, em lugar de educar os
filhos, os usam para o sexo, para a guerra, o mercado, a publicidade, decidiram
já sua extinção e bem têm consciência.

Ser filho, por outra lado,
exige uma maneira de viver, um comportamento: o filho orgulha-se de seu pai e o
manifesta com o gesto de pôr-se em suas mãos, como ato que exprime a suprema
confiança que o pai corrigirá tudo aquilo que é errado e desordenado. Reconhece-se
como filho quando dialoga com seu pai e o chama na confiada apelação como Abba!
É o relacionamento de Jesus com seu Pai, que vai desde a infância até a morte,
até o último grito do Filho abandonado do Pai sobre a cruz. Jesus entra numa
especial relação, no contexto familiar, com sua Mãe, de cujo ventre provêm.
“Bendito é o fruto do teu ventre”. É uma relação que vai muito além
dos limites biológicos, e que alcança as dimensões insuspeitáveis de um diálogo
que frutifica na obediência pronta, terna, decidida a cumprir a vontade de
Deus. “Uma mulher levantou a voz no meio da multidão e disse:
“Bem-aventurado o ventre que te trouxe e os peitos que te
amamentaram!” Porém ele disse: “Antes bem-aventurados aqueles que
ouvem a palavra de Deus e a põe em prática.” (Lc. 11, 27-28). É um
aforismo corrente que Tangum Yeronshami recorreu parafraseando a bênção de
Judas sobre José. Jesus não contradiz esta bem-aventurança, que bem sabe merece
plenamente sua mãe, mas anuncia uma bem-aventurança superior.39

Os filhos, que são um dom de
Deus (Salmo 126, 3), tem a responsabilidade de configurar-se como dom aos pais,
obedientes à vontade de Deus, confiando neles, na mesma corrente que leva até
Deus. Jesus “Desceu com eles, foi a Nazaré e era-lhes submisso” (Lc.
2, 51) obsoluta perfeição o mandamento: “Honra teu pai e tua mãe, a fim de
que tenhas uma vida longa sobre a terra que o Senhor teu Deus te dará”
(Êx. 20, 12, Dt. 5,16). “A família cristã é uma comunhão de pessoas,
reflexo e imagem da comunhão do Pai e do Filho no Espírito Santo” (C.E.C.,
n. 2205).

O filho é um dom que
fortalece notavelmente o vínculo matrimonial e serve de cimento à compreensão
dos esposos que constroem juntos um projeto comum, os faz sair de si mesmos
para encontrar-se no seu futuro, que é a vida nova que deles, unidos ao Deus
Criador, surgirá. Projetados no filho, constróem seus futuros. De certa forma
este, os primeiros evangelizadores de seus filhos, são também por eles
evangelizados. O cuidado dos filhos se traduz em confiança, como atitude humana
fundamental. Escreve Giuseppe Angelini: “É conhecido por todos (.) o
grandíssimo valor que os filhos encontram na compreensão recíproca entre os
pais. Mais ainda, que de grandíssimo valor, é necessário falar de uma
incapacidade radical dos filhos pequenos a imaginar suas vidas e o mundo
inteiro sem esta compreensão” (.). Assim sendo, os filhos serã uma bênção.
uma iluminação do sentido amplo da vida40. Uma exigência para receber o dom dos
filhos que compromete, é saber empenhar-se; “A verdade no ato generativo
exige portanto que, desde o começo, o homem e a mulher prometam-se a si mesmo
àquele que deve vir.”41

Todos estes aspectos, que
nós nos limitamos a apresentar e que merecem ser aprofundados numa teologia dos
valores da “pessoa e do dom”, que alcançam altos graus de grandeza
para o fiel, não eram propriamente desconhecidos à sabedoria, na cultura
secular. Vejamos Aristóteles: “Os pais amam de verdade os filhos porque os
consideram uma parte derivada deles(.). Os pais amam os filhos com a si mesmos,
pois os filhos concebidos por eles, são como eles mesmo. e os filhos amam seus
pais porque deles tiveram origem (.). Enfim, os filhos são considerados um
vínculo e è por isto que os cônjuges sem filhos separam-se mais rapidamente; os
filhos são um bem comum para ambos e o que é comum mantêm unido”42.

As relações na família
observa Giorgio Campanini, à luz do Evangelho adquirem outras dimensões:
“Honra o pai e a mãe” (Dt. 15,4) pode levar à formas variadas de
submissão dos filhos; segundo diversos contextos o cuidado dos filhos não foi
sempre desinteressado. “O Evangelho introduz no âmbito das relações entre
pais e filhos a nova categoria do “serviço”, que não exclui mas
supera definitivamente àquela da “autoridade” (Mt. 20, 26), mudando a
tradicional relação de submissão”. Diríamos talvez que é enriquecida a
concepção e enfoque de uma autoridade imposta ao serviço do crescimento dos
filhos. E esta, parece-me, a perspectiva do autor ao recordar: “Entender o
exercício da autoridade como realização de um serviço implica que aquele que
está em alto faça daquele que está embaixo o centro de suas
preocupações”43. É uma subordinação transitória, no Senhor, que realiza-se
e leva ao amadurecimento. Novamente, o amor busca o bem do outro, não o próprio
domínio. O amor dos pais não deve ser “possessivo”, pois assim
tiraria oxigênio aos filhos e impediria seu crescimento. Em tal sentido, a
autoridade familiar é “excêntrica” enquanto tem fora dela seu centro.

O filho, centro das
preocupações, faz com que os pais inclinem-se à esse bem comum no qual se
encontram em pessoal convergência, como profunda urgência vital, existencial,
uma forma característica de propósito comum, que desde a sua íntima comunhão
realiza-se desde o fruto do seu amor, fruto bento, no duplo caráter de
“serviço” e da “provisoriedade”. Projeto e propósito comum
que vão desde o momento da procriação até o seu completo desenvolvimento.

No pensamento se S. Tomás
como em um útero integral, “o tipo de relacionamento de
“submissão” evangélica, (para não esquecer o “estava
sujeito” ou “era submisso”) torna-se de valor exemplar para a
própria sociedade e para o exercício da autoridade. Assim a autoridade familiar
pode ser proposta como tipo ideal de cada forma de autoridade exercitada no espírito
do Evangelho”44.

O Catecismo da Igreja
Católica observa, dentro desta perspectiva: “A estabilidade, autoridade e
a vida de relação no seio da família constituem os fundamentos da liberdade,
segurança, fraternidade no âmbito da sociedade” (C.E.C., n. 2207).

O compromisso da educação
dos filhos põe em tal perspectiva a autoridade, superando a tendência
instintiva a transferir ou amoldar os filhos à própria personalidade e às
próprias expectativas, e requer que haja um real empenho de educação na fé (cf.
G.S, 48).

4. A FAMÍLIA, DOM PARA A SOCIEDADE

“A família é a célula
originária da vida social”. É a sociedade natural em que o homem e a
mulher são chamados ao dom de si mesmos no amor.A vida familiar é fundamento da
sociedade e iniciação na mesma” (C.E.C., n. 2207).

Nesta necessária dimensão
não devo prolongar-me, já que foi tratado em outros momentos e reflexões.
Limito-me só à algumas considerações de caráter geral.

O Concílio já sublinhava, no
começo do capítulo “Dignidade do matrimônio e da família”: “A
salvação da pessoa e da sociedade humana e cristã está diretamente ligada a uma
favorável situação da comunhão conjugal e familiar” (G.S., 47). E mais
adiante, com termos não menos expressivos, declara: “Porque é o próprio
Deus o autor do matrimônio, dotado de muitíssimos bens e fins vários, tudo isto
é de suma importância para a continuação do gênero humano, para a perfeição e o
destino eterno de cada membro da família, para a dignidade, estabilidade, paz e
prosperidade da mesma família e de toda a sociedade humana” (G.S., 48).

A família é um dom para a
sociedade e exige desta um adequado reconhecimento e apoio, e das famílias
espera-se o assumir de sua missão política.

A exortação apostólica
Familiaris Consortio, dedica o capítulo III, da terceira parte, à
“participação ao desenvolvimento da sociedade” (nn. 42-48), pois a
família, “célula primária e vital da sociedade” (A.A., 11), possui
vínculos vitais e orgânicos com a sociedade, porque constitui seu fundamento e
alimento continuo mediante a sua função de serviço à vida (.). Longe de
fechar-se em si mesma, a família abre-se às demais famílias e à sociedade,
assumindo sua função social” (F.C., 42).

Não são fáceis e
transparentes as relações entre a família e a sociedade, através do Estado. E
isto por vários aspectos. O Estado invade campos que antes estavam reservados à
família. E enquanto a democracia abana a bandeira do respeito e da
participação, a família se vê cada vez mais colocada em um espaço menor, aonde
dificilmente respira, e sente-se acusada e provocada. O poder do Estado
torna-se onipotente. De alguma maneira o movimento de privatização, no âmbito
da intimidade, bem pode representar uma forma de fuga, e refúgio, em relação
aos compromissos que a família tem com a sociedade. Pier Paolo Donati indica:
“A família torna-se (.) sob o ponto de vista “psicológico”, uma
forma particular de convivência, de comunicação privatizada e
“subjetivada”, de pura manifestação de intimidade e afeto, que não
incide,- e não deve incidir-, de modo significativo, senão por outras razões de
retardo social e cultural”45.

É este um fenômeno complexo
que aborda em uma de suas dimensões Paul Moreau, seguindo F. Chirpaz: no mundo
de “fora” precisa-se produzir e lutar para viver. É o mundo da
competição econômica e dos conflitos políticos. Em troca, é a afirmação de
Chirpaz, “o mundo familiar pode parecer, por contrapartida, e em oposição
à sociedade, o lugar do privado aquele da relação humana verdadeira”46. A intimidade como refúgio
diante da sociedade ameaçada, ou diante do próprio Estado hostil, diante de uma
sociedade que gera pena, seria o lugar da autenticidade da verdade e da paz.
Curiosamente a cidade atrai, porém às vezes produz desafeição, moléstias,
alimenta e nutre o sonho virgiliano do campo diante da cidade insuportável,
agressiva e desorganizada. Essa concepção da privatização, que subtrai à
família sua função diante da sociedade, pode mascarar-se em todos tipos de
razões e comportar atitudes individualistas, egoístas de desinteresse. É a
oportuna denuncia de Moreau: “Fugindo deste mundo, no abandono das pessoas
honestas como eu, deixo a pessoas sem fé e sem lei”47. Objetivamente é um
ato de irresponsabilidade o desertar a “politeia”: “(.) Fugir do
perigo não é afrontá-lo e quem se satisfaz com o fugir da sociedade48
(démission de sa qualité de citoyen), chega a ser objetivamente cúmplice da
degradação que atinge a sociedade.

Refugiar-se no privado e não
opor-se, é uma tentação que facilita a ambição do novo domínio do Estado, que
termina não só por não reconhecer na família algo de “soberano”,
anterior ao proprio Estado, mas por isolá-la na impotência de quem não tem mais
força.

É legítima, também, a
preocupação de Campanini: “A moral familiar não tem como exclusivo âmbito
de exercício, as paredes domésticas (.). Existe, da parte da família, o preciso
dever de concorrer à humanização da sociedade e a promoção do homem.
Precisamente porque é, enquanto estrutura, ponto de encontro entre o público e
o privado, a família não pode isolar-se na sua própria intimidade (que,
entendida privadamente, seria falsa e deformada), mas que chamada a fazer-se
cargo dos problemas da sociedade que a circunda. Sobretudo, a instauração desta
relação aparece, nas sociedades industriais avançadas, caracterizadas por uma
forte incidência da esfera pública na vida familiar, condições quase necessária
para o mesmo cumprimento correto da missão educativa”49.

O Santo Padre João Paulo II
sublinha a importância da família, a qual deve ser reconhecida como
“sociedade primordial” e, num certo sentido, “soberana”.
Este conceito, bem interessante, é explicado pelo Papa na Carta às Famílias,
Gratisssimam sane, com seus detalhes precisos, tratando da família e da
sociedade (cf.Grat. sane, 17).

A família é uma sociedade
soberana, reconhecida na sua identidade de sujeito social. É uma soberania
específica e espiritual, como realidade solidamente enraizada, mesmo que seja
condicionada por diversos pontos de vista. Os direitos da família, diretamente
ligados aos direitos do homem, devem ser reconhecidos, na sua qualidade de sujeito,
que realiza o desenho de Deus, e exige direitos particulares e específicos,
citados na Carta dos Direitos da Família. Recorda o Papa suas raízes nos povos,
na sua cultura (aqui escreve o conceito de “nação” e suas relações
com o Estado, este reveste uma estrutura menos “familiar” organizado
como um sistema político e de forma mais “burocrática”), porém que
tem “uma alma” na medida em que responde à sua natureza de comunidade
política. É aqui precisamente aonde posiciona-se, na relação da família com
“a alma” do Estado, o princípio de subsidiaridade, no quadro da
Doutrina Social da Igreja. O Estado não deve ocupar o lugar e a missão que tem
a família , violando a sua autonomia. É categórica a posição da Igreja, fundada
numa experiência que não pode ser negada: “Uma invasão excessiva do Estado
mostraria-se não só irrespeitável como nociva. A intervenção justifica-se,
dentro dos limites do princípio mencionado, quando a família não é suficiente
para atender o que lhe corresponde” (Grat. sane, 17).

Quando a família, bem
necessária à sociedade, não é respeitada, ajudada, mas obstaculizada, cria-se
um vazio imenso, desastroso para os povos (ex. O divórcio, a nivelação do
matrimônio, “a mera união que pode ser confirmada como matrimônio na
sociedade”, a permissividade, etc.). Conclui o Papa: “A família está
no centro de todos os problemas e deveres: associá-la a um papel subalterno e
secundário. significa causar um grande dano ao crescimento autêntico do corpo
social” (Grat. sane, 17).

Como aplicação do princípio
de subsidiaridade no campo educativo, é necessário lembrar que a Igreja não
pode delegar completamente esta missão!

Devo limitar-me aqui à
simples anunciação do problema das mediações sociais, que vão distanciando as
famílias dos campos nos quais a sua presença era benéfica e desejada.

Pierpaolo Donati reflete
sobre “as novas mediações familiares”, e propõe esta pergunta:
“A família não mais mediadora no social? Em alguns campos a família é
tratada com um “resíduo” chamado em causa só em casos problemáticos.
Difunde-se a sensação que a família deve desaparecer da cena pública. Chega-se
até a qualificar como “sobrevivências” o empenho matrimonial, a
valorização da estabilidade50. Todavia, Pierpaolo Donati adverte com razão:
“De fato, nenhuma investigação no campo confirma hoje a irrelevância da
proveniência da família nas esferas não familiares. Portanto se por alguns
aspectos e alguns âmbitos, as mediações familiares diminuem ou se perdem, por
outros, aumentam e surgem outras novas. No conjunto a importância da família
nas várias esferas não familiares. não somente continua a existir, mas
aumentada seja nos comportamentos de fato, seja nas exigências de legitimação
cultural e também política”51. Existe uma configuração toda nova. Se a
família não define o estado social (e pode ser algo positivo), torna-se porém,
sujeito de relações imprevistas.

Hoje entende-se que o filho
não é um átomo isolado ou um monge no esquema de Leibnitz, uma ilha, uma
molécula que flutua no vazio. Retorna a preocupação pelos direitos das
crianças. Busca-se o direito à identidade biológica do filho, como também as
raízes culturais, étnicas e históricas. Observa Donati:” No passado era a
sociedade a impor à família as mediações que esta devia exercitar; hoje, é o
indivíduo a gozar do direito de valer-se dessas mediações, de fazê-las emergir
e de valorizá-las”.52 Depois observa: “As mais recentes investigações
põem em evidência que a família média, de forma diferente do passado, uma
quantidade de relações e posições sociais, que esquecem de ser menos
importantes de um tempo, mas ao contrário, são mais decisivas para o destino
social e a qualidade de sua vida”53.

Este sociólogo reconhece
campos em que o desconhecimento estende-se de forma alarmante, especialmente no
campo político, que deveria ter o maior interesse, pelo menos em circunstâncias
nas quais não podem ocultar-se efeitos e reações negativas54. É acentuada a
separação no campo educativo55.

Existe novas formas de
mediações, que procedem de um descobrimento mais profundo da família, como
sujeito, e isto particularmente no campo de uma visão humanizada,
personalizada, por exemplo em tudo que a família representa necessariamente
para o crescimento harmônico do filho: A mediação do amor no lar, ou o calor
humano no acompanhamento do ancião e o rico suporto de sua experiência na
família concebida em forma mais ampla, em razão da solidariedade entre as
gerações56. A “subjetividade” da família é muito importante para a
formação da identidade pessoal da criança, na qual necessita de um ambiente de
família, como um direito fundamental57.

Nestas circunstâncias,
precisa dizer que se por alguns aspectos vem esquecida a família como bem
social, por outros aspectos emerge o valor da família, como um novo bem58.

Tudo isto vem evidenciar
aspectos essenciais da mediação da família, pode talvez, liberar à instituição
familiar de outras mediações acidentais da qual, em um determinado momento,
pode-se prescindir sem atingir nem o núcleo familiar, nem o tecido social. A
família pode ser transmissora de valores, ou centro de mediações que resultem
mais decisivos para a qualidade da vida social e para a ética pública. Esta
perspectiva coincide com o que diz a Carta dos direitos da Família: “A
família constitui, mais que uma comunidade jurídica e econômica, uma comunidade
de amor e solidariedade, insubstituível para o ensino e transmissão dos valores
culturais, éticos, sociais, espirituais e religiosos, essenciais para o
desenvolvimento e bem estar de seus próprios membros e da sociedade”59.

Configura-se nas novas
mediações uma nova cidadania da família60. Neste sentido a incorporação na
sociedade não se teria em base a família a qual se pertence, (como no passado),
como uma espécie de passaporte ou carta de crédito, a partir dos
“sobrenomes”. Esta etapa, em princípio parece superada e se fosse
assim, seria algo positivo. Na realidade, a incorporação se teria em base a
identidade, a harmonia do desenvolvimento da personalidade adquiridas sobretudo
em família. Não
se verificaria o caso de quem descansa “enquanto seus sobrenomes
trabalham”, mas teria importância a profissão adquirida e obtida com a
capacidade, a integridade. Nesta perspectiva a família é a primeira escola de
virtudes. Numa nova cidadania ocupa lugar destacado o conjunto de novas
relações em que a mulher seja amplamente valorizada com seu direitos e deveres
e não como “submissa” à uma dependência masculina da qual com razão
se preocupam alguns movimentos feministas, (não na versão radical). É este
setor no qual se exprime algo mais amplo, como é o respeito dos direitos
fundamentais da pessoa humana, que em relação com a família não limita-se ao
reconhecimento de menos direitos individuais61.

Em termos de mediações para
os valores de autêntica humanidade e a partir da família, hoje fala-se dos
altos custos sociais devido a falta de reconhecimento à instituição familiar.
Como sociologo, Donati aqui põe o dedo na chaga: “Pode-se observar que,
realmente, uma quantidade crescente de problemas sociais nascem da falta de
reconhecimento e de apoio das funções de mediações sociais da família. O
testemunha o aumento de mal estar, doenças,enfermidades mentais, de degradação,
suicídios e tentativas de suicídios entre jovens, do mesmo modo em que é
indicativa as carências familiares na persistência da evasão escolar”62.

“A sociedade moderna,
observa o mesmo autor, tentou eliminar toda mediação entre o indivíduo e a
sociedade”. Buscou a auto realização do “puro indivíduo”, numa
“sociedade aberta”, feita de simples indivíduos. O resultado foi
perder o indivíduo, e negar a mediação familiar, deixá-lo “sem casa”,
com graves conseqüências. O “indivíduo” que determina é um
“sujeito fraco”, necessitado de construir “ex novo” formas
de mediações sem as quais não podem existir nem “sociedade” nem
“sujeito humano” 63.

È necessário uma nova casa,
onde a família volta a ter a sua real importância. Não podem coerentemente
queixar-se deste vínculo “unidade- nós” universal, ou que não existia
altruísmo quando negam-se os valores da identidade de nós que è a família, nas “pequenas
solidariedades quotidianas”. A família é necessária para a sobrevivência e
existência da mesma cidadania política64. Ninguém pode deixar de lado “uma
relação de confiança, ajuda, apoio primário no decorrer da própria
vida”65.

Ficar “sem casa”,
sem família pelos caprichos suicidas do Estado, é para o ser humano sentir-se
reduzido a nada, exposto às intempéries, e ser ameaçado na raiz da sua
personalidade. Sejamos sinceros : estes indivíduos fracos são a prova do
fracasso de hipóteses aventureiras, de uma péssima antropologia, de um vazio
imersos na concepção do ser humano como pessoa e da própria sociedade. Para não
alterar totalmente tal direção, como evitar um colapso universal? Este perigo a
nível universal ou aquele de uma nação deve fortalecer a reação saudável e a
função política e social da família66. Exige também que seja reconhecido o
direito da família de “poder contar com uma adequada política familiar da
parte das autoridades públicas no campo jurídico econômico, social e fiscal,
sem nenhuma discriminação” (Art. IX). A família tem direito de existir e
progredir como tal. (Art VI).

Só a aproximação aos
indivíduos não basta, pois desconhece “a subjetividade familiar”, a
casa como centro e fonte de relações, sem as quais a sociedade se perde!

Os custos sociais do não
reconhecimento das mediações familiares, com os obstáculos que tem o perigo de
imobilizá-la politicamente e em sua influência social, repetimos, tem suas
vítimas sobretudo nas crianças. Impressionam as informações e dados que oferece
a Revista Concilium dedicada ao tema: “Aonde estão as nossas
crianças?”, aquela que com razão qualifica-se de “catástrofe
silenciosa”67, mais penosa porque contrasta com um leque de soluções
possíveis. Como não denunciar um terrível vazio de solidariedade e a falta de
vontade política de oferecer súbito soluções.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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