A Familia: Dom e Compromisso, Esperança da Humanidade – Parte 2

O matrimônio natural possuía
“uma certa sacramentalidade”, no sentido amplo, como sinal
prenunciador do mistério de tal união, na razão da íntima unidade de uma só
carne, introduzida (de alguma forma) no mistério da Aliança de Deus com a
humanidade, na linguagem da criação de Deus com seu povo (cf. Os., 1-3), de
Cristo com a Igreja.22 “Maridos amai as vossas mulheres como também Cristo
amou a Igreja e por ela entregou a si mesmo.Por isso o homem deixará seu pai e
sua mãe e se unirá a sua mulher; e serão os dois uma só carne. Este mistério é
grande, eu digo em relação a Cristo e a Igreja” (Ef. 5,25. 31-33).

Neste texto central da Carta
aos Efésios, no versículo 25, o modelo é a doação de Cristo, na linguagem do
sacrifício (en auton paredoken) com que se exprime o amor supremo, sem limites:
amor sacrificado! O “tradidit semetipsum”, doação total e radical,
que é o modelo , é o mistério fundamental que abraça a aliança conjugal. O
mistério (cf. v. 32), refere-se ao processo que tem o seu “tipo”, o
seu modelo em Cristo e na Igreja. É necessário ter presente que ao falar do grande
mistério, o autor indica a importância do mesmo, a sua força expressiva, não a
obscuridade. O mistério da união matrimonial de Cristo e na Igreja é
reproduzido no matrimônio do homem e da mulher.23

Estamos no âmbito sagrado de
uma doação e uma entrega que adquire sua plena iluminação em Cristo, na sua
paixão redentora. É o que sublinha o Concílio de Trento na seção XXIV, Dez
1969: “Gratiam vero quae naturalem illum amorem perficeret, et
indissolubilem unitatem confirmaret coniugesque sanctificaret: ipse Christus.
sua nobis passione promeruit”. Max Zerwick, comentando o texto chave que
nos ocupa, escreve: “Sendo assim o matrimônio humano é algo mais que uma
simples figura quando realiza-se entre membros de Cristo: deve realizar a união
amorosa de Cristo com a sua Igreja. Assim, portanto, o matrimônio não é
meramente figurativo, mas é participação real no que Paulo chama o grande
mistério”.24

O “tradere se ipsum”
de cada um dos cônjuges à semelhança de Cristo, observa Carlo Rocchetta,
“é um ato pela sua natureza perpétuo. um sacramento permanente”.25

O consentimento que os
esposos se dão e se recebem mutuamente, é selado pelo próprio Deus (cf. C.E.C.,
n. 1639). O vínculo do matrimônio estabelecido por Deus é irrevogável, de tal
maneira que não está no poder da Igreja pronunciar-se contra esta disposição da
sabedoria divina (cf. C.E.C., n 1640). Infelizmente foi divulgada a idéia que o
Papa e os Bispos poderiam, se superassem as regras, introduzir modificações e
abrir portas à dissoluções pelo menos em casos excepcionais. Precisa repetir
esta verdade com decisão e amor: isto não está no poder da Igreja. Portanto: non
possumus! E não poderia-se pensar que seria subtraída à divina sabedoria, a
situação, mesmo se excepcional, de um casal. Retorna a sentença ligada ao
projeto original e pensado por Cristo: “Não separe o homem o que Deus
uniu” (Mt. 19,6). Como poderia-se, pois, introduzir modificações no nome
de Deus, fiel à Aliança que na sua misericórdia tutela e preserva o bem do
matrimônio?

Acredita-se, por outro lado,
que a indissolubilidade é uma exigência ideal, porém irrealizável. Poderia Deus
dar a este empenho, um peso que sendo irrealizável, resultaria inclemente e
insuportável aos esposos? Ele, o autor do matrimônio, que vai ao encontro dos
esposos cristãos, oferece a sua graça, a sua força para que na igreja doméstica
eles sejam capazes de viver na dimensão do Reino.

É preciso refletir, tendo em
mãos o Catecismo da Igreja Católica, sobre toda a riqueza do matrimônio no
plano de Deus, em todas as considerações que se fazem a respeito do matrimônio
na ordem da criação, sobre a escravidão do pecado e em relação ao matrimônio no
Senhor. O projeto original de Deus vem considerado neste sentido: “a
vocação ao matrimônio faz parte da própria natureza do homem e da mulher, os
quais saíram da mão do Senhor” (C.E.C., n. 1603). Não é portanto, uma
instituição meramente humana, submetida ao arbítrio do homem. Deus mesmo é o
autor do matrimônio (cf. C.E.C., n. 1603).

Responde à natureza da
comunidade de vida e amor conjugal, regulada por leis próprias, e acolhe coma
alegria e confiança a vontade de Deus. Sobre a escravidão do pecado, o
matrimônio é ameaçado pela discórdia, o espírito de domínio, da infidelidade. É
uma desordem (oposta à ordem original) que não origina-se da natureza do homem
e da mulher, nem da natureza das suas relações, mas do pecado” (C.E.C., n.
1607). Introduzem-se rupturas e distorções, relações de domínio e avidez, porém
“a ordem da criação permanece, mesmo se gravemente perturbada. O homem e a
mulher precisam da ajuda de Deus e da sua infinita misericórdia, para realizar
a união de suas vidas na ordem que Deus criou “no princípio” (C.E.C.,
n. 1608). Na pedagogia da antiga Lei, “a consciência moral relativa à
unidade e indissolubilidade desenvolveu-se”. Na sua predicação Jesus,
“ensinou sem ambigüidade o sentido original da união do homem e da
mulher”. “Esta invocável insistência na indissolubilidade do vínculo
matrimonial é para restabelecer a ordem da criação perturbada pelo pecado”
(cf. C.E.C., nn. 1614, 1615). No matrimônio no Senhor, os esposos
“seguindo Cristo, renunciando a si mesmos.poderão “compreender”
o sentido original do matrimônio e vivê-lo com a ajuda de Cristo” (C.E.C.,
n. 1615).

3. O filho, o dom mais excelente

Santo Agostinho ensinava:
“Entre os bens do matrimônio ocupa o primeiro lugar a prole. Foi o próprio
Criador do gênero humano quem quis servir-se na sua bondade dos homens como
ministros para a propagação da vida.”26 A Exortação Apostólica Familiaris Consortio
declara: “A tarefa fundamental da família é serviço à vida, o realizar no
decorrer da história a bênção original do Criador, transmitindo a imagem divina
pelas gerações de homem a homem” (F.C., n. 28). São duas as expressões que
precisam ser sublinhadas: os pais são ministros e servidores da vida.

A vida deve surgir no
matrimônio, como o lugar adequado, o mais excelente, aonde a vida é desejada,
amada, acolhida e onde realiza-se todo o processo de formação integral.

O Concílio Vaticano II
afirma: “Pela sua natureza a própria instituição do matrimônio e o amor
conjugal estão ordenados à procriação e à educação da prole e nestes encontram
a sua coroação” (GS., 48). Com forma mais expressiva indica que “os
filhos são, certamente, o dom por excelência do matrimônio e contribuem muito
ao bem dos próprios pais” (GS., 50). A inclusao desta vigorosa afirmação
provêm do desejo pessoal do Santo Padre Paulo VI. O filho é um dom que nasce do
dom recíproco dos esposos, como expressão e plenitude da sua mútua doação. É
uma maravilhosa corrente de dons que o Catecismo da Igreja Católica põe em
relevo : “A fecundação é um dom, um fim do matrimônio, pois o amor
conjugal tende a ser fecundo naturalmente. O filho não vem externamente para
acrescentar o amor mútuo dos esposos, mas brota no coração deste dom recíproco,
portanto é fruto e realização. Por isto a Igreja que “está a favor da
vida” (F.C., 30), ensina que “todo ato matrimonial deve ficar aberto
à transmissão da vida” (H.V.,11) (.) O homem não pode romper por
iniciativa própria, entre os dois significados do amor conjugal: o significado
da união e da procriação” (C.E.C., n. 2366). E cita o Catecismo novamente
a Humanae Vitae: “protegendo ambos estes aspectos essenciais, da união e
procriação, o ato conjugal conserva íntegro o sentido do amor mútuo e
verdadeiro e a altíssima vocação do homem e da paternidade” (H.V., 12)
(C.E.C., n. 2369).

Os filhos são “um bem
comum da futura família”. As palavras do consentimento o exprimam:
“Para colocá-lo em evidência, a Igreja faz a eles (aos esposos), uma
pergunta, se estão dispostos a acolher e educar cristãmente os filhos que Deus
doará a eles (.) A paternidade e maternidade representam um dever de natureza
não só física mas espiritual” (Grat. sane, 10). E mais adiante ensina:
“quando os esposos transmitem a vida a seu filho, um novo “tu”
humano insere-se na órbita dos “nós” dos cônjuges, uma pessoa que
chamarão com um novo nome.” (Grat.sane,11).

O Santo Padre posiciona esta
doutrina no contexto da teologia do dom da pessoa, e na perspectiva do
Concílio, do “dom mais precioso” (G.S., 50).

A existência do filho é um
dom, o primeiro dom do Criador à criatura: “O processo da concepção do
desenvolvimento no ventre materno, do parto, do nascimento, serve para criar o
espaço apropriado, para que a nova criatura possa manifestar-se como um
dom” (Grat. sane, 11). Dom para os pais, para a sociedade, para os membros
da família. “A criança torna-se dom a seus irmãos, irmãs, a seus pais e a
toda a família. A sua vida transforma-se em um dom para os doadores da
vida” (ibid).

É preciso respeitar o
sentido do amor mútuo e verdadeiro, o significado da recíproca doação aberta a
vida. A contracepção propõe objetivamente uma linguagem contraditória a
linguagem que expressa uma doação recíproca e total. A linguagem torna-se inexpressiva
e portanto, mentirosa. Uma linguagem que não é veículo da verdade, mas de
mentira, com a desordem objetivamente implícita na contracepção opõe-se ao amor
(de certa forma não consegue nem mesmo tutelar totalmente o significado da
união). Só o amor mútuo e verdadeiro que exprime sem reservas a doação total,
tem a força própria do amor conjugal. Quando o casal livre e consciente se
deixa levar por outra lógica e toma a estrada sistemática da contracepção, não
põe talvez uma espécie de bomba do tempo na sua própria união conjugal?

Com particular força e
claridade esta verdade é expressa na Familiaris Consortio: “À linguagem
nativa que exprime a recíproca doação total dos conjuges, a contracepção impõe
uma linguagem objetivamente contraditória, a do não doar-se ao outro: deriva
daqui somente a recusa positiva de não abertura à vida, mas também uma
falsificação da verdade interior do amor conjugal, chamada a doar-se na
totalidade pessoal” (F.C., 32) (Texto integralmente recorrido pelo C.E.C.,
n. 2370).

Uma análise penetrante entre
a união dos esposos e a procriação dos filhos, vem apresentada no livro de S.E.
Mons. Francisco Gil Hellín, O matrimônio e a vida conjugal. Diz assim: “Os
significados essenciais do ato conjugal, que são de união e procriação, exprimem
respectivamente a essência e o fim do matrimônio. Se o amor que leva os esposos
à doação formando uma só carne, realiza-se “na verdade”, “em vez
de fechá-los em si mesmos, os abre a uma nova vida, a uma nova pessoa” (Grat.
sane, 8).

A vida conjugal comporta uma
lógica de doação sincera ao esposo ou esposa e aos filhos. “A lógica de
entrega total de um ao outro conduz a potencial abertura à procriação” (ibid.
12). A capacidade desta entrega, ou cresce e amadurece com o próprio exercício
durante toda a vida conjugal, ou fica inibida pelo egoísmo no qual as situações
possuem a tendência a diminuir o dinamismo da verdade que a doação própria
possui. Uma das principais manifestações deste egoísmo – “egoísmo, não só
a nível individual, como também de casal” (ibid., 14) – é o que vê a
procriação não como exigência da verdade do amor conjugal, mas como fruto
gratificante e escolha voluntariosa acrescentada ao amor. “No conceito da
entrega não está inscrita somente a livre iniciativa do sujeito, mas também a dimensão
do dever” (ibid.).

Um amor conjugal que não
abraça a dimensão pro-criativa própria da sua verdade íntima, acaba
assemelhando-se ao “assim chamado amor livre, muito mais perigoso, pois
apresentado freqüentemente como fruto de um sentimento verdadeiro, enquanto na
realidade destroi o amor” (ibid). Por isto, a recusa a abertura aos filhos
contribui hoje fortemente a minar e destruir a doação conjugal. Não trata-se,
como sempre aconteceu pela fragilidade humana, de atos ou de períodos nos quais
os cônjuges foram fracos para viver com coerência as exigências de suas
paternidade ou maternidade em circunstâncias difíceis ou especialmente
heróicas.

Hoje em dia, muitas uniões
conjugais provocam suas próprias destruições mudando as coordenadas da doação.
“No momento do ato conjugal, o homem e a mulher são chamados a confirmar
de maneira responsável o recíproco dom que fizeram de si mesmos com a aliança
matrimonial. Agora, a lógica da entrega total de um ao outro comporta a
potencial abertura à procriação” (Ibid. 12). Quando se regeita a
capacidade do esposo ou da esposa de ser pai ou mãe, aquele dom não respeita as
exigências do amor conjugal, e é por isto que o Papa afirma que é essencial a
uma verdadeira civilização do amor, “que o homem sinta a maternidade da
mulher, sua esposa, como um dom.27 (ibid., 16)” .

Na catequese sobre o amor
humano, João Paulo II fala da “linguagem dos corpos” que na união
conjugal significa não só o amor, mas também a potencial fecundação e portanto
não pode ser privado no seu pleno e adequado significado. Como não é certo
separar artificialmente o significado de união e procriação, (cf. H.V.,12),
“o ato conjugal privado da sua verdade interior, porque privado da sua
capacidade pro-criativa, deixa de ser também um ato de amor”.28

O filho introduz-se na
dimensão da espiritualidade do matrimônio que abre-se à vida. Precisaria aqui
seguir as pistas de uma reflexão que vai do amor trinitário ao amor conjugal. A
família que cresce à imagem da Trindade, o “nós” da família a imagem
do “nós” trinitário, inclui o filho que surge do amor total e
fecundo. Escreve Carlo Rocchetta: “Segundo a afirmação de I Jo. 4,16,
“Deus é amor” (agapé), a suprema plenitude do amor que doa e acolhe;
não um “eu” só, fechado em si mesmo, ma um “eu” que vive em
si mesmo uma existência de amor interpessoal, uma eterna geração que surge do
amor e conduz ao amor, da onde o intercâmbio de dom/acolhida entre as primeiras
duas Pessoas alcança a sua plenitude no seu encontro com a Terceira (.) O
vínculo sobrenatural entre os esposos é revestido deste valor trinitário. A
graça sacramental representa o dom da ontologia trinitária desdobrada no
coração dos esposos como semelhança dinâmica que estrutura em profundidade a
vida dos esposos e os faz sinais e participação na comunhão tri- pessoal de
Deus”.29

Precisa lembrar que o filho
ou os filhos, o “bem da prole”, são a razão de ser do matrimônio.
Como sabemos, para Doms o sentido do matrimônio e o amor de dois que encontram
sua mais profunda expressão, seria a mais íntima e preciosa realização no ato
conjugal, em si mesmo, feita abstração da ordenação ao filho. A realização da
unidade conjugal justificaria a instituição matrimonial. Numa posição
semelhante encontra-se Krempel.30

O Concílio lança uma forte
luz para mostrar o sentido pleno do matrimônio e contrasta estas e outras
posições similares: “O matrimônio e o amor conjugal estão ordenados pela
sua própria natureza (“índole sua”) à procriação e educação dos
filhos. Deste modo, os filhos são um dom preciosíssimo (“sunt praestantissimum
matrimonii donum”) e contribuem muitíssimo ao bem dos proprios . De
conseqência a autêntica pratica do amor conjugal e toda estrutura da vida
familiar que nasce sem deixar de lado os demais fins do matrimônio, tendem a
capacitar os esposos à cooperar valorosamente com o amor do Criador e Salvador,
que através deles aumenta e enriquece a sua família” (G.S. 50)31.

A Familiaris Consortio
afirma categoricamente que “a incumbência fundamental da família é o
serviço à vida, é realizar, através da história, a bênção originaria do
Criador, transmitindo a imagem divina pelas gerações de homem a homem” (F.C.,
28).

Na família, santuário da
vida, assinala a Encíclica Evangelium Vitae, “dentro do povo da vida e
para a vida”, é decisiva a responsabilidade da família, é uma
responsabilidade que brota de sua própria natureza”, e mais adiante
sublinha: “Por isto, o papel da família na edificação da cultura da vida é
determinante e insubstituível. Como Igreja doméstica, a família è chamada a
anunciar, celebrar e servir o Evangelho da Vida. É um trabalho que diz respeito
principalmente aos esposos, chamados a transmitir a vida, sendo cada vez mais
conscientes do significado da procriação como acontecimento privilegiado, no
qual manifesta-se que a vida humana é um dom recebido para ser dado” (E.V.,
92).

A família anuncia o
Evangelho da vida através da educação dos filhos (cf. E.V., 92), celebra o
Evangelho da vida com a oração quotidiana, celebração que exprime-se na
existência quotidiana e é ao serviço da vida que exprime-se através da
solidariedade (cf. E.V., 93). Tudo isto faz parte de uma integral pastoral
familiar: “Redescobrir e viver com alegria e com coragem a sua missão em
relação ao Evangelho da vida” (E.V., 94).

Não pode, realmente ser
separada a família do seu serviço essencial da vida, com tão clara raiz
conciliar (cf. G.S., 50, a),
e confirmada também no conjunto do magistério e na pastoral da família: “O
matrimônio e o amor conjugal estão ordenados- permito-me de repeti-lo- pela sua
própria natureza à procriação e educação dos filhos” (G.S., 50). A relação
da família com a vida é mais completa, direta e integral. Todos estão
convidados à proclamação e defesa da vida.. “É urgente uma mobilização
geral das consciências e um comum esforço ético, para por em prática uma grande
estratégia em favor da vida. Todos juntos devemos construir uma nova cultura da
vida” (E.V., 95). Porém são diversas as formas de aproximação ao objeto
formal. “Todos têm um papel importante a desempenhar. Refere-se o Papa à
missão dos professores e educadores, dos intelectuais, dos meios de
comunicação. Recorda, o Santo Padre, a criação da Academia Pontifícia para a
Vida, com suas peculiares funções” (cf. E.V., 98)32.

À esta perspectiva de
estreitíssima conexão entre a família e a vida, obedeceu, sem dúvida, a criação
do Pontifício Conselho para a Família, em 13 de maio de 1981idealizado pelo
Santo Padre João Paulo II, não só em relação à instituição familiar, mas como
na missão especial, como Secretariado da Santa Sede, indicada no artigo 141, 3
da Constituição Apostólica sobre a Cúria Romana Pastor Bonus. “Esforça-se
[o Pontifício Conselho para a Família], para que sejam reconhecidos e
defendidos os direitos da família, também na vida social e política; sustenta e
coordena as iniciativas para a tutela da vida humana desde a sua concepção e em
favor da procriação responsável”.

A Carta do Santo Padre às
Famílias, Gratissiman sane, dá uma sólida base doutrinal e pastoral à
integridade do serviço à vida, às famílias e a partir da família. Recordemos
alguns aspectos mais importantes. No número nove, dedicado a genealogia da
pessoa, escreve: “A genealogia de todo homem: a genealogia da pessoa esta
ligada a uma família A paternidade e a maternidade humanas fundem suas raízes
na biologia e ao mesmo tempo a superam”. Posiciona-se, pois, em referência
a Deus: “O próprio Deus é presente de um modo diferente, como acontece em
cada geração “sobre a terra” (ibid.).

O caráter de dom que é o
filho, mesmo se, de uma forma lacônica, é mencionado no texto bíblico:
“Adão conheceu sua mulher Eva, a qual concebeu e deu à luz a Caim, e
disse: Possuí um homem por (auxílio de) Deus”. (Gên. 4,1). É como uma
garantia, não obstante o filho concretamente concebido, que será assassino de
seu irmão. É uma exclamação alegre por um homem novo! No Novo Testamento, o
nascimento de um homem, que “veio ao mundo um homem” (Jo 16,21),
constitui um sinal Pascal, como lembra o Papa; Jesus, falando à seus discípulos
antes da sua paixão e morte, contrapõe a tristeza, que os atingirá e será
semelhante às dores do parto, à alegria no qual estes se transformam como
quando se dar à luz a um homem que vem ao mundo (felicidade e alegria diante da
vida que nasce, o que não acontece, na cultura da morte, na desconfiança sempre
maior que de tal cultura difunde no mundo de hoje, com sociedades doentes, se
corre o risco de experimentar sempre de menos). A alegria que na espera e
acolhida do novo filho deve encher as casas, transforma-se num processo
melancólico, às vezes indesejável, como se o canto dos anjos e dos pastores em
Belém não tivesse seu eco em cada casa, com toda humana “pobreza”,
como feridas produzidas na humanidade, que tal atitude comporta e contrasta com
àquelas de quem quer um filho a todo preço! Contraste que todavia não deve
fazer com que o dom do filho seja interpretado como um “direito” que
pode ser invocado inclusive recorrendo à atos contraditórios à moral, porque
não expressam a verdadeira a doação, no ato conjugal pessoal.

Normalmente o filho
concebido, o seu nascimento mais que parecer um compromisso que pesa, não
obstante a responsabilidade e sacrifício que comporta, é da parte do novo ser,
um convite à festa. Existe alegria pascal! É o verdadeiro significado da
expressão de São Irineu: “Gloria Dei vivens homo”. Esta atmosfera em
nada reduz a força do compromisso que o dom do filho encarna, como uma grande,
dignificante, inevitável responsabilidade.(cf. Grat. sane,12).

No cumprimento alegre desta
responsabilidade, da capacidade de responder, em primeiro lugar a Deus, se joga
a própria coerência e portanto sua felicidade. No sacramento da reconciliação o
exercício ministerial da Igreja que absorve e perdoa os homens de seus pecados
é coerente à sua missão profética de anunciar a verdade. Quando o Evangelho é
proclamado e vem acolhido no coração, frutifica na dor saudável que prepara
para receber o perdão. Só uma comiseração que não nasce do amor cristão, pode
induzir a dissimular a verdade, que talvez fere, porém é uma ferida saudável
que salva, e a amenizar as exigências morais decorrente da revelação.

Tal atitude certamente não
excluirá os fiéis do sofrimento diante das próprias obras desordenadas, porém
muito menos conduzirá à alegria do perdão com que Deus os acolhe como filhos
que retornam à casa paterna. Estas são as características que guiaram a redação
do Manual para os Confessores, preparado pelo Pontifício Conselho para a
Família. Neste se apresenta seja a atitude, com a qual os ministros devem
sempre acolher e exercer este sacramento, cheia de compreensão e misericórdia,
seja a claridade, verdade e competência doutrinal com que devem formar e
instruir a quem pode encontrar-se desorientados no pecado.

São difundidos um prejuízo e
um erro: aqueles de querer opor a verdade e a misericórdia. Uma
“misericórdia” sem verdade seria uma caricatura do que o Senhor
confia como missão à Igreja. A Igreja não pode em nome de uma
“compreensão” (mal entendida), por assim dizer, “fechar um
olho”, passar sem ver, sem denunciar, precisamente como exigência de uma
verdadeira reconciliação, para tornar a encontrar o Senhor na verdade e no
perdão.

O filho é um o dom para a
família; que concentra a sua atenção nele e segue de coração todo o processo,
desde a concepção, o nascimento, a educação, com ternura e sentido de
reconhecimento, com capacidade de maravilhar-se, de surpreender-se, de
descobrir nos diversos momentos o afirmar-se de um novo ser. Tudo isto exige
uma pedagogia para que a rotina não devore o que torna harmonioso e
gratificante a missão dos esposos e “a carga” não tire a intensidade legítima
da plenitude, da alegria. Um conhecido moralista põe nos lábios da criança
estas palavras que com prazer transcrevo: “Não temer de acolher-me, de
assegurar-me a minha vida como um dever! Este não será para nós um trabalho
pesado, mas contrariamente, será um trabalho tão leve até conseguir aliviar a
vossa vida oprimida. Eu não sou um patrão despótico (.). Serei capaz de um tal
reconhecimento, que me transformarei, para vocês, em uma recompensa maior que
vossa fadigas”.33

É o Senhor quem nos ensina com
a palavra e com os gestos: “Tomou um menino, pô-lo no meio deles, e,
depois de o abraçar, disse-lhes: Todo o que receber um destes meninos em meu
nome, a mim me recebe, e todo aquele que me receber, não recebe a mim, mas
aquele que me enviou” (Mc 9, 36-37). O sinal de acolhida já leva a
mensagem do dom oferecido e na acolhida manda ao Doador de todo bem. Os filhos
são uma bênção, uma mensagem transmitida na espontânea ternura que caracteriza
especialmente o lar, e antes que sejam vistos como uma carga, são portadores da
“Boa Nova” que neles proclama-se e resplende. Diríamos que o
Evangelho da família e o Evangelho da Vida que ressoam na Igreja Doméstica,
Santuário da vida, são o local da onde o próprio filho proclama a sua
dignidade. “Deus Criador o chama a existência “para si mesmo”, e
ao vir ao mundo começa, na família, a sua “grande aventura”, a
aventura da vida. “Este homem”, tem o direito a sua própria afirmação
pela sua dignidade humana. É precisamente esta dignidade que determina o lugar
da pessoa entre os homens, e antes de tudo, na família” (Grat.sane, 11).

Este “antes de tudo, na
família”, que simplesmente nos adverte da inseparabilidade entre a família
e a vida, traz a verdadeira alegria que palpita em cada vida nova com original
totalidade.

“O Evangelho do amor de
Deus pelo homem, o Evangelho da dignidade da pessoa, e o Evangelho da vida são
um único e indivisível Evangelho” (E.V. 2). Na família este Evangelho
vive-se como uma aventura que surpreende e provoca a capacidade de
maravilhar-se, conservando, como Maria, tudo no seu coração. O mistério de
Belém e Nazaré é portador de uma verdade antropológica, da vida como um dom, na
dignidade que o amor de Deus assume e alimenta: “O filho de Deus, com a
sua encarnação, uniu-se de certa forma a cada homem”.(G.S.22).

Bem pode expressar Hans Urs
Von Balthasar: “(.) Em todas as culturas não cristãs a criança tem uma
importância somente marginal, porque é simplesmente um estado que precede o
homem adulto. Necessita-se da encarnação de Cristo para que possamos ver não
somente a importância antropológica, mas também aquela teológica e eterna do
nascer, a bem-aventurança definitiva do ser a partir de um sinal que gera e dá
à luz”.34

Existem alguns que preferem
apresentar a hipótese que “o sentimento da infância” surgiu apenas na
metade do século XVI (É a posição de Philippe Ariés). Campanini comenta:
“exista ou não a confirmação da hipótese dada por Ariés (.), não existe
dúvida que, no Ocidente, por um grande período a criança esteve na periferia, e
uma mais breve, porém igualmente rica e significativa fase (que abraça
aproximadamente os três últimos séculos da história do Ocidente), na qual a
criança foi colocada ao centro da família e, de alguma maneira, de toda a vida
social. Este foi o tempo da “puericultura”, que talvez está
consumando-se aos nossos olhos pelo efeito de um desenvolvimento tecnológico
sempre mais avançado dentro do qual parece não existir lugar para a
criança”.35 O autor, profundo sociólogo da universidade de Parma, na
peculiar claridade e síntese de suas observações, manifesta a preocupação que a
técnica estrague as relações pessoais e que conte mais a tecla que se chama
“Sociedade digital” do que na aproximação as pessoas à uma criança.

Na educação estima-se mais a
inteligência, (eu diria, um tipo de inteligência), do que a inteira
personalidade: O encontro com o “botão”, (a tecla do computador ou
dos jogos eletrônicos) toma o lugar do encontro com as pessoas. O fenômeno que
Campanini caracteriza como “perda do centro”, leva à perda dos pontos
de referência relativos aos valores fundamentais, sobretudo éticos e
religiosos, enquanto surge outro quadro de “valores” O computador
pode ser um campo aberto à fantasia, à uma fantasia programada e
pre-codificada”, porém a criança está no meio de um mundo onde “seu
mundo vital” reduz-se. Verifica-se a destruição das estruturas
fundamentais de mediações. A principal delas, é a família, no seio da qual em
passado se adquiria a maior parte dos conhecimentos. A própria escola abre mais
e mais espaço à “informação” fornecida pela máquina. Poderá a família
e a escola deixarem de ser os núcleos de proteção?36 Sobre o tema das mediações
sociais e família retornaremos mais adiante, já em referência ao conjunto
social, as preocupações de Pier Paolo Donati.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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