A evolução na Biologia

EVOLUO1Evolução: chave da Ciência moderna – Parte 3

No terceiro artigo da série sobre evolução, tratarei da evolução na Biologia. O conceito de evolução não começou na Biologia. Como escrevi nos artigos passados, a ciência já utilizava a evolução em áreas bem diferentes, como a química. Entretanto, foi na Biologia onde, sem dúvida alguma, a evolução ganhou mais força, popularidade e controvérsias.

O inglês Charles Darwin (1809 – 1882) é a figura mais conhecida quando se fala sobre a Teoria da Evolução das Espécies. De fato, ele merece muito crédito, pois explicou minuciosamente a teoria em 1859 no seu livro “Sobre a origem das Espécies”. Darwin, entretanto, não criou a Teoria toda. Ele se apoiou firmemente em trabalhos anteriores, de anatomistas, geólogos, paleontologistas, taxonomistas, etc. Vários biólogos contemporâneos de Darwin vinham chegando às mesmas conclusões que ele. Nesse sentido, não posso deixar de citar Alfred Russel Wallace, que publicou um artigo sobre o tema em 1855 e fez Darwin correr para terminar seu livro e não perder o crédito da Teoria.

Essa breve contextualização história do surgimento da Teoria da Evolução das Espécies é importante para situar o leitor no âmbito do desenvolvimento das teorias científicas. Muitas pessoas pensam que os grandes cientistas têm ideias geniais séculos à frente de seu tempo e que normalmente não são compreendidos nem por seus pares. Essa concepção errada do cientista e do seu trabalho leva a dois enganos: (i) as teorias “caem” do céu e (ii) as teorias têm donos.

Todas as grandes teorias científicas foram desenvolvidas mais num clima de corrida científica do que de tranquilidade serena de um laboratório. As concepções erradas sobre o trabalho do cientista levam as pessoas a julgarem que podem rechaçar facilmente uma teoria olhando para umas poucas evidências e atacando o proponente da teoria. Digo isso porque no caso da Teoria da Evolução das Espécies, já vi muitos ataques à Teoria que não passavam de críticas superficiais a um ou outro aspecto. E também não é raro encontrar pessoas que citam dados da vida pessoal de Darwin como motivos de crítica à Teoria.

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A Teoria da Evolução das Espécies está construída sobre rocha firme, sólida. Foram milhares de cientistas que a construíram. O trabalho começou séculos antes de Darwin e se estenderá muito além de nós. Vários elementos tornam a Teoria sólida. Não tenho espaço para descrever a teoria em minúcias, mas gostaria de dar uma visão superficial e passar alguns dos elementos que fazem esta ser uma das teorias de maior sucesso na história da ciência.

Penso que podemos citar três ideias centrais na Teoria: (i) a Terra é muito antiga; (ii) ocorrem mudanças randômicas (grandes ou pequenas) entre gerações sucessivas; (iii) o meio ambiente faz que indivíduos mais aptos tenham maior chance de sobrevivência e, portanto, de passar suas novas características para seus descendentes.

Veja, não falo do começo da vida. De fato, o início da vida é um outro problema. Hoje temos muitas evidências de fósseis e genéticas indicando que todos os seres vivos da Terra têm um ancestral comum por volta de 3.5 a 3.8 bilhões de anos. Neste período, surgiram e se extinguiram muitas espécies. Estima-se que cerca de 99% das espécies que já existiram estão extintas! O restante que ainda vive soma cerca de 10 a 14 bilhões de espécies.

Das muitas críticas que a Teoria da Evolução das Espécies recebe, a mais comum é dizer que há provas da microevolução (variações dentro de uma mesma população) mas que não há provas da macroevolução (surgimento de novas espécies). Não sei bem como essa crítica ganhou popularidade, mas é uma das mais injustas.

Em primeiro lugar, vários biólogos não gostam de fazer a distinção entre microevolução e macroevolução. Simplesmente porque em muitos casos não é possível classificar uma mudança específica entre uma e outra opção. É mais correto afirmar que a evolução acontece num tempo grande, começando com pequenas mudanças (microevolução) que podem levar a mudanças tão grandes que geram uma nova espécie (macroevolução).

Em segundo lugar, há sim provas da macroevolução, e são muitas! Estão errados aqueles que julgam que uma teoria científica só pode ser comprovada ou negada com experimentos reprodutíveis em laboratório. Muito pelo contrário. Aspectos de coerência, elegância, capacidade de fazer previsões, etc., também são levados em conta.

Em particular, questiona-se muito sobre a ausência de fósseis de transição, que são fósseis entre uma espécie e espécies que se julga descendentes dela. Falarei mais sobre eles no artigo sobre a evolução do homem. Sabemos que faltam muitos fósseis de transição, mas ainda há muito o que procurar. Dia a dia se descobrem novos fósseis. A cada ano temos mais compreensão da ligação complexa entre espécies diferentes. Estas provas não provém somente dos fósseis de transição. Eles são somente uma parte das provas. Estamos só no início da tarefa gigantesca de montar um imenso quebra-cabeça da história das espécies. E pior: algumas peças foram perdidas! Nem todas as espécies deixaram fósseis. A formação de um fóssil exige condições geológicas, climáticas e anatômicas precisas. Seres com muitas partes moles no corpo têm menos chance de deixar um fóssil.

Por fim, se não houvesse a macroevolução, como explicar a imensa quantidade de espécies extintas e a ausência absoluta de registros fósseis de espécies modernas em tempos antigos? Alguns dizem que nós não sabemos medir a idade dos fósseis. Falta de conhecimento de Física, porque sabemos sim.

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Mas eu não quero escrever um artigo defendendo a Teoria da Evolução das Espécies de críticas. Nem há espaço suficiente para isso. Eu quero, sim, é passar a ideia e o sentimento da grandeza desta Teoria. Ela vem sendo trabalhada há muito tempo e tem um grande poder de explicação e previsão. Não há qualquer outra teoria capaz de explicar a diversidade biológica do nosso planeta, os fósseis e a sofisticação dos seres vivos. Também o comportamento dos seres pode ser explicado em boa medida pela evolução.

Ainda hoje se levantam críticas religiosas à evolução das espécies. Entretanto, não vejo razão verdadeira para isso. Assumindo que já são poucas as pessoas que fazem uma leitura literal do Gênesis, a crítica mais sólida que se pode fazer é dizer que a Teoria da Evolução das Espécies tira Deus do papel de Criador porque ela assume que a evolução é aleatória.

Na verdade, a Teoria não assume que a evolução é aleatória, é justamente o contrário. As mudanças genéticas e outros fatores que influenciam na evolução são aleatórios, mas a evolução como um todo segue uma direção: a sobrevivência do mais apto. Veja que o mais apto não precisa ser o mais complexo, pode ser um ser simples mais resistente. Assim, ainda há direção na evolução. Não vejo empecilho algum em uma pessoa religiosa julgar (eu julgo assim) que Deus é imensamente sábio e soube criar leis para dirigirem sua criação a um fim específico. Ele poderia ter simplesmente criado tudo de uma só vez, mas quis fazer de modo mais inteligente, bonito e admirável!

Alexandre Zabot
Físico e doutor em Astrofísica – Professor da UFSC
www.alexandrezabot.blogspot.com.br

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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